Vulnerável 7
- Riesa Editora

- 12 de jun.
- 12 min de leitura

Olhos Castanhos
Mas, antes de domingo, havia a festa de sábado.
E não, nunca houve figurino ou decoração melhor. O nome da festa era “Preto e Branco” e estava cheia de figurinos de luxo, o que deixou cada participante no auge da própria beleza. E havia outro ritual que já fazia parte do elenco feminino: elas se arrumavam juntas e, em toda festa, Bruna acabava maquiando duas ou três.
Elas vinham fazendo uma carinha, pedindo algo especial, e Bruna simplesmente adorava.
Havia deixado de ser maquiadora profissional há quase um ano e precisava admitir que sentia falta. Maquiagem era a sua paixão, já tinha salvado sua vida mais de uma vez.
— Você se maquiou com ela muitas vezes, Monique? Fora daqui? — Camila perguntou, sentadinha, esperando sua vez com a maquiadora super requisitada.
Naquele momento, Bruna estava maquiando Mirela, uma profissional de futebol freestyle de dezenove anos, a mais novinha da casa.
— Umas cinco vezes. Daí ela chega aqui e finge que não me conhece — Monique falou, revoltada.
— Menina, não foi bem assim. É que a nossa interação antes havia sido estritamente profissional.
— Porque você quis, né? Na São Paulo Fashion Week, dei em cima dela tantas vezes que sou zoada até hoje por ter levado várias modalidades de foras — Essa parte arrancou risadas e chamou a atenção de Gabriela, que chegou discretamente mais perto.
— Eu te expliquei a situação — Bruna seguia rindo daquilo. Monique nunca iria esquecer?
— Toda resistente com uma namorada fantasma que ninguém sabia quem era. Mas é o que dizem, né? Antes levar fora de uma gostosa do que de um feio.
— Isso é muito verdade! — Bruna seguia sorrindo, havia terminado a pele de Mirela e olhou para ela pelo espelho novamente — Você parece a minha namorada.
— Tem até a mesma idade, acabou de sair da creche! — Era Lia, sempre venenosa e sempre sorrindo.
— Lia, para o seu governo, Giovana tem o mesmo tempo de carteira que eu.
— Como assim, gente? A Gio é um bebezinho! — Era Lia.
— Vinte e dois anos, mas começou a ficar com mulher com quatorze, eu só comecei aos vinte. Essa geração da Mi, da Nuna e da Gio começa os trabalhos cedíssimo. Capaz de a Gio ter mais tempo de carteira que você.
— Que nada, eu sempre fui piranha, Bruna, respeita a minha quilometragem — Lia respondeu, causando mais risadas.
Mirela ficou glamorosa com a maquiagem. Foi o que ouviu de todo mundo e ficou muito empolgada, se olhando no espelho o tempo todo. Era aquele tipo de reação que sempre fazia o dia de Bruna. Maquiou Camila em seguida, depois arrumou a maquiagem de Nuna, fez o olho de Eduarda. Pronto, agora estava com um tempinho para si mesma.
Colocou seu vestidinho preto, mini e superjusto, a maquiagem sempre impecável. Fez seu famoso delineado árabe e, quando estava terminando, Gabriela se aproximou mais. De cropped e saia longa, com uma fenda generosa, o abdômen liso, com aquelas linhas delicadamente marcadas. Parte dos cabelos presos num coque alto, um look dramático, refinado e de tirar o fôlego.
Como ela podia ficar bonita daquele jeito? Deveria ser proibido.
— Você pode fazer um delineado? — A carinha de pidona deveria ser proibida também.
Bruna olhou para ela. A tatuagem delicada no esterno, a outra na mão e aqueles olhos que... Mexeu nos cabelos, mudando seu foco.
— Faço, senta aqui.
Sentaram-se no chão, frente a frente, por cima dos joelhos para que nada aparecesse, perto o suficiente para que Bruna pudesse vê-la no detalhe que mais adorava nela: aqueles olhos verdes deslumbrantes. Começou a preparar a pele para receber a maquiagem e, assim que seus dedos tocaram o rosto de Gabriela...
