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Vulnerável 8


Blackout


Bruna Ribeiro podia ser acusada de muitas coisas, menos de ser incoerente.


Abriu um sorriso após ouvir o voto, passando a língua pelos dentes — estava irritada. Muito irritada. Recebeu a indicação em silêncio. Um silêncio ensurdecedor tomou conta da sala. Até o apresentador fez uma pausa mais longa, então improvisou um break. Não chamou comercial, só saiu da tela e deixou o ao vivo rolando.


— Eu fiz o teu delineado — Foi Bruna quem quebrou o silêncio.

— Bruna, calma — Monique disse, baixinho.

— Você me chamou para fazer o seu delineado, sua sonsa! O que você quer, Gabriela? Acusa meia casa de tirar proveito de mim e vem você com essa? Tem certeza de que são os outros que querem tirar vantagem da minha imagem, de quem eu sou? Você tem certeza?!

— Sabe qual é o seu problema? É que você não consegue ficar puta sem ser arrogante! — Gabriela retrucou.

— Prefiro ser arrogante a incoerente, prefiro quebrar a cara com a minha verdade do que ficar me escondendo debaixo de máscaras!

— Gente, ei, ei! O ao vivo vai voltar. Absorve a facada aí, Bruna, acontece. Eu levei uma facada sua ontem, inclusive — Camila entrou na conversa, e uma discussão generalizada explodiu rapidamente.


O apresentador voltou ao vivo no meio daquele emaranhado de vozes, tentou interferir, não deu, daí decidiu deixar rolar mais um pouco. Era Bruna x Camila x Gabriela, separadas por Eduarda e Nuna, que tentavam acalmar. Os homens tentando falar e recebendo um cala-boca geral de Mel, Monique e Lia. E, quando viu que talvez saísse mesmo do controle, o apresentador deu um jeito de retomar o comando; ainda havia outra votação para ser feita.


Votação extremamente tensa realizada, Camila e Nuna emparedadas, paredão triplo formado. Trinta segundos de defesa para cada uma: a defesa furiosa de Camila, a muito bem articulada de Nuna, engraçada, segura e melosa no final, e a oratória perfeita de Bruna Ribeiro. Furiosa, ela foi ainda mais afiada. Fim do ao vivo, e Gabriela sabia que seria literalmente posta contra a parede.


Foi mesmo.


Bruna veio pra cima, Camila também, Monique no encalço de Bruna; e, ao lado de Gabriela, Eduarda e Nuna, apenas para não deixá-la sozinha. Elas não haviam entendido o voto, mas não tinha problema, a questão era manter Gabriela segura, deixar claro que ela não estava sozinha. Bruna estava furiosa, uma máquina de ofender, a voz mais rouca do que o habitual, avançando sobre Gabriela, que se movia devagar, apenas mantendo uma distância segura enquanto a ouvia. Sabia que tinha que ouvi-la, então ouviu o máximo que pôde, de braços cruzados, prestando atenção naqueles olhos castanhos que...


Como a tinham. Os olhos castanhos, a boca delineada, como a tinham.


— Brincamos ontem, passamos a festa toda juntas, dançamos juntas, se não estava tudo bem, por que fazer isso, caramba?!

— Isso anula os problemas que andamos tendo? Nós não somos aliadas, Bruna, você sabe que...

— Você é muito fingida! — Era Monique, vindo pra cima — Como pode, garota?! Como consegue ficar bem com você mesma no final do dia?!


E Gabriela foi ficando vulcanizada. Aguentava tudo, menos aquela marra de Monique, que nem havia sido chamada na conversa.


— Você quer me atacar, Monique?! Vamos lá, eu te ajudo! Vou recitar o que me lembro dos comentários da última postagem que fiz no Instagram: fingida, falsa, sonsa, arrogante, mentirosa, forçada, chata! Estou esquecendo alguma coisa, Bruna?

— Não, mas lembro das minhas também: puta, metida, interesseira, baixa, grosseira, vulgar, indecente. Consigo fazer um rap com tudo isso e sabe o que é pior? Você veio aqui hoje para reforçar todos os meus estereótipos da maneira mais ordinária possível! Ninguém votaria em mim hoje, ninguém além de você!

