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Vulnerável 23


Fique Comigo


Enquanto as finalistas estavam sendo bombardeadas de perguntas em um estúdio, no outro, uma festa acontecia.


Uma festinha com cara de after caro, com os participantes e a produção do programa. Estava acontecendo uma live também, em que o elenco se revezava nas conversas, e tudo estava indo bem até aquele momento. Todos estavam leves quando chegaram, mas, assim que cenas do reality foram trazidas de volta, o clima hostil retornou também.


E, aparentemente, Bruna estava tendo a preferência nos comentários hostis.


Nada com que ela não estivesse acostumada, mas aquela situação ali era diferente. Era claro que havia um incômodo pela atenção que estava recebendo do público por causa da relação com Gabriela. Notou que algumas pessoas haviam entrado no programa achando que tudo era automático: bastava participar de um reality popular para sair famoso. 


Muita gente ainda achava que a internet era sorte. Que bastava aparecer ali. E as coisas não eram assim.


Então, apesar da leveza inicial, havia pessoas incomodadas com o fato de alguém que já tinha atenção continuar recebendo atenção. E tinha Gabriela. 


Bruna realmente não sabia como ela reagiria àquela atmosfera.


Gabriela Habren costumava ser um tipo chato para ter haters. Ela era bonita, bem-comportada, politicamente correta quase o tempo todo. As pessoas até buscavam alguma coisa para odiar sobre ela, porém era difícil de encontrar. Não havia nada de concreto antes, mas... existia agora. Bruna fez a sua participação na live sozinha, o que deixou mais gente incomodada. Ouviu alguém falando sobre privilégios injustos quando saiu da câmera. Não se importou. Seguiu andando em direção ao bar. Então ouviu o seguinte:


— Sua namoradinha de contrato está chegando aí, né?


Bruna parou e olhou na direção daquele comentário. Vinha de um dos caras, claro.


— A minha o quê?


Ele cruzou os braços, com um sorriso irônico no rosto.


— Agora que está todo mundo curtindo você e a Gabriela, decidiram enfiar o pé, certo? Se vai render, por que não fingir?


Bruna o olhou nos olhos.


— Você não foi eliminado antes de mim?

— E o que isso tem a ver?!

— Não sei. Você está aqui achando que pode falar assim comigo, estou tentando lembrar quem você é.

— Você é uma arrogante mesmo! A Gabriela tem namorado, é da igreja, vai me convencer de que tudo mudou assim, num estalar de dedos?

— Então, eu não disse uma palavra sobre isso e menos ainda preciso convencer você de qualquer coisa — Dito isso, apenas seguiu sua caminhada até o bar, onde se sentou sozinha e pediu uma água e uma limonada.


Aquela era só uma amostra grátis de como parte do público via a possível relação entre elas. Bruna não sabia se estava pronta para isso. Ou se Gabriela estaria.


Recebeu a água enquanto a limonada era feita, abriu sua bolsa em busca de um remédio e percebeu que não tinha nenhum. Então, um sachê do seu medicamento para dor de cabeça foi posto bem na sua frente.


— Está com olhos de enxaqueca.


Bruna olhou de lado e:


— Jeni!


O abraço foi muito forte e bem emocionado. A dissociação ainda seguia acontecendo. Foi melhor tocar, sentir, ter certeza de que ela realmente estava ali.


— Mas como...? — Bruna a afastou por um instante, olhando-a de novo. Os cabelos escuros, os olhos angulados, o sorriso lindo — Jeni, o que você está fazendo aqui?!


Ela estava sorrindo sem parar. Abriu o sachê, foi colocando na garrafinha de água.


— Como assim? Trabalho aqui, minha rosa!

— Você... está com meu remédio para enxaqueca.

— Você sempre tem quando está sob muito estresse. E eu também. Partilhamos isso, lembra?

— Jeni! Me explica como você está aqui!


Ela colocou a garrafinha na sua mão.


— Sou roteirista e produtora de conteúdo, lembra? — Jeni se sentou e fez Bruna se sentar também, pediu um suco ao barista.

— Espera, só tem a produção do programa aqui. Você...?

— Por que você acha que os edits gabruna pareciam tão pessoais? São todos minha responsabilidade.

— Você...? Jeni! — Bruna a agarrou de novo — Eu sabia! Sabia que tinha alguém que conhecia a gente nessa produção!

— Estou quase ofendida por você não ter pensado em mim. Quem mais saberia tantos detalhes de você, me diz? Até onde sei, eu era praticamente a única que conhecia esse casal lindo, que eu não parava de admirar — Ela seguia sorrindo, tocou o rosto de Bruna com carinho, e Bruna beijou a mão dela e guardou contra o peito.


