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Vulnerável 19


Fantasma


No domingo, após uma ótima participação no programa mais popular da TV brasileira, Bruna estava devidamente embarcada para a Colômbia.


Foi uma decisão rápida. Sabia que era o melhor a se fazer. Se realmente estivesse dissociando — e achava que estava —, uma quebra de ambiente era mais do que eficiente. Ao menos, havia funcionado muito bem na primeira vez.


A verdade é que tentou muito se manter sem quebrar quando elas se separaram. Achou que, se trabalhasse muito, tudo ia desaparecer. Era só focar, trabalhar horas sem parar, que a dor ia sumir, ia deixar de ser sentida. Mas não foi assim que aconteceu.


Foi quando começou a beber.


Bruna não havia sido uma adolescente que gostava de álcool. Na verdade, a primeira vez que bebeu na vida foi durante o luto de sua mãe. Desse ponto em diante, começou a beber socialmente. Ia a festas com frequência. O álcool a relaxava e parecia tornar sua presença mais magnética. E Gabriela foi a primeira a dizer que aquilo podia se tornar um problema.


Ela a apoiava em tudo, menos nisso. O excesso de álcool era algo que Bruna podia abandonar sem sentir falta, e percebeu que Gabriela tinha razão quando, no período em que estiveram juntas, simplesmente tirou o álcool quase cem por cento da sua vida. Mas, quando se separaram, aquela pareceu a saída mais eficiente.


Voltou a beber muito. Cada vez que bebia além do que devia numa festa, ganhava destaque. E sua memória virava um borrão, onde quase conseguia esquecer Gabriela. Claro, tudo começou a desmoronar. Exposição demais nunca era algo positivo. Os parceiros de negócios começaram a se preocupar e, mesmo estando totalmente no escuro, Dara arrumou um jeito de atender os pedidos de “me ajuda” de sua melhor amiga.


Ficou um mês numa clínica particular. E, quando recebeu alta, Dara a buscou para um tempo com a família e, em seguida, a colocou em um avião para Bogotá.


Era um lugar novo, que Bruna ainda não conhecia. Mas uma grande amiga era da cidade e sempre dizia as melhores coisas, o que fez aquele destino entrar na sua lista futura de viagens. Dara conseguiu apartamentos no bairro de La Candelaria, que era vibrante, festivo, bonito, cheio de ruas de paralelepípedos. Ficava perto do Cerro de Monserrate, perto de alguns museus, era arborizado, perfeito para caminhadas.


E foi bom. A vida ficou calma de novo.


— Isso tem nome agora. É quiet life. Ou slow life — Dara disse, quando já estavam saindo do aeroporto, por onde Bruna podia andar tranquilamente. Adorava a exposição, gostava de ser fotografada, abordada, mas o sentimento que isso andava causando agora era ansiedade. Era mesmo como se estivesse se assistindo fora do próprio corpo, e ver isso acontecer no meio de tanta gente era muito assustador — Fazer as coisas devagar, com calma, desacelera o cérebro acostumado a estímulos demais. Aqui, esconda esse seu passaporte, que as gabrunas estão tentando provar de todas as maneiras possíveis que é você na 3×4 da Gabriela.

— Mentira!

— Vocês arrumaram um fandom muito apaixonado, amiga.

— Dara...

— Oi...

— Vou ter que ficar sem celular aqui?

— Só se eu quiser você maluca, Bruna Ribeiro! Você já ficou um mês sem celular, então, o que quero aqui é justamente o contrário, que você volte... a ser você.

— Se eu quiser ver o programa, você vai ficar chateada comigo?

— A Gabriela foi muito filha da puta com você?

— Ela... não! Ela era perfeita, Dara. Ela não merece aquele edit com “Traitor” e “Kill This Love” de jeito nenhum.

— Mas você não vai esquecer esse edit nunca! — Dara estava rindo, já procurando um táxi para elas do lado de fora. Respirou bem fundo; até o ar daquela cidade era diferente, nas alturas, literalmente — É o grupo preferido de vocês?

— O BLACKPINK?

