Vulnerável 20
- Riesa Editora

- há 3 dias
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Vulnerável
Amanheceu e, desta vez, nem margem de erro havia nas enquetes do paredão, o último da edição.
Com toda certeza, se Nuna tivesse votado em Henrique, ele escolheria ir com Eduarda. E isso teria sido muito melhor para Flávia Demerara? Sem dúvida! Mas estavam falando de Gabriela Habren, e ela nunca era simples, fácil de entender ou linear.
O celular registrava 37 chamadas para Júlia Bittencourt e, obviamente, Júlia estava se fingindo de morta. Flávia também havia feito o mesmo quando necessário, nem podia ficar louca com ela. Mas precisava de Bruna. E rápido.
Olhou para a sala do apartamento, para a TV ligada, e Bartolo, o bulldog francês de Gabriela, assistia à dona absolutamente apaixonado.
— Ei, Bartolo! Você conhece Bruna Ribeiro? Uma gostosa de cabelo comprido. Espera, vou te mostrar — Flávia pegou o celular, acessou o Instagram de Bruna, se abaixou a uns dois metros de Bartolo, abriu um vídeo dela e virou a tela do celular para o cachorro — Essa aqui, olha.
Assim que a voz de Bruna surgiu no vídeo, ele prestou atenção. Se colocou de pé, correu para perto e, para fazer aquele cachorro preguiçoso correr, só podia existir algo ali.
— Ah, você conhece! Ela é a sua mamãe? Ela é? — Ele ficou elétrico — Gabriela Habren, você é uma grande filha da puta! Mas ok! Eu me viro por aqui, pode deixar! — Checou o horário. Achava que Bruna estaria voltando da academia em... dez minutos. Levantou-se imediatamente — Vamos, Bartolo! Cadê sua guia? A gente vai lá fora — Ele imediatamente se jogou no chão. Bartolo era preto e branco, mal-humorado e preguiçoso — Bartolo! A gente vai, sim, vamos encontrar sua mãe. Coragem, homem, coragem!
A duras penas, Flávia conseguiu tirá-lo de casa. Nem havia trocado de roupa, desceu de moletom mesmo, cabelos presos num coque alto, e foi literalmente arrastando o preguiçoso de quinze quilos, que não queria se mover de jeito nenhum. Foi uma luta, a luta da sua vida, Flávia contra aquele cachorro. Já tinha tentado abordar Bruna antes. Na verdade, estava tentando falar desde quando ela voltou de Bogotá, mas a Bem Indecente parecia muito firme na ideia de não se envolver mais no reality.
Mas desta vez, talvez com uma abordagem diferente... podia dar certo.
Lá veio Bruna, voltando da academia do condomínio. Ela malhava cedo, começava o dia assim. Estava toda de branco, tomando água em sua garrafinha. Daí, Flávia se abaixou perto de Bartolo e:
— Bebezão, olha quem está vindo ali — Soltou a coleira dele e Bartolo, simplesmente, correu para Bruna.
Ela estava distraída no celular, com Júlia a seguindo a certa distância, mas, de repente, ouviu um latido e, quando olhou pra frente...
— Filha da puta! — Foi a reação de Júlia ao perceber o que estava acontecendo — Bruna, é uma armadilha!
Tarde demais.
— Filho, filho! — Ela se abaixou e ele saltou nela imediatamente, se sacudindo inteiro, lambendo-a, muito animado — Você está aqui, meu preguiçoso! Cadê o meu gordito? Cadê?!
Flávia se aproximou da cena, com um sorriso vitorioso no rosto.
— Como você é baixa, Flávia Demerara! — Foi a reação de Júlia.
— Ele queria ficar com a mãe um pouquinho. Bruna, você não pode se isentar agora. Essa briga também é sua.
— Não é, não! Você não tem que se envolver nisso — Júlia reforçou. Bruna se sentou na calçada, abraçada a Bartolo, o enchendo de carinhos.
