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Vulnerável 18


3x4


Em algumas horas de conversa com Bruna, Dara já sabia que a amiga precisava de espaço imediatamente.


Dormiram juntas no quarto de hotel, tal como faziam quando eram crianças e uma delas sentia medo. Sempre foram vizinhas de porta; era comum, inclusive, uma mãe passar uma das meninas pela janela porque a filha estava chorando e pedindo pela melhor amiga. Em noites assim, de medo, elas dormiam juntas, agarradas na cama, quase uma só.


E isso não havia mudado só porque estavam adultas.


Quando Bruna finalmente dormiu, após chorar bastante, Dara limpou a agenda dela para a manhã seguinte. E, antes das sete, já estava tomando café no salão do hotel com Júlia Bittencourt.


— Dara, isso foi loucura, tá? Você não podia ter desmarcado a agenda do programa de hoje.

— Bittencourt, você quer que a Bruna quebre na frente das câmeras? Porque ela está muito perto disso.

— Mas ela parecia ótima ontem.

— Porque ela é muito boa em parecer ótima. Me dei conta agora que, apesar do problema com álcool, ela colocou a Fierce de pé em um dos momentos mais difíceis da vida dela. Acho que só não foi mais difícil do que perder a mãe. Quando perdemos a tia Márcia, foi... — os olhos de Dara vacilaram um pouco — desesperador. Achei que fosse perder a Bruna também. E o que vi dela ontem me lembrou muito aquele momento. Que me lembrou o momento de dois anos atrás.


Júlia cruzou o olhar com o de Dara. A amiga estava inteira de Diesel, jeans, blusa de gola alta, as box braids, extremamente elegante.


— Há dois anos foi... um término?

— Foi. E a gente não fazia ideia. Nem que dois anos antes ela havia vivido o momento mais feliz da vida dela, nem que, naquele momento, estava passando por um dos piores. Ela precisa de ajuda de novo com o problema do álcool. E, Júlia, não é só isso. Todo mundo no Brasil é alucinado por esse reality e acaba ignorando as condições psicológicas impostas pelo programa. A Bruna estava em isolamento, sem internet, sem celular. Ela trabalha com o celular desde quando tinha doze anos, isso nunca havia acontecido com ela antes. E tem o problema das câmeras...

— Como...?

— Ela disse que não sabe como se desfazer da sensação de estar “atuando”. Que, quando entrou lá, sentiu que estava atuando o tempo todo, mesmo tentando parecer natural. Que a naturalidade veio só muitos dias depois e que ela teve, ela não disse essa palavra, mas, pelo que contou, posso dizer que foi uma dissociação.

— Dara, você está me dizendo isso como psicóloga?


Dara tinha se formado em Psicologia, com foco em comportamento humano. Não parecia ter conexão, mas usava isso dentro da Fierce mais do que poderiam imaginar. No final das contas, tudo era comportamento humano.


— E como amiga dela. Ela cruzou com a Gabriela lá dentro. Acho que isso fez a Bruna dissociar. Porque aquilo não deveria ser real. Ela não lembra de coisas que estão gravadas. Viu vídeos dos quais não se lembrava. Bruna segue achando que não está natural, que está meio presente e meio ausente. Às vezes se sente fora do próprio corpo, como se visse as coisas num filme. A casa é extremamente pequena. A gente não tem noção disso aqui fora. São dois quartos, cozinha e sala. Uma cozinha externa. O quarto do líder. Mas tudo isso é pequeno. Os móveis são bem menores, ela não sabe o motivo. Cômodas rasas, grama falsa. Tem dias em que o teto da área externa não abre. E ela viveu tudo isso vendo um fantasma o tempo todo.

— A Gabriela.

— Isso, ela.


Júlia respirou muito fundo.


— O que você quer que eu faça?

— Tem uma brecha no contrato — Dara pegou alguns papéis na bolsa.

— Que brecha?

— A que toca à “saúde do contratado”. Se a gente conseguir um laudo, consegue tirar a Bruna dessa exposição por umas semanas. Ela precisa desacelerar, foi o que fizemos da outra vez. Três semanas e prometo pra você que ela volta bem, inteira, pronta para o trabalho. Para quebrar essa dissociação, ela tem que mudar completamente de cenário. A minha proposta é que ela cumpra agenda até domingo, é o último programa da grade da emissora. E, quando a gente sair de lá, eu tiro ela daqui.