— Eu nem sabia que você dançava k-pop, Bruna.

— Eu sei! Eu não gostava muito, mas, após morar em Seul, passei a adorar. Ouvíamos juntas, aprendíamos as coreografias e... — Bruna parou de falar, porque sentiu que estava sendo olhada com julgamento — Foi você quem perguntou! — Disse, rindo demais.

— Porque a cara de pau é impressionante! Bruna, como você conseguiu esconder tudo isso de mim? Como? Eu ainda não acredito nisso, não — Dara estava sorrindo — Me conta da sua vida em Seul. Acho que ela é bem diferente do que eu imaginava.

— Era... quiet. Devagar. Dava para fazer aula de dança e passar a tarde num café bonito. A Gab aprendeu a cozinhar. Olhava pratos na internet e ficou muito boa nisso. Todo dia eu comia algo novo, que ela mesma havia feito.

— Amiga, como é que essa mulher perfeita te enfiou num paredão de reality?


Bruna riu.


— É que, pensando agora, acho que foi para o meu bem, sabia?

— Pois, se era para o seu bem, ela podia ter mandado a sua namoradinha, né?


Bruna parou, pensando um pouco.


— Verdade, ela podia ter mandado a Monique. Isso resolveria metade dos problemas. Mas não resolveria o problema de eu estar sem controle nas festas. Achei que estava bem, mas, quando cheguei lá, vi que não era bem assim.

— Ei, vocês terminaram por quê?


Bruna apertou os lábios, olhando as montanhas logo além do aeroporto.


— Ah, Dara, terminou. Voltei para o Brasil, fixei moradia de novo, abrimos a empresa, comprei um apartamento...

— Ela comprou outro em frente ao seu.

— Sim, teve essa parte — Bruna deixou outro sorriso escapar — Mas já não estávamos juntas.


Dara a olhou.


— E por que ela comprou um apartamento exatamente em frente ao seu, amiga?

— Acho que... o término não foi fácil para ela também.


No fundo, Bruna achava que sim.


Chegar de volta àqueles apartamentos foi maravilhoso.


Bruna realmente amava Bogotá. Amava o clima, adorava o prédio de dois andares, com um jardim bem no meio, rodeado pelas varandas dos apartamentos. Chegaram e havia uma festa de rua acontecendo, tocando “Bicicleta”, de Shakira. O que poderia ser melhor do que isso? Iria ficar bem ali, sim, faria terapia, trilhas pelos cerros, passeios matinais e provaria para si mesma que tinha o álcool sob controle.


— Pensei na gente se instalar agora, descansar e, daqui a umas três horinhas, ir ao mercado. O que você acha? — Dara sugeriu.


Parecia o plano perfeito. Bruna iria cozinhar para si mesma, ler seus livros de vampiro, ir a lugares que adorava, seria bom sim. Entrar naquele apartamento foi maravilhoso. Era calmo, tinha vista para as montanhas e para os prédios da cidade. O ar era puro, o clima agradável. Chegaram relativamente cedo e, depois que se instalou, dormiu por uma hora e meia, mais ou menos. Acordou, tomou banho e, quando terminou de se arrumar, sua vizinha estava batendo na porta.


Era Dara, chamando-a para almoçar, fazer compras no mercado, e tudo foi tão bom que nem viram a hora passar. Comeram arepas pela vizinhança, deram uma volta sem rumo, pegaram buñuelos doces para sobremesa. Já era fim de tarde quando saíram do mercado. Foram pra casa, dividiram as compras nos dois apartamentos e Dara perguntou se Bruna queria crepioca, uma coisa para a qual a resposta sempre seria SIM.


— Ei, amiga...

— Oi... — Dara já estava na cozinha do apartamento de Bruna, preparando as coisas.

— Posso colocar a edição pra gente assistir? Vai começar agora.

— Pode! Coloca aí a edição passando essa traidora que te colocou num paredão, mas tem sua foto escondida com ela.


Bruna riu. Gabriela era maluca mesmo.


