top of page

Vulnerável 25


A Anatomia De Uma Relação


Foi a esperada correria da manhã.


Dormiram por menos de duas horas e logo alguém estava batendo à porta: Gabriela iria entrar ao vivo e não podia se atrasar. Tomaram um banho rápido, vestiram as roupas do dia anterior, mas a mente das duas ainda estava meio confusa e acabaram se enfiando nas peças erradas. Gabriela de Schiaparelli; Bruna de Gucci. Sapatos nas mãos, porque era impossível calçar aqueles saltos de novo, óculos escuros e zero maquiagem.


Os celulares não paravam de tocar, Gabriela dizia que precisava tomar café da manhã antes de sair, e Bruna só sabia que aquilo era sério. Ela era tão disciplinada que pular uma das refeições podia fazê-la simplesmente passar mal. Mas não havia tempo de pedir café no quarto.


— Gab, a gente não pode descer desse jeito.

— Você quer que eu desmaie no caminho? A gente vai descer, sim, amor.


Desceram. De mãos dadas? Claro. Gabriela não parecia capaz de soltar a mão de Bruna.


Pegaram café, pão de queijo, frutas, tentaram se sentar numa mesa de canto, da forma mais discreta possível, então se deram conta de que, agora, essa tarefa era quase impossível.


Foi assim que acabaram tirando uma dúzia de fotos com fãs no restaurante do hotel, mesmo tomando cuidado para não aparecerem juntas. Mas, assim que as fotos começaram a pipocar nas redes, a primeira coisa que as gabrunas notaram foram as roupas trocadas, o mesmo lugar, e bastou: é claro que elas estavam juntas, que haviam passado a noite juntas.


Quando finalmente chegaram aos estúdios, a produtora não estava acreditando.


— Te falar, Bruna Ribeiro deu muito menos trabalho que você, Gabriela Habren!

— É que eu seguia lá dentro, era mais fácil ajustar as coisas assim — Gabriela desceu do carro sorrindo e deu a mão para Bruna descer também.

— Para! Vocês estavam juntas mesmo?!

— Como assim, juntas mesmo...? — Bruna perguntou.

Juntas assim — Flávia desceu do banco da frente do carro e mostrou o celular, com as últimas atualizações do Twitter — Gabriela, não pode ser assim também. Não vai ter como sobreviver se a gente tiver que apagar um incêndio por dia.

— Então, Demerara, estou tentando convencer a gata aqui de que colocar fogo em Roma nunca é uma boa ideia, mas ela acordou apocalíptica — Bruna respondeu, enquanto já entravam nos estúