Vulnerável 10
- Riesa Editora

- há 3 dias
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Argan, Mel e Quinoa
Oito anos atrás, 2015.
Fazia seis meses que Bruna havia dado um dos maiores passos de sua vida: fez uma mochila, pegou sua maleta de maquiagem, arrastou Dara quase à força para vir junto e, pronto, mudou-se para São Paulo.
Bruna já maquiava no Rio de Janeiro desde os dezesseis anos, quando se tornou legalmente capaz de ser contratada. Mas, antes disso, desde os doze anos, já maquiava com sua mãe, que tinha um pequeno salão de beleza na comunidade onde moravam.
Aos quatorze, tornou-se legalmente aprendiz; aos dezesseis, começou a ter seus próprios contratos e, aos dezenove recém-completados, sofreu seu maior golpe: perdeu sua mãe tragicamente, em um “incidente” envolvendo polícia e traficantes perto de onde moravam.
Naquele dia, tudo mudou. Aquele lugar parou de fazer sentido por completo. Voltar pra casa se tornou um tormento, passar pelos lugares por onde sua mãe passava, atender as clientes que ela atendia. Sabia o quanto ela havia lutado para montar aquele salão, mas não dava mais conta de ficar.
Então, vendeu a casinha que dividiam, entregou o ponto do salão, aproveitou os equipamentos que pôde, vendeu os outros. E tudo o que sua mãe lutou a vida toda para comprar rendeu 20 mil reais.
— Dara, você não pode me deixar sozinha em São Paulo! Foi você que arrumou esse trabalho pra gente.
— Um trabalho, Bruna, um só, mulher, e você já quer mudar pra lá. E outra, nem é um trabalho remunerado.
— Você mesma disse que primeiro a gente dá de graça, para depois poder cobrar.
— Isso eu disse mesmo.
Estavam na laje da casa de Dara, onde tinham vista para a orla de Copacabana.
— Então? Você arruma o trabalho e quer escapar depois.
— É que você quer escapar daqui! E eu não tenho certeza se... — Dara pensou um pouco mais. Olhou para sua amiga — Quer saber? Cada um que segure os seus B.O.s. O paizinho lá de cima sabe muito bem que eu não tenho nenhum B.O. além de você. Há de ter um motivo para tudo isso.
E Bruna respondeu, agarrando-a muito, enchendo-a de beijos.
— Não acredito que você vai mesmo comigo!
— Claro que vou! Eu lá ia te deixar sozinha em uma favela que não é a nossa? Vamos pra São Paulo. Eu só fico chateada que lá não vai ter uma vista de alto nível como essa aqui, mas vamos trabalhar para ter outra vista em breve!
Naquela mesma noite, Bruna se despediu da família que lhe restava. Eram uma família pequena: sua avó tivera apenas duas filhas, sua mãe e a tia, que tinha dois filhos. Contou para sua avó que estava indo pra São Paulo, para trabalhar e crescer. Ela sorriu e disse que não via a hora de ver a neta estampada nas vitrines por aí.
— Mas, vó, eu sou só maquiadora, não vai ter a minha cara estampada por aí, não.
Ela a olhou nos olhos com muita certeza:
— Vai ter, sim, minha filha. Eu ainda vou te ver ali, olha — Apontou para a TV, onde estava passando sua novela preferida.
Assim, estavam indo para São Paulo no primeiro ônibus do dia seguinte.
Bruna havia conseguido um bom Airbnb para elas, alugou por um mês e disse que tinham trinta dias para fazer dar muito certo. A regra entre elas era simples: tinham que conhecer ao menos três pessoas por trabalho que faziam, trocar contatos, estreitar relações. Eram relativamente boas nisso.
E, após alguns trabalhos gratuitos, os pagos começaram a aparecer.
Trabalharam como loucas aquele mês inteiro e, ao final dele, haviam conseguido um apartamento minúsculo para dividirem. Era em Itaquera, na Zona Leste, mas suficiente, seguro. Mesmo naquele espaço minúsculo, Bruna conseguiu dividir, transformar um pedaço em escritório, onde gravava seus vídeos, os editava em um notebook que vivia apagando do nada. Gravava com celular mesmo, até que, um belo dia, Dara chegou com uma câmera semiprofissional.
— Dara, onde que...?