A edição de segunda era mais longa, e o paredão que Gabriela arquitetou acabou acontecendo. Nuna escapou da votação, mas Eduarda não. E a líder não tinha votado direto em Henrique, como era o esperado.


— A Gabriela é bem inteligente. Ela sabia que a Eduarda iria e sabe da polarização. Mas não sabe o quanto a Eduarda está forte aqui fora. Então escolheu um alvo que considera mais fraco para ir com uma aliada — Dara explicava, enquanto assistiam ao vivo e jantavam no sofá, na frente da TV.

— Mas isso tudo pega mal, não é?

— Para quem não entende o jogo dela, pega.


Mas, aparentemente, Gabriela ainda estava sendo bem compreendida.


No programa seguinte, enquanto jantavam no apartamento outra vez, numa noite bem fria, Man Down, o participante indicado por Gabriela, foi eliminado pelo público, com uma grande margem, em um paredão triplo.


Foi uma amostra do jogo de Gabriela, que, pelas próximas semanas, se mostraria um verdadeiro pesadelo de derrubar.

O tempo realmente passava diferente em Bogotá.


Era bom estar sozinha, ter o seu espaço, e a rotina que criou a enchia de calma todos os dias.


Atualmente, a vida de Bruna exigia que ela estivesse sempre rodeada de muitas pessoas, e ter tempo sozinha era quase impossível. Por isso, era tão bom um apartamento só para si. Era um espaço bem simples, um loft, na verdade, sem paredes. Cozinha, sala e quarto eram integrados e tinha uma varanda com vista. Ali conseguiu colocar o sono em dia, voltar a acordar cedo e sair para se exercitar. Ia à academia que ficava perto ou simplesmente saía para caminhar, sem rumo certo. Voltava e tomava café com Dara. Elas decidiam um passeio para o dia e, no tempo que restava, Bruna lia, ouvia música, matava tempo na internet e acompanhava o programa.


Não ficava assistindo o tempo todo, longe disso, mas andava se divertindo pela hashtag gabruna, vendo edits diversos e lendo todas as teorias. Encontrou também fanfics suas com Gabriela, e isso sim era uma coisa completamente nova. Parte sua dizia que Gabriela adoraria ler aquelas histórias quando saísse.


E parte sua achava que não. Que o programa poderia ser apenas uma fase da vida dela, tal como havia sido o tempo delas na Ásia.


Quando terminasse, terminaria. Nada ficaria.


Pensava nisso, mas não acreditava totalmente. Olhava fotos na galeria secreta do celular e a 3×4 na carteira. Como amava aqueles olhos.


Isso iria mudar em algum momento?


Assistiu a um dos caras se tornar líder naquela semana e, então, viu Gabriela ganhar o anjo na bravura, numa prova de agilidade e inteligência.


Gabriela tinha, sim, escolhido o grupo correto, dava para ver claramente quando as finalistas da prova ao seu lado eram suas companheiras de jogo. Venceu e pensou muito bem em como faria aquilo. Sabia que o líder, tendenciosamente, deveria mandar Eduarda, e o pensamento comum seria imunizá-la, mas...


Tinha outras ideias.


— Eu devo ir ao paredão pela casa de qualquer forma — Gabriela ponderou — Mas, na minha contagem, falta pouco para escapar. Se a gente tirar o voto do líder, ele me manda direto.

— Não, ele me manda direto — Era Nuna.

— Você acha?

— Acho. Os problemas dele comigo são pessoais — Nuna havia dado um fora nele em uma das festas.

— Então, melhor tirar a opção de voto da casa. Todo mundo está esperando que esta imunidade fique com a gente, mas, se imunizarmos alguém de fora? Vai bagunçar a votação de todo mundo — Gabriela abriu um sorriso.

— Quem é a segunda opção de voto da casa?


Foi exatamente assim que fizeram.


Nuna foi emparedada pelo líder, nenhuma surpresa, mas Camila estar imune pelo anjo pegou todo mundo de sobressalto. Havia três grupos na casa: o de Gabriela, o grupo liderado por Henrique, que tinha boa parte dos homens da edição, e o liderado por Monique, herdado das alianças de Bruna. Camila andava perdendo a mão em algumas coisas e irritando muita gente, seria voto certo dos homens e também do grupo de Gabriela, mas, estando imunizada...


