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Vulnerável 16


Pessoas Certas São Atemporais


Foi absurdamente difícil tentar dormir naquela noite sem Gabriela ao seu lado.


Era tão absurdo a ponto de Bruna sentir vergonha. Sério que não conseguia parar de pensar nela? Nem de sorrir com cada coisa que lembrava. Seus olhos estavam brilhando, assim como os cabelos.


Além de não conseguir dormir, cada vez que se virava na cama, encarava o espelho e via sua versão mais bonita. Estava linda, saudável e feliz.


Estava muito ferrada e não tinha a mínima ideia de como tudo ficaria. Como poderia se tornar funcional novamente, cumprir sua agenda, mergulhar no trabalho quando, na verdade...


Queria estar em outro lugar. Fazendo outras coisas. Queria ver Gabriela de novo, precisava de outros momentos com ela, desejava levá-la para dançar, em um lugar onde poderiam fazer uma salsa roll e se divertir, ou só sair para jantar, ter almoços não planejados.


Queria levá-la para a praia.


E esse último pensamento se fez tão forte, criou tantas memórias falsas, que só conseguiu escrever isso para ela às duas e pouco da madrugada. E só então pegou no sono.


Acordou atrasada, com Dara repetindo em desespero que estavam ferradas, o trabalho era importante, como haviam perdido a hora? Bruna correu. Tomou banho, se vestiu de qualquer jeito, cropped branco, jardineira longa, jeans, boné sobre os cabelos. Pegou sua mochila de maquiagem e apenas partiu.


Foi de Uber até a estação, daí pegou o metrô, desceu e alugou uma bike para concluir o caminho. Passou num drive-thru, comprou um café e seguiu pedalando, tomando enquanto se aproximava do estúdio.


Chegou atrasada, mas feliz. E Bruna Ribeiro, quando estava feliz, era mesmo capaz de iluminar uma cidade inteira. O sorriso amplo, os olhos brilhando, e não tinha jeito: ela sempre seria a que mais teria atitude na maioria dos lugares, sempre a mais barulhenta numa sala. Bruna chegava e o clima mudava, a vibe crescia. Por isso, os fotógrafos a adoravam. As modelos também.


E falando em modelo...


Mandou uma mensagem rapidinha para a sua, que já estava fotografando em outro canto de São Paulo. Linda. Como podia ser tão linda? Gabriela mandou foto, e Bruna não conseguiu parar de sorrir para o celular.


— Quem é essa olhando toda apaixonada para uma foto no celular?

— Eu não estou olhando assim! Eu não estou... — Bruna disse, olhando de novo e perdendo a convicção do que estava dizendo bem rapidamente, porque não só olhou como sorriu para a foto.


Marcela veio até ela, a olhou bem nos olhos, muito de perto:


— Bru, você está claramente apaixonada. E eu nunca te vi assim antes. Estou somando uns fatos aqui, tipo: você sumiu daquela festa, a Gabriela sumiu também.

— Não sumiu! — Dizia, com menos convicção ainda, morrendo de rir.

— Sumiu, sim! Dei uma conferida — Marcela respondeu, sorrindo também — Daí, teve a compra de milhões daquele Vauthier que você exigiu que fosse no corpo da modelo, que, por coincidência, adivinha? Era a Gabriela! Amo os fatos todos, porque incluem a Gabriela, mas, ao mesmo tempo, os fatos me preocupam porque eles incluem a Gabriela. Fico em conflito.


Bruna abriu um sorriso, tomando um pouco do seu segundo café do dia.


— Eu... confesso que estou em conflito um pouquinho também, Mah.

— E você não precisa me confirmar nem me negar nada, porque, se a minha teoria estiver mesmo correta, quanto menos pessoas souberem, melhor. Sou uma shipper, porque acho que vocês combinam muito, e também porque a Gab não tem nada a ver com essa vida diferente que ela leva. Mas conheço a família dela. Então, quanto menos gente souber, em caso positivo dessa hipótese, melhor. Eu não faço ideia do que pode estar acontecendo nessas últimas 72 horas, mas acho que... tenho um pouquinho de razão.


