top of page

Vulnerável 17


O Monstro


Renaissance São Paulo Hotel, tempo atual.


Já tinham terminado o jantar há muito tempo e estavam embaixo das cobertas, as duas ainda de roupão, o programa passando na TV, mas no mute, para que pudessem conversar melhor. Já era quase madrugada, mas a história estava tão interessante que Gio seguiu perguntando, querendo saber mais.


— Mas, se eu for te contar tudo, vamos passar uns dois dias trancadas aqui dentro, Gio — Bruna sorriu.

— Ainda tem muito mais coisa?

— Tem bastante. Isso que te contei foi só o começo, quando tudo ainda estava dando certo. Os problemas começaram a aparecer depois desses dias que a gente tirou em Ilhabela.

— Vocês ficaram sem os celulares mesmo, Bru?

— O tempo todo. Isso foi a melhor e a pior decisão que tomamos, porque, assim que os celulares foram ligados novamente...


Gio sentou-se na cama, olhando-a melhor.


— Realmente tinha alguém fotografando vocês no café da manhã?

— Tinha. Um fotógrafo infiltrado no hotel. Naquele momento, nós tínhamos destaque, mas era um destaque mais de bolha, sabe? A bolha da moda nos conhecia, a dos influencers no Instagram também, mas não era algo a ponto de eu ser reconhecida em qualquer lugar. Então, pra mim, ainda que alguém tivesse fotografado, eu estava tranquila. Um cara qualquer postou? Logo seria esquecido. Eu só não havia entendido ainda o peso do sobrenome Habren e o estrago que algumas fotos poderiam causar. As fotos foram publicadas num dia e retiradas no outro, porque Débora Habren comprou tudo.

— Mas essa mulher não estava falida?

— Ela estava, mas isso foi antes dos contratos da Gabriela. Daí, ela saiu da falência com sucesso, e o que vi quando a conheci foi uma máquina de multiplicar dinheiro. Cheguei à conclusão de que quem realmente faliu a família foi o pai. Eu a admiro nisso. Apesar de todos os milhares de problemas que temos, admiro a empresária que ela é, me espelho nela em alguns momentos. Fico pensando no que Débora faria no meu lugar e, às vezes, até pergunto diretamente para ela. Ela gosta e não gosta. Detesta que eu pergunte, mas ama quando acabo fazendo o que ela diz — Bruna contou, sorrindo.

— Então vocês têm uma relação?

— Uma péssima relação. Mas temos. Foi no caos dessas fotos que nos confrontamos pela primeira vez. Claro que ela baixou da Itália para o Brasil em horas, e você tinha que ver o pavor no rosto da Gabriela. Eu só... não podia deixá-la ir sozinha encontrar a mãe. Na verdade, sozinha ela nem iria, já estava entrando em crise. Então acabei indo com ela até o hotel onde Débora estava. Minha educação não durou três minutos diante dos absurdos que aquela mulher estava dizendo. Ninguém assumiu nada, não se falou de namoro, não era preciso. Aquela conversa se resumiu a Débora me expulsando da vida da Gabriela. E, como a gente viajaria em breve para lugares bem distantes, acho que ela ficou tranquila. Pensou que apenas havia sido um momento, mas que a distância resolveria a nossa “amizade”.

— Imagino que ela estava errada.

— Muito errada! Mas isso realmente não é assunto para agora. Está tarde, eu tenho programa amanhã cedo e imagino que você nem deve estar dormindo direito por esses dias. Já não dorme bem normalmente e, com a agenda atual...

— Tem sido corrido mesmo — Gio disse, voltando para perto de Bruna e se agasalhando bem junto dela — Bru, que tipo de mãe causa crises de ansiedade na própria filha?

— O tipo monstro. Débora Habren não merece as filhas que tem. Eu não sei exatamente como andam as coisas agora, mas acho que a Gabriela está diferente. Está aceitando menos, agindo mais.

— Você acha que ela mudou muito?


Bruna respirou fundo.


— Acho que ela cresceu.


Isso se aplicava perfeitamente à figura que Gabriela Habren vinha assumindo dentro da casa.


Último dia da liderança de Gabriela, segunda manhã de Bruna de volta ao mundo real, e as duas acordaram com a mesma expressão no rosto: precisavam lutar.