Eu sei disso. E espero, de coração, que assim que você puder olhar de fora, entenda o que fiz.


Bruna andou pra cima dela. Eduarda quis entrar na frente, Gabriela não permitiu. Deixou Bruna vir e parar a centímetros dos seus olhos:


— Eu não preciso de ninguém para me salvar. Nunca precisei. Você nunca foi a minha heroína, nem quando eu pedi por isso. Você é bem menos heroica do que imagina, Gabriela Habren.


Naquela noite, foi assim que a discussão terminou. Bruna chorou de raiva e passou uma hora dizendo coisas sobre Gabriela que não suportava a ideia de que pudessem ser verdade. Não tinha como ser, não era possível que fosse, então a acusava e a defendia ao mesmo tempo. Monique e Lia nem sabiam. Ninguém sabia exatamente o que dizer a nenhuma delas.


Amanheceu denso na segunda-feira.


A sensação de que algo ainda ia dar errado não saía de Gabriela. Tentou se acalmar, afastar aquele pensamento, se preparar para o dia, mas... não deu tempo.


A explosão veio antes do café da manhã.


Gabriela havia acabado de fazer seu Raio-X. Passou na cozinha, pegou uma xícara de chá, viu que o almoço já estava sendo providenciado na Xepa. Sentou-se para tomar seu chá no quarto do líder e começou a ouvir uma gritaria.


Primeiro, eram apenas vozes mais exaltadas, mas muito rapidamente tudo foi ficando mais alto, mais agressivo, menos... uma discussão comum.


— Mas o que é que...? — Eduarda levantou o rosto da cama, havia feito o seu Raio-X e voltado para dormir no quarto com Gabriela e Nuna. Ajustou os olhos à claridade ao ouvir.

— É a Camila...?

— E a Bruna — Nuna concluiu, e imediatamente Monique apareceu na janela do quarto do líder.

— Habren, ela vai se eliminar!


Gabriela largou a xícara e correu pra fora, de moletom, camiseta e o roupão do líder; na área externa, Bruna estava gritando a plenos pulmões. Camila gritava de volta, Lia também, Henrique surgiu do nada, as outras chegaram tentando entender, tentando apaziguar, mas...


— Você sabe o que é foda, muito foda mesmo? É não ter moedas para comprar comida suficiente nesse inferno, daí você vem querer regular arroz? Você vem regular?! — Bruna estava furiosa e absurdamente rouca.

— Tem que ser igual! Tem que dividir igual. Por que você acha que merece mais? Ser Bruna Ribeiro e ser ninguém tem zero diferença aqui dentro, caso você não tenha percebido! — Era Camila.

— Eu não estou dizendo que mereço mais, só que aquele idiota que você protege merece menos porque ninguém aqui dentro perde tanta moeda quanto ele! E sabe por que ele perde? Porque acha que vai dar VT, o babaca, o idiota do personagem que ele veio fazer aqui dentro!

— Isso não faz diferença nenhuma!

— O que não faz diferença, Camila? Perder moeda não faz diferença?!

— O que faz diferença é o jeito que a gente divide as coisas aqui dentro!

— Ah, entendi! Então, já que não faz diferença... — Bruna tirou a camiseta e foi andando rapidamente para o jardim.

— Não faz, sua mimada! Você não vai fazer VT em cima da gente, sua insuportável! Bruna!

— Vou te falar um negócio: se eu quiser fazer VT, faço sozinha. Aliás, eu faço tudo muito melhor sozinha! — Tirou o short, ficando apenas com a lingerie preta, e Gabriela entendeu o que ela ia fazer. Acelerou pelo gramado, o mais rápido que conseguia.

— Bruna, Bruna!

— Perder moeda não faz diferença, Habren — E simplesmente mergulhou na piscina com o microfone, antes que qualquer um pudesse impedir.


A punição veio pesada: quinhentas moedas para Bruna, duzentas para o resto pela infração gravíssima. A casa inteira veio pra cima dela, xingamentos, ofensas enquanto Bruna nadava na piscina, escolhendo a quem ia responder.


— Pelo amor de Deus...! — Eduarda não sabia se ria, brigava ou chorava.