Bruna respirou fundo. Marcela sorriu.


— Que tempo para isso acontecer, Bru.

— Eu sei. Nova York está bem ali, no final do mês, a gente não sabe bem o que vai acontecer, mas quero tentar o meu curso lá.

— De Cosmetologia Estética. Acho mesmo que você tem que tentar. Só é... interessante ter acontecido justo agora.

— Fiquei pensando: pessoa certa, hora errada. Mas, por outro lado, eu li esses dias de uma autora de quem gosto muito que isso não existe, na verdade, porque pessoas certas são atemporais. Se é a pessoa certa, não vai ser impedimento, e depois que pensei sobre isso, consegui dormir — Bruna havia pensado sobre tudo e sobre a praia, então conseguiu dormir.


Marcela ponderou um tanto.


— Acho que você está certa mesmo. Pessoas certas são atemporais, a gente não tem que se preocupar tanto antes de entender como cada coisa é ou será. Vamos lá, você está certa, certíssima! Agora desça essa cabecinha das nuvens e vamos trabalhar!


E tinham muito a fazer. A manhã foi extremamente corrida. Bruna mal teve tempo de almoçar, comeu rapidinho e retornou, mas, entre um momento e outro, dava um jeito de responder seu Telegram. E, sim, estava grudadinha em Gabriela. Um, porque era gostoso. E dois, porque era impossível não ser assim.


Estava correndo, trabalhando, e ela em sua mente o tempo inteiro. Gabriela também estava tendo um dia cheio, almoçou correndo e foi para o seu próximo trabalho. Ambas estavam exatamente na mesma situação, fazendo todos os trabalhos possíveis antes da viagem, juntando o máximo de dinheiro.


O dia passou em um sopro. Quando Bruna deu por si, eram cinco da tarde e... estava livre? Estava, havia conseguido, mas sabia pela agenda de Gabriela que ela não estava. Partilharam suas agendas no dia anterior e, depois da filmagem que faria à tarde, Gabriela teria aula presencial na faculdade.


Ela estava se formando em Arquitetura, era o seu último ano. Iria entrar numa pós em Milão e não sabia bem como conseguiria conciliar com o trabalho. Estava ansiosa com isso.


Sabendo disso, Bruna decidiu tirar um tempo para si mesma. Tudo parecia uma bagunça, precisava clarear a mente um pouquinho antes de qualquer coisa, limpar suas emoções, tentar encaixá-las num determinado lugar, era assim que funcionava melhor.


Então cuidou de seus materiais de trabalho minuciosamente, encaixando todas as coisas nas maletinhas, que depois acomodava na mochila. Checou seus e-mails, respondeu tudo o que estava pendente, deixou sua caixa de entrada em ordem e lembrou que precisava ler um pouco sobre o seu curso em Nova York.


Pegou sua mochila, decidiu ir andando, caminhar até encontrar um café legal onde pudesse ler, comer alguma coisa. Bruna havia acabado de concluir seu Tecnólogo em Estética, no qual havia ingressado imediatamente após conhecer Gabriela.


Isso era engraçado. Provava alguns pontos sobre o tanto de inquietação que aquele primeiro encontro havia causado. Saiu dele querendo se conhecer melhor, melhorar como pessoa e profissional.


Se queria mesmo ser a melhor maquiadora, estudaria para isso, e foi um parto atrás do outro terminar aquele tecnólogo a distância, mas, no final, havia conseguido. E agora não via a hora de ingressar na área científica da estética, que era o que realmente a interessava.


Só esperava conseguir. Não tinha o melhor inglês, mas era adepta do "só se aprende fazendo" e lá ia ela, para o maior desafio da sua vida até então.


Saiu do estúdio, que ficava numa rua paralela à Paulista, bem mais tranquila e, quando ia se preparando para colocar seus fones de ouvido...


Ouviu um assovio. Mas não qualquer assovio. Era um assovio musical, em uma melodia que Bruna tinha certeza de que já havia ouvido. Tinha ouvido, tipo... ontem?


♪ Hey girl... ♪ — ♪ Ei, garota... ♪ O assovio parou, ela disse essa frase e continuou. Quando Bruna olhou para trás, deu uma gargalhada.


Não era possível!


♪ Make ’em whistle like a missile bomb, bomb... ♪ — ♪ Faça todo mundo assobiar como um míssil, boom, boom... ♪ Ela seguiu na música, sorrindo demais, a BMW andando bem devagarinho ao seu lado. O vidro abaixado, uma gata de boné e óculos escuros assoviando e cantando “Whistle”. Bruna havia acabado de lembrar que música era aquela.

— ♪ Every time I show up, blow up, uh... ♪ — ♪ Toda vez que eu chego, eu explodo, causo impacto, uh... ♪

— Você lembra da letra!

— Você me fez ouvir muitíssimas vezes, né?

— Tenho hiperfoco, Bru, me desculpa! — Ela falava e sorria. Como podia? Bruna ia andando de costas, falando com ela, vendo aquela gata naquele carrão e, sinceramente... — Mas você gostou do som da minha bandinha?!

— Gostei! Elas, inclusive, estão na minha cabeça até agora. Igual a você — Bruna sorriu e veio para pertinho do carro. Gabriela parou — O que você está fazendo aqui, Gab?

— Perseguindo você! Entra aqui? Me deixa te levar para tomar um café, meu amor?


Como não entrava? Bruna deu a volta correndo e, assim que entrou, se agarrou ao pescoço dela, puxando-a para pertinho, beijando-a demais porque já estava doente de saudade. Gabriela sorriu com o ataque, puxando-a pela cintura, encontrando pele onde podia tocar. Como podia ser tão cheirosa, tão gostosa?


— Vou achar que você colocou um rastreador em mim desse jeito, Gab — Disse, ainda toda agarrada nela.

— Coloquei, mas você permitiu quando me deu acesso à sua agenda — Gabriela respondeu, sorrindo demais — Vi que você tinha trabalho até às cinco e vi que era aqui, daí pensei: será que consigo achá-la se der umas voltinhas? Decidi arriscar.


Bruna olhou bem para ela. A beijou outra vez.


— Veio da Vila Cordeiro até aqui, linda?

— É meia horinha só, Bru. Meia hora não é nada para quem estava morrendo de saudade, como eu. Meu corpo está entrando em abstinência. É sério isso? É assim que funciona quando a gente se apaixona muito?


Bruna sorriu só de ouvir aquele verbo... apaixonar.


— Não sei bem, é a primeira vez que estou apaixonada também — Respondeu, e aqueles olhos lindos, verde-baja-mar, apenas se iluminaram.

— Você promete?

— Ah, Gab, para de ser doce assim, eu já estou bem derrubada, sabe? — Bruna recebeu beijos e sorrisos em troca.

— Promete, Bru, vamos!


Bruna olhou naqueles olhos que já amava. A beijou de novo, tocando o rosto dela, tirando o boné.


Estou apaixonada por você. E nunca estive antes, é tudo verdade.

— A ponto de aceitar namorar comigo...? — Gabriela perguntou, beijando a mão que Bruna usava para tocar seu rosto.

— Gab... — O coração de Bruna quase parou no peito.

— Aceita? Pode dizer não se quiser, eu sei que é cedo, mas fiquei pensando que, se deixar para pedir depois, vai ser tarde. A gente vai viajar, vai namorar por menos tempo ainda e...


Bruna gargalhou alto e a beijou longamente, puxando-a todinha para si.