— Não pergunte onde nem como! Tudo bem?
Bruna concordou sorrindo. E Dara prosseguiu.
— Perfeito! Aqui está a melhor câmera que já tivemos. E, nela, você vai gravar mais do que maquiagem. Vai se gravar falando, opinando, desabafando sobre o dia a dia.
— Mas você acha, amiga? Que pode dar certo?
— A gente ama te ouvir falar, Bru. Nas nossas rodas de conversa, todo mundo adora te ouvir, essas opiniões loucas e fortes que você tem — Dara afirmou, sorrindo.
— Você não acha que vai soar...?
— Bem Indecente? Acho, sim. Não é o nome do seu canal?
Era. O canal que havia começado ainda aos quatorze anos.
— Então, foque em você, no seu melhor, que a monetização virá em breve! Agora, antes da nova fase, do novo cenário... Aliás, você viu a luz que comprei?
— Vi e amei, já tirei fotos, fiz teste de vídeo. E não devo perguntar...?
— Quanto nem como, não deve. A gente promete que, no primeiro salário decente, faremos uma caridade grande, qualquer uma, para pedir perdão pelos produtos de procedência duvidosa. Juro, prometo!
Bruna já estava morrendo de rir.
— A gente vai fazer, com toda certeza!
— Então, voltando o foco para a monetização chegar, tenho uma ideia para estrear a luz e a câmera. Vamos mudar?
— Mudar? Quer dizer que você quer que eu mude, né? É sempre isso quando você vem com essa frase — Bruna se animou inteira, porque amava mudar — O que você está a fim de fazer?
Dara abriu um sorriso.
— Te platinar.
— Mentira que essa hora chegou?!
— Chegou! Vamos platinar e deixar essa sobrancelha natural. O que você acha?
— Vai dar um corte no platinado e deixar marcante. Posso redesenhar aqui, deixar a sobrancelha menos angulada.
Antes da meia-noite, Bruna já estava platinada e de corte novo.
Fizeram a transformação e, como era de costume, viraram a madrugada gravando e editando. Bruna sabia que ia ficar incrível, mas ver o resultado a deixou ainda mais animada do que já estava. O loiro garantiria um visual dificilmente esquecido, a angulação das sobrancelhas também. Os olhos deram uma clareada e o visual ficou...
Dara ficou extremamente orgulhosa do que haviam feito.
— Você é a nossa tela, entendeu?
— Somos a nossa tela, Dara. Somos nós duas, não quero que deixe o seu perfil de lado.
— Não vou deixar, mas quem está prestes a decolar aqui é você, então... — Abraçou sua melhor amiga — Todos os meus esforços agora são por você. E você ficou linda demais, caramba! Esse um milhão vem, a monetização também, você vai ver.
Dara estava muito certa.
A monetização veio ainda naquela semana, que passou cheia de trabalhos, uma correria só. E sequer esperaram o salário decente vir: começaram trabalhos sociais naquele final de semana mesmo. Não tinham dinheiro, mas tinham tempo.
Bruna tirou algumas horas para dar aulas de maquiagem para meninas em Itaquera. Dara fez o mesmo, mas ensinando sobre tranças, e isso, sem querer, gerou conteúdo, engajamento. Dois meses depois, Bruna estava dando aulas de maquiagem pela manhã em uma renomada escola de beleza.
Era a primeira vez na vida que estava conseguindo se manter apenas com maquiagem. E o quinto mês daquela loucura toda foi coroado com o convite para maquiar em um editorial.
Bruna fez o editorial e, quando percebeu, outros convites não paravam de chegar. Começou a trabalhar com uma stylist muito influente chamada Marcela Richter, e ela foi conduzindo Bruna para um mundo completamente novo: o das revistas, dos ensaios para grandes marcas.
— Você é muito boa, não preciso ficar te dizendo isso — Marcela disse durante um trabalho supercorrido que haviam conseguido terminar a tempo — Bruna, você está voando no YouTube, tem o look certo, a personalidade certa e seu talento para maquiagem é nato. E o melhor de tudo isso: você não reclama! Meu Deus, se eu te chamar para trabalhar às três da madrugada...
— Estarei lá às cinco, porque ainda moro em Itaquera e vou pegar transporte, mas chego lá! — Respondeu, fazendo Marcela rir.
