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Vulnerável 12


Vinte Segundos de Coragem


A velocidade com que as coisas aconteceram nos meses seguintes era algo que nenhuma das duas poderia imaginar, nem mesmo nos sonhos mais otimistas.


Logo na manhã seguinte, Gabriela já tinha uma nova proposta para outro ensaio, depois para mais um e outro, sempre na linha de joias. Aparentemente, seu ensaio havia sido muito bem recebido, e o volume de demandas a obrigou a virar noites estudando, entendendo como tudo aquilo funcionava. Todos os termos e direções que Bruna havia dado estavam sendo seu grande farol. Correu para fazer seu composite. Se fosse mesmo fazer aquilo, faria da melhor maneira possível.


Bruna havia explicado que um composite era um conjunto de fotos que mostrava a modelo por inteiro. Então Gabriela agendou seu ensaio com um fotógrafo indicado por ela.


Não levou uma semana até que uma empresa a procurasse para agenciamento, já com um casting pronto. Logo outras oportunidades surgiram e, quando Gabriela pensasse naqueles seis meses, anos depois, não conseguiria ligar a ordem exata de cada evento. Só sabia que, quando dezembro chegou, estava vivendo uma vida completamente diferente.


E, do outro lado, Bruna poderia contar a sua trajetória naqueles mesmos meses com as mesmíssimas palavras.


Tudo mudou depois daquele ensaio. Talvez pelo sucesso da campanha para a Brennheisen, ou pelo fotógrafo que adorou o seu trabalho e começou a chamá-la para mais campanhas, ou pela carreira de Marcela Richter, que de repente começou a alcançar novas camadas. Quando deu por si, estava transitando em meios por onde nunca havia andado antes.


Maquiou muito naqueles meses, de domingo a domingo, sem parar, sem descanso, saindo de um evento e entrando em outro, ao mesmo tempo em que cuidava de todas as suas redes. Dormia quatro horas por noite, isso quando conseguia. Comia correndo, fazia seus planejamentos de postagens entre um intervalo e outro.


Dara ia muito bem também, mas, em determinado momento, entendeu que Bruna precisava de fôlego, ou não daria conta de todas as oportunidades que estavam aparecendo. Bastaram três meses para entender que precisava assumir a agenda dela, cuidar da amiga, falar com os parceiros, planejar as publicidades, estudar os contratos. Ainda precisava organizar os horários, os roteiros de vídeos, programar as postagens no Instagram e arrumar um tempo para que ela pudesse dormir, comer, se divertir, afinal, estava falando de Bruna Ribeiro.


Na semana seguinte ao encontro com Gabriela, tinham ido comemorar os contratos novos em uma balada muito específica, onde Bruna tomou um drinque e, após um flerte claro, beijou a barista. Só queria saber como seria ficar com uma mulher e se gostaria da sensação.


Não só gostou como beijou metade das garotas daquela balada depois da barista, um verdadeiro furacão. A carinha de bebê, mas o olhar sedutor, o sorriso lindo, um combo que funcionava demais com as mulheres. E essa nova fase...


Os números em todas as redes começaram a subir rapidamente. O mix de maquiagem, bastidores de ensaios e desfiles, e as mais variadas baladas de São Paulo era atrativo por si só. Uma mulher bonita, jovem, alcançando tudo o que antes parecia distante.


Bruna terminou o ano podendo se mudar de Itaquera, o que facilitaria demais a sua locomoção por São Paulo.


Mudaram-se dias antes do réveillon para um apartamentozinho bem apertado, mas em Pinheiros e, no dia da mudança, Bruna se lembrou de Gabriela mais uma vez. Não contava para ninguém, mas pensava nela com certa regularidade. Nunca mais tinham se falado muito depois daquela noite, apesar de terem trocado telefones.


Esperou que ela ligasse, mandasse uma mensagem, algo assim, mas, como nada havia partido dela e um tempo considerável havia passado, ficou sem assunto para puxar. Houve uma mensagem pelo Instagram, ainda que não tivessem se seguido, um pedido de ajuda de Gabriela com o composite, então nada mais. Depois, tudo ficou muito corrido e, no fim, sentiu que as coisas haviam perdido o tempo correto.


Mas, de qualquer forma, naquela tarde, depois de toda a correria da mudança, sentou-se no sofá e digitou o nome dela no Instagram. Para sua surpresa, Gabriela já tinha batido um milhão de seguidores e estava em muitas campanhas diferentes, tirando fotos incríveis, e isso colocou um sorriso em seu rosto. Gabriela Habren estava dando certo.


Outro ano muito bom começou, cheio de oportunidades. A vida seguia corrida, mas Bruna estava feliz, Dara estava feliz, a cada mês conquistavam mais, expandiam mais um pouco e, no fim daquele ano, novamente, se lembrou de Gabriela. Abriu o Instagram, deu uma olhada e sorriu ao perceber que ela a seguia.


Desde quando? Não fazia ideia. No Instagram, os seus seguidores estavam quase batendo quatro milhões, todos os dias muita gente a seguia, então não tinha como saber, mas decidiu segui-la de volta, fazer parte dos quase dois milhões que Gabriela estava batendo. Nenhuma DM, nenhum contato, porém o comecinho do ano seguinte fez questão de, finalmente, encaixá-las no mesmo espaço outra vez.


O ano de 2018 foi o grande boom do Instagram, no qual a rede se posicionou como a principal dentre todas as redes sociais, e quem tinha seguidores contados em milhões, independentemente do nicho, acabava indo para as mesmas festas, os mesmos eventos. E foi em um evento patrocinado por uma grande marca esportiva que elas acabaram se esbarrando outra vez. Alguém veio apresentá-las, mas, assim que Bruna se virou...


Palpitação violenta. Daquelas que chegam até os ouvidos de tão fortes.


— Bruna! — O abraço foi imediato. Gabriela a abraçou tão gostoso que Bruna só pôde sorrir.


A apertou nos braços, sentindo o perfume dela, foi um instinto. O coração disparado — o dela e o seu — e isso devia estar sendo percebido por ambas.


— Gab... que absurdo de tempo que a gente não se vê!

— Muito tempo mesmo! Nós duas nessa mesma cidade, sem nos esbarrar de novo. Como você está?

— Estou bem. Tenho visto você.

— Eu também te vejo, o tempo todo — Gabriela disse. Era uma verdade instintiva que só pulou da sua boca, nem sabia — Está morena — Tocou os cabelos dela.

— A fase platinada passou.

— Há um ano, eu sei, só não tinha visto de perto ainda. Está usando ondulado, é tão bonito.


Bruna olhou nos olhos dela, aqueles olhos lindos demais. Gabriela estava diferente, com os cabelos mais claros e longos, estava mais malhada também. Apertou os lábios. E alguém veio buscar Bruna para apresentá-la a outras pessoas, tirar fotos. Não se esbarraram mais naquela noite, mas se esbarraram no mês seguinte, em outro evento. Era um after, onde, pela primeira vez, Gabriela viu Bruna em ação.


Melhor, a Bem Indecente em ação.


Gabriela estava com algumas amigas e, literalmente, sentou-se para assistir Bruna pela pista. Dançando muito, o sorriso sempre aberto, o olhar reto e sedutor. Cada coisa nela era atraente sem esforço. Gabriela pediu seu vinho preferido, cruzou as pernas e abriu um sorriso quando a viu falando no ouvido de outra blogueira que estava na pista.


— Você sabe, né? Bruna Ribeiro beija todo mundo sem discriminação — Uma de suas amigas falou, rindo demais.

— Eu... — Ah, ela beijava? Desde quando beijava? Isso Gabriela não sabia, e detestou saber — Como assim?

— Ela passa como um furacão pelas festas; por isso, está em todas, é quase uma atração à parte. Ela é linda, tem esse superastral, fora o quanto é talentosa como maquiadora. Você já maquiou com ela, não é?

— Já sim, ela foi a minha primeira — Gabriela não conseguia parar de olhar para Bruna.

— Ah, a sua primeira?

— A primeira, isso — Abriu um sorriso meio desacreditado, vendo um beijão acontecer na pista de dança.


Então, Bruna ficava com mulheres. E a mente de Gabriela não conseguiu parar de pensar nisso.


Acontecia que nunca havia conseguido entender muito bem o que se passou naquela noite em que saiu para jantar com ela. Na verdade, para ser justa, nunca havia conseguido desvendar o que sentiu quando Bruna se sentou em seu colo, quando a percebeu tão perto.