O tabuleiro tinha zerado de novo, as jogadas estavam outra vez dispostas. Era como Gabriela via aquele jogo, um grande tabuleiro de xadrez, em que novas partidas se iniciavam todas às quintas. Tinha sido uma semana vitoriosa, não tinha?


Não sabia.


Achou mesmo que ficaria melhor sem Bruna por perto, mas agora aquele jogo parecia imensamente vazio de rainhas.


Era nisso que pensava enquanto tomava uma xícara de chá de hortelã sozinha, olhando para aquela cozinha externa, onde havia vivido uma cena igual, mas acompanhada, na primeira manhã de confinamento. A câmera pegando tudo cinematograficamente, mostrando o sol da manhã, a cozinha vazia, percorrendo o gramado, então chegando até Gabriela. A xícara de chá, o short de muay thai, o camisetão, os pés descalços, os cabelos soltos, os olhos extremamente claros, absurdamente bonitos. E a trilha sonora do edit da noite não teria Dido, e sim... Olivia Rodrigo.


Traitor.


Nuna sentou-se ao seu lado.


— Pensando em quê, Gab?


Gabriela a olhou. Tomou outro gole do chá, encarou a cozinha novamente:


— Que você é uma bela rainha.


No Renaissance, Bruna e Gio terminavam de se arrumar. Giovana também estava hospedada naquele hotel; foi o jeito que encontrou para conseguir falar com Bruna. A agenda pós-eliminação era insana. Mas, antes de voltar para a correria, ainda tiveram algumas horas juntas pela manhã.


Porém, algo estava errado com Gio.


Bruna se aproximou, tentando descobrir.


— É que sei que você não vai gostar, Bru. Mas também sei que preciso falar disso logo.

— Giovana...


Ela acabou confessando que havia visto o vídeo íntimo de Bruna. E quando Bruna já estava ficando mais do que furiosa, parou, porque, além de ter visto, Gio, de alguma forma, havia descoberto quem estava no vídeo também. A fúria passou quando Bruna entendeu o jeito como ela havia conseguido identificar Gabriela por um milésimo de segundo, no instante em que a manga do moletom se moveu.


Bruna começou a rir.


— Como é que...? Mas como, Gio?


Ela pegou os prints e mostrou.


— Aqui! Aparece por quase um segundo. Como ninguém viu isso antes? As sapatonas detetives já foram melhores, viu?

— Meu Deus, Gio, isso... isso é assustador, tá?!

— É o que qualquer mulher com faro de FBI faria na minha posição, Bruna Ribeiro, analisar minuciosamente, quadro a quadro.

— Eu jamais conseguiria! — Bruna estava sorrindo grande demais.

— Eu sei, você é diferente, meu amor. É segura de si, isso muda o mundo — Gio ficou um pouco mais séria — Bruna, você acha que... a Gabriela vazou esse vídeo?


Bruna respirou fundo. Estava linda naquela manhã, toda de preto, porque não tinha intenção de parecer boazinha. Queria parecer ela mesma; essa sempre era a melhor saída.


— Achei que tivesse sido, porque estava no celular dela. Mas, ao mesmo tempo que acho, também não consigo acreditar. A Gabriela sempre me empoderou tanto. Sempre me incentivou a ser quem sou, sempre me disse para dançar. Inclusive, a última coisa que ela disse quando nos afastamos foi: “Eu espero que você siga dançando.” É uma frase que não é apenas sobre dança em si, mas...

— Sobre quem você é de verdade.

— É isso. Mas o vídeo estava no celular dela.


Nunca faria sentido para Bruna.


Terminaram de se arrumar e desceram juntas, já depois do café da manhã no quarto. Gio fez questão de descer ao lado de Bruna, de mãos dadas com ela, e de acompanhá-la até o carro que a esperava na entrada do hotel, cercado de fotógrafos e jornalistas. Então, fez questão também de parar com Bruna e, sem soltar sua mão, falar com a imprensa, explicando o que havia entre elas, que já haviam conversado e que estavam separadas romanticamente, mas jamais separadas da vida uma da outra.


— Relacionamentos não têm que terminar, apenas mudar de natureza — Completou, de óculos escuros, parte dos cabelos presos para trás, linda. As câmeras jamais fariam jus à beleza de Giovana Jordí! — Amo a Bruna e sei que ela me ama também. Estou aqui por ela e ela por mim, e está tudo em ordem.