— Ela não fez isso — Mirela estava rindo mesmo.

— Você é uma puta de uma egoísta! — Era Camila, andando ao redor da piscina, tentando pegar a atenção de Bruna.

— Você não disse que as moedas não fazem diferença? Não devem fazer mesmo. Não estou entendendo o seu estresse agora — Seguia nadando, com as punições soando pela casa toda.

— Bruna, isso é perigoso, sai daí, por favor — Gabriela chegou até ela na piscina.

— O quê? Preocupada comigo agora? Vai pro inferno, Habren, e leva essa babá de marmanjo com você que eu não suporto mais ela!

— Olha como você fala comigo, sua filha da puta! — Camila gritou ainda mais.


Bruna colocou o pé na escada da piscina.


— Você respeita a minha mãe! Respeita a minha mãe, sua idiota, você não sabe quem ela foi! — Arrancou o microfone e jogou na piscina. Outra punição soou alto.

— Você tem que aprender a respeitar os outros!

— Camila, Camila, chega! Chega disso! — Gabriela já estava furiosa.

— O que você veio fazer aqui, oh, poderosa?! Essa briga não é sua, não! — Camila respondeu, mas Gabriela não deu atenção, sua atenção estava em outro lugar.

— Bruna, sai daí, por favor, vem aqui.

— Para me tirar daqui, vai ter que entrar! — Bruna voltou para o meio da piscina — Quem vem me tirar? Vem você, Camila!

— Vou acabar com você, sua idiota!


Camila tirou o microfone e chegou a pular na piscina, mas foi impedida de se mover por Henrique, que a manteve contra a borda. Bruna seguia como uma metralhadora de ofensas, e Gabriela tirou o roupão, a camiseta, o microfone e entrou na piscina.


Deu duas braçadas fortes e a pegou pela cintura. Ignorou os protestos, só seguiu a arrastando, a ouvindo gritar, ofender, e já bastava daquilo!


— Bruna! Chega disso, caramba, chega! — A tirou da piscina de qualquer forma — Leva a Camila daqui também, Henrique. Sai todo mundo, inferno!

— Tá achando que é a dona da casa, Habren, tá achando, é?! — Henrique retrucou para ela.

Gabriela levantou o colar de líder, bem afrontosa, e levou Bruna, ainda apenas de lingerie, pelo gramado, até ficarem longe o suficiente daquela confusão generalizada.

— Por que você se mete em tudo, Habren?!

— Bruna, para! Chega, para com isso, para! — Gabriela vestiu o próprio roupão nela, mesmo contra a vontade.


Punição para Gabriela, pelo roupão, que não podia ser usado por ninguém além da líder, e por estar falando sem microfone.


— Odeio você, odeio, odeio! Eu queria nunca ter te conhecido! — E foi pra cima de Gabriela, que a parou: a segurou pelos punhos, os levou para as costas dela, mantendo-a segura.

— Não diga essas coisas, Bruna.


Mais punição para as duas, por estarem falando sem microfone.


— Você é falsa, é sonsa, é o pior tipo de veneno! Você é um veneno! — Disse e começou a chorar, porque seu estômago roncou muito alto, lembrando a dor intensa que estava sentindo — Estou com fome, eu tô com muita fome, quero sair daqui, ir pra casa. Eu só quero ir pra casa.


Gabriela a apertou com mais firmeza, sentindo seu coração quebrando demais.


— Eu deveria ter te levado comigo... — Para o VIP, onde tinha mais comida.

— Ninguém ia entender.

— Já faz algum tempo que eu não ligo mais pra isso — Gabriela a abraçou.


Outra punição, e a voz veio em seguida:


Gabriela Habren, confessionário.


— Ela está com fome, você ouviu? Com fome! Tá todo mundo aqui com fome!


Gabriela Habren, confessionário imediatamente!


Nuna veio trazer o microfone de Gabriela, Eduarda a seguiu.


— Não fala mais, Bruna, por favor, estou implorando — Eduarda pediu.


Bruna apertou os lábios, balançou a cabeça em afirmativo.


— Obrigada, de verdade, obrigada.


Gabriela colocou o microfone de volta.