Júlia ficou em silêncio por um longo tempo.


— E o que faço com a Fierce, Dara?

— Você cuida. Tem tanta coisa em andamento. Linha nova de produtos, a obra da nossa sede.

— Não sei como... como fazer as coisas sem a imagem da Bruna.

— Tivemos uma overdose da imagem dela, criatura! A nossa empresa sobrevive três semanas sem esse rostinho, prometo.


Quando Bruna acordou, veio uma série de sustos. Primeiro, procurou o microfone, que não existia mais. Segundo, tinha certeza de que não havia ouvido o despertador. Estava atrasada, nem sabia para quê, só sabia que estava atrasada e, quando ia entrando em desespero, Dara voltou para o quarto.


— Dara! Eu perdi!

— Perdeu o quê, menina?

— Não sei! O que eu tinha que fazer agora de manhã.


Dara foi até Bruna e a segurou pelos ombros.


— Você só tem que descer e tomar seu café da manhã. Estamos livres até duas da tarde, ok? Quero que você se alimente e depois volte pra cá. Você tem uma sessão com a sua psicóloga às onze.


Bruna nem sabia dizer o quanto estava grata.


Tomou seu banho com calma, desceu para o café da manhã. Atendeu algumas pessoas, não era problema, tirou fotos, sorriu e, quando subiu para o quarto, já tinha sua terapeuta esperando. Nada de videochamada, Dara havia conseguido levá-la até o hotel.


E a sessão durou muito, Bruna nem sabia que precisava tanto falar de algumas coisas. Se tinha alguém além de Chiara que sabia da relação, era a sua terapeuta. Foi bom colocar seus pensamentos e sentimentos pra fora, nem sabia que estava tão sufocada até começar a falar com Dara e, então, com a terapeuta.


— Você entende que o seu gatilho com bebida não é uma pessoa, Bruna?

— É uma... situação?

— Acho que é mais um sentimento. Você não a odeia. Não a culpa por nada. Nem... por esse paredão — Ela sorriu — Nunca achei que fosse tratar de uma indicação de reality numa sessão. Você sempre traz coisas novas pra mim.


Bruna gargalhou.


— Eu sei! Desculpa.

— Adoro as suas inovações. Bruna, acho que o seu gatilho é... ser exposta a uma relação que você não pode mais ter.


Foi um tapa tão grande que Bruna ainda chegou à sua gravação da tarde com o rosto ardendo.


Entrou no estúdio para o podcast, linda, toda de Versace, mas agora que Dara havia falado de dissociação...


— Ela não está cem por cento presente. Está apenas cinquenta por cento. A Bruna é treinada para estar na mídia, mas quanto tempo até escorregar?

— Ela pode dizer algo errado a qualquer momento — Júlia se deu conta.

— Isso que tentei te explicar! E esse programa de hoje é ao vivo.

— E eles esperam que ela diga a coisa errada, Dara. Porra...!

— Ela não vai dizer. E a Sartori é amiga dela, vai dar certo — Era uma das apresentadoras, influencer também — Prometi que vamos pra casa hoje, Júlia.

— Pra casa em São Paulo...?

— Bruna precisa ver a Chiara. Mas primeiro, vamos pra casa aqui. Ela quer ver a avó, a tia, jantar com os primos. Vamos dormir na vovó hoje, amanhã fazemos a outra entrevista, então vamos pra casa, ela vê a Chiara e voltamos pra cá domingo de manhã.


Parecia um bom plano. O media training de Bruna era muito afiado e dava para vê-la lutando para não dizer nada de errado. Seguia muito confusa sobre a sua eliminação. E mais confusa ainda com o edit que colocava Gabriela como vilã.


— Achei que a minha eliminação era uma resposta clara ao meu comportamento errático na casa — Comentou com a apresentadora, quando a live terminou.