— Ela é vinte anos mais madura do que eu, essa é toda a diferença — Bruna quebrou o clima, deixando tudo mais leve.


Despediram-se rapidamente, flashes e mais flashes, uma última conversa entre elas, e cada uma entrou em um carro. E o carro de Bruna não estava vazio.


— Bittencourt! Você sabe que eu te amo, que sou louca por você, apesar de você ser grossa, mal-educada, não ter sentimentos.

— Tá! Para de me elogiar, vai logo para o “mas”... — Júlia respondeu, sorrindo, dando ordem para o motorista partir.

Mas quero ver a minha família! Quero ver a Dara, a minha avó. Quando vou poder ir ver a minha vó?

— Em breve, prometo que em breve. E a Dara você verá hoje, provavelmente. Ela está bem ocupada. Você deu um monte de trabalho pra gente, sua filha da mãe! Ela está cuidando de manter a Fierce de pé, com os sócios e o seu público. Você sabe para onde estamos indo agora? É uma live para a emissora, com participação do público. Se prepare para as perguntas sobre a Gabriela.

— Gabriela? Achei que fosse responder sobre a Monique.

— Você estava anestesiada mesmo, né? Na primeira live depois que você saiu, só tinham perguntas sobre a Gabriela. A internet está em polvorosa com isso e, sinceramente, Bruna... — Júlia bufou.

— Sinceramente, o quê?


Ela pegou o tablet e localizou um tweet.


— Essa linha do tempo aqui, com datas exatas extraídas do lovestagram que você e Gabriela faziam sem ninguém notar.


Bruna riu.


— Não era isso, não.

— Não era?! Olha as datas, olha esse gráfico, Bruna. As gabrunas rastrearam coisas de oito anos atrás.

— Gabrunas...?

— O seu fandom novo, de casalzinho com a Gabriela. Aqui tem o período em que vocês moravam em São Paulo, três anos mais ou menos, depois tem a Gabriela morando em Milão, onde você esteve... duas vezes em um ano? Enquanto você morava em Nova York, Gabriela esteve lá mais duas vezes. Vocês não sabiam ficar separadas, não? Devem ter ficado pobres só com passagens aéreas — Júlia ia mostrando. Bruna havia parado de rir. Estava olhando aquilo sem acreditar — Daí tem vocês duas em Amsterdã no mesmo período, em Atenas, em Veneza! Fora Ilhabela. Tem vários registros em Ilhabela. Juro pra você que, até aqui, eu ainda estava descrente, mas, no que vem depois disso tudo, eu não tive como te defender, não.


Bruna abriu uma água e bebeu, recuperando o fôlego. Estavam ferradas. Gabriela ia surtar quando saísse.


— O que vem depois...?

— Melbourne, Bangkok, Kuala Lumpur, Xangai, Hong Kong. Quem está junto esporadicamente em lugares assim? Ah, sim! Duas pessoas que estavam morando em SEUL no mesmo espaço de tempo!


Bruna estava vendo, mas não estava crendo. Sorriu, molhando os lábios, claramente nervosa com a situação.


— Eu... eu estava estudando na Coreia, lembra?

— Lembro. E me sinto traída, porque eu já estava com você nessa época. O que a Gabriela fazia em Seul nesse mesmo período?


Bruna sorriu.


Por um ano inteiro, Gabriela apenas esteve ao seu lado, ajudando-a no curso, no idioma, cuidando do apartamento, cuidando de Bruna, de qualquer coisa que precisasse. Foi a época em que ela migrou para o TikTok, em que começou a crescer numa rede até então desconhecida. Até fazia um trabalho de modelo ou outro, mas seu foco durante o ano em Seul havia sido apenas Bruna.


— Como vou saber o que ela fazia? É uma coincidência, Bittencourt!


Júlia apenas a olhou feio.


— Vou rasgar o nosso contrato se você insultar a minha inteligência de novo.

— Ok! Ela estava estudando coreano, fazendo aulas de arte, dançando, estudando psicologia.

— E com você!


Bruna a olhou. Afirmou.


— Bittencourt, isso precisa ser protegido.

— Ah, precisa?! Vocês duas que pensassem nisso antes de estarem expostas 24 horas por dia, sendo gays uma com a outra! A internet já sabe de tudo, Bruna.


Bruna tomou outro gole de água. Toda de preto, calça de alfaiataria, cropped, terninho Armani, joalheria Schiaparelli, maquiagem perfeita. Elegância, poder, beleza.


— Tenho certeza de que a internet não sabe um por cento dessa história toda.


Não sabia mesmo.


Na live, Bruna foi bombardeada de perguntas sobre suas atitudes na casa, sobre o motivo de ter se posicionado daquela forma com Eduarda, e fez questão de explicar a verdade: não estava contra ela, mas a protegendo, tirando de evidência um assunto que machucava. E, é claro, o assunto do seu vídeo veio logo em seguida, o caso sendo trazido de volta, as perguntas sobre a namorada no vídeo, e aquilo deixava Bruna bem irritada.


— Só para eu entender, se algo assim acontecesse com você, você ia querer expor a sua namorada? — Perguntou ao moderador.

— Não, Bruna, mas é que...

— Não tem mais nada, era a minha mulher! Então, não adianta, não vou dizer quem é, isso não importa. Eu já fui exposta, ela sofreu com isso e sofre até hoje quando esse assunto volta à tona, é suficiente.


Em seguida, veio a sequência de perguntas sobre Gabriela, que Bruna foi respondendo feito uma ninja, escapando de tudo, dando respostas que não respondiam nada e, é claro, chegou à pergunta principal:


— Você não está magoada com o voto dela?


Não soube responder imediatamente. Pegou uma garrafinha de água, abriu, leu um pouco das perguntas que estavam chegando na live.


— É um jogo, a gente joga lá dentro.

— Mas foi um voto inesperado, não foi?

— Nós não éramos aliadas.

— Então, tudo bem esse voto para você?

— Eu não queria estar aqui fora, né? Mas, ao menos, é um jogo, todo mundo vai votar em alguém em algum momento.

— Por que você acha que foi eliminada?

— Ah, por uma série de fatores: passei do ponto nas festas, não fui nada legal com a Gio.

— Giovana Jordí não falou mal de você em nenhum momento aqui fora.

— Sei que não. Não esperava nada diferente dela. Cometi erros, entendi que errei e espero ter aprendido com isso. Só posso me desculpar com todo mundo que estava torcendo por mim. Saí cedo demais, mas a responsabilidade é toda minha.

— Falando em todo mundo que estava torcendo por você, nós temos uma pessoa do seu fandom aqui, alguém bem... fiel.


E, quando Bruna deu por si, Dara estava entrando no estúdio. Maravilhosa, toda de Chanel, elegante demais, e foi um encontro lindo, feito de gritos, abraços apertados e um monte de lágrimas. Nunca haviam ficado tanto tempo separadas. Fisicamente, já tinha acontecido, mas sem se falarem? Nunca! Elas se conheciam desde bebês, as mães eram amigas. Quando jovens, foram para a escola juntas, faziam tudo juntas, e era muito raro ver sua amiga emocionada. Dara não se emocionava, sempre havia sido a mais forte, mas chorou quando viu Bruna.


Como era bom tê-la de volta.


— Eu... preciso de ajuda — Bruna disse, com os olhos cheios, como se só estivessem ela e Dara naquele estúdio.

— Eu sei. Vamos cuidar de tudo, ok? Eu te amo. Vamos voltar para a live.


Com as duas mais calmas, seguiram na live juntas. Mas o choro de Bruna era mais do que uma simples emoção de reencontro, e Dara sabia, a conhecia o suficiente para saber disso. Ainda falaram sobre todos os ships que surgiram com Bruna na casa, ela era extremamente shippável, o que a fazia se perguntar, mais uma vez, por que havia saído tão cedo.


Dizia que estava bem, mas fazia muito tempo que não era reprovada em nada. O sentimento era estranho.


Foi a primeira coisa que perguntou para Dara quando terminaram os compromissos do dia. Nem viram o tempo passar, só foram entrando de compromisso em compromisso e, agora, já era noite. Bruna ainda estava impossibilitada de ir pra casa. Voltaram para o hotel.


— Minha opinião, amiga: você foi eliminada pelas fãs go solo da Gabriela.

— As go solo?

— As que são apenas fãs dela, o fã-clube de base, aquele que está com a Habren desde o começo e detestou a interação de vocês. Você foi eliminada por elas.

— Isso explica muitas coisas — Bruna disse e, tranquilamente, voltou a tomar seu chá de limão.


Dara a olhou.


— Sério que você só vai dizer isso?