— Vou ao confessionário, vocês ficam aqui com ela.

— Gatas de guarda, pode deixar — Nuna brincou, tentando aliviar a tensão.


Elas ficaram com Bruna enquanto Gabriela foi ao confessionário.


Foi como levar bronca na diretoria, sendo representante de classe. Mas não se calou. Gabriela Habren havia aprendido há um tempo a não mais se calar.


— É um ciclo que não termina. Não adianta punir tirando moedas, a gente só vai ficar mais estressado. Está todo mundo com fome. Educar por punição nunca foi uma boa ideia. Já tem barraco suficiente, vocês não acham? Precisávamos desse último?


A conversa durou vinte minutos e, quando saiu, Bruna ainda estava no roupão do líder, tomando caldo de feijão quente em um copo. As gatas de guarda, lado a lado, os outros almoçando, mais calmos, exaustos pela situação toda.


Chamaram manutenção externa. Todos para dentro da casa, no maior clima de ressaca.


Camila, que além de barraqueira, era cantora também, começou a batucar na mesa. Batucou até virar melodia e, daí, olhou para Gabriela, que estava sentada do outro lado da sala.


♪ Eu sei... que eu não tenho mais razões para me preocupar, eu sei, que não sei... ♪ — Era um cover de Gabriela de um ano atrás, que havia viralizado em milhões de visualizações no TikTok.


Gabriela olhou para ela e para Bruna. Ergueu os olhos, entrou na música.


 ♪ Da sua nova vida, se tem outra em meu lugar... ♪ — E era uma voz dócil, delicada, muito afinada ♪ Mas depois daquele dia que você não quis me ouvir, me deixando aqui jogada sem motivos pra existir... Só no meio da semana eu ainda sobrevivo, mas na sexta é madrugada, já começa o meu castigo... ♪


Bruna respirou fundo e começou a lagrimar contra a sua vontade. Tinha visto aquele vídeo, postado na exata data em que tinham se conhecido, tinha sido um aperto antes. Foi de novo naquele momento.


A voz de Lia entrou com a de Gabriela no refrão, harmonizando perfeitamente:


♪ Eu fico aqui sozinha, no meu quarto, imaginando onde você possa estar... ♪ — Uma mistura tão bonita que fez Gabriela sorrir. Então seguiu sozinha: — ♪ Torcendo por um blackout na cidade, que seu carro quebre na garagem e ninguém venha lhe buscar... ♪ — Lia e Camila seguiram com ela para a próxima frase, fazendo uma mágica vocal muito bonita — ♪ E assim eu vou traçando a sua rota em minha mente, assim meio impaciente, sem certeza, sem radar... ♪ — Gabriela respirou fundo, olhando para Bruna meio de lado, seguindo sozinha para o próximo verso — ♪ Pedindo a Deus que mande uma tempestade... que alague toda a cidade, que você não saia do sofá... ♪


Outras lágrimas de Bruna. E a voz de Gabriela coroando o término da música, delicadamente, bonito demais.


♪ Pra que ninguém roube o meu lugar... ♪


Terminaram aplaudidas, mudando o clima da sala. Bruna trocou um olhar com Gabriela e, bem ali, teve certeza de que iria embora. E ter certeza disso, esquisitamente, abriu uma paz enorme dentro de si. Se levantou para tomar banho e, ao trocar de roupa, alguém veio avisar que o jardim estava liberado, que tinha uma festa na piscina esperando por eles.


E tinha mesmo. Colocou um biquíni, foi lá fora e tinha picolés de uma das patrocinadoras do programa, um braseiro aceso, espetos de proteína, de vegetais, arroz, feijão, farofa. Tudo muito bem-arrumado, mas com uma cara de improvisado que deixou claro o que havia acontecido: a representante de classe havia conseguido alguma coisa.


Foi a melhor tarde desde o começo do programa. Com boias divertidas na piscina, comida à vontade, celulares liberados para as fotos. Após dois pratos generosos, Bruna foi até Camila e fizeram as pazes. Depois foi até Gabriela e apenas a abraçou, longamente, não disseram nada; foi apenas aquele abraço apertado que durou. Um olhar nos olhos, um carinho de Bruna na mão dela. Dançaram muito aquela tarde, com os rapazes, entre elas, riram de qualquer bobagem, agradeceram pelo sol, pela comida, pela oportunidade de estarem ali.


