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Vulnerável 21


Fuga


Dois dias de votação se passaram em uma casa leve, cheia de risadas e coreografias improvisadas. As três cantaram muito, dançaram bastante, viveram lá dentro como se estivessem de férias com amigas — e, de certa forma, estavam. Depois de toda aquela jornada, tanto física quanto mental, não restava mais nada a fazer. Haviam feito tudo, entregado tudo e agora o destino delas estava inteiramente nas mãos do público.


— Sabe o que eu mais gosto a respeito da cultura oriental? — Gabriela dizia naquela tarde, enquanto faziam um bolo na cozinha — Eles acreditam mais na jornada do que no destino. Há diferenças sutis entre as duas coisas. Destino é sobre o que você não consegue escapar. Já a jornada é o que se constrói. São os seus passos, as suas decisões. Terminamos a nossa jornada aqui, mas o destino já existe.


Eduarda olhou bem para ela.


— Tão filosófica a minha amiga! — Disse, agarrando-a e fazendo-a rir — Quanto tempo você morou na Ásia?

— Foi um tempo considerável — Gabriela respondeu, sorrindo.

— Quanto tempo a Bruna morou na Ásia? — Ela perguntou de novo, fazendo as duas rirem — Foi só algo aleatório que me passou pela mente agora, sabe...?!


Foi um dia especial para os outros participantes também.


Estariam todos reunidos novamente, o que podia ser bom ou ruim. Gabriela só conseguia pensar em uma coisa, e Bruna só conseguia pensar naquela mesma coisa. Ambas haviam mudado, tanto fora quanto dentro da casa, e não sabiam muito bem como seria... estarem frente a frente depois de tudo o que haviam passado separadas.


Também podia simplesmente não acontecer nada. Mas nenhuma das duas acreditava nisso.

Bruna não quis saber como estava a votação final. Qualquer uma das três que ganhasse seria justo. Esperava que seu pós não irritasse Gabriela. Sabia que não deveria estar pensando nisso, que não deveria importar o que ela achava ou não, mas, de alguma maneira, ainda se importava e não podia ignorar.


Havia aprendido que, quanto mais ignorava seus sentimentos, mais monstros criava. Não queria mais monstro nenhum. Queria algo diferente para si mesma, mais paz, mais tranquilidade, mais... claridade. A última fase obscura de Bruna tinha saído ao sol. Não totalmente? Não totalmente. Mas era um alívio poder falar sobre Gabriela outra vez, com menos peso, só... falar. Sabendo que não seria julgada.


Flávia insistiu na pergunta se Bruna aceitaria conversar caso Gabriela quisesse.


Ainda não tinha essa resposta.


O dia da grande final chegou.


Bruna estava em seu quarto de hotel, terminando de se maquiar, quando Júlia entrou.


— Já sabe o que vai vestir?


Na verdade, sabia sim.


Decidiu usar novamente o look com o qual havia deixado a casa. Menos por Gabriela e mais para sinalizar que tudo estava bem. Nem precisavam necessariamente conversar, só o visual já enviaria o recado. Foi algo que fizeram muito naquele tempo separadas, esse tipo de sinal de “eu estou bem, não te odeio, fique bem”. E, quando Gabriela repetiu o look da última eliminação, Bruna compreendeu que ela podia estar enviando o mesmo recado.


Ela optou pelo vestidinho Gucci novamente, colocou todas as joias também, incluindo aquela no punho, que não queria mais esconder. Bruna nunca esqueceria o impacto de encontrar aquela pulseira no punho dela no primeiro dia de confinamento. Se perguntou se era um recado guardado, se talvez fosse algo que ela quisesse que Bruna visse pela TV ou se era apenas um objeto de calma. Sabia que Gabriela tinha alguns. Aquela pulseira era um deles.


Tudo era tão confuso.


Ainda assim, Bruna colocou o ear cuff.


— Pronta, Bru? — Dara perguntou.


Bruna respirou fundo.


— Sim, acho que sim. Isso... acabou. Nem acredito.


Dara se aproximou, encarando-a pelo reflexo do espelho.


— O programa acaba em algumas horas. Mas a Gabriela te pediu cinco minutos.

— Dara, ela pediu cinco minutos aleatoriamente.

— Com a sua foto no peito, Bruna. Vê se deixa de ser sonsa! E não seja teimosa. Se você sentir vontade de falar com ela, fale. Você não será cobrada por isso, ok?


Bruna assentiu.