— Eu aceito! Por livre e espontânea pressão do meu coração. Não importa o tempo, se vai durar muito ou pouco, eu aceito, meu amor, aceito agora, para não perder mais nada, nem um segundo que seja.


E foi assim que elas chegaram à refinada Casa Mathilde, uma conceituada padaria/doceria portuguesa no centro de São Paulo, já namoradas.


Gabriela não conseguia evitar. Estava pensando em Bruna o dia inteiro, em como podia ter mais dela, ter algo concreto, um jeito certo de chamá-la na sua mente. Ficou tão hiperfocada nisso que quase não conseguiu trabalhar. Sua irmã caçula havia chegado para passar uns dias em São Paulo, foi outra coisa que abarrotou a sua agenda, mas, assim que chegou ao aeroporto para buscar Martina, a situação estava tão intensa que só... escapou de sua boca.


Quando percebeu, estava dirigindo para o estúdio onde trabalharia e confessando tudo para sua irmã, que não conseguia parar de rir. Martina era cinco anos mais nova e estudava em Portugal. A primeira coisa que ela perguntou, após ouvir toda a história, foi por que Gabriela não havia pedido Bruna em namoro.


— Mas pedir assim, já?!

— Você não estaria tão perturbada se tivesse pedido antes, Gab.


Ela tinha alguma razão nisso. Contou tudo para Bruna, que não conseguia parar de rir da situação.


— Você foi só entregando a gente, meu amor — Comentou, olhando para a bela mesa que havia sido servida: cafezinho, leite, pastéis de Belém, sonhos, uma delícia.

— Bruna, eu não sei bem como vou fazer isso sem ter vazão. Tudo é intenso, fica... se movendo aqui dentro. E eu gosto de compromissos.

— Toda boa menina gosta, minha linda. E eu gosto de ser sua namorada, estou no cargo há menos de uma hora e já amo — Bruna disse, fazendo-a sorrir.

— Jura que está, amor? Que não aceitou na pressão?

— Gab, nós aceitamos sob a pressão de uma adolescente de dezessete anos, que soube o que fazer melhor que nós duas juntas — Bruna respondeu, sorrindo, mordendo seu pastel de Belém, que estava delicioso — Hum, ela é um amorzinho, por falar nisso.

— Martina realmente é. Ela é diferente da minha mãe e do meu irmão, é dócil, é aberta, pensa muito diferente. Acho que estudar longe da família acabou fazendo muito bem para ela. Ela... quer conhecer você.

— E eu vou adorar conhecê-la também! Mas, Gab, você não tinha aula hoje?

— Tenho, mas eu não sei bem como... poderia ir sem ver você. Daí decidi vir, depois corro para pegar a matéria, dou um jeito.


Ficaram juntas mais um tempinho naquele lugar. As duas eram conhecidas? Eram. Mas não causavam grandes comoções fora dos holofotes e foi disso que se aproveitaram naquela primeira semana, em que descobriram estar com grandes problemas.


Não conseguiam ficar separadas por muito tempo. Entenda-se por muito tempo: 24 horas. Era impossível, não davam conta. Seguiram correndo com suas agendas, mas não se desgrudavam do celular, estavam sempre se falando.


A São Paulo Fashion Week seria a última agenda das duas no Brasil, e eventos grandes exigiam bastante atenção, publicidade, ensaios, reuniões. Pela primeira vez, amaram a burocracia da SPFW pelo simples fato de colocá-las no mesmo ambiente. E, se estavam perto, davam um jeito de escapar para um café, de almoçar juntas, fosse nos refeitórios de estúdios ou em outros lugares. E, ainda quando não estavam, o jeito era dado da mesma forma.


Gabriela dirigia para onde Bruna estivesse. Nada era problema, problema mesmo era não se verem. E o tanto de encontros que tiveram no carro só naquela semana foi demais. Porque, quando se sentiam mais observadas, o carro era a melhor solução.


A agenda das duas virou uma bagunça: compromissos atrasados, reagendados, espaços em branco onde não estavam disponíveis, mas ninguém sabia o motivo. Gabriela dizia que estava correndo com os trabalhos e o estudo, Bruna dizia o mesmo, e o tempo reduzido em casa também chamava atenção.


Mas a pressão que veio da família de Gabriela foi algo bem diferente.


Não deu uma semana e Débora Habren começou a ligar, a questionar. Gabriela havia terminado um namoro e agora não parava mais em casa, dormia fora o tempo todo. Aquele tipo de pressão sempre a deixava ansiosa. Em uma das noites, ficou tão nervosa que não conseguia dormir, escreveu para Bruna à uma da manhã e, de alguma maneira, cerca de quarenta minutos depois, recebeu a seguinte mensagem:


“Estou aqui embaixo, quer descer para conversar, linda?”


Gabriela não acreditou.


Desceu correndo e na ponta dos pés, porque não queria acordar Rebeca. E, quando chegou à portaria, lá estava Bruna, de moletom, boné, terminando de pagar o táxi.


Gabriela a beijou na portaria, dane-se a câmera de segurança, dane-se que alguém poderia estar vendo. Sua namorada havia saído de Pinheiros às duas da manhã, entrado num táxi e vindo encontrá-la no Brooklin, apenas porque ela estava ansiosa.


— Meu amor, deve ter câmeras aqui — Bruna disse, sorrindo depois do beijo, sem soltar a cintura dela.

— Eu não acredito que você veio, Bru!

— Claro que vim! Quem sabe acalmar minha namorada no meio de uma crise?


Gabriela a olhava nos olhos, sorrindo demais.


— Você!

— Exatamente! Então eu vim. Tem um lugar aqui onde podemos ficar um pouquinho, conversar, até você se sentir melhor?

— Tem sim.


E o lugar que tinha era o quarto de Gabriela.


Bruna não acreditou quando subiram no elevador. Gabriela não devia estar bem da cabeça. Como podiam só...?


— A gente pode, o apartamento é meu, é claro que a gente pode, linda.

— Gab, mas... espera. Você já parece mais calma, melhor.

— Melhorei mesmo, mas assim que te vi descendo daquele carro — A beijou de novo, mantendo-a muito pertinho de si, uma mão na cintura de Bruna, a outra no rosto dela — Fiquei bem só de ler aquela mensagem, só de ver você aqui. Nunca ninguém fez isso por mim.

— Nunca ninguém atravessou uma cidade como São Paulo todos os dias dirigindo só para ficar uns minutinhos comigo — Bruna ficou na ponta dos pés para abraçá-la bem forte, grudando-a contra o seu corpo.


Gabriela a cheirou, afundou o nariz no ombro dela. Mel, argan e quinoa.


— Dorme aqui comigo hoje, Bru.

— Tenho uma agenda muito cedinho, meu amor, tipo às oito da manhã.

— Eu também tenho. A gente sai umas seis, antes da Rebeca acordar.


Bruna se afastou um pouquinho, apenas para olhar naqueles olhos lindos.


— Preciso aprender a dizer não para você.

— Mas pode ser a partir de amanhã...?


Bruna se derreteu, sorrindo. Podia, podia ser a partir de amanhã.


Entraram no apartamento na ponta dos pés, Gabriela quis fazer um tour silencioso para sua garota. Estavam namorando e ainda não conheciam a casa uma da outra, era estranho. Então, mostrou tudo para ela e depois foram para o quarto, onde já entraram aos beijos, onde os corpos se grudaram um no outro e foram buscando a cama naturalmente, obedecendo ao desejo.


Era sempre tão bom, nenhuma das duas conseguia explicar. Na mínima possibilidade, se beijavam, faziam amor, e era denso, era na pele, entrava e pegava na mente, na alma. Era assim estar apaixonada? Era assim estar... amando alguém? Bruna se virou de lado, totalmente nua, sentindo Gabriela fechar seu corpo numa conchinha. Amava sentir o corpo dela, os braços em volta de si, o cheiro dela depois que faziam amor. Era uma memória olfativa que levaria por muito tempo.


Depois que tudo deu errado, por noites, Bruna ainda acordaria com aquele rastro em cima de si, abraçando-se a braços fantasmas no seu corpo, a ponto de quase sentir o cheiro dela. Era só então que seu corpo a acordava. Quando o cheiro estava tão perto de existir, mas não podia, porque Gabriela não estava mais ali.


Mas, naquele momento, essa era a melhor sensação do mundo.


— Eu queria tanto te levar para a praia — Bruna disse para ela, abraçando aqueles braços que já amava em si.

— É seu tipo de encontro preferido, não é? — Gabriela perguntou.

— É, e eu nunca fui à praia de romance, Gab. Fico imaginando como deve ser bom.

— Você ajustou a sua passagem, linda?

— Ajustei, eu vou no mesmo dia que você.


Sendo assim, haviam ganhado mais um tempinho antes de se separarem.


Dormiram por umas duas horas apenas e acordaram antes das seis.


Tomaram banho juntas. Bruna se vestiu com roupas de Gabriela: calça jeans, um cropped comportado, gola alta, jaqueta jeans e, quando terminava de ficar pronta, sua garota voltou para o quarto com uma bandeja de café da manhã com suco, café, pães, frutas, chá de limão que Bruna amava.


Tomaram café assim, silenciosas e sorridentes, falando baixinho para não acordar Rebeca, então concluíram o plano com sucesso: conseguiram sair antes de ela acordar. Gabriela levou Bruna pra casa, ela precisava pegar suas coisas antes de ir. Dara ainda dormia, então saiu correndo de volta para o carro, onde puderam ficar de namoro por meia hora antes de seguirem para os seus compromissos.


Como faria aquilo? Ficar longe dela? Gabriela entrava em ansiedade.


Os próximos dias se mostraram ainda mais desafiadores. A agenda apertando, Débora pegando no seu pé para que não dormisse fora tantas vezes. Como podia existir esse tipo de pressão? Gabriela já era maior de idade. E tinha medo de que Bruna a julgasse por isso, que a achasse fraca, mandada. Por outro lado, realmente ainda se sentia assim, meio fraca, sem voz para responder melhor. Precisava aprender a dizer não, mas havia obedecido uma vida inteira.


Para sua sorte, tinha ao seu lado a namorada mais compreensiva possível.


Bruna era uma grata surpresa o tempo todo. Gabriela era ciumenta, e sua namorada vivia rodeada de mulheres lindas, de modelos que gostavam de se exibir e sabiam muito bem que estar com Bruna entregava exposição. Os sites de fofoca a adoravam, e a bissexualidade era uma tendência forte naquele momento, causava interesse. Era engraçado que algo tão natural e secular ainda pudesse ser uma tendência, como se fosse novo, mas enfim.


O milagre era que não sentia ciúme de Bruna. Sentia-se tão segura com ela que não cabia isso.


Bruna estava comprometida, deixava isso claro. Mas não podia dizer quem era, então redobravam o cuidado, porque, se Gabriela fosse apenas apontada como uma possível namorada, sua mãe pegaria o primeiro voo da Itália para o Brasil apenas para conferir aquela história direito. E isso causava um conflito.


Gabriela não queria outros nomes apontados como possíveis namorados e namoradas de Bruna, mas, ao mesmo tempo, não podia ser esse nome. E, naquela sexta-feira especificamente, véspera do evento, doeu um pouquinho mais do que o comum.


Ouviu que uma modelo tinha levado um fora de Bruna. A tal moça contou, naturalmente, que havia tentado se aproximar e sido delicadamente recusada por ela, rindo, de boa, numa naturalidade que Gabriela não sabia se um dia poderia ter.