— Devemos estar sendo vistas como um bando de vagabundas mesmo. Não faz duas horas e eu estava querendo te afogar nesta piscina, Bruna — Disse Camila.

— Me falta ódio, eu nasci sem reserva de rancor!


Era uma grande verdade.


O jogo, mais tarde, era montar o pódio da final, algo mais ameno, para tirar todos da tensão. Zero surpresas. Gabriela montou seu pódio com Nuna e Eduarda, Bruna montou o seu com Monique e Camila. Faltava ódio mesmo.


Bruna dormiu em paz. Acordou em paz. Recebeu um lindo café da manhã de presente do seu grupo: café, pão, geleia, banana grelhada, o que a fez muito feliz, e aproveitou a tarde para se despedir de Monique. Ficou um tempo com ela. Estavam na cama, trocando uns carinhos, quando Eduarda, que estava ao lado, falou:


— Mulher, você pulou na piscina de microfone — E isso causou uma risada generalizada no quarto.

— Levei um choque, sabia? Mas fingi normalidade.

— Fui chamar a Habren, tinha certeza de que ia dar merda — Era Monique.

— E daí você vai chamar a Gabriela, é?! — Bruna falou, sorrindo.

— Você esbraveja com ela, mas não faz nada. Só fica latindo, sua cadela!

— Claro que não! — Negou, rindo.

— Claro que sim! Fica lá, brigando de mãos dadas com ela. Sinceramente, vocês duas...


A noite foi chegando e, quando Bruna estava arrumando suas coisas, Gabriela entrou no quarto.


— Posso pedir uma coisa?


Bruna a olhou. Pegou a mão dela, a puxou para pertinho.


— O que você quer?


Ela abriu a outra mão e tinha um par de brincos deslumbrantes entre os dedos. Eram assimétricos, luxuosamente dourados: um seio abstrato, uma boca em relevo e um cadeado; o outro tinha um seio, um olho com íris verde e uma orelha pendente.


— Você se lembra desses brincos aqui?

— São do seu ensaio com a Schiaparelli. Como você acha que eu poderia esquecer? — Bruna pegou os brincos, muito empolgada — Essas fotos ficaram maravilhosas, você tirou com esse par de brincos e aquele colar de cadeado.

— Maravilhoso também, né? Mas não deu para comprar os dois — Gabriela respondeu, sorrindo — Eu trouxe para compor o look da final. Trouxe uma jaqueta da Schiaparelli também. Sabe aqueles cardigans da coleção de 2022?

— Onde está? Aqui ou no líder?

— Espera, eu deixei aqui — Gabriela foi até sua mala e trouxe de lá um pacote especial, de onde tirou o cardigan de lã preta e seda. Era fechado por uma corrente que se prendia a joias anatômicas douradas, mais Schiaparelli impossível.

— Gabriela! Essa peça é deslumbrante! Eu estava neste desfile, em Milão.

— Eu sei, a gente se desentendeu lá — Contou, sorrindo.


Bruna olhou para ela, sorrindo também.


— Você está entregando tudo agora mesmo, é?

— Acho que já era, Bruna. Toda a jogada que fiz, a minha ideia, caiu tudo por terra, já que hoje à tarde a gente fez o que fez. Olha a saia parzinho — Tirou uma saia do mesmo pacote, também Schiaparelli, o conjunto com o cardigan, tão estilosa quanto, mas, em vez de ser preta, era branca.

— É jeans japonês?

— É, sim. Tem outra com o mesmo material do cardigan, mas como as linhas são as mesmas, eu quis assim, preto e branco, minhas duas faces — Abriu um sorriso. A saia era lindíssima também, tinha um fecho com correntes e joias, combinava perfeitamente com o cardigan.

— Ela é linda! Você tem um look de milhões para a final, Habren.


E Lia passou do lado de fora, ouvindo um pedaço da conversa toda.


Incompatíveis. Elas disseram ser completamente incompatíveis. Corta para a cena das duas falando das roupinhas Schiapa sei lá o que... — Disse, fazendo ambas rirem demais.