Reencontrar os participantes acabou sendo muito bom.


Foram reunidos em um estúdio. Tinha um coquetel sendo servido e, por ter ido para a Colômbia praticamente assim que saiu, Bruna não tinha visto ou falado com ninguém. Chegou bem nervosa, mas ser tão bem recebida a acalmou um tanto. Tirou fotos, fez stories. Podia ter sido a quarta eliminada do programa, mas nunca perdeu seu posto de estrela.


— Quando saí, me contaram que você tinha sumido por semanas! — Monique comentou, quando já estavam tomando um drink de suco juntas, sem álcool.

— Precisei cuidar desse problema aqui — Bruna apontou a taça.

— Bruna, você podia ter me dito que era um problema mesmo!

— Mas isso não foi culpa sua, Monique. Acho que... a pressão do isolamento me fez muito mal e eu acabei sendo empurrada para hábitos que não são bons pra mim. Mas são hábitos meus, a culpa é minha, entende?

— Mas você está bem agora?

— Estou! — Abriu um sorriso — Já voltei ao trabalho, a minha linha nova de cosméticos deve sair em breve, tem muita coisa acontecendo.


Monique a olhou mais longamente.


— E a Gabriela?

— Mas o que tem a Gabriela, mulher?


Sorriso de Monique.


— Ela é apaixonada por você.

— Não é, não — Bruna se recostou no sofá.

— É, sim! O tipo de paixão que ninguém precisa confessar, todo mundo só sabe. Mas sei que alguma coisa deve ter dado muito ruim para vocês estarem separadas agora. Porém, a vantagem do programa é que certas coisas ficam visíveis, a gente acaba vendo tudo.

— Acho que a gente hipervaloriza isso, sabia? Não tem como ser natural num ambiente tão hostil. Eu não... não consegui.

— Acho que ninguém conseguiu, Bruna. Mas acho que... quando a gente performa, acaba deixando de lado coisas que, por algum motivo, a gente tende a esconder, entende?


Bruna tomou outro gole do seu drink.


— Monique, você ficou normal depois que saiu?

— Normal? Fiquei maluca! — Ela respondeu, rindo — Ninguém fala sobre isso, né?


Ninguém falava. Bruna só esperava que Gabriela ficasse bem.


E o último programa daquela edição começou.


Todo o elenco reunido em um estúdio, uma energia altíssima, maravilhosa, sem rusgas, sem ressentimentos, tal como mais ou menos também havia sido lá dentro. As três finalistas surgiram lindíssimas na casa. Eduarda estava deslumbrante de vermelho. Nuna, de perder o fôlego, de branco. Gabriela de preto, linda, um absurdo de tão impactante.


Ver Gabriela no vídeo bateu diferente. O coração de Bruna acelerou.


O apresentador fez uma abertura rápida e foi direto para os VTs das finalistas.


Por ser o último programa, elas iriam assistir a tudo, estavam animadas demais com isso. Primeiro, o VT de Eduarda. A belíssima e divertida Eduarda, que, no meio da sua trajetória, tinha vivido a história que virou divisor de águas daquele programa. O edit ganhou um ar mais obscuro, com muitas brigas e discussões. Então, as vitórias foram aparecendo, vitórias de uma equipe que sempre confiou umas nas outras.


Foi clara a transformação física de Eduarda: ela estava mais forte, havia ganhado músculos naqueles três meses, e isso chamou a atenção do apresentador, que comentou com elas no final do VT.


As três haviam ganhado musculatura natural.


— Acho que isso nunca aconteceu — Ele disse, sorrindo.

— A gente treinava para as provas — Eduarda se deu conta — Acho que nunca fui tão disciplinada na academia na minha vida toda! Isso foi culpa da Gab.


Elas riram, porque devia mesmo ser culpa dela.


O próximo VT foi de Gabriela Habren.


A primeira impressão que ela causava sempre seria a beleza. O edit abriu explorando sua beleza ao som de “Boyfriend”, de Dove Cameron. Gabriela sorriu assim que ouviu a música embalando os momentos de atenção feminina que recebeu, que não haviam sido poucos. Todas as garotas ficaram um pouquinho loucas por ela e, com toda razão, os vídeos mostravam isso.


Gabriela sorriu assistindo. Nunca tinha visto seu charme em movimento daquele jeito. O VT avançou para “Stan”, uma versão de “Thank You”, de Dido com Eminem, enquanto mostrava a jogadora agressiva que ela havia sido. Todas as suas brigas, os seus momentos de coragem, as suas vitórias. E, de repente, a música mudou mais uma vez e, no primeiro acorde de guitarra elétrica, na primeira imagem, Gabriela quebrou.