O grupo apenas ficou grato e sem jeito de votar em Eduarda ou Gabriela.


— Ela... gente! — Dara estava chocada, assistindo à edição ao lado de Bruna, as duas comendo pipoca doce caseira direto da panela.

— Ninguém sabendo mais em quem votar, isso está muito engraçado.


Bagunçaram a votação inteira. Gabriela acabou emparedada junto com Nuna, que puxou um dos caras no contragolpe.


Gabriela não era previsível, não tinha medo, preferia encarar um paredão triplo com uma aliada porque, assim, somavam votos, eram duas contra um. Não deu outra: na terça-feira, mais um homem foi eliminado. E agora era oficial: o público estava dividido entre achar Gabriela Habren uma das maiores jogadoras que já passaram pelo programa ou achá-la uma grande descarada, a traidora perfeita.


Ao menos, com Bruna fora da internet e dos holofotes, agora não havia como fazer a coisa errada e prejudicá-la sem querer.


— Bruna, tudo ficou calmo demais sem você lá dentro. Estou até estranhando.


Foi Dara estranhar e uma semana infernal começou naquele reality.


Muitas brigas, muitas acusações, mais rachaduras. A configuração dos grupos mudava toda semana e uma coisa começou a irritar bastante: a sucessão de provas vencidas por Gabriela, Nuna e Eduarda.


Elas entraram em modo sobrevivência. Toda e qualquer prova valia demais e elas davam tudo de si, eram muito bem preparadas física e mentalmente, e cada vez que uma delas indicava alguém, essa indicação saía.


Em Bogotá, as três semanas de Bruna acabaram se alongando. Contatou a emissora, explicou sua situação e, se pudesse produzir conteúdo de onde estava, seria ótimo. E foi possível.


Voltou a trabalhar na quarta semana, e a sua quiet life havia surtido efeito. Zero álcool, exercício físico, pouco celular, muito ar puro, refeições feitas em casa, passeios em lugares bonitos. A emissora encontrou programas online que ela pudesse fazer, e retomar a empresa deixou Bruna muito feliz. Mas não lotou sua agenda: aceitava dois compromissos por dia, era melhor ir devagar, e sempre dava um jeito de estar livre no horário da edição. E meio que virou rotina também assistir aos edits das gabrunas e ler as fics que elas escreviam antes de dormir.


Naquela semana, Gabriela foi líder novamente, mas um fato novo mudou a percepção da casa: pela primeira vez, uma indicação do grupo dela não foi eliminada.


Havia indicado Gustavo, com quem tivera um embate naquela semana. Ele foi emparedado junto com Camila e Nuna, mas, de alguma maneira...


Na terça, foi Camila quem deixou a casa.


Ela ter saído em um paredão contra um grande machista só mostrou para Gabriela que realmente havia uma parte do público que não concordava com o que elas estavam fazendo.


— Os antifeministas — Gabriela pensou em voz alta.

— Estamos em mais da metade do programa, só vai ficar mais confuso e mais difícil daqui pra frente — Eduarda ponderou.


Dara e Bruna estavam assistindo juntas à edição, na cama, naquela noite, enquanto se aqueciam uma na outra e tomavam chá. Uma frente fria havia atingido a cidade.


— Bru, a gente vai ter que voltar em dez dias.

— Mas já?

— Já, porque querem você lá nos últimos dias do programa. Você... está fugindo de voltar?


Bruna se apertou em sua melhor amiga.


— Talvez eu esteja.

— Mas não vão abrir mão de você na final. Comece a se preparar mentalmente, tudo bem?


Disse que sim, mas isso não era necessariamente fácil.


Monique venceu a próxima prova do líder.


Também era uma jogadora primorosa, brava, inteligente. Emparedou um dos caras direto e esperou que a casa fizesse a parte dela. E, como o esperado, na semana em que não haviam ganhado nada, as três foram parar no paredão: Eduarda, Nuna e Gabriela. Fizeram a Prova Bate e Volta, que Nuna acabou vencendo, e lá foram elas medir forças mais uma vez, duas contra um, e funcionou de novo.