Melhor do que ver alguém conhecido ali, era ver alguém que a conhecia de verdade.


— É que a última vez que eu soube de você, Jeni, você estava em Los Angeles!

— Estava, porque você me ajudou, tornou isso possível. Trabalhei muito em Los Angeles, mas daí surgiu a oportunidade aqui, nessa emissora, nesse programa que adoro, e aconteceu essa grande coincidência. Não só você neste programa, mas a Gab também.


Bruna a olhava.


— Não acredito que você estava lá com a gente.

— Eu estava — Jeni beijou a mão dela com carinho — Bru, nunca entendi o que deu errado entre vocês. Conheci a Gab em Milão, éramos vizinhas, logo começamos a trabalhar juntas e eu só sabia que ela era apaixonada por alguém, porque isso era visível demais. Então, você veio para Milão, eu te conheci, tudo fez sentido. Depois vocês se mudaram para Seul, seguiram felizes e veio esse blackout. Perdemos contato e eu não sei como algo tão certo pode ter dado tão errado. Quando vi vocês duas dentro do mesmo programa... se vocês não consertassem, eu daria a minha contribuição — O bartender veio servir os sucos e se retirou — Você parou de gostar dela?


Bruna respirou fundo por um instante, encarando a taça em sua mão.


— Eu nem sei se isso é possível, na verdade.

— Porque sei que a Gab nunca parou de gostar de você, apesar dessa vida de fachada que ela leva aqui no Brasil. Soube disso assim que ela te viu lá dentro. Era o mesmo olhar que eu via nos olhos dela toda vez que ela falava com você em Milão, naquelas longas chamadas de vídeo que vocês faziam. E o seu olhar também não mudou, então só... o que aconteceu com vocês duas aqui no Brasil?


Bruna a olhou, provando sua limonada.


— Cedemos à pressão, Jeni. A pressão da imprensa, da família, os meus novos desafios no trabalho, os desafios dela também. Estávamos protegidas numa bolha longe daqui, quando voltamos, tudo mudou.

— Você sabe que agora será tudo isso multiplicado por dez, né?

— Sei e estou preocupada. A gente se falou rapidinho ainda agora, mas não vai ser instantaneamente que tudo vai se resolver.

— Olha isso aqui — Jeni pegou seu celular, abriu o Twitter, e Bruna teve uma crise de riso.

— Eu não acredito que é você por trás dessa conta, Jeni!

— Mas é claro que é minha! Eu lá ia deixar outra pessoa ter a conta principal sobre gabruna no Twitter? Criei assim que vi vocês duas na lista final de elenco. Aqui, minha filha, meus quase um milhão de seguidores! — Ela disse, rindo demais.


Jeni era aquela energia toda, uma paulistana que tinha ido parar na Europa ainda adolescente, pretendendo estudar comunicação. Formou-se por lá, mostrou talento, foi parar nos Estados Unidos. Bruna amava aquele tipo de história e, mais do que isso, amava ter contribuído com ela, nem que fosse com uma passagem para Los Angeles e um mês de hospedagem que conseguiu para Jeni na casa de uma amiga.


Bruna olhava para ela.


— Jeni-Jeni, eu ainda continuo boba porque, primeiro, você chegou nessa emissora e, depois, se tornou uma gabruna infiltrada, tanto na equipe quanto no Twitter — Disse, fazendo-a rir demais — Mas, ainda assim, eu não esperava menos de você. Obrigada! Pelos edits lindos, pela movimentação toda, pelo cuidado com a nossa imagem. Falei com você esses dias, melhor, falei com essa conta aqui, né? Nem fazia ideia de que era você.

— Eu quis guardar segredo para quando encontrasse vocês duas pessoalmente. Bruna, isso aqui é diferente, não é? Essa exposição vocês nunca tiveram. Entendo que as coisas tenham sido difíceis no retorno da Ásia, mas ninguém sabia da relação, vocês não tinham como medir uma aprovação do público. A Gabriela deve temer cancelamentos, ela teme coisas que não consegue controlar. Mas ver que isso não é uma tragédia também deve ajudar.

— A bruxa da Débora já viu você aqui?

— Já! Detestou e deve ter entendido a fonte de todos os edits, não só os que foram ao ar, mas também os... sei lá, vinte edits que fiz para a internet com vocês duas. Sou uma grande fã, Bruna! Você deveria se sentir honrada por ter uma fã tão comprometida.


Bruna sabia que ela era assim, e se sentia honrada. Como não iria se sentir? Então, foram interrompidas por uma nova correria: as finalistas haviam chegado.


Foi uma explosão de flashes em cima das três, que posaram juntas antes de qualquer coisa, conversaram com alguns jornalistas, e Bruna só se virou com sua taça de limonada, observando Gabriela.


Ela estava linda. As câmeras a adoravam. E era algo que Bruna gostava de fazer: se sentar e assistir a Gabriela Habren durante os desfiles, os ensaios. Adorava vê-la linda e cercada de câmeras, e adorava que aquela garota deslumbrante fosse sua. Sentia falta disso, dos momentos em que trabalhavam juntas ou dos eventos aos quais ia apenas para vê-la.


Havia feito isso algumas vezes após a separação. Surgia para assistir a um desfile que sabia que ela estaria, ou aparecia em um evento em que ela poderia estar. Às vezes, o contrário também acontecia: encontrava Gabriela em um lugar totalmente inesperado e se perguntava se ela estaria fazendo o mesmo, se ela sentia sua falta a ponto de rastrear lugares onde poderiam, ao menos, se olhar. Elas se olharam de novo. Gabriela estava posando, mas encontrou Bruna com o olhar, abriu um sorriso maior, as pupilas reagiram.


— A pupila dela segue dilatando quando te vê. Você gosta, não é? — Jeni perguntou de repente.

— Da pupila dilatada...?

De vê-la sob os holofotes. Sempre gostou. Sempre fica com esse olharzinho aí quando ela está desfilando ou fotografando.

— Ela diz que nasci para estar sob os holofotes, mas eu discordo. Acho que ela nasceu para isso mais do que eu. Sempre que vejo esse mar de câmeras viradas na direção dela, só tenho mais certeza disso. Eu amava namorar a supermodelo — Bruna confessou, sorrindo — Mas sei que não é o que ela quer.

— Quanto tempo mais Gabriela vai ficar sem ter o que quer?


Uma das coisas de que Bruna gostava sobre a chinesinha paulista Jeni-Jeni, que realmente se chamava Jeni-Jeni, nome e sobrenome, era que ela, geralmente, fazia as perguntas certas.


Ficou pensando nisso, e as coisas aceleraram. Tinham mais uma live para fazer, com todos juntos. As luzes, antes apagadas para o after, foram ligadas e não deu tempo nem de chegarem perto uma da outra. Gabriela até tentou, mas foram colocadas separadas, em ordem de eliminação. Foi mais uma sessão de tortura de vídeos e falas, numa rodada de lavagem de roupa suja da qual metade não queria mais participar.


As finalistas não queriam mais brigar, Bruna menos ainda, parte das garotas também não, mas outra parte do elenco achava que precisava aproveitar o palco, ganhar views, destaque. A maioria estava desesperada por isso. Elas se olhavam o tempo todo durante a live, o que fazia ambas facilmente perderem o foco do que estava sendo discutido.


Claro que as gabrunas surtaram na internet com aqueles olhares, aquela distração que as duas se causavam. A live finalmente terminou, mas outras coisas vieram em seguida. Finalistas em uma atividade, o resto do elenco em outra, a enxaqueca de Bruna quis piorar, ela pediu alguns minutos para se sentir melhor. Foi até o banheiro, lavou o rosto minuciosamente e fez sua maquiagem de novo. Só precisava do alívio da água gelada na pele e de sair um pouco daquele ambiente sufocante.


Checou seu celular, tudo estava uma loucura: a internet em geral, suas redes pessoais e seu e-mail. Bruna havia retornado definitivamente para o seu cargo de CEO e, aparentemente, não existia horário para encher seu e-mail de problemas.


— Uma coisa de cada vez, Bruna, uma coisa de cada vez — Disse para si mesma.


Então guardou o celular, entrou em uma das cabines, esvaziou a bexiga e retornou. E quando estava terminando de lavar as mãos na pia...


A porta da cabine ao lado se abriu e o rosto de Bruna se iluminou com um enorme sorriso.


— Você me seguiu!

— Eu? Nunca! Como assim eu te segui? — Gabriela começou a lavar as mãos bem ao lado dela, sorrindo sem conseguir parar.

— Mas eu segui você — Bruna disse de repente.

— Hum, você me seguiu?


Bruna se sentou sobre o balcão da pia.


— Há seis anos, quando nos reencontramos naquela balada. Vi você saindo, indo para o banheiro, e só te segui. Acho que nunca te contei isso, né? Você ia ficar insuportável de convencida, deve ter sido por isso que eu nunca contei, e...