No mês seguinte, Bruna estava terminando de editar um vídeo às quatro da manhã quando Marcela ligou:
— Ainda rola aquela história de eu te chamar de madrugada e você estar lá?
— Pode mandar aí. Do que você precisa?
A maquiadora que Marcela havia chamado para um ensaio importante não iria mais, desmarcou em cima da hora, e é claro que Bruna podia estar lá, na Avenida Paulista, no estúdio X, às nove da manhã.
Dormiu apenas duas horas e foi suficiente. Despertou, se arrumou: calça jeans, camiseta, jaqueta, all denim e tudo oversized. Boné sobre os cabelos platinados, maquiagem básica, botas, extremamente estilosa. Pegou sua mochila, sua maleta de maquiagem, deixou um beijo em Dara e partiu para pegar um ônibus, dois metrôs e andar mais vinte minutos até o estúdio. Pegou um café pelo caminho e, quando chegou, notou que estava com folga.
— Bruna, o fotógrafo atrasou, vai levar mais uma hora para chegar. Mas uma das meninas já chegou, se você quiser ir adiantando com ela — Marcela informou.
— Tudo bem! Eu a conheço?
— Provavelmente não, é o primeiro ensaio dela. Mas talvez você a conheça da internet, do Instagram. Ela se chama Gabriela Habren.
Não conhecia, mas Bruna gostou do nome. Então passou pelo buffet, comeu mais alguma coisa e, quando chegou ao camarim, não havia ninguém.
As roupas do styling do dia já estavam fora das malas, devidamente penduradas. Bruna deu uma olhada nas joias, lindíssimas. Olhou também no board de Marcela, checando a paleta de cores, o estilo que pretendia reproduzir no ensaio.
E então, ouviu um soluço.
Tinha alguém chorando no banheiro.
Deixou suas coisas e, imediatamente, se aproximou da porta.
— Oi, tudo bem? — Bateu com delicadeza — Meu nome é Bruna... Você precisa de alguma ajuda? — Não obteve resposta, mas o choro ficou mais alto.
Bruna entrou e encontrou uma moça linda, de vestido curtinho e um moletom branco por cima, abraçando os próprios joelhos e chorando de soluçar. E seu corpo parecia estar chorando junto. Os músculos pareciam estar se movendo sozinhos, Bruna não conseguia explicar, e as mãos...
Ela parecia estar prendendo as mãos para evitar machucar a si mesma. A respiração disparada, descompassada, e a panturrilha... pulsava. Como se estivesse com cãibra ou algo do tipo.
Ela estava vulnerável, nas mãos erráticas do seu próprio corpo.
E ia se machucar.
— Não, não, não! — Bruna chegou até ela rapidamente e a segurou pelos punhos — Não, de jeito nenhum.
— Eu não... não controlo, eu não consigo, eu...
— Vamos controlar juntas. Você deve ser a Gabriela, certo? — Bruna se sentou sobre as coxas dela e a puxou contra o seu peito, mantendo os punhos daquela garota presos entre seus corpos, num abraço firme e apertado — Gabriela, você consegue sentir os meus batimentos? — Ela afirmou, mexendo a cabeça — Vamos tentar alinhar os meus aos seus, tudo bem?
— Alinhar?
— Deixar bater igual. Isso vai passar logo. Estou aqui com você.
E Gabriela não saberia dizer quanto tempo esteve ali, com aquela desconhecida no seu colo, segurando suas mãos, contando respirações, até que enfim seus batimentos entraram no mesmo ritmo e o pânico começou a passar. Sua mente foi desacelerando e seus músculos soltaram, um a um.
Pela primeira vez, notou um relaxamento. Sentiu suas coxas perdendo pressão sob as coxas dela, suas panturrilhas soltando, a mandíbula destravando, seus dedos voltando a obedecer. Notou que tinha músculos nas costas, que se contraíam também.
Na verdade, não havia notado tudo isso: a moça notou. E, cada vez que alguma coisa se ajustava, chamava sua atenção para isso.
— O que... o que você usa no cabelo? — Foi a primeira pergunta que fez, já com a mente voltando para si.