— Lia, você é insuportável! — Bruna disse, sorrindo.

— É a habruna shipper número zero! — Gabriela estava rindo também.

— Acha que nosso ship é este?

— Ou gabruna, deve ser algo assim. Você trouxe o que para usar na final?

— Um pretinho nada básico da Gucci. Lia, ouve isso aqui! — Bruna adorava encher com Lia.

— O quê? Fala aí.

— Gucci e um colar Schiaparelli.

— Vão tomar no cool vocês duas, sinceramente! — Ela se afastou, deixando Bruna e Gabriela rindo demais. Depois, ficaram um instante só se olhando.

— Você podia vestir, né? — Gabriela propôs.

— O quê? Seu look da final?

— Uhum! Só para eu ver como fica em você.


Outro olhar. Por que não?


— Gabriela, eu nunca me recuso a experimentar nada, você sabe.


Nunca recusava mesmo. Colocou a saia primeiro e foi buscar um top, queria usar o cardigan aberto. Achou o cropped super bem trabalhado, preto também, vestiu o cardigan por cima e recebeu os brincos das mãos de Gabriela.


— Vim pedir para você usar esses brincos hoje.

— Você... veio? — Bruna ficou confusa.

— Vim. Será que você pode usar hoje?

— E se eu for eliminada, Habren?


Gabriela deu a volta, parando atrás dela. O look havia ficado deslumbrante em Bruna. A saia tinha ajustado bem, o cardigan, que era maior que o tamanho dela, nem parecia, dado o cropped improvisado por dentro. O rosto limpo, sem qualquer maquiagem, os cabelos presos no alto para ver o brinco e...


Era, sem esforço nenhum, a mulher mais linda que Gabriela já tinha visto de perto.


Linda, fosse no baile funk ou numa festa haute couture.


— Se você for eliminada, vai ter que se encontrar comigo para devolver os brincos e o look — Deu um tapinha na bunda dela — Você ficou linda demais, usa tudo isso hoje.


Bruna a olhou, desacreditada.


— Gabriela, está louca? É a sua roupa para a final. Devo estar vestindo uns vinte mil euros aqui.

— Não tem problema, Bru.

— Não tem?


Gabriela beijou o rosto dela.


— Não tem.


Não precisou de mais para ser convencida. As peças cheiravam a Eternity e o gesto era... muito Gabriela Habren. Decifra-me ou te devoro. Bruna se sentia devorada o tempo todo ao lado dela. Se as suas histórias preferidas giravam em torno do arquétipo de Hades e Perséfone, as de Gabriela eram em torno de Medusa e o mito da mulher cega. Se arrumou, fez uma maquiagem especial, extremamente sofisticada, saltos altos, colocou os brincos, se olhou no espelho. Sentiu algo.


Era hora de ir para o jardim. Tocavam músicas anteriormente selecionadas pelos emparedados e, para a surpresa de Gabriela, tocou “Blackout” na playlist de Bruna. Um monte de funk e “Blackout”, outro monte de funk e “Olhos Castanhos”, pancada de pop e “Sagitariana” para finalizar. Ela era sagitariana, brava e molenga, indecisa e decidida, furacão e brisa leve, agressividade e toda a beleza reunida numa pessoa só.


Um último olhar trocado. Era hora do programa.

— A gente só precisava de mais dez minutos para arrumar tudo isso — Foi a reação de Maurício quando ouviram a saída apertada de Bruna, eliminada por menos de dois por cento de diferença.

— Graças a Deus, acabou e acho que ainda temos uma marca — Era Dara.

— Temos, e a Bruna vai virar esse jogo de novo, você vai ver — Foi um comentário de Júlia Bittencourt.


Disso, ninguém duvidava.

A despedida dos colegas de confinamento foi dócil, tranquila. Bruna abraçou todo mundo e deixou Gabriela para o final. Abraço longo, uma conversa com os microfones abafados. Afastaram-se, um último olhar com as mãos dadas, um sorriso de Bruna.


It’s not so bad — Ela disse. Gabriela apertou os lábios.


E sob fortes aplausos, Bruna Ribeiro saiu pela porta da eliminação.





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