Gabriela a beijou.


Só a puxou pela cintura, encaixando-se entre as pernas dela, e a beijou, recostando seu corpo inteiro contra o de Bruna o máximo que conseguia.


— Bru... — Escapou como um gemido da boca de Gabriela, enquanto deslizava os lábios pelo pescoço dela, sentindo aquele cheiro pelo qual era tão louca: mel, argan e quinoa.

— Eu ainda me lembro de você toda nervosa, porque eu tinha te dado essa chave de coxa aqui — Bruna abriu um sorriso, beijando-a de novo, sentindo-a tão dentro do seu corpo.

— Eu não fazia ideia do que ia acontecer! Sabia o que queria, mas não fazia ideia do que poderia acontecer dentro daquele banheiro, Bru.

— E você acabou nunca sabendo, né? A gente nunca foi de se pegar em banheiro.

— Nunca. Acho que... nunca mesmo — Gabriela a olhou com carinho.

— A gente namorou apenas um mês no Brasil, e fora daqui, eu sempre tive medo de ser presa na Europa, nos Estados Unidos.


Gabriela riu, beijando-a de novo, sem se afastar dela nem um pouquinho.


— Você tem passaporte europeu agora, não precisa mais temer tanto — Beijou o esterno dela, com carinho — Está com olhos de enxaqueca, meu amor.


Bruna a cheirou só mais um pouco.


— Mas já estou medicada. Olha aqui pra mim. Você está bem?

Acelerada. Com um pouco de medo. Estou começando a perceber que vendi minha alma ao assinar esse contrato.

— Vendeu, mas só por mais um mês. O contrato de todo mundo é de quatro meses. Você só tem que sobreviver mais um mês e vai poder ter a sua vida de volta.

— Eu não quero a minha vida de volta, Bru. Quero outra vida, mas não sei nem por onde começar.

— Gab, você saiu faz quatro horas. Calma, você está acelerada mesmo.

— Eu não quero perder a gente de novo, não quero que a gente se despedace. Parece que, se eu me mover...


Bruna segurou o rosto dela, fazendo-a olhar nos seus olhos. Apertou os lábios, respirou fundo por um instante.


— Não vamos nos despedaçar, ok? A gente não se despedaçou até agora, Gab. Jeni acabou de me dizer isso e acho que ela tem razão. Ficamos separadas, mas as coisas não desapareceram.

— Eu não acreditei quando vi nossa amiga aqui. Eu gosto tanto dela, e ela gosta tanto de nós duas. Lembra que foi a Jeni quem nos incentivou a ir para a Ásia? Ela ainda não tinha como ir, mas incentivou que fôssemos.

— Você percebe? O quanto de coisas se alinharam só pra gente... sei lá, conversar? Prometo que não vou escapar disso, linda.


Gabriela a olhou no fundo dos olhos.


— Nem que fique muito difícil?

— Acho que não tem como ficar mais difícil do que já foi.


Gabriela continuou olhando nos olhos dela. O quanto estava acelerada era óbvio, estava pelo seu corpo, nos seus olhos.


— A gente pode conversar ainda hoje? — Perguntou.

— Gab, você precisa dormir hoje, precisa descansar. Deve ter agenda amanhã, não tem?

— Algumas, sim.

— Então, você precisa dormir — Bruna tocou o rosto dela.

— Você está no mesmo hotel que eu?

— Gabriela...

— Só fica comigo, Bru. Podemos não conversar, só... ficar juntas. Dormir juntas. Como a gente fez no reality algumas vezes.


Bruna mantinha as pernas enroscadas nela.


— Não lembrava de ter ido pra sua cama nenhuma vez, sabia? Mas muitos vídeos me mostraram que eu realmente ia.

— E eu realmente sempre queria você comigo — Gabriela disse, tocando aquele rosto que amava — Podemos ir embora?

— Você não está querendo sair daqui comigo, quer?

— Não tenho nenhum problema com isso, Bru.

— Mas vai acabar criando um problema assim. Você já viu a sua família?

— Acabei de abraçar a minha irmã e dizer para minha mãe que só poderemos conversar depois, que a agenda está corrida. A nossa relação anda bem deteriorada. Algumas coisas mudaram.

— Acho que... algumas coisas não mudaram. A relação de vocês está deteriorada há muito tempo, Gab. Você está aqui me dizendo que a primeira coisa que fez após três meses de confinamento é informar para sua mãe que a agenda está corrida. Eu estaria morrendo de saudades da minha.

— Se a minha mãe fosse igual à sua, eu também estaria — Gabriela a beijou só mais um pouco — Podemos ir para o hotel?

— Gab, você sabe que a gente não vai transar, não sabe?

— Eu não pretendia — Gabriela disse, deslizando a boca pelo pescoço dela, o que a fez rir.

— Mentirosa! Gostosa! — A vontade de ir pra cama assim que beijava aquela boca persistia. Bruna mordeu os lábios — Quantas mulheres você pegou na minha ausência, hein?


Gabriela riu.


— Nenhuma, Bru.

— Está mentindo.

— Nenhuma! — Mais beijos pelo colo dela, em cima dos seios — Sou uma mulher casada, Bruna.

— Que está namorando um cara.

— Que não encosta em mim.


Bruna a olhou nos olhos.


— Como...?

— É um namoro de contrato, linda.

— Mas acabei de ser acusada de estar num namoro de contrato com você! Achei que essas coisas não existiam.


Gabriela estava rindo.


— Quem te acusou disso?

— Não sei quem é o idiota. Só sei que ele foi eliminado na segunda ou terceira semana.

— Esses contratos existem. Mas, no meu caso com Natan, foi um contrato pessoal. Expliquei que não estava numa boa situação, que seguia envolvida com meu último relacionamento e que só teríamos alguma intimidade quando eu estivesse melhor. Ele aceitou assim. Temos um namoro, mas sem sexo.


Bruna pensou um pouco.


— Gab, eu soube de algumas coisas.

— Eu sei — Gabriela encostou a testa no peito dela — Não sei por que fiz essas coisas. Eu só estava sofrendo muito e fiz essa bobagem.

— Então, foi verdade?

— Foi. Isso veio à tona agora ou...?

— Eu soube antes. Mas não parecia algo que você faria. Foram... duas? — Bruna cheirou os cabelos dela.


E Gabriela a olhou nos olhos, fixamente.


— Mas só foi uma vez.

— Gabriela!

— Eu estava muito triste, Bru!

— E fez um ménage? — Bruna a puxou pelo decote do vestido.

— Isso valida a minha bissexualidade?

— E valida que você é mesmo uma safada — Agarrou o queixo dela — Quem teve a ideia?


Gabriela estava rindo de nervoso.


— Eu não sei! Perguntei se elas queriam ir para o hotel, elas quiseram.

— Como é que não iriam, né? Isso faz quanto tempo, Gabriela?

— Bru...

— Quanto tempo?

— Um ano?

— Por isso você ficava grudada em mim sob o edredom.

— Como se eu não ficasse grudada em você mesmo dez minutos depois de a gente fazer amor. Vamos para o hotel, hum?


Bruna beijou aquela boca. Não era como se estivesse determinada a não entrar no mesmo quarto que ela.


Tinha ouvido a história do trisal por uma amiga em comum. Mas parecia tão fora do que Gabriela faria que nem levou a sério. Porém, isso havia ressurgido na internet na última semana e, apesar de ter odiado saber que era mesmo verdade, não foi tão ruim. Isso podia mostrar que algumas coisas estavam diferentes mesmo.


Pensando bem, uma versão de Gabriela que não tinha medo de confrontos e levava duas desconhecidas para um quarto de hotel era melhor do que aquela que entrava em crise sob pressão da família.


Voltaram para a festa juntas e curtiram mais quinze minutinhos com o elenco todo e as finalistas. Claro que gerou uma gritaria, algumas provocações. Mas, para todo mundo, ver Bruna tão à vontade nos braços de Gabriela enquanto elas conversavam com alguns participantes era meio chocante.


— Isso... faz e não faz sentido — Foi Camila quem disse.

— Vocês são amigas ou é coisa de ex? — Lia perguntou.


Bruna riu, porque a resposta de Gabriela foi a seguinte:


— Não é coisa de ex. Não sou ex nada.


Gabriela estava jurando que, daquela vez, não teria confusão, mas aquilo não parecia possível quando, na verdade, ela estava com o caos no corpo.


A foto 3×4, mesmo virada ao contrário, não passou despercebida na capinha do seu celular.


A saída de mãos dadas também não.


Saíram juntas, as mãos se encontraram naturalmente, estava chovendo e, mesmo com os guarda-chuvas pretos abertos, as câmeras pegaram as duas juntas, entrando no mesmo carro.


Foi assim que uma simples foto de paparazzi de Bruna e Gabriela de mãos dadas após o after do programa quebrou a internet por alguns minutos.







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