— Ela é misteriosa e acessível, Bruna Ribeiro é assim — A modelo contava para outras duas modelos.

— É isso que gosto nela, esse mistério é atraente demais.

— Você quer dizer que ela é atraente demais, a mulher é linda! Estava lá, após doze horas de trabalho, já sem maquiagem e linda pra caramba. Não estou acostumada a ver maquiadoras bonitas assim. Gente bonita como ela está fotografando, não maquiando.


Elas tinham razão em cada um dos pontos levantados. E Gabriela só... sentiu que precisava de mais. Fazer mais, estar mais com ela, entregar mais, foi a sensação que teve.


Mandou uma mensagem para Bruna: será que sua namorada conseguiria limpar a agenda por quatro dias? Antes da viagem e depois da SPFW? Bruna disse que iria tentar, sequer perguntou para o que era, estavam naquela correria de bastidores.


Gabriela fez seu desfile, depois correu para o seu segundo desfile da noite e, quando estava se preparando para o terceiro, recebeu a resposta. Bruna conseguia, e imediatamente Gabriela abriu sua agenda e bloqueou aqueles dias. E acontecia também que, para todas as coisas de sua vida, tinha Rebeca para resolver, mas, para algo que envolvia Bruna, sempre tinha que resolver sozinha.


Resolveu tudo enquanto era maquiada e, quando foi para a passarela, estava muito mais leve só de imaginar os dias que teriam pela frente.


Encontraram-se de madrugada, no momento em que tudo já tinha acabado. Já eram quatro da manhã e uma BMW parou ao lado de Bruna, que estava esperando no estacionamento. E lá estava sua modelo, ainda com roupa de gala, o rosto da Versace naquele ano, refinada, glamourosa, tudo o que a marca pedia, e Bruna era só...


Rendida demais. Como podia?


— Entra, meu amor — Gabriela abriu a porta, sorrindo.


Bruna entrou e a beijou antes de qualquer coisa.


— Você está linda, linda!

— Você está linda sem nem precisar tentar, como sempre. Bru, eu quero fazer uma loucura.

— Loucura? Está falando com a pessoa certa! Que loucura você quer fazer, meu amor?


Gabriela olhou naqueles olhos lindos e a beijou outra vez, abriu um sorriso.


— Quero ir para um hotel agora, dormir por umas quatro horinhas e, depois, partir para Ilhabela — Disse e viu surgir em Bruna o maior sorriso do mundo.

— Ilhabela? Como é que...?

— Peguei uma casa lá pra gente, pequena, mas aconchegante, com uma prainha privada só ao descer as escadas. Não vai ter fotógrafos, não precisaremos tomar cuidado, seremos só... nós duas, por quatro dias. O que você acha, linda?


Bruna achava que amar alguém em quatro semanas não era absurdo nenhum.


Pegaram um hotel daqueles cinco estrelas que andavam colecionando. Nenhuma delas havia levado nada para uma viagem de quatro dias, havia sido uma ideia que surgiu de forma absolutamente inesperada, mas não se preocuparam com isso. Tomaram banho juntinhas, fizeram amor, se viraram com as roupas que estavam no carro de Gabriela. Já era um costume agora, sempre tinham algumas roupas à disposição caso aparecesse a mínima brecha para ficarem juntas.


Tinham um kit básico de sobrevivência sempre nas mochilas: escova de dentes, creme dental, itens de higiene pessoal.


Dormiram de conchinha, muito agarradas, e acordaram inteiras, cheias de disposição. Iriam para a praia! Bruna ainda nem estava acreditando naquilo, iriam para a praia e não via a hora de chegar.


Tomaram café no salão do hotel e quem olhasse poderia dizer que se tratava de um casal. Estava nos gestos, nos cuidados, na atenção que davam uma à outra. Desceram de moletom e boné, óculos escuros, tentando ser o mais discretas possível.