— Bruna, as pessoas acham que o público é o juiz supremo dos reality shows, mas não é exatamente assim. Já vi o público se arrepender bem rapidinho de uma eliminação e a sua já está sendo muito sentida — Abriu um sorriso, falando mais baixo — Quando vi que você e a Gabriela haviam entrado, me preparei porque sabia que o público ia ver algo bem inesperado. Estavam esperando confusão, mas eu sabia que não seria só isso. E, com o passar dos dias, todo mundo viu isso também. Esse voto da Gabriela não pegou bem de jeito nenhum.

— Mas você sabe que ela não é assim, Sartori.

— Sei. Mas a vida dentro do reality, ela... é diferente. Porque é feita de edição. Não é vida real, é o que a emissora quer mostrar para o público. Os arrependimentos do público acontecem justamente quando a pessoa sai e a vida real se mostra. Lá dentro, as coisas não são reais. Eu sei disso. Mas sei disso porque trabalho com reality há anos. As coisas devem se complicar para a Gabriela porque agora, sim, a situação está completamente polarizada.


Antes de chegarem à casa da avó de Bruna, um trecho dessa conversa, gravada sem autorização, já estava circulando pela internet.


— Dara...

— Você já está acostumada com isso, amiga. Tudo o que você fala vira notícia, é tirado do contexto, gera comentários. As pessoas estão viciadas no programa, tudo é combustível.


Sem querer, Bruna havia dado mais artilharia contra Gabriela.


— E como está o programa? Você viu alguma coisa hoje?

Era dia de prova do líder.


Gabriela se despediu do seu quarto especial, de suas fotos de família e da foto de um dos amores da sua vida.


Seu cachorro.


— Você é apaixonada por ele, né? — Nuna perguntou, sorrindo.

— Muito! Estou morrendo de saudades. Tive uma fase bem ruim. Nem sei como teria sido sem ele. Sei que ele precisa de mim e isso, de alguma forma, me fazia levantar todos os dias.


Nuna olhava para ela. Gabriela não parecia tranquila. Estava querendo passar tranquilidade, mas não parecia realmente tranquila.


— Gab, está tudo bem?


Respirou fundo, pensando a respeito.


— Acho que sim. Preciso ganhar a liderança de novo hoje, ou ganhar o anjo no sábado. Estamos em desvantagem numérica, a gente tem que se virar para ter essas vantagens de jogo, ou será sequencial agora. Você, Eduarda e eu no paredão toda semana. Os grupos racharam e agora estamos isoladas, em menor número.


Nuna compreendeu o que ela estava dizendo.


— Se não tivermos vantagem nenhuma, podemos ir as três juntas.


A prova foi de resistência.


Seis horas de prova e quase todo mundo inteiro, sem desistir. As primeiras desistências só vieram após dez horas.


E seguiram acontecendo hora após hora.


Dezessete horas depois, seis participantes restavam: Nuna, Eduarda, Gabriela, Monique, Henrique e mais um dos rapazes. Era tão estranho estar ali dentro sem Bruna. Gabriela estava focando intensamente na prova para escapar daqueles pensamentos quase obsessivos. Aquele lugar era como um bioma, onde cada participante, mesmo os problemáticos, mantinha o lugar mais vivo. E tirar Bruna dali foi como se...


A Austrália perdesse sua Grande Barreira de Corais.


Mas não podia ficar presa, precisava ir em frente e, por isso, enquanto a maioria dos participantes conversava, ela estava quieta.


A prova era uma espécie de carrossel, girava enquanto os participantes seguiam de pé, agarrados a uma estrutura que lembrava um saco de boxe. O carrossel girava e subitamente parava, mudava de direção. Tinha efeitos: água, vento, pó, rajadas de ar frio. Gabriela tinha muito em mente que, apesar de aquele jogo ter fases de grupo, a única forma de ir em frente era de maneira solo.


Tentou explicar isso para suas aliadas, sem parecer fria. Elas disseram que entenderam, mas ficou claro que não, quando, com dezoito horas de prova, Nuna e Eduarda caíram numa armadilha.


Achava que Nuna tinha cochilado e, nisso, escorregado durante um tranco do carrossel. Ela caiu de muito mau jeito, uma queda feia, que causou um som altíssimo, e automaticamente, quase em um reflexo natural, Eduarda desceu para vê-la.


— Você... não fez isso, Duda! — Nuna disse, rolando no chão de dor. Só então, Eduarda se deu conta.

— Eu-eu... não acredito que fiz isso.


Gabriela só sabia que teria se traído do mesmo jeito se fosse Bruna naquela posição.


Precisava parar de pensar nela.


Começou a meditar na prova.


Era por isso que não podiam continuar as duas lá dentro. Não tinha como dar certo, em um momento ou outro, se trairiam por pura afeição e apego.


Porém, aquele não era um jogo de afeição.


Muito menos de apego.


Era um jogo de quem não tinha medo de fazer o necessário.


Com vinte horas de prova, de repente, só restavam Gabriela e Monique naquela disputa. Um dos rapazes havia saído porque estava com muita dor e Henrique havia escorregado sem perceber.


— Somos voto direto uma da outra — Monique disse de repente. As duas fisicamente inteiras, os músculos marcados pelo esforço das pegadas, mas sequer pareciam cansadas. Já devia ser quase a vigésima terceira hora de prova.

— Não exatamente.

— O que você quer dizer, Habren?


Gabriela respirou fundo, de olhos fechados.


— Não odeio você, Monique. Mas sei que você está me odiando por causa... por causa do voto na Bruna.

— A gente precisa de pessoas para sobreviver aqui dentro. Você tirou o meu ponto de apoio.

— Eu sei.

— E depois está aí sofrendo — Monique sorriu.

— Eu sei.

— Garota, você faz terapia?


Gabriela riu.


— Sim. Mas não o suficiente. Desculpa. Eu não te odeio. E menos ainda odeio a Bruna. Podemos não falar dela?


Monique a olhou.


— Podemos. Eu também não te odeio.

— Obrigada.


Depois disso, Gabriela cantou “Man Down”, de Rihanna. Esperou que Monique tivesse entendido o recado.


Ainda bem, ela era inteligente e entendia referências. Uma prova de resistência não podia ser vencida por sorte ou negociações, era uma nova regra. A regra de sorte já vinha de antes, a de negociação era recente, mas, às vezes, quando não se sabia exatamente o que dizer, Rihanna geralmente sabia.


Na vigésima sexta hora, Monique desceu. Então, Gabriela se tornou líder pela segunda semana seguida. Não votaria em Monique, aliás, a levou para o seu VIP, ganhando mais uma aliada, fosse por aquela semana. Era assim, aquele jogo tinha que ser revisto semana a semana, não cabiam projeções nem certezas. Com Monique deste lado, conseguia livrar ao menos uma das suas aliadas do paredão.


Naquela noite, no quarto do líder, Nuna notou uma coisa nova:


— Gab, por que você sempre olha essa foto ao contrário?


Cada participante podia levar ao menos uma foto para o reality. Gabriela havia levado uma de família, mas que tinha uma 3x4 grudada na parte de trás. A foto que ela havia trazido escondida no bolso do jaquetão.


Ela sorriu.


— Não é nada.


A internet se inundou de teorias sobre o que teria atrás da foto. As câmeras nunca conseguiam focar, Gabriela sempre olhava com cuidado para não ser pega.


— Tenho CERTEZA de que é uma foto sua — Dara disse, quando já estavam voando para São Paulo no sábado. A história da foto havia surgido na sexta à noite e seguia reverberando.

— É possível que seja.

— Ah, então você acha que é?


Bruna riu.


— É que ela ama a 3x4 do meu passaporte. Sempre tinha uma cópia com ela. Se a Gab levou uma foto que não deixa ninguém ver, pode ser essa.

— Você está linda na sua foto de passaporte. Ninguém fica linda nesse tipo de foto, Bruna.


Bruna pegou sua carteira e tirou uma 3x4 lá de dentro.


— Ela também fica.

— Bruna! Há quanto tempo essa foto está aí?

— Faz uns quatro anos. Eu nunca tirei. Tem algumas coisas que... ainda não consegui me desfazer. Dara, nós vamos mesmo poder sair do Rio?

— Vamos — Dara pegou a mão dela, vendo outra foto digna de face card naquela 3x4 — Me diz para onde você quer ir. O limite são seis horas de voo.


Bruna abriu um sorriso enorme.


— Pode ser... cinco horas e meia?

— Pode ser. Me conta para onde você quer ir que já compro nossas passagens.

— Vamos só nós duas? — Bruna estava animada.

— Só nós duas. E você terá espaço, posso pegar apartamentos gêmeos, algo assim. Prefiro que seja fora do Brasil, pra você poder sair na rua tranquila. Neste momento, você não pode nem... — olhou ao redor no voo — pegar um voo sem ser abordada. Entrar nesse aeroporto foi uma aventura. Preciso lembrar de reforçar a sua segurança.

— Está bem intenso agora, né?

— Você é uma famosa global neste momento, preciso ter isso em mente.

— Dara, eu quero ir para Bogotá.


Dara a olhou, abrindo um sorriso.


— Para onde fomos há dois anos.

— Podemos pegar os mesmos apartamentos, um de frente para o outro. Lá, ninguém vai me abordar. Tem os museus que gosto, os cerros. Adoro a comida. Pode ser lá?


Podia ser. Mas era interessante Bruna querer voltar para onde foi quando ficou sem Gabriela.


O pouco tempo que teve com sua avó, a tia e os primos foi maravilhoso, a curou em coisas que ela nem sabia que precisava, mas chegar à sua casa e ser atropelada de amor... apenas terminou com seu ritual de cura.


Se jogou no chão com Chiara, recebendo todo o impacto daquela cachorra enorme, todo o amor que ela tinha. O rabo que não parava quieto, os pulinhos, as lambidas. Bruna, falando com voz de bebê, a felicidade de sua filha que pulava, corria, dava uma voltinha na TV e voltava para o seu colo.


— Ela...?

— Reage à voz dela, está vendo? — Júlia explicou. A TV da sala estava ligada no programa e Gabriela conversava qualquer coisa com Nuna. Estavam apenas as três no apartamento: Júlia, Dara e Bruna.

— Meu amor! Você reage a ela? — Fez mais carinhos em Chiara, roçando as duas mãos no pescoço dela, que hiperventilava de tanta felicidade — A Gab vai demorar um pouquinho mais para vir, princesa, se tudo der certo, ela vai demorar mais um pouquinho.

— Bruna, eu não acredito que a Chiara realmente, REALMENTE, convive com a Gabriela!

— E com o Bartolo. Ela deve estar morrendo de saudade do Bartolo — Bruna seguia fazendo carinho em Chiara, com o seu sorriso mais do que aberto.

— Aquele cachorro horroroso? — Júlia estava incrédula.

— Para! Ele não é horroroso — Seguia rindo, falando com Chiara. Ela corria para a TV e voltava para Bruna, lambendo-a mais, pulando em seu colo, como se ainda fosse um bebezinho.


Júlia cruzou os braços e falou com a cachorra:


— Chiara, você tem amizade com aquele mal-humorado?

— Ela ama o Bartolo! Ele que não gosta muito dela, porque, né?! Ela tem essa energia aqui e ele se diverte ficando imóvel. Não é, princesa? Não é, meu amor?! — Bartolo era um bulldog francês sem nenhum tipo de humor.


Júlia apenas respirou fundo.


— Eu ainda não me acostumei com isso.

— Ela tem uma 3×4 da Gabriela na carteira, Bittencourt. É melhor a gente aceitar essa relação logo, mulher.

— Uma 3x4?! Você... Bruna!


Bruna seguia agarrada a Chiara.


— Sabe o que é triste? É que acho que uma foto 3×4 é o exato tamanho do que a gente conseguiu viver.


Assim, ela deixou todo mundo triste.


Naquela noite na casa, Gabriela foi para a cama com sua foto de família, olhando para o verso por um tempo sob as cobertas, e depois acabou dormindo. Cansaço da prova, era possível. E a foto ficou sobre o peito dela, virada ao contrário...


A câmera fechou ao máximo, mas, ainda assim, só dava para ver que era uma 3×4, de alguém de cabelos longos.


Certeza de quem era? Nenhuma. Dúvidas? Também não.




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