Desse ponto em diante, passaram a ter duas eliminações por semana, e a casa começou a esvaziar muito rapidamente. Menos pessoas, menos conversas, menos movimento, e a mente de Gabriela lutando para não pensar demais, para não sentir demais, para não...


Sentir falta demais.


Em algumas noites, chegou a ser engraçado. Bogotá estava atrás do horário do Brasil, e era comum Bruna assistir ao pay-per-view enquanto era madrugada no Brasil. Os dias passavam, e via Gabriela dormindo cada vez menos. Quanto mais ansiosa ficava, menos sono tinha. A pior parte de ela ter se mudado para o outro lado da rua era Bruna chegar de madrugada de alguma balada e ver a luz do apartamento de Gabriela acesa. A sensação era parecida agora, quando a via vagando como um fantasma por aquela casa onde todo mundo dormia.

Um fantasma. Até quando Gabriela seria o seu fantasma?


No último programa que assistiu em Bogotá, enquanto fazia as malas para voltar ao Brasil, Bruna viu Eduarda se segurando no último paredão triplo da edição.


— Ela está muito forte, a Eduarda — Bruna ponderou após assistir à eliminação de Mirela — A Mirela estava forte aqui fora, achei que a final ia ficar entre ela e a Nuna.

— Ela estava forte, mas não gerou tanto entretenimento, não estava com carga de vencedora. Eduarda está com essa carga, a Nuna também, e a Gabriela segue dividindo opiniões. Quem ama, ama muito. Quem odeia, odeia demais — Dara estava ao seu lado, ajudando com as coisas — Está pronta para voltar para a nossa correria?


Bruna sorriu.


— Acho que sim.


Esperava que sim.


Quando chegaram de volta a São Paulo, Monique estava enfrentando Gustavo em um paredão duplo e, por muito pouco, acabou ficando. E agora eram pouquíssimos na casa, apenas cinco. Henrique era o último homem sobrevivente e decidiu que iria atormentar as mulheres até uma delas perder a paciência.


Arrumou uma briga monstra com Monique e outra inacreditável com Gabriela, que perdeu a cabeça. Ele havia tocado no assunto mais delicado para ela lá dentro: o paredão de Bruna.


E a imagem que estava quase sendo limpa de Gabriela Habren aqui fora voltou a se sujar. O embate com Henrique gerou uma briga com Monique, porque o assunto Bruna retornou com tudo. Esse, sim, ficaria marcado como um dos grandes barracos desta edição.


Houve acusações de todos os lados, manipulação, aproveitamento, fraqueza, mentiras, tudo junto. Gabriela foi chamada de sonsa, dissimulada pelo que havia feito, o “traidora” também veio, e ela não deixou barato: se era sonsa, dissimulada e traidora, Monique era aproveitadora, cínica, baixa e, em determinado momento, tudo ficou tão feio que Eduarda e Nuna só desistiram. Sentaram-se para assistir.


— Bruna, você é uma grande filha da puta! — Nuna se virou para uma das câmeras e falou de repente — Você deve estar aí, confortável na sua casa, enquanto estamos aqui, curtindo dois furacões se enfrentando por sua causa. Sinceramente, viu?!


Eduarda acabou rindo, Monique também. Então, Gabriela parou, tentando entender por que estavam rindo.


— O que foi, hein?

— Vocês duas! Brigando por causa de Bruna Ribeiro, que deve estar às gargalhadas na cobertura dela no Brooklin!

— Pior que — Gabriela acabou rindo também — ela deve estar mesmo.


E estava. Morreu de rir com a briga, depois morreu de preocupação porque Henrique havia ganhado a prova do líder, emparedado Gabriela direto, e sobrou para Monique.


Paredão duplo, e acabaram sentadas juntas no gramado depois da votação.


— A gente é muito burra, viu? — Monique disse de repente.

— Quem briga em dia de prova do líder? Burras!