Como podia ainda ter tanto toque de casa? Um lugar para o qual sempre se voltava. Bruna foi tomada por um relaxamento esquisito, a ponto de puxar qualquer assunto com ela.
— Você acha que mudei demais? Lá daquela primeira maquiagem que fiz em você?
Gabriela abriu um sorriso, vendo-a em detalhes também. Os olhos castanho-claros, o sorriso lindo, perfeito.
— Mudou um pouquinho, sim.
— Encontre os erros. O que você acha que mudei? Das coisas que você não sabe.
— De dois anos pra cá? Acho que... você mexeu aqui — Gabriela tocou o alto das bochechas dela, o osso abaixo dos olhos.
— Preenchi um pouquinho, para harmonizar melhor — Bruna estava misturando duas bases para chegar no tom certinho dela — O que mais?
— Mexeu aqui, porque você é doida — Gabriela desceu o dedo pelo nariz dela, fazendo Bruna sorrir ao começar a espalhar a base pelo seu rosto.
— Mas foi mais por saúde do que por estética, tá? Eu sempre respirei muito mal, fiz essa correção de septo.
— Eu lembro. Mudou aqui também, Bru — Tocou o abdômen dela, por cima do vestido.
— Mudei alguns hábitos, passei a treinar de verdade. Faz diferença, né?
— Faz, sim. Anda treinando o quê?
— Kickboxing. Lembra que...? — Só olhou nos olhos dela e Gabriela sorriu.
— Lembro.
Um pouco de silêncio. Bruna olhou de relance para Gabriela novamente.
— Beleza comprada, né?
— Discordo — Gabriela respondeu — O que você tem de mais bonito nunca precisou de retoques.
Ela era galanteadora demais, Bruna nem sabia por que ainda caía na dela, mas, de vez em quando, sempre acabava caindo.
— E essas coisas são...?
— Essa boca bem desenhada, o sorriso lindo, esses olhos castanhos líquidos, derretidos...
Bruna parou por um instante e sorriu. Ainda bem que ela estava de olhos fechados para não ver o sorriso bobo que deve ter dado. Gabriela sorriu também, porque podia não estar vendo, mas sabia que tinha rolado algo.
— O que foi, Bru?
— Eu não sei reagir a elogios.
— Eu sempre digo que você é tímida e ninguém acredita.
— Quieta, Gab, para de me expor. Preciso fazer esse delineado direitinho aqui.
Gabriela ficou quieta e Bruna, com a mão tão firme quanto a de uma tatuadora ou de uma cirurgiã, acertou ambos os delineados na primeira tentativa, sem tirar o kajal do contato com a pele.
— Agora, olha aqui pra mim.
Que ideia ruim.
Gabriela abriu aqueles olhos verdes, afiados como uma flecha. O olhar ferino, reto pelo delineado, uma facada de tão bonito.
— Ficou bom? — Gabriela perguntou.
— Não — Bruna passou o batom correto na boca dela — Quando Bruna Ribeiro assina a sua maquiagem, ela fica fantástica.
Era por isso que ninguém acreditava que ela era tímida. Uma tímida arrogante?
Bruna era talentosa e sabia.
Festa liberada e tudo estava simplesmente incrível!
Era uma festa que imitava um desfile de moda, com uma trilha pulsante e um verdadeiro banquete esperando. Bruna começava a desconfiar que as festas só eram eufóricas porque tinham comida, e o grande gatilho de estresse que estavam tendo era justamente a fome.
Perdiam moedas demais. E a comida já estava virando problema. Já tinha sido difícil na semana anterior, mas, naquela, estava drástico. Então comeram primeiro e depois foram explorar tudo o que a festa oferecia. Uma passarela onde fizeram um desfile improvisado e um estúdio para fotos, com iluminação impecável, onde Bruna puxou Gabriela para posar ao seu lado.
— Quero dizer que acho que o fato de você ser a única mulher de preto deve ser para fazer par com a Monique — Gabriela comentou.
— Discordo. Acho que é propositalmente para fazer par com você — Bruna explicou — Estamos combinando, aliás, combinando de novo. E nem é a primeira vez. Reparou nas joias? Nas minhas e nas suas?