Bruna abriu seu sorriso pela primeira vez. E era um sorriso... lindo, amplo, iluminado. E Gabriela nem sabia explicar muito bem. Só sabia que ela tinha se afastado um pouquinho para sorrir bem diante dos seus olhos. E havia sido lindo. Como um abrir de janela depois que a chuva passava.
— É argan, mel e quinoa. Uma pomadinha que faço porque este loiro aqui desidrata que é uma beleza.
Gabriela abriu um sorriso também. Menor, meio descompassado, mas abriu.
— Você mesma que faz?
— Foi a única coisa que me ajudou. Acha que já posso sair do seu colo? Não que esteja ruim pra mim — Disse, fazendo graça e tirando outro sorriso daquela moça que era bonita pra caramba. Que olhos! Bruna havia visto aqueles olhos verdes assim que entrou no banheiro, mas, de perto, eram outra coisa.
— Você pode sair, acho que... as contrações já se foram. Eu não sabia que elas existiam. Só sentia a dor depois.
— Elas existem, eu vi, parece que estão vivas — Bruna se levantou e a ajudou a se levantar também — Bem, temos mais uma hora e meia. O ensaio está atrasado.
— Meu Deus! Esse ensaio...
— Calma, calma, ok? Por que você não lava esse rosto lindo? Tem um café muito legal lá fora. A gente come alguma coisa, conversa, se apresenta...?
— Feito gente normal e tudo. Sem pegar a pessoa tendo uma crise esquisita.
— Não tem nada de crise esquisita, a gente só começou de um jeito... diferente — Bruna deixou escapar um sorriso — Sou Bruna Ribeiro, a sua maquiadora de hoje. Sei que este é o seu primeiro trabalho. Isso teve a ver com a crise?
Gabriela afirmou.
— Não tem problema. Vamos conversar um pouco e você vai se sentir melhor.
Gabriela acreditou nela. Depois, quando pensasse nesse encontro, se daria conta de que o motivo de ter acreditado era que tudo havia melhorado desde o momento em que Bruna entrou naquele banheiro. Então, lavou o rosto, que estava inchado demais pela crise e, delicadamente, Bruna ofereceu o seu boné para que Gabriela saísse do banheiro.
— Como vou fotografar assim?
— Disso, você deixa que eu cuido, Habren. É assim que se fala seu sobrenome mesmo?
— Da mesma forma que se escreve, isso. Eu nem me apresentei, apesar de você saber o meu nome. Sou Gabriela, Gabriela Habren.
Bruna abriu aquele sorrisão, olhando para ela.
— É nome de modelo — Foi mostrando a ela onde estava a mesa de café.
— Você acha?
— Ou de arquiteta — Bruna disse, e a ouviu rir. Havia conseguido arrancar uma risada daquela moça linda — Mas o que foi?
— É que faço arquitetura.
— Tá vendo? Tive um feeling!
Pegaram pão de queijo, uns pasteizinhos e café, porque estava frio, e foram para um cantinho da sala, onde se sentaram perto de uma grande janela de vidro que tinha vista para a Avenida Paulista. Estavam no décimo andar.
— Então você nunca fotografou na vida? — Bruna puxou assunto.
— Nunca. E queria esclarecer que... — Gabriela respirou fundo; ainda estava com o coração meio disparado — Eu já tive outras crises de ansiedade, mas nenhuma tão forte quanto essa. Não sei como deve ter sido pra você ver algo assim, mas...
— Gabriela — Bruna tocou a mão dela —, você não tem que me explicar nada, de verdade. Vi o seu corpo. Já tinha visto uma crise de ansiedade antes, mas nunca uma que afetasse o corpo daquela forma. Deve doer.
Gabriela abriu outro sorriso, pequeno, sincero, agradecido.
— Dói. Fico bem dolorida depois.
— É mental, mas é físico também. E eu entendo, você está nervosa. Eu mesma fiquei assim no meu primeiro trabalho grande. Espera, vamos do começo: você é estudante de arquitetura, tem algum conhecimento com moda? Você sabe para quem vai fotografar?
Gabriela negou.
— Bem, a marca se chama Brennheisen, é de uma designer paulistana, a Beatriz Brennheisen. Ela trabalha com pedras brasileiras, gosta de assinar designs estruturais e trabalha com upcycling.
— Upcycling?