— Júlia, eu não sei se consigo me isentar — Bruna disse, feliz ao extremo ao ver Bartolo.
— Bruna...
— A Gabriela não merece sair para aquele idiota — Disse, enchendo Bartolo de carinho — Eu não posso virar as costas para a mãe dos meus filhos.
— Oh, Deus...! — Júlia sentou-se na calçada também, derrotada, e Flávia sentou-se ao lado dela, vitoriosa.
— Você lembra daquela época em que eu passava o meu tempo livre lendo fanfic de caráter duvidoso? — Flávia perguntou para Júlia.
— Lembro.
— Então, existe uma máxima nessas fanfics que é: a filha do pastor nunca decepciona. Gabriela Habren, quem diria, hein?! — Ela disse, e fez Bruna e Júlia rirem.

Alguma coisa bateu diferente em Bruna quando ela pôde estar com Chiara e Bartolo ao mesmo tempo, mais uma vez.
Subiu com ele e o levou para o seu apartamento porque, apesar de estarem separadas por dois anos inteiros, Bruna nunca parou de estar com Bartolo, nem Gabriela parou de estar com Chiara. Tinham acordos silenciosos. Dias em que Bruna levava Bartolo pra casa e dias em que Gabriela fazia o mesmo com Chiara.
Os dois estavam juntos desde filhotinhos. Chiara era de Ilhabela, havia sido adotada por Gabriela lá. Em determinada manhã, estavam passeando de carro e viram um filhotinho de golden brincando na praia. E Bruna se apaixonou perdidamente. No dia seguinte, Gabriela apareceu com Chiara muito bebezinha, com um lenço vermelho no pescoço, a coisa mais linda da vida. Bruna chorou, toda derretida, e então foi abraçada e beijada pela melhor namorada do mundo. “É a nossa primeira filha”, ela havia sussurrado em seu ouvido.
Assim que retornaram para São Paulo, Bruna fez questão de que a família aumentasse. Gabriela nunca havia tido um animal de estimação, seus pais eram contra, então, quando voltaram, era aniversário dela e Bruna decidiu que já estava bom, eram duas adultas agora, estavam comprando o apartamento delas e, se quisessem ter trinta doguinhos, elas teriam.
Foi assim que Gabriela recebeu um bulldog francês de presente de aniversário, vestido num agasalho rosa-bebê, a coisa mais preciosa do mundo. E haviam sido felizes, os quatro juntos, por seis meses, mas, de repente, tudo simplesmente...
Desandou.
Quando Júlia e Flávia se deram conta, Bruna estava chorando.
Sentada no chão da sua sala, com seus dois bichinhos, chorando. Um choro silencioso, contido, que ela tentou prender por dentro.
— Bruna, ei... — Júlia se abaixou junto a ela, enquanto Bartolo e Chiara se divertiam pela sala — O que foi?
— É que — a garganta fechada, as lágrimas caindo — éramos invencíveis. O tipo de amor que... não deveria ser derrotado. Éramos felizes. Como eu nunca fui antes, como ela nunca foi antes — O rosto vermelho, os olhos tão cheios e o olhar no chão, como se confessasse um crime, ou algo assim.
Flávia se abaixou na frente dela.
— Bruna, eu não sei nada dessa história. A Gabriela realmente é muito fechada, mas alguma coisa mudou recentemente, pouco antes de ela entrar no programa. Ela me pediu para fazer coisas bem específicas e acho que isso foi porque... ela estudou o programa. Conversou com ex-participantes e todos disseram a mesma coisa: aquela casa deixa todo mundo vulnerável. E, quando isso acontece, os sentimentos fluem sem supervisão. Acho que ela foi pra isso.
— Como assim?
— Ela foi para se expor, sem precisar verbalizar para a família. Lá dentro, com todo mundo vendo, não teria como a mãe dela refazer uma narrativa. Acho que ela queria mostrar essa parte dela que ninguém faz ideia, mas não contava com você lá dentro. Isso bagunçou tudo. Você não acha que ela está bem bagunçada?