Era diferente de tudo o que já tinha sentido ao encostar em alguém. Houve um atrito. Aconteceu uma coisa, uma sensação, algo tinha sido desbloqueado, e não sabia explicar o que era, só sabia que tinha sido bom. Tinha a acalmado. E que precisava passar mais tempo com ela, e assim arrumou coragem e a chamou para jantar. Vinte segundos de coragem haviam sido suficientes, mas, quando a possibilidade de querer algo mais dela começou a rondar a sua cabeça...


Não foi tão simples.


Pensava todos os dias no que teria acontecido se tivesse a beijado, porque vontade teve, intenção também, mas parecia tudo tão fora do que entendia que simplesmente... não tentou. Levou uma semana para aceitar que tinha sentido vontade de beijar uma mulher.


E um mês para entender que não havia sido uma ideia passageira.


Pensava em Bruna com regularidade. Tanto que terminou seu namoro, porque não estava conseguindo colocar sua mente nele. Era como se, de repente, tudo o que conheceu a vida toda não fosse mais suficiente. Então, colocou a culpa na correria em que sua vida tinha se transformado e terminou um relacionamento de três anos com seu primeiro namorado. Já havia estado com outros caras, coisas rápidas, sem profundidade, nada comparável ao que tinha sentido com Bruna.


Ok, isso era tudo o que tinha até aquele momento, e a grande pergunta era: o que podia fazer com aquilo? Parecia tão pouco, tão vago. Por ironia, depois dessa festa em que teve o desprazer de assistir Bruna beijando outra, o destino pareceu fazer questão de colocá-las no mesmo lugar pelos próximos dias.


Se encontraram em outra festa ainda naquela semana. Bruna foi cordial, educada como sempre, e os abraços eram outra coisa. Eram apegados, justinhos, e o cheiro dos cabelos dela... não, ela não havia mudado de misturinha. Os cabelos sempre tinham cheiro de mel, argan e quinoa, o aroma único que Gabriela nunca havia esquecido. Então se encontraram de novo na semana seguinte, em um evento e depois no after, onde Gabriela teve que presenciar novamente a Bem Indecente em ação.


Mas daquela vez bateu diferente.


Para começar, era um absurdo o quanto Bruna estava linda naquela noite. De jeans curtinho, preto, um corselet também preto, reforçado nos seios, com tule transparente pelo abdômen, uma coisa. Saltos altos e um terninho de alfaiataria italiana por cima, os cabelos longos, castanhos, soltos, aquele sorriso fácil e o olhar que... sinceramente. E com as mãos em cima de outra garota. 


Gabriela respirou fundo.


Estava de calça jeans, cropped preto, gola alta, a jaqueta preta por cima, os cabelos também soltos e uma chateação que deve ter transparecido pelo seu rosto. Ainda não era tão boa em manter as coisas apenas por dentro aos vinte e um anos.


— Gab, está tudo bem? — Rebeca perguntou, notando uma confusão no rosto da prima.


Rebeca tinha se mudado nos últimos meses para ajudar Gabriela com a agenda, os compromissos, tudo isso.


— Está. Acho que... já bebi demais, Beca.

— Uma garrafa do seu vinho aqui — Era o Eroica.

— Isso, está bom, né?

— Acho que sim. Você geralmente bebe uma taça e, dessa vez, já foi a garrafa toda, prima.

— Então... — Respirou fundo — Acho que preciso ir ao banheiro.

— Vai lá, te espero aqui.


Gabriela pegou seu celular, sua bolsa e foi até o banheiro, tentando compreender o que estava acontecendo, que sentimento era aquele. Entrou em uma cabine, fechou a porta e ficou quieta por alguns instantes, tentando se acalmar por dentro. Por que estava tão chateada? Tão incomodada só de ver Bruna próxima de outra pessoa?


Sentou-se com a tampa do vaso fechada, pegou o celular, tentou distrair a mente com alguma coisa e acabou abrindo seu Kindle, dando uma olhada no livro que estava lendo. Ler sempre lhe aliviava. Estava lendo “Milk and Honey”, de Rupi Kaur, e abriu justamente na página que dizia:


“Você não simplesmente acorda e se torna a borboleta.”