— É o reaproveitamento de materiais. A moda do futuro é circular, é possível reusar, reaproveitar, reinventar — Bruna explicou, sorrindo — A Beatriz gosta de imprimir adrenalina durante as criações das peças dela, você vai entender quando colocar as joias. Imagino que, sendo assim, a Marcela está pensando em um acting com bastante movimento. Ensaio de rosto é sempre um pouquinho mais complexo, exige mais direção mesmo. Você vai fotografar brincos, braceletes e anéis.
— Como você já sabe de tudo isso...?
Bruna abriu outro sorriso.
— Está na entrada do camarim, se chama setlist. Nele, você encontra todas as informações do ensaio. Tudo bem, você quer ajuda com mais alguma coisa?
Queria. Ajuda para coisas que nem sabia nomear.
Bruna explicou algumas coisas.
— A gente tem vinte minutos, posso te ajudar com seu acting ainda, se você estiver muito insegura.
— O meu acting?
— A maneira como você se comporta diante de uma câmera — Outro sorriso, e já foi pegando a sua câmera, que estava na mochila — Vamos lá, sem maquiagem mesmo, tira o boné. Vamos ver os seus ângulos rapidinho.
Fez dez fotos, entendeu os ângulos de Gabriela e, nos dez minutos seguintes, trabalharam em seu acting, em sua movimentação, no que funcionaria para as joias. Bruna passou algumas poses clássicas e mostrou como valorizar cada peça.
— Você sabe por que está aqui? Não é só por ser bonita, é pelos seus olhos. Essa coleção é toda dourada, vai destacar ainda mais a cor deles. Então, acertando o olhar, você ganha esse ensaio muito tranquilamente.
— E como faço isso?
— Olha para a câmera como se quisesse seduzi-la. A câmera precisa estar interessada em você. Quem passar e ver um anúncio com o seu rosto tem que ser atraído. É você chamando atenção para o anúncio, pegando o cliente primeiro. Então treina esse olhar e mantém a postura, coisa que você já tem naturalmente. Quanto você tem de altura?
— Tenho 1,76.
— Tem os dez centímetros a mais que eu mataria para ter — Outro sorriso fácil de Bruna — Olha pra mim, me seduz aí por dois minutos.
Fizeram mais dois minutos de vídeo e fotos, e Bruna ficou... Ok, Gabriela havia entendido mesmo do que se tratava.
— Deu certo? Sairia comigo? — Gabriela perguntou, sorrindo, depois das fotos.
— Yes. Anytime you want — Sim. Quando você quiser. Bruna respondeu sorrindo, checando as fotos.
— Depois do ensaio?
Bruna a olhou surpresa. Era uma cantada? Porque parecia ser, mas ainda não tinha certeza.
— É sério?
— É o mínimo, Bruna. Se você quiser sair para jantar mais tarde, por minha conta, em agradecimento.
Bruna ficou quase sem jeito. Nunca havia sido convidada para sair por uma garota, mas... queria sair com aquela.
— Quero. A gente pode ir jantar, sim.
E, finalmente, o fotógrafo chegou.
Bruna ajustou seu mise en place, arrumando os produtos, os pincéis, elencando o moodboard de cada modelo. Começou por outra menina, mas havia deixado Gabriela relaxando em uma máscara facial para reduzir o inchaço. E, no intervalo entre maquiar uma e outra modelo, abriu seu Instagram e jogou Gabriela Habren no search.
Encontrou o perfil. Gabriela Habren, 18 anos, figura pública, 500 mil seguidores. Deu uma olhada no feed e viu fotos de livros, pequenos vlogs, um vídeo dela tocando violão e um namorado.
Até aí tudo bem, ficou surpresa mesmo foi na foto da Hillsong. Bruna conhecia aquela igreja, já tinha passado em frente algumas vezes. Mandou uma mensagem para Dara, dizendo que achava que tinha sido cantada por uma garota, mas achava também que ela era crente e, mentalmente, deu até para ouvir as gargalhadas de sua amiga. Ela estava em um trabalho em Pinheiros.
“Para de ter preconceito com quem vai à igreja. A gente devia ir e não vai. Não fique zoando quem vai. Vai sair com ela?”
“Vou!” Foi sua resposta rápida.
“Bissexual vibes. Será que vem aí, Bruna Ribeiro?”