Júlia trouxe água.
— Beba, vamos!
Bruna bebeu, respirando fundo.
— Estou com medo de que ela tenha uma crise. Não sei se ela ainda tem crises nervosas.
— Tem. São raras, mas elas ainda acontecem. Não sei o que ela está pensando, Bruna, mas sei que é bem importante para ela não ser derrotada agora. Ela... abriu uma última camada, você não acha? Naquela briga com a Monique, quando quase confessou tudo sobre vocês. Depois, disse aquilo quando você saiu. Débora está gritando no meu ouvido há horas, sem parar. Sei que a Gabriela não se importa em perder o programa, mas ser derrotada no ponto mais próximo em que ela já esteve de contar toda a verdade dela...
— Seria um golpe.
— Seria. Não vou te pedir que você faça nada agora, a votação está aberta só há algumas horas. Mas, se você achar que deve fazer alguma coisa, quero que saiba que vai ser bem importante para a Gabriela.
Bruna assentiu, se recompondo.
— Posso ficar com o Bartolo?
— Pode, claro que sim.
— Flávia...
— Diga.
— Você consegue segurar a megera?
Flávia riu.
— A sua sogra...?
— Essa megera. Se a Gabriela sair muito vulnerável, a mãe dela tem que ser mantida longe — Bruna abraçou Bartolo.
— Pode deixar, já tenho um mecanismo para isso. Pensa em tudo, ok? A Júlia tem os meus contatos.
Bruna pediu que sua agenda fosse limpa por aquele dia.
Não quis lidar com problemas da empresa, já tinha recusado qualquer compromisso envolvendo o reality e achava que precisava mesmo ter um espaço.
— Você quer que eu ligue para a Dara? — Júlia perguntou.
— Não, Bittencourt, a empresa precisa dela. Já tirei a Dara daqui por tempo demais. Estamos com várias demandas atrasadas. Você precisa ir para a empresa também.
— De verdade, Bruna?
— Juro que estou bem, só preciso de um dia mais tranquilo. Vou ficar aqui, fazer a minha própria comida, cuidar dos meus cachorros e ficar fora da internet. Só preciso limpar os meus pensamentos.
Júlia concordou, podia ser assim.
Bruna fechou todas as cortinas da casa. Apesar de estar muito melhor das sensações pós-confinamento, foi voltar ao Brasil e começar a se sentir observada de novo. Se fosse hoje, não teria escolhido um condomínio com prédios e sim com casas, onde teria mais espaço pessoal sem se preocupar se estava sendo olhada por alguma janela. Pegou as coisinhas de Bartolo, os dois pareciam bem felizes por estarem na companhia um do outro. Era muito bom poder estar com seu cachorro de novo. Mas, ao mesmo tempo...
Bruna sentia que ainda se agarrava às coisas que envolviam Gabriela como uma boia salva-vidas.
Como seria quando ela saísse? Será que iriam conversar? E, se conversassem, será que Bruna deveria mesmo conversar com ela?
Lembrava que, quando se separaram, uns dez meses depois, Gabriela apareceu na sua porta, batendo desesperada, no meio de uma chuva forte. Bruna estava com a casa cheia, já se cercava de pessoas para não ter que cercar seus pensamentos, e teve que tirá-la dali. Ela queria conversar, mas estava bêbada. Bruna tratou de encontrar uma forma de deixá-la segura, de maneira discreta, e deixou claro que, se fosse para elas conversarem, as duas tinham que estar sóbrias.
E nenhuma outra tentativa de abordagem jamais aconteceu.
Bruna não queria ser amada em anestesia. E sabia muito bem que estava amando Gabriela de novo, se é que havia parado em algum momento. Mas, se fosse para ser amada somente em um momento de descontrole, isso não servia. Falou disso na sua sessão de terapia daquela tarde.
— Mas, Bruna, você já me disse o contrário, não disse?
— Sobre...?