Fez sentido. Tanto sentido que ficou apenas olhando para aquela página por um longo tempo, lendo e relendo, entendendo o seu efeito. Foi ficando mais tranquila. Devia ser culpa do vinho, era isso. Saiu da cabine e foi lavar as mãos, retocar a maquiagem e, quando ensaiava para recompor o seu delineado...


Prendeu o ar.


Bruna saiu da cabine ao lado da sua.


— Nessa direção não vai funcionar, Gab — Ela disse, vindo lavar as mãos ao seu lado, encostando.

— Você ainda consegue arrumar isso?


Bruna olhou de lado, abriu aquele sorriso.


— Pelos cinco drinques consumidos? Consigo fazer isso até perto de perder a consciência! Quer que eu faça pra você?


Gabriela olhava para ela. E a pegou.


Pela cintura, surpreendendo-a, enlaçou o braço naquela cintura e girou com ela, erguendo-a para o balcão da pia quase num movimento só, mantendo a proximidade que Bruna sempre criava. E da qual Gabriela nunca queria escapar.


— Eu não sou tão baixa, tá bom? — Ela respondeu, sorrindo.

— Não é, mas não foram só cinco drinques consumidos, eu sei. Agora, você pode arrumar — Gabriela entregou o delineador para ela, e Bruna...


A puxou para mais junto ainda com as suas pernas, pegando-a pelas coxas.


— Bruna...

— Foi ideia sua, fica bem aqui — Ela disse, quando os rostos estavam próximos o suficiente para sentir o calor da outra. Bruna molhou a boca sem sequer se dar conta, respirou um pouco mais fundo — Fecha os olhos, vou cuidar disso pra você.


Gabriela olhou para a boca dela, inconscientemente. Era melhor fechar os olhos mesmo. E, assim que sentiu os dedos dela no seu rosto outra vez... Lá estava, a mesma sensação da qual se lembrava, o cheiro de mel, argan e quinoa, a suavidade do toque. Nenhuma outra maquiadora era tão suave quanto Bruna. Agora, Gabriela sabia, o toque dela era diferente de tudo, os dedos eram quentes, suaves, era... Bom. Gostoso. Caramba! Como era gostoso.


— Bruna...

— Espera, espera um pouquinho — Ela já estava ajustando o delineado — Estou perto demais pra você? — Perguntou, com um tom mais baixo na voz, suave, atraente. Bruna estava com as pernas enroscadas nas coxas dela e não se sentia inclinada a soltar, a não ser que Gabriela pedisse.

— Não está perto demais, é só...

— Vi você me olhando lá fora, Gab — Seguiu em um tom baixo, e aquela voz rouca quando ela falava mais baixo... Gabriela se arrepiou. Torcia para que ela não tivesse percebido — E tô tentando interpretar, mas estou um pouco bêbada e não sei se estou em condições para interpretações — Terminou um olho, foi para o outro.


Gabriela respirou fundo, o coração muito disparado.


— O que você acha que viu?

— Uma pintura realista. A mulher... mais linda que eu já vi na vida, me olhando como se... — Bruna percorria o rosto dela com os olhos. Sua mente estava dispersa, difícil de organizar — Aquela noite em que a gente saiu...

— O que tem aquela noite? — Sem sequer perceber, Gabriela colocou as mãos na cintura dela.

— Olha pra mim — Bruna havia terminado.


Gabriela abriu aqueles olhos. Bahamas-esverdeados. Como podia? Bruna apertou os olhos, observando o olhar dela.


— Segue acontecendo, Gab.

— O que segue?

— Você me olhando como se me quisesse.


Vinte segundos de coragem. Só precisava de vinte segundos.


Gabriela ergueu a mão bem lentamente e tocou o rosto dela, com propriedade. Imediatamente, Bruna beijou o punho dela, sexy pra caramba, naturalmente sedutora. E não era apenas o coração de Gabriela que latejava.


Intensidade, imersão, isolamento.


— E se eu quiser?


Bruna entrou ainda mais nos olhos dela.


— Quiser o quê?

Você. Se quisesse naquela noite, se... estivesse sentindo ciúmes agora, Bru?


Bruna mordeu a boca e sorriu. Então, a puxou pela gola da jaqueta, trazendo-a na direção de sua boca.


— Muito ciúmes?