Era a imagem de Bruna entrando na casa.


E a música? "Gone", de Rosé.


Bruna sorriu com os olhos cheios. Não achou que estaria no VT da finalista. Gabriela levou a mão à boca, o coração imediatamente pinçado. A história delas desde o começo, da entrada na casa aos olhares que trocaram naquele primeiro dia, até Bruna diante do botão vermelho, e as cenas na cozinha.


Mostraram também todos os momentos em que dançaram e se divertiram juntas. De Kill This Love até Envolver, os toques discretos, o cuidado uma com a outra. E as brigas. O tanto que Bruna havia chorado naquela casa sem que Gabriela tivesse ideia. Os olhos de Gabriela se encheram mais quando a viu chorando, duas piscinas esverdeadas que ela não estava conseguindo controlar.


Então, veio o beijo de Bruna e Monique, e Gabriela riu, porque não tinha conseguido disfarçar o ciúme de jeito nenhum.


Logo veio a votação, e Gabriela percebeu o quanto havia sido dura naquele discurso. Enquanto falava, imagens eram mescladas: as duas juntas, rindo, se maquiando, dançando.


A música ficou mais alta, mostrando a briga pós-paredão, silenciando as duas, deixando apenas a trilha. As mãos, uma procurando a outra, os toques sempre tão constantes, consistentes, os olhos nos olhos.


Assistir à Bruna indo embora de novo doeu outra vez.


A música mudou novamente, e a crise da 3×4 foi exibida de maneira resumida, com "Vulnerable", de Selena Gomez, como trilha.


Mas não era só uma foto. Gabriela repetiu que não teria outra. Então vieram imagens do seu último paredão, mas ela ainda estava presa na 3×4. Presa em Gone. Na Bruna que havia ido embora por sua causa.


De novo.


Gabriela verbalizou tudo isso, mas os microfones estavam cortados durante o VT.


Bruna apertou a mandíbula, notando o quanto ela ficou mexida. Gabriela estava mesmo frágil e ao vivo para um número gigantesco de pessoas. Ficou preocupada. Eduarda foi pegar um pouco de água para ela; Nuna não soltava a mão da amiga.


— Gabriela Habren! Que trajetória! É tão bonita que acho que, pela primeira vez, temos a nossa melhor jogadora sem palavras. Não me lembro de ter visto você tão vulnerável até agora.

— Ah, não estive tão vulnerável antes — Respirou fundo, se recompondo da forma que podia — Sempre morri de medo disso, de estar vulnerável. Acredito muito que o momento em que estamos mais vulneráveis na vida é quando encaramos verdades. Verdades são incontestáveis, você não pode fazer muita coisa diante da verdade. No máximo, chorar se essa verdade doer ou se você não concordar com ela, se desejar que algo seja diferente.

— Você desejaria que algo fosse diferente na sua trajetória? Que alguma verdade fosse mudada?


Ela sorriu, os olhos se enchendo de novo.


— Eu não sei. A gente teme consequências, né? Não faço ideia das consequências de todas as atitudes que tomei aqui dentro. Um participante disse uma vez que, quando a gente entra aqui, ganha uma vida com duração máxima de três meses e tudo nessa vida é novo e só acontece aqui. Quando eu sair, essa Gabriela que fui aqui dentro pode morrer, e tenho medo disso — Bebeu da água — Todo mundo veio?


O apresentador riu.


— Todo mundo veio, sim, Gab.

— Ok, isso é bom — Sorriu.

— Não tem como falar da sua trajetória sem falar da Bruna.

— Eu sei. Esse aqui é um jogo de complexidades. Porque o melhor jogador aqui, no final das contas, joga com o afeto dos outros, com as alianças construídas. E tudo bem ser assim também. O que eu não esperava mesmo é que um afeto do mundo real aparecesse aqui dentro. Bruna é — respirou fundo novamente — uma ferida aberta que eu não consigo parar de tocar — Disse, tocando sua tatuagem no esterno com os dedos — Ela dói em mim e eu causo dor nela. Somos como duas pessoas que não conseguem se tocar porque dói, mas também não conseguem parar, porque são viciadas nisso. Não conseguimos nos entender aí fora, mas não seria aqui dentro que isso iria acontecer.