Não fazia ideia, mas, depois do search, achou mesmo que sair para jantar era só isso e seguiu. Liberou a primeira modelo para o ensaio e foi até Gabriela.
Ela havia relaxado tanto que pegou no sono. Retirou a máscara devagar, e Gabriela acordou com algo tão bom, mas tão bom que nem sabia.
— Bruna...?
— É massagem facial, a máscara deu super certo — Bruna respondeu, sempre sorrindo.
A massagem foi uma das sensações mais gostosas que Gabriela já tinha sentido na vida. Bruna explicou que isso ajudava a relaxar os músculos do rosto e, durante aquele tempinho ali em que ficou sendo maquiada, de repente, Gabriela teve certeza de que conseguiria.
Faria aquele ensaio, daria certo. Especialmente porque agora tinham lhe dado coisas para estudar. Estudou o moodboard da produtora, depois o setlist, o roteiro de fotos, as peças que iria usar, todas lindíssimas, leu sobre a designer e só se olhou no espelho quando disseram que estava pronta.
E estava bonita como nunca tinha se visto antes.
Entrou no estúdio com o fake it until you make it na cabeça. Finja até conseguir, finja até ser. Não era exatamente o resumo de sua vida inteira até aquele momento? Podia não entender de moda, mas de fingir... isso entendia muito bem.
Usou todas as poses que havia ensaiado com Bruna, ouviu e interpretou todas as direções dadas e, no final daquelas duas horas de cliques, estava apenas se divertindo, se achando bonita, cheia de atitude. Terminou aplaudida e, pela reação de todo mundo, ficou óbvio que não esperavam que ela fosse tão bem. Adorou o gostinho de ter surpreendido, não tinha como negar. E, quando achou que tudo tinha terminado, foi sua vez de ser surpreendida:
— Bruna, prepara a maquiagem para a água?
— Para qual das garotas?
— Gabriela Habren. Amo quando uma new face surpreende!
Eles não haviam decidido quem faria o último shooting, mas Gabriela havia sido a que se saiu melhor, e a garota que voltou para a cadeira de maquiagem de Bruna Ribeiro já era outra. Ela estava empolgada, feliz, querendo fazer novamente, já com ideias para o acting.
E, naquela meia hora, criaram outro acting juntas. Desta vez, Bruna pôde acompanhar de perto. Tinham montado um aquário no rooftop do prédio; o sol estava indo embora, dando os tons dramáticos que o ensaio pedia, e Gabriela se saiu muito bem, principalmente com sua nova diretora.
— Bruna, vai, você está indo melhor do que eu nisso, dirige esse ensaio aí — Marcela lhe disse.
— Sério?
— Sério. Você já está dirigindo a modelo de qualquer maneira — respondeu, sorrindo — Vai lá, aproveita essa conexão.
Aquele dia marcou o primeiro ensaio de Gabriela Habren e a primeira vez de Bruna Ribeiro dirigindo. E foi muito bom assumir aquela posição, ajustando tudo, ouvindo o fotógrafo, entendendo melhor ainda a luz, o movimento, o que podia ser feito com aquela locação tão especial. E, perto das seis, estava feito. O fotógrafo olhou para a câmera e decretou:
— Temos mais do que precisamos!
Havia dado tudo certo. As fotos ficaram lindas, conforme a cliente havia pedido. A modelo foi liberada mais cedo, trocou de roupa e viu que Bruna ainda levaria um tempinho. Então se sentou quase invisível e ficou observando-a desmontar tudo com a produtora. Bruna recolheu toda a maquiagem, guardou os figurinos, sempre sorrindo, sempre tranquila. Os cabelos soltos, o look muito estiloso e um sorriso que...
Não se explicava. Pronto, Bruna terminou, e Gabriela a surpreendeu na saída.
— Pronta?
Bruna abriu mais daquele sorriso lindo. Gabriela tinha se trocado, agora estava de jeans, uma blusa branca, bonita, por dentro da calça, e uma jaqueta por cima, mais longa, o que a deixava extremamente elegante. Zero maquiagem e... linda.
— Achei que tinha ido embora sem mim.
— Nunca. Eu... fiz uma reserva pra gente.
Bruna apertou os lábios. Ela era o tipo de pessoa que fazia reservas. Quão diferentes elas podiam ser? Sentiu uma ansiedade enorme para descobrir.





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