— Ah, Dara, é normal as fãs go solo quererem me eliminar de perto da Gabriela. As minhas tentariam o mesmo.

— Mas de jeito nenhum! As suas querem você COM a Gabriela, porque conseguem perceber que ela é... boa pra você — Dara se sentou na cama — Bru, vocês realmente têm algo? Já tiveram um relacionamento...?


Bruna olhou para sua melhor amiga. Ajoelhou-se na frente dela, pegou suas mãos.


— Você me perdoa?


Dara apenas respirou fundo. Daí caiu de costas na cama.


— Você foi muito filha da puta! Como conseguiu esconder algo assim de mim, meu Deus?!


Bruna riu, se jogando na cama com ela.


— Foi bem trabalhoso mesmo, mas, por favor, acredite em mim, foi necessário. Eu jamais faria tanto esforço por algo que não valesse tanto pra mim.


Dara a olhou carinhosamente.


— Ela é valiosa pra você?


Antes que Bruna pudesse responder, a edição começou. E abriu com um edit de Gabriela.


As duas se sentaram na cama imediatamente.


— “Traitor”? Bruna, eles colocaram para tocar num edit!


E Dara apenas cobriu a boca.


— Eles colocaram essa música pra ela!


Tinham colocado. “Traitor”, o take no jardim, passando pela cozinha, o paralelo perfeito, e um resumo da relação Bruna Ribeiro x Gabriela Habren veio logo em seguida. Bruna não estava conseguindo acreditar.


— Agora colocaram “Kill This Love”!

— O que essa bendita letra quer dizer? Isso não é inglês — Dara perguntou, estava comendo uns biscoitinhos.

— Não é só inglês, é coreano também.


E a letra dizia basicamente...


Raiva, fúria, sofrimento, daí vinha raiva, fúria e sofrimento, então preciso dar um fim a esse amor.


E as cenas eram mescladas: proximidade, repelência, intensidade, afastamento, brigas e risadas, necessidade de toque e de espaço, bem como... como era, de fato, o relacionamento delas aqui fora. Bem no momento da votação, o refrão mais violento da música entrou na última briga:


♪ Let’s kill this love! ♪

♪ Vamos matar esse amor! ♪


A música terminava em Bruna fechando a porta, saindo e, então, cortava, em silêncio, de volta para Gabriela sozinha, deitada no jardim, olhando para o céu.


— Dara, eles... estão pintando a Gabriela como vilã — Bruna não estava acreditando nisso.

— Eles perderam a vilã da edição: você saiu. E saiu por muito pouco, sua imagem já estava sendo revertida e agora você está aqui fora, entregando gentileza e verdades, sendo autêntica e sabendo reconhecer os seus erros. Mas, dentro do programa, eles precisam de uma vilã nova. Uma... traidora. Igual a essa da letra da Olivia Rodrigo, que não necessariamente traiu, mas segue sendo uma traidora de qualquer forma. Eles precisam de uma vilã nova, e eu acho que Gabriela Habren rende mais como monstro do que como heroína. Você entende que é assim também?


Bruna achava que entendia, mas não significava que concordava.


— Dara, eu... preciso de ajuda.

— Eu sei, amiga. Já marquei a sua terapia de novo e acho que... precisamos rever o seu problema com o álcool?


Bruna lagrimou.


Sim. Desculpa, eu achei que estava bem, não pensei que voltaria a beber tão fácil.

— Não tem problema, a gente começa de novo. O seu contrato com a emissora é diferente, tenho certeza de que conseguimos negociar uns dias pra gente cuidar de você. Bruna, preciso fazer uma pergunta.

— Eu já sei qual é.


Bruna havia atravessado um inferno há dois anos. Uma espiral de autodestruição que a fazia beber do momento em que acordava até a hora de dormir. Vodka pela manhã, cerveja no almoço, vinho antes de ir para a cama.


— O nosso término não foi fácil, Dara — Contou, e mais lágrimas caíram. — Tive que continuar viva enquanto um fantasma me abraçava todas as noites. O fantasma da ausência da mulher que... me amava. Que me fazia sentir grande, valiosa, a minha melhor versão. E era isso, não é? Porque foi ela sair do meu lado e a minha pior versão vir à tona.


Dara apenas a puxou para o seu colo e a deixou chorar.



Posts Relacionados

Ver tudo

Comentários


bottom of page