— Você já disse que, na verdade, amar alguém é se deixar vulnerável. Talvez, tratando-se de duas mulheres tão fortes como você e a Gabriela, o amor esteja justamente na vulnerabilidade, em mostrar seus pontos mais sensíveis. Se ela quiser conversar, você aceitaria? É que vi o programa ontem de madrugada e ela estava falando disso com a Nuna — A terapeuta contou, fazendo Bruna rir.
— Você está vendo o programa?
— Claro que sim! É uma das melhores edições em muito tempo — Ela respondeu, sorrindo — Mas a Gabriela estava falando disso, de você. Se perguntando se vocês poderiam conversar. Ela contou que a última conversa antes da casa não havia sido nada boa. Que ela se convenceu de que era melhor vocês não se encontrarem mais, porque assim ela estaria... mais segura. Isso faz sentido?
Bruna riu.
— Na cabeça dela, deve fazer — Não, a última vez que tinham se falado não havia sido no dia da chuva. Havia sido seis meses atrás. Por iniciativa de Bruna.
Porque amar alguém é se deixar vulnerável.
Bruna passou o resto do dia em modo “não perturbe”.
Sua sessão de terapia terminou perto das seis da tarde e decidiu abrir só um pouquinho da cortina, porque queria ver o pôr do sol. Fez isso com Bartolo e Chiara, só de short de algodão e camiseta, sentada no chão com os dois, tentando limpar os seus pensamentos. Fazia mais de três meses que não entrava ao vivo. Nem sabia se ainda sabia fazer isso. Desde que saiu do confinamento, achava que podia ter desaprendido uma coisa ou outra.
Mas, se fizesse uma live, faria mesmo diferença? Porque fazer algo a favor de Gabriela, com ela tão próxima de sair, parecia perigoso também. Era uma sexta e a eliminação seria no domingo. Caso ela ficasse, sairia na terça de qualquer forma, o programa terminaria nesse dia. Falar sobre ela podia alimentar ainda mais as teorias gabruna, e Bruna realmente não sabia como Gabriela aceitaria quando saísse e visse tudo o que estava acontecendo.
Assistiu ao pôr do sol, preparou o jantar: uma salada crocante com molho especial, fez uma garrafa de chá para tomar no lugar do café porque queria dormir cedo. Sentia que, pela manhã, saberia o que fazer.
Bem, foi acordada às duas da manhã.
Havia deitado no sofá, colocado o pay-per-view do programa, mas sem som, e estava lendo um livro no Kindle. Acabou pegando no sono assim e acordou com o celular tocando, por um dos poucos números que podiam passar pelo seu modo “não perturbe”.
— Dara?
— A Gabriela surtou! Não sei por que decidi te acordar, mas achei que você fosse se irritar se eu não fizesse isso.
Bruna procurou Gabriela por todas as câmeras, mas ela não parecia estar na casa. Ligou para Dara de novo e perguntou o que havia acontecido. Ela enviou links de vídeos que mostravam.
— Mas onde ela está?!
— Acho que está em atendimento, foi retirada da casa.
Bruna desligou e clicou nos links. O primeiro vídeo mostrava Gabriela com insônia, andando pela casa sem parar. A diferença é que ela não estava sozinha acordada. Henrique estava acordado junto com ela e, uma coisa seja dita: se aquele homem tinha uma qualidade, essa qualidade era ser extremamente limpo.
Ele limpava o tempo todo. Gostava de ver o chão brilhando e de manter tudo organizado. Eduarda e Nuna pareciam estar dormindo no quarto do líder e, com Gabriela fora do quarto comum, Henrique decidiu limpar, ainda que fosse de madrugada. Só restava um quarto aberto, o outro tinha sido trancado; eles estavam dividindo o mesmo espaço. Foi claro que ele não teve a intenção. Mas, sem querer, acabou derrubando álcool líquido, que caiu sobre a cama, atravessou a coberta e, embaixo da coberta, estava a foto de família de Gabriela.