— Isso quer dizer que vai caber conversa aqui fora? — O apresentador perguntou.

Em duas horas, eu espero.


O VT que veio depois foi digno de uma vencedora.


De uma rainha que Gabriela havia feito questão de admirar. Nuna era uma batalhadora, uma garota de briga que batia forte sempre que a vida tentava atingi-la de alguma maneira. Era de uma comunidade muito pobre, mas havia conseguido sair, aprendeu a usar a beleza que tinha para prosperar e não parou nunca mais.


Brigou para entrar em uma universidade pública, no curso mais concorrido do país inteiro. Deixou milhares de candidatos para trás, tanto para entrar na faculdade de medicina quanto para entrar no programa, e só seguiu fazendo isso, porque, se Gabriela era a maior vencedora de provas de todas as edições, Nuna estava logo atrás dela, com três provas a menos. Dizia o que pensava com uma voz respeitosa e doce, fazia-se ouvir assim, tinha esse poder.


Ela venceu tudo: a vaga na universidade, os outros participantes daquele reality e, por fim, o coração de milhões de brasileiros.


A menina da favela havia vencido, mais uma vez.

Foi uma insanidade.


Nuna venceu com quarenta e cinco por cento dos votos, Gabriela ficou em segundo lugar com trinta e oito, e Eduarda em terceiro, com dezessete por cento. Fogos e papel picado surgiram na casa, no pódio tantas vezes idealizado por elas três. Nuna ficou em choque, não entendeu a princípio e, depois que entendeu, não conseguia parar de chorar. Foi uma bela cena final, das três abraçadas no jardim, juntas, agarradas, sabendo da grandiosidade do que haviam feito.


Então, tudo acabou. Um monte de gente apareceu, o que era muito estranho ali dentro, onde tinham se acostumado com as mesmas caras sempre. Tudo acelerou. Havia estúdio, transmissão ao vivo, fotógrafos, câmeras, requisições, e a entrada de volta no mundo real foi absolutamente caótica. Até assustadora. Nuna estava claramente assustada, Eduarda tentando se orientar sobre onde estavam. E Gabriela...


— Onde estão os outros participantes? — Foi a primeira pergunta dela para a produtora.

— Os outros? Estão em um estúdio diferente, vamos entrar com vocês três em uma live.

— Onde fica o outro estúdio?

— Gabriela...

— Onde fica? — A perna dela estava batendo sem parar, o olhar errático procurando alguém que não estava ali.

— Do outro lado da quadra, depois dos estúdios da novela das sete, mas é longe.

— Longe quanto? — Gabriela já estava impaciente.

— Acho que... mais de um quilômetro. Deve ser quase dois.

— Preciso ir lá.

— Gabriela Habren! — Foi em tom de bronca.

— Eu preciso! Vou lá e volto pra cá, será rápido.


Já foi saindo. Passos rápidos, desviando das objeções da produtora e então...


Começou a correr.


— Gabriela? Ei, Gabriela! — A produtora acionou o comunicador e falou com a segurança, informou o que estava acontecendo, deixando claro que Gabriela Habren não podia sair.


Só que não adiantou.


— Como é que ela escapou de vocês?! Sim, mas ainda é uma garota correndo de saltos. Ok, ok! — A moça tirou o dedo do comunicador e usou seu celular, fazendo uma ligação — Temos uma finalista em fuga!

— O quê?!

— Ela fugiu! Saiu correndo daqui, está indo para o seu estúdio.

— Quem fugiu?

Gabriela Habren. E acho que sei o que ela quer desse outro estúdio aí.


A outra produtora também desconfiava que sabia.


No outro estúdio, estavam em uma dinâmica diferente com o resto do elenco, um after de respeito. As finalistas deveriam chegar por volta das três da manhã, mas agora tinham aquela situação. A moça pensou. E foi até Bruna.


— Bruna?

— Oi!

— Acho que tem alguém vindo pra cá.

— Alguém...?


Era difícil explicar, mas, de alguma maneira, Gabriela tinha aparentemente conseguido furar a segurança do estúdio. Ninguém parecia capaz de parar a maior vencedora daquele programa de fazer o que queria.


Ela estava sem celular, sem microfone, sem nenhuma forma de comunicação. Saiu do estúdio, fugiu pelo elevador de serviço, furou a segurança na entrada e só continuou a correr.


Pelas grandes quadras dos enormes estúdios da emissora. Correu firme, forte, de vestidinho Gucci e botas nos pés. Correu sem olhar para trás, sem checar se estava sendo seguida. Forte. Rápido. Os cabelos voando, os braços socando o ar para quebrar resistência enquanto corria em alta velocidade.


A produtora havia falado dos estúdios da novela das sete, e Gabriela havia passado por eles quando foi retirada da casa. Era naquela direção, tinha certeza. A cabeça baixa em esforço. E, se não havia segurança que pudesse barrar uma Gabriela Habren querendo sair, imagine se havia alguma capaz de impedir Bruna Ribeiro de fazer o que queria.


Bruna saiu do seu estúdio, desceu pelas escadas porque o elevador estava demorando. Passou por três staffs, por dois seguranças na saída, apenas informando que não deveria ser tocada. Então, correu, mesmo de saltos. Olhando de um lado a outro, procurando por ela.


Se Gabriela estava vindo, deveria ser pela rua que levava para o estúdio principal, depois da novela das sete.


Depois que correu o suficiente para se distanciar, andou até a esquina, ofegante. Que ninguém perguntasse o motivo de estar ali fora. Só tinha decidido ouvir Dara sobre fazer o que sentisse vontade.


Sentiu vontade. Assim que ouviu que Gabriela havia escapado, morreu de vontade.


Chegou à esquina e lá estava ela. Vindo. Bruna parou por um instante, olhando encantada. Apertou os lábios. O coração disparado. A respiração curta. Gabriela corria na sua direção sem hesitar, decidida.


E Bruna só...


Andou para ela. Então, correu. Parou de pensar, só não parou de correr.


Elas se encontraram quase em colisão.


Um corpo bateu contra o outro e Gabriela a segurou firme, girando com Bruna, freando o impulso das duas, no silêncio absoluto do complexo dos estúdios à uma da manhã.


Os batimentos ensurdecendo ambas de tão fortes, causando um eco interno.


— Eu trouxe outra 3×4 — Bruna disse, sem saber direito por quê.

— Outra igual à do seu passaporte...? — Gabriela estava com a garganta seca, os braços a apertando como se Bruna pudesse escapar.

— Eu trouxe. Você disse que eu não te daria outra — Seguiam abraçadas forte demais, um corpo vibrando contra o outro, sem controle.

— É que errei tudo lá dentro, Bru. Errei com você, de novo — Gabriela falou, ofegante, a voz falhando.

— Gab, Gab... — Bruna saiu um pouco dos braços dela, encarando-a. Deus, amava aqueles olhos. Tanto que nem sabia direito como, só que, quando se deu conta, sua testa estava encostada na dela, as mãos de Gabriela em sua cintura — Por que você saiu correndo?

— Porque precisava te ver — Gabriela fechou os olhos, tentando respirar.

— E eu não corri pra você também?

— Correu, mas não é só para me conter?


Bruna riu. Enfiou a mão no bolso da minissaia, pegou a 3×4 lá de dentro.


— Aqui, a sua foto.


Os olhos de Gabriela se encheram ao olhar para a 3×4.


— Eu não vou deixar nada acontecer com essa, eu juro! Bru, eu quero tanto, mas tanto...

— O que você quer?

Beijar você — Gabriela disse, suspirando, como uma verdade que não podia ser contida — Você está namorando?

— Não, não mais.

— Mas eu continuo, e...


Bruna a pegou pela mandíbula, olhando firmemente dentro dos olhos dela:


Eu sou a sua mulher. Ele é a outra.


Era por isso que Gabriela JAMAIS venceria Bruna em uma argumentação.


Gabriela a pegou pela nuca e a beijou.


Longamente, obedecendo à vontade que a consumia há dois anos, queimando o último discernimento que ainda existia em seu cérebro só para beijar novamente a mulher da sua vida. A beijou e a boca de Bruna deslizou densamente pela sua, os dedos dela apertando sua mandíbula, o corpo disparando contra o seu, enquanto Gabriela a apertava contra si.


Girou com a sua mulher, colocando-a contra o muro cenográfico, aprofundando aquele beijo, sentindo o cheiro de mel, argan e quinoa dos cabelos dela, tocando aquela pele macia.


E fogos de artifício. O estúdio onde estava acontecendo a live das finalistas se iluminou inteiro e nada mais importava.


Só existiam elas duas. O que sobreviveu ao terremoto.


Gabriela estava pronta. Por ora, só tinha uma nova 3×4 e um beijo. Mas parecia mais do que suficiente.


Que a guerra viesse.





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