— Sou ciumenta — Gabriela aproximou o nariz do pescoço dela, buscando aquele cheiro delicioso — Sou libriana, decidida e indecisa, complicada e muito simples, nervosa, racional, mas ciumenta.

— E difícil de ser decifrada — Bruna enfiou a mão por dentro da manga dela, buscando pele.

— Ainda tá difícil...?


Bruna olhou para ela mais uma vez. Daí se inclinou para trás um pouquinho, as mãos sobre o balcão, usando-o como apoio, sedutoramente. Tudo nela era tão, mas tão atraente.


— Gab, você sabe o que eu sou? — Perguntou, sussurrando para ela.

— O que você é?


E, mais sussurrado ainda, Bruna respondeu, olhando reto naqueles olhos:


— Eu não sou boa. Você entende o que quero dizer?


Gabriela não teve voz para responder. Seus olhos estavam grudados em Bruna inteira, mas moveu a cabeça em afirmativa.


— Então pega o que você quer.


Vinte segundos de coragem.


Gabriela a pegou pela nuca e a beijou, puxou Bruna contra o seu corpo, tirando-a do balcão. O braço esquerdo firme na cintura, a mão direita subindo para a garganta, a boca deslizando pela boca dela. Um lábio pegando o outro. 


A língua de Bruna escapou para dentro daquela boca deliciosa, num beijo incendiado, mordido, pegado demais. Os seus pés tocaram o chão e elas se grudaram uma na outra. As suas mãos entraram por baixo da jaqueta, buscando pele, calor, então o toque escorregou, buscando os quadris de Gabriela e...


Ouviram a porta se abrindo.


Gabriela se moveu rapidamente, levando Bruna consigo para trás, encostando-a contra a parede quando um grupo de garotas entrou no banheiro. A porta aberta encobriu as duas enquanto o grupo passava apressado para as cabines.


— Aqui não — Pediu baixinho, trêmula inteira: mãos, pernas, coração.

— Então, onde? — Bruna não tirava os olhos dos dela.

— Bru...


Bruna se virou e a colocou contra a parede, pressionando-a com o seu corpo, uma mão a puxando pela jaqueta, a outra na mandíbula, subindo a língua pela garganta dela até beijá-la de novo, ardentemente. Os corpos se grudando, disparados, uma atração, um magnetismo, quente, denso, irresistível.


— Onde, Gabriela? — Perguntou novamente, buscando os olhos dela, e Gabriela...


Desceu o terninho pelos braços dela, e sua boca, praticamente sozinha, desceu para o decote, para entre os seios. Bruna mordeu a boca, jogando a cabeça para trás, então os dedos ancoraram na nuca dela.


— Onde?


Um barulho de descarga acordou a mente de Gabriela. Não podiam ser vistas. Não podia ser pega, não podia...


Deixar Bruna escapar.


— No estacionamento — Pegou a chave no bolso da jaqueta — Me espera lá, te encontro em dez minutos — Entregou a chave para ela.


Bruna a olhou nos olhos. Maliciosa, gostosa, um absurdo.


— Qual carro, Gab?

— É uma BMW 120i, Cabriolet, preta.


Outro sorriso de Bruna.


— Faz zero sentido pra mim.


Gabriela sorriu, ainda toda disparada.


— Eu sei; por isso, leva a chave, o alarme te sinaliza. Está no estacionamento B, perto da rampa.


Bruna selou os lábios dela.


— Não demora.


Saiu do banheiro no exato momento em que as portas das cabines começaram a se abrir, e Gabriela estava totalmente zonza, balançada, meio sem saber ainda o que havia acontecido, sem conseguir processar nada. Respirou fundo de novo e foi limpar o batom borrado na sua boca. Se recompôs e voltou para a mesa, onde conversou com Rebeca rapidamente. Explicou que precisaria sair, mas que ela não tinha com o que se preocupar.


— Gab, você vai sozinha?

— Preciso de um tempinho pra mim, tá? Limpa a minha agenda amanhã de manhã?


Rebeca a estudou com os olhos. Conhecia a prima o suficiente para entender que aquele comportamento era muito dela.


— Tudo bem. Se cuida. E me dá notícias, por favor.


Gabriela beijou sua prima na testa e foi para o estacionamento. Localizou sua BMW, ainda se sentindo inteira acelerada.


O que estava fazendo?