Porém, a primeira foto delas juntas foi tirada ali, no café da manhã, no Rosewood.


Ninguém saberia dizer quem foi, se foi um hóspede ou um funcionário, ou um fotógrafo, mas fotos foram tiradas sem que elas sequer fizessem ideia.


Antes do almoço, já estavam na estrada, ouvindo suas músicas, numa playlist muito delas, super diversificada, e os sorrisos estavam enormes, os olhos brilhando demais. Foram mais de seis horas de viagem, porque pararam para almoçar, para comprar roupas de praia, para um café da tarde numa cafeteria de estrada. Não tinham pressa, o tempo em si era pouco, mas elas sabiam aproveitar cada segundo dele.


Então o mar começou a se mostrar, começou a acenar, e Bruna ganhou mais brilho ainda. Haviam avisado Dara e Rebeca que ficariam fora e só colocaram os celulares em modo avião. Nada iria perturbá-las.


Nem o fato de terem que embarcar para destinos diferentes em seis dias.


Chegaram a Ilhabela e era simplesmente... linda demais! Enchia o peito. O mar azulzinho, calmo, as belíssimas montanhas, a ilha que subia cheia de morros e ladeiras que só conseguiam ser vencidas por motoristas experientes. Sorte de Bruna ter uma piloto ao seu lado.


Havia muitas casas, hotéis e pousadas, mas, conforme foram subindo, o caminho foi ficando mais deserto. As casas de praia ficando mais espaçadas, o verde tomando conta de tudo enquanto podiam ouvir o mar.


Bruna nunca havia estado em Ilhabela e já estava entendendo perfeitamente o motivo do nome. Era bela mesmo, em cada subida, cada curva, cada rastro da natureza. Subiram, então começaram a descer e foi no meio daquela descida que, de repente, Gabriela parou o carro.


— É aqui, Gab?

— Acho que sim, linda — Disse, a beijando rapidinho — Espera aqui, vou resolver.


Ela desceu, abriu o portão e uma casinha super estilosa surgiu, ao fundo de um jardim enorme, cheio de verde, com grama, árvores, flores. Gabriela voltou para o carro, e Bruna estava radiante. Era a melhor definição.


— Amor, é... aqui mesmo?


Gabriela sorriu, beijando-a.


— Eu não vejo a hora de te mostrar lá dentro, Bru!


Entraram e tudo era deslumbrante. Era uma casa relativamente pequena, de dois andares, toda feita de vidro, pedra e madeira. A luz natural estava por todos os lados, tinha cozinha e sala integradas, um espaço na varanda para leitura, piscina no jardim e um belíssimo quarto no andar de cima, muito espaçoso, com uma cama king, um banheiro grande, com chuveiro e banheira, o que fez Bruna simplesmente saltar no pescoço de Gabriela. Tinham uma banheira com vista para o mar.


— Temos o mar, meu amor. Quer olhar lá embaixo?


Queria! Desceram correndo por uma escadinha de pedras e, de repente, estavam numa praia. Pequena, com uns vinte metros de areia no máximo, mas o mar estava ali, rodeado pela casa e pela densa floresta, inacessível por qualquer outro caminho que não fosse por dentro do terreno.


Era inacreditável o que Gabriela havia conseguido em tão pouco tempo.


— Gab, isso tudo...

— Você gostou, meu amor? Escolhi pensando em você.


Bruna se virou de frente, passando os braços pelo pescoço dela.


— Escolheu assim porque você é perfeita. E, de alguma forma, é minha. Linda, eu não quero me separar de você. Mesmo a gente viajando em seis dias, para lugares absurdamente longe um do outro. Quero sair daqui sua namorada, chegar lá sua namorada. Você entende?


Gabriela a abraçava pela cintura, olhando aqueles olhos que já amava.


— Entendo. E quero. Quero isso mais do que tudo.





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