Gabriela pensou a respeito enquanto se posicionavam na frente da câmera.
— Sabe que existe um ponto no que você está dizendo mesmo.
— Tem, sim. A Nuna que me disse isso, então fui prestar atenção e faz sentido — Bruna se posicionou, olhou para a câmera. Olhar reto, provocante, ajustou as mãos.
— Duda, você tira pra gente?
— Tiro, mas tem que ser uma foto para quebrar a internet.
— Entendi — E, sem qualquer aviso, Gabriela se abaixou, segurando as fendas da saia longa entre as pernas e, jogando a mão para trás, tocou a coxa nua de Bruna, quebrando o acting dela na hora.
— Habren!
— Segura o seu acting aí, Bem Indecente.
— Você quer acabar com a minha vida...!
— Segura aí, vai! — Gabriela piscou para ela.
Segurou o acting, se ajustou de novo, linda e poderosa, Eduarda clicou. Mudaram de pose, Bruna levou a mão à cintura, deixou o braço mais flutuante e Gabriela se moveu, mudando o peso de perna, passando o braço por entre as pernas dela, segurando aquela deliciosa coxa. Clique.
E, na terceira foto, Bruna a pegou.
Gabriela levantou e Bruna foi para trás dela, passou o braço por baixo de um dos braços e alcançou a garganta, segurou ali. Clique.
Gabriela riu de nervoso.
— Você é uma diaba mesmo, meu Deus do céu...!
— Você começa a provocar e depois treme — Bruna estava aos risos.
— Sou uma farsa, Bruna Ribeiro, uma farsa total.
E as três fotos de milhões, de fato, quase quebraram a internet.
Foi um rebuliço enorme, cinco tags entre as vinte primeiras do Twitter eram sobre as tais fotos. Três positivas para as duas, uma negativa para cada e outras hashtags surgiram durante a noite. Bruna dançando “Gata” com todo o elenco feminino havia virado praticamente uma tradição. Todo mundo parava para assistir, tal como a invocação da Bem Indecente também era esperada.
Mas, por outro lado, a desaprovação a Bruna ganhava mais força. Uma mulher como ela incomodava. Uma mulher livre assustava, e essa havia sido uma frase de Gabriela, bebericando algo enquanto a assistia dançando. E, enquanto ela dançava, como a mulher livre que era, Habren ouviu um comentário tão machista que a enfureceu.
— Se a gente estivesse lá fora, eu enfiava a mão na sua cara agora, seu nojento!
Henrique deu risada.
— Olha, me disseram que você era praticamente a Sandy, nunca achei que fosse tão feroz assim!
— É uma fala machista atrás da outra, impressionante! — Gabriela estava realmente enfurecida.
— O que falei de errado agora?!
— Deixa a Sandy em paz! Deixa as mulheres em paz!
— Ei, ei, o que foi?! — Bruna notou que algo estava errado.
— Nada não, dança, Bruna! — Gabriela respondeu para ela — Bem Indecente, dança livre!
Bruna sorriu, porque aquele traço de Gabriela... Ela defendia o seu funk, incentivava a sua dança, a sua liberdade, a sua cultura. A música mudou, começou a tocar “Envolver”. Mas alguma coisa já estava azedando entre Henrique e Gabriela.
— Gab, o que aconteceu? — Bruna perguntou, cruzando a pista para ir até eles.
— É a sua música! Você não vai dançar?
— Quero saber o que foi que aconteceu primeiro.
Gabriela começou a andar na direção dela.
— Não precisa, só o Henrique sendo desnecessário. Quero que você volte para a pista e vá dançar, do seu jeitinho.
— Mas não tem como, minha cabeça deu uma descompassada aqui.
— Então... — Gabriela virou a bebida de uma vez — Vou te colocar no eixo. Vamos lá que vou fazer o seu gostoso — Disse, arrancando um sorriso lindo dos lábios de Bruna, já a puxando de volta.
— Gab...? — Bruna a chamou, ainda na dúvida, quando chegaram ao meio da pista.
— Deixa eu ver, acho que a gente começa... agora.