O próximo vídeo já era ele indo pedir desculpas, com a foto na mão. Mas Gabriela não quis ouvir nada, apenas virou a foto imediatamente e a 3×4 estava ondulada, sem brilho e borrada.
— Não dá mais pra ver o rosto dela!
— Gab, me desculpa, eu juro que foi sem querer!
A 3×4 estava deteriorada e Gabriela não parava de repetir que não dava mais para ver o rosto, não parava de acusar, dizendo que havia sido de propósito, enquanto tentava fazer alguma coisa para frear o efeito do álcool.
Correu para a cozinha, procurou uma tesoura, recortou a 3×4 da foto maior e Henrique foi chamar as garotas. Ele não sabia o que fazer, porque aquela reação parecia... muito diferente.
— Gab, Gab, está tudo bem, calma, olha aqui pra mim — Nuna tentou segurá-la, mas estava muito difícil. O corpo de Gabriela estava vibrando por inteiro, os músculos rígidos e pulsando, era como se tivesse algo com vontade própria por baixo da pele dela.
— A foto estragou! Ele estragou a minha foto, Nuna! — Ela dizia, desesperada no meio do choro.
— Não foi por querer, amiga, olha aqui pra mim, eu preciso que você olhe pra mim e se acalme, tudo bem?
— Ela não vai me dar outra! E eu não tenho outra, a outra sumiu, ficava nas minhas coisas e sumiu! Eu só tenho essa. Eu nunca mais vou ter outra, Nuna, ela não vai me dar outra, ela não vai!
Bruna chorou ao ver a cena. O choro só subiu pela sua garganta e agradeceria pessoalmente à produção do programa por ter cortado a câmera a partir daí. O áudio ainda foi captado pelas câmeras do jardim, a voz e o choro desesperado de Gabriela e a contenção de Nuna. Ela era estudante de medicina, sabia o que fazer. Dava para ver Eduarda correndo para lá em seguida e, então, Bruna leu na internet que as câmeras foram cortadas por dois minutos. E, quando retornaram, Gabriela não estava mais na casa.
A principal conta gabruna postou alguns minutos depois que Gabriela estava em atendimento médico e que voltaria em breve. Bruna ficou com a TV ligada, esperando por isso. A perna batendo sem parar e uma inquietação intensa. Ligou para Flávia via Instagram.
— Ela está sendo atendida, mas vai retornar.
— Mas, Flávia, você acha que isso vai ser bom para ela?
— Bruna, ela não vai correr o risco de sair como covarde. Ela não vai desistir.
Nisso, Flávia tinha razão.
Perto das seis da manhã, Gabriela retornou.
Cansada, fisicamente drenada, com os olhos apagados. Pediu desculpas para Henrique, o acordou para pedir.
— Sabe o que é pior? — Ele perguntou.
— O quê?
— Não deu para ver quem era na foto. Quando peguei, já não dava para ver.
Gabriela acabou rindo fraco da brincadeira.
Ela dormiu. Deitou e dormiu até às nove, quando precisou se colocar de pé para o raio-x.
E Bruna fez o mesmo.
Se colocou de pé, tomou banho, fez café da manhã, cuidou de Bartolo e Chiara. Então, se vestiu de maneira especial: conjunto de moletom branco, cabelos soltos, bem cacheados. Fez uma maquiagem leve, nem queria ficar bonita, só queria... ficar real. Só queria ficar Bruna Ribeiro de Habren, a que já tinha morado em Seul, em Macau, em Melbourne; a que falava inglês, italiano, coreano e arriscava no chinês; a que tinha pós-graduação em uma respeitável faculdade de cosméticos em Seul. Que amava dançar nas horas vagas e tinha se rendido ao k-pop por influência da melhor namorada do mundo.
Pegou seu celular, um suporte e foi para a sala, sentou-se no tapete. Deixou o pay-per-view rolando de fundo e Chiara e Bartolo soltos, brincando pela sala. Abriu as cortinas. Queria luz natural.