Deixou para pensar depois, pensar amanhã. Vinte segundos de coragem, só vinte segundos.

Abriu a porta do carro. Bruna já estava lá dentro, no banco do passageiro, mexendo no celular. Ela a olhou, e Gabriela a beijou, entrando no carro, agora um beijo mais suave, mais delicado, uma coisa gostosa no beijo que só havia encaixado.


— Tá com carro de influenciadora, Gab — Bruna sussurrou para ela, sorrindo.

— Eu quis me vingar pelo Mustang vendido — Gabriela abriu um sorriso também — Vamos sair daqui.


Saíram daquele estacionamento em uma velocidade que Bruna nem sabia se era legal. E, quando pegaram a rua, teve certeza de que não deveria ser legal mesmo. Gabriela dirigia em alta velocidade, sem dificuldade. As mãos de Bruna em cima dela, a mão direita de Gabriela que não conseguia soltá-la, os beijos nos faróis fechados, a noite imensa.


— Gabriela, você por acaso está me levando para um motel?

— Nunca!


Na verdade, dois minutos depois, estavam entrando no estacionamento de um hotel cinco estrelas.


Desceram de mãos dadas, já era quase madrugada. Gabriela não estava pensando mais. Havia decidido não pensar, por uma noite só, era tudo o que precisava. Fizeram check-in muito rapidamente, Gabriela cuidou de tudo. Correram para o elevador. Ela havia pegado a cobertura. Abriram a porta, Bruna entrou na frente, já tirando o terninho e sentindo as mãos dela em seus seios imediatamente, a boca atacando o seu pescoço, quente, urgente. Bruna se recostou nela, sentindo-a mais, e estava bom de ser apenas pega.


Se virou de frente e a beijou, já tirando a jaqueta dela, deixando-a no chão, puxando-a para a cama. E, quando ia abrindo a calça de Gabriela, o coração dela bateu tão forte que Bruna pôde sentir.


— Espera, espera... Gab, você bebeu? — Perguntou, parando o que estava fazendo e tocando o rosto dela com carinho, sentindo aqueles braços se enroscando em sua cintura.

— Uma garrafa de vinho.

— E dirigiu daquele jeito com a gente numa BMW?! — Bruna estava sorrindo, não era tom de bronca.

— Eu sei, só me dei conta disso agora — Gabriela abriu um sorriso também.

— Olha aqui pra mim — Buscou os olhos dela — Cadê o seu namorado?

— Não tem namorado.

— Tá solteira?

— Vai me interrogar mesmo?

— Solteira?

— Solteira, Bru, há muito tempo.

— E já ficou com alguma mulher?


Gabriela a olhou nos olhos. O tesão estava mordendo as duas demais, as pulsações disparadas. Negou.


— Achei que não. Escuta, eu estou morrendo de tesão e sei que você também está, Gab, mas não dá para fazer assim.

— Bruna...

— Eu não quero que você acorde arrependida amanhã porque fez uma coisa de que não tinha certeza, no calor da bebida, num tesão de balada. Ou forçada por mim — Bruna disse, com a testa apoiada no rosto dela.

— Você não me forçou a nada. Estou aqui porque quero, há três anos que quero, mas você bebeu bastante.

Uhum, eu sei — Bruna afirmou, agarrada aos braços dela.

— Então, eu sei que ainda vou te querer de manhã, depois, daqui a um mês, muito provavelmente daqui a dois, seis, doze. Já se foram três anos, afinal — Gabriela estava sorrindo e Bruna também.

— Eu não acredito que você está aqui me dizendo essas coisas — Bruna apoiou o rosto contra o peito dela.

— E eu não sei se vou ter coragem de repetir tudo de manhã, então nada de amnésia alcoólica, está bem? Bru, meu coração está disparado — Disse e fechou os olhos, sentindo-a tão perto.

— Eu sei, estou sentindo daqui. Escuta, por que a gente não vai para o banho?

— Juntas?

Juntas — Bruna a colocou sentada na cama e, em seguida, desceu para o chão, abaixando-se à frente dela — Vou tirar a roupa pra você.


O coração de Gabriela disparou. Era assim que ela não iria fazer nada naquela noite?


— Gab, você escolhe a música?

— Ai, Bruna.

— Quero que você me conheça primeiro.





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