♪ Y no te vaya’ a envolver... Sé que lo hacemos y tú vas a volver... ♪
Gabriela a virou de costas para si, já entrando na coreografia, pegando-a tão de surpresa que Bruna até tropeçou um passinho atrasado, mas logo entrou na música com ela. Se abaixou na frente dela, duas quebradinhas de joelhos com o quadril na altura da linha de cintura de Gabriela, que sabia a coreografia perfeitamente. Nem era pela aulinha do outro dia, e sim pelo tanto de vezes que havia assistido àquele viral de Bruna no TikTok.
E, se era para irritar homem idiota, trouxe a sua melhor dança.
Gabriela foi andando pra cima de Bruna, levando-a para trás, a mão na garganta dela e a mão de Bruna no seu punho, uma gritaria já explodindo ao redor. Eram duas mulheres impressionantes, fazendo uma coreografia perfeita, algo que geralmente só acontecia quando se dançava com o seu par preferido da vida.
Gabriela a chamou para o seu colo e Bruna apenas foi. Os olhos de uma profundamente presos nos da outra, os rostos muito juntos.
Aqueles olhos... Bruna já havia dito “eu te amo” tantas vezes olhando naqueles olhos que nem sabia se não estava dizendo de novo, silenciosamente, apenas naquela conexão que insistia em existir entre elas. Gabriela a tocou pela cintura, sentindo-a deitar-se para trás sem nenhuma hesitação. O controle que Bruna tinha no próprio abdômen, o olhar que se prolongava, a mão nas pernas de Gabriela, apoiando-se enquanto era deitada com cuidado no chão.
— Acha que não vai aparecer...? — Bruna estava preocupada com o tamanho de seu vestido.
— E eu deixo aparecer alguma coisa? Eu cuido disso, Bru.
Gabriela sempre cuidava.
Bruna esperou que ela fizesse a parte do chão e, é claro, Gabriela fez perfeitamente. Braços apoiados, corpo que desce contra o seu respeitosamente, sem tocar demais. Mais olhos nos olhos, Gabriela passando a perna, se movendo por cima de Bruna. O movimento de punho contra o peito dela, que reagiu direitinho, em sincronia total. Então, um sorriso, a mão de Gabriela deslizando pelo colo de Bruna, fazendo-a suavemente virar para aquela rebolada que era...
Criminosa. Gabriela não aguentou mais. Deitou-se de cara na pista, fazendo Bruna ter um ataque de riso.
— O que foi, bae?
— Não tem como durar nem cinco minutos, essa música está completamente certa — Ela disse, causando outra onda de riso em Bruna.
— Por que veio dançar tão gostosa comigo, Gab?
Gabriela se virou, olhando para ela.
— Porque nenhuma gostosa merece ser impedida de dançar.
— Se a gente não era trending número 1 do Twitter ainda, acabamos de subir. Habren veio para matar as gays hoje, caramba! — Era Monique.
— Começando pela Bruna — Eduarda não aguentava uma piada.
— Em minha defesa, eu queria dizer que essa sonsa não passa mal por fora, mas passa mal por dentro — Bruna respondeu, fazendo Gabriela morrer de rir.
Esperava que tivesse sido só por dentro.
E, como quem não quer nada, iniciou-se um set de K-pop, com “Kill This Love”, e Gabriela não pôde escapar. Nem de ficar na pista, nem de fazer a coreografia perfeita de parzinho com Bruna, e era só muito bom. As garotas continuaram na pista com elas, copiando os passos, fazendo a coreografia que era divertida e poderosa ao mesmo tempo, dançando todas juntas, e deveria estar dando tão certo que estenderam o set.
Gabriela escapou só no final, precisava de água. E bastou se afastar para algo esquisito começar a acontecer. Provavelmente, a Bem Indecente estava mais do que invocada e começou a dar trela para determinada conversa fiada, a conversa de Henrique, que estava ficando com Camila, que não gostou nada.
E pronto, um barraco nasceu daí.
Um barraco feito por duas mulheres bêbadas e um homem cínico, e pareceu muito um movimento combinado. Era disso que Gabriela discordava: da mente que Bruna abria para os outros entrarem quando passava do ponto com a bebida. Ela era uma peça valiosa com a qual todo mundo queria jogar. E ninguém tinha tanto a perder quanto ela.