Eram 9:38 da manhã quando, depois de meses, o perfil Bruna Ribeiro Oficial iniciou um vídeo ao vivo.
Sem avisar nada a ninguém.
Sorriu assim que percebeu que estava ao vivo.
— Gente! Nem tenho certeza se ainda sei fazer isso. Parece que faz anos que não abro uma live, que não venho aqui conversar com vocês. Minha vida, desde que saí do confinamento, tem sido de interações silenciosas, fotos ou vídeos gravados. Sinto também que só ando falando de trabalho e que tenho fugido sumariamente de todas as perguntas que vocês andam me fazendo — Explicou, sorrindo, vendo que, em menos de um minuto de live, já havia 57 mil pessoas assistindo, e o número só subia — Prometo que vou responder a todas as perguntas, mas não hoje ou agora. Soube que tivemos uma noite complicada na casa, né? E, sabendo o contexto, quis abrir a minha primeira live pós-confinamento para falar sobre um assunto bem delicado. Eu ainda não fui à internet. Mas sei que já deve estar inundada de comentários tendenciosos dizendo que a crise da Gabriela ontem deve ter sido encenada, que ela só estava cavando conflito, que exagerou na reação. E eu queria contar que eu a conheci numa crise assim.
Chiara correu para perto e Bruna fez carinho nela, seguindo com a câmera muito naturalmente.
— Acho que ela contou isso na casa: nos conhecemos no primeiro trabalho dela e eu a vi assim, em sofrimento, numa crise severa, totalmente vulnerável. Tudo muda quando vemos qualquer pessoa assim. Ninguém quer se mostrar em crise; é a nossa pele mais profunda e mais sensível. Ela não encenou nada ontem, ela só... sofreu. Porque estar naquela casa é passar por uma escassez sentimental severa, em que cada pequena coisa ganha uma importância enorme. Era uma foto pequena. Mas com peso emocional. Eu não devia me posicionar em nenhum paredão, mas acho que não dá para escapar de se posicionar nesse. Gabriela foi forte, uma jogadora de primeiríssima linha, que esse reality vai ter que trabalhar muito para encontrar outra. E eu espero que ninguém esqueça disso só porque essa grande jogadora se mostrou vulnerável. Esse deveria ser um jogo de vulnerabilidades, em que quem se mostra melhor deve ser o vencedor. E aqui não estou falando do prêmio final, só... da final. Se tem alguém que merece essa final, é Gabriela Habren. Estou aqui fora porque não soube me posicionar, não faz sentido Gabriela ser eliminada quando tudo o que ela fez lá dentro foi se posicionar.
Bruna podia estar maluca, mas sentia que estava se posicionando ao lado dela.
— Inclusive, estou aqui fora porque não me posicionei contra esse sujeito, vai ser de acabar se vocês deixarem esse cara eliminar a Gabriela. Se posicionem vocês também! — Disse, cheia de sorrisos — Votem! Não adianta chorar na internet depois se vocês não votarem.
Assim, Bruna encerrou a live para quase dois milhões de pessoas. E, assim que desligou, o celular começou a tocar enlouquecidamente.
— Eu vou trabalhar, Bittencourt.
— Ah, depois da live surpresa você vem trabalhar, é? — Júlia disse, sorrindo.
— Vou! Acho que preciso me preparar para terça, deve ter muita coisa que preciso fazer.
Se foi por conta da live ou não, os votos por minuto subiram imediata e consideravelmente.
A discussão na internet foi reacendida, ganhou fôlego, e vídeos dos embates de Gabriela contra os homens da casa voltaram a viralizar, coisa que Bruna acompanhou da cadeira de CEO no próprio escritório. Fingiu estar analisando contratos sérios, mas não conseguia sair do Twitter nem parar de olhar parciais, e não tinha resposta alguma para o próprio comportamento. Quando chegou em casa, postou uma foto de Bartolo e Chiara, e as gabrunas colocaram quatro hashtags em primeiro lugar. Claro que elas sabiam que era o cachorro de Gabriela, reconheciam que ele estava no apartamento de Bruna, e isso deu mais gás para a votação.