Foi neste paredão que o celular de Júlia Bittencourt começou a tocar sem parar.


Bruna estava de volta ao Brasil, ativa, fazendo conteúdos, e o programa literalmente na reta final. A sua imagem agora estava limpinha, brilhando, e claro que todos os lados queriam o apoio dela.


— Bruna, você não vai se pronunciar por ninguém. Isso não é problema seu de jeito nenhum.


Naquele dia, Bruna levou mais uma coisa nova para sua terapeuta.


O nervosismo de ter Gabriela em um paredão onde ela realmente podia sair.


— Me explica por que está causando ansiedade — A terapeuta anotava alguns dados.


Bruna respirou fundo, pensando.


— Acho que... talvez eu esteja temendo a saída dela. Não por causa do programa, por causa de... nós duas talvez?

— Você sabe que é por isso. Mas não está especificando o seu medo.


Bruna pensou mais um pouco.


— Não sei como ela vai reagir a essa exposição toda. Acho que... pode me magoar muito vê-la negando tudo. Pensei até em me mudar para Bogotá e começar uma lojinha de souvenir — Disse, fazendo sua terapeuta rir.

— Isso não vai acontecer.

— Eu não vou me mudar, eu sei.

— Não, Bruna, acho que... ela não tem como negar. Você me disse que está vendo a Gabriela diferente agora, não é? Não sente que ela mudou?

— Sinto. Mas isso pode ser só um sentimento também.

— Alguém que leva uma 3×4 escondida de uma ex-namorada não está tão imune assim a essa pessoa. E nem você está tão imune a ela. Bogotá não subiu essa imunidade, subiu?


Na verdade, Bruna achava que o efeito tinha sido contrário: com Dara sabendo de tudo, se sentiu mais à vontade com os próprios sentimentos e não sabia muito bem...


O que fazer com eles.


Monique foi eliminada com cinquenta e um por cento dos votos, no segundo maior paredão da temporada.


O cenário era todo contra Gabriela, mas o fandom a segurou. A torcida lutou por ela, as gabrunas foram imparáveis, mas ficou muito claro para Bruna que quem fez a diferença, no fim das contas, foram as suas linces, a sua torcida.


O discurso do apresentador foi emocionante, relatando aquela batalha épica de rainhas. Monique se despediu de todos e, quando estava passando pela porta, parou, olhou para Gabriela e:


— Oh, poderosa Habren, eu vou encontrar a Bruna antes de você!

— Pois ela vai voltar pra mim assim que eu sair! — Gabriela respondeu, rindo — Aproveita seus minutos, vai lá, chata, aproveita!


Bruna assistiu àquela cena e sentiu o coração aquecer.


— Amiga, vocês terminaram por causa de exposição? — Dara perguntou, as duas comendo sorvete diante da TV.

— Sim e não. Eu não terminaria com ela por causa disso. Mas também é verdade que eu não esperava que ela estivesse tão aberta assim, tão... livre. A família dela deve estar enlouquecida vendo esse tipo de cena. Vai ser agora?

— A última prova do líder, agora.


Henrique, Nuna, Eduarda e Gabriela eram os últimos sobreviventes.


Eduarda foi eliminada primeiro, Henrique em seguida e, na última rodada de um jogo de rapidez e inteligência, Nuna venceu Gabriela e caiu chorando no gramado porque estava automaticamente na final. Gabriela caiu com ela, Eduarda correu até as duas, e foi uma cena muito bonita, muito tocante mesmo. Gabriela havia sobrevivido. Mas ainda faltava uma batalha.


E Nuna tinha que decidir quem seriam os players.


— Me empareda.

— Gab...

— Vai, sei o que estamos fazendo. Não vamos dar a escolha para ele. Você venceu, a escolha tem que ser nossa, Nuna.


Nuna respirou muito fundo. Era hora de votar.


Gabriela. Gabriela vai para o último paredão.


E, sem precisar explicar muito, Gabriela puxou Henrique para aquela última batalha.


Se fosse para sair, que fosse contra o seu maior oponente.




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