Gabriela foi tirá-la da confusão — e sobrou para ela. As ofensas, os xingamentos, Bruna já não estava em si. Já tinha apagado da mente todo o começo de noite perfeito, o momento na pista de dança, tinha se esvaziado do que era bom e ficado apenas com aquela dor, que era externa, não interna.
E nada doía mais em Gabriela do que ver tanto ódio dentro daqueles olhos castanhos.
— É por isso que prefiro manter distância de você.
Foi uma única frase. E fez Bruna chorar como se tivesse perdido um ente querido.
Se Gabriela tinha alguma dúvida, ela não existia mais.
Acordou meditando.
Sentou-se no gramado, ao sol, fechou os olhos, tentou se concentrar e se acalmar, porque o vulcão estava agitado, cuspindo lava, respingando por dentro, em seu estômago, seus intestinos, seu coração. Ficou calada o dia todo, isolada no quarto do líder. O clima na casa seguia muito delicado e tinha algo acontecendo, como uma faísca correndo pelo rastilho de pólvora: todos estavam com fome.
Havia na casa homens enormes que não comiam o suficiente, mulheres com dietas específicas que não estavam sendo alimentadas. Camila estava fazendo voto de silêncio para não se comprometer e havia outra situação: um dos rapazes não parava de perder moedas por motivos estúpidos, e todos já estavam sem paciência para isso.
Sentia que uma explosão estava vindo. E sabia que a primeira de uma série de explosões viria depois da votação da noite.
Se arrumaram para a votação. Bruna, cansada, fez tudo muito basicamente, escolheu qualquer roupa. Se tinha uma coisa que Gabriela não podia negar, é que Bruna Ribeiro era extremamente sensível também. Ela não a procurou para conversar; na verdade, havia passado o dia todo quieta, quase num voto de silêncio também.
Bruna dormiu bastante, se moveu pouco. Estava retraída, fechada em si mesma. Gabriela desenhou um cenário todo na sua mente, se vestiu de camiseta preta e foi surpreendida quando viu Bruna toda de branco. Estavam combinando o tempo todo, ainda que involuntariamente.
Se esbarraram no banheiro, pouco antes de a votação começar.
— Você não acha muita coincidência? — Bruna perguntou.
— O que exatamente?
— Seu vinho surgir aqui, na festa, logo depois da sua liderança.
Gabriela olhou para ela.
— Tipo... você acha que mandaram de propósito?
— Ou talvez alguém conheça você. Ou, mais grave, conheça a gente. Os figurinos vêm tão perfeitos, a minha música tocando quase sempre.
E o som da punição ressoou, assustando ambas. Gabriela levou os dedos aos lábios de Bruna, balançando a cabeça em um “não fala mais”, e ela entendeu. Era um jogo, é claro que deveriam estar jogando com elas também externamente, e Gabriela...
Achava que estava pronta para o movimento mais perigoso até então.
Mas já houve um primeiro problema, logo na entrega da imunidade: Henrique estava imune, era importante que ele não estivesse, não porque Gabriela votaria nele — ela não iria. E esse era o problema.
Respirou fundo. A flecha atirada não retorna ao arco.
— A minha maior preocupação quando entrei aqui era a probabilidade de ficar presa em problemas externos e não conseguir me concentrar totalmente aqui dentro — Gabriela começou a explicar o seu voto — Mas, para minha surpresa, um problema externo acabou me encontrando aqui dentro.
A respiração de Bruna mudou no mesmo instante. Gabriela notou, mas apenas continuou o seu discurso, sem olhar para o lado.
— Os nossos problemas lá fora seguem reverberando aqui dentro, às vezes tudo vai bem, outras vezes desanda por coisas pequenas e isso me consome. Os espaços não são respeitados... É como dizem aí fora, o espaço fica pequeno com a gente no mesmo lugar. E, por isso tudo, hoje, eu vou indicar a Bruna pelos mesmos motivos, os anteriores, os de agora, os de sempre: somos incompatíveis — E só então ousou olhar para ela.
E a tempestade que vinha era da cor daqueles olhos castanhos.







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