— Bruna Ribeiro, você é realmente muito boa nisso — Flávia admitiu durante o jantar daquela noite. Havia sido chamada para jantar.
— De controle de narrativa, eu particularmente entendo — Admitiu, sorrindo.
Era bom estar em movimento. Seja lá qual fosse o resultado.
De tudo.
Bruna não dormiu naquela noite nem devolveu Bartolo. Queria os dois por perto, estava agitada, ansiosa. E, depois da crise, uma calma absurda tomou Gabriela naquela casa, e Bruna achava que sabia o motivo: além de estar exausta pela crise, exausta emocionalmente, também estava... conformada. Com toda certeza, Gabriela sabia que tinha errado quando acusou Henrique e seria eliminada.
“Se ela for eliminada, posso dizer que você aceita conversar com ela?” Era uma mensagem de Flávia no meio da madrugada.
A pergunta ficou sem resposta.

Gabriela vestiu o look deixado por Bruna para a eliminação.
O vestido lindo, justo, preto, as joias que Bruna havia deixado para ela, a gargantilha de cadeado, a maquiagem perfeita, tão bonita que nem parecia real.
— Mas este… é o seu vestido da final, Gab — Eduarda disse, assim que a viu vestida.
— Bem, esta é a minha final.
Sabia que era.
O programa começou com o recorde de votação em um reality show sendo quebrado NO MUNDO. Era a votação mais expressiva já vista. Tinha ultrapassado o superparedão de duas edições atrás, e não dava para saber nada ainda. A polarização era assim.
Na maior votação da história, envolvendo a maior vencedora de provas de todas as edições, não devia existir a chance de algo dar errado. Será que... existia?
— Daqui pra frente, só vencedores. Daqui pra frente, nenhuma outra batalha vale mais a pena do que esta última a ser vencida. Henrique, você foi um grande guerreiro, lutou pelo que acreditava, usou todas as armas que tinha, não deixou nada para depois, enfrentou tudo com toda a munição que restava, e isso faz de você um ótimo jogador. Mas esta é a última partida do campeonato e, do outro lado, você tem a maior vencedora de provas do programa, com folga. Gabriela ganhou sete das dezessete lideranças jogadas, ganhou cinco das dezessete provas do anjo, ganhou carro, celulares, notebook, dinheiro, ganhou provas Bate e Volta, ganhou bate-boca, ganhou as garotas da casa — O apresentador disse em seu discurso, causando um sorriso em Gabriela — Ganhou até par ou ímpar! Ninguém ganhou mais do que Gabriela Habren até aqui, e é de se imaginar que, no maior paredão da história, ser um ótimo jogador não seria mais suficiente. Gabriela ganhou o público também, não o tempo todo, mas, especificamente, neste tempo de hoje, ela ganhou o público, sim. Então, Henrique, orgulhe-se da sua trajetória e orgulhe-se de ter saído apenas para a jogadora desta edição que não admitia ser vencida. Gabriela, você continua. Segue invencível. Vai para a final.
Foi para a final com uma superioridade de nove por cento nos votos. Houve um misto de energia, adrenalina, felicidade, tudo junto. As três estavam na final. Haviam conseguido. Um único grupo, o menor dentre todos. Bruna comemorou em segredo. Com Bartolo e Chiara, os únicos a testemunharem o quanto ela estava nervosa até ouvir aquele discurso final. Henrique saiu pela porta e as três pularam na piscina.
A votação para a final foi aberta logo em seguida, mas Gabriela já tinha vencido. Aquela era a sua batalha e ela sabia disso muito bem.
Naquela noite, dormiu com sua 3×4 danificada, em que não dava mais para ver nada, mas sabia muito bem de quem era.
— Só esteja lá. Por favor. Só esteja comigo por cinco minutos. Posso resolver tudo se tiver cinco minutos.
Dormiu com a 3×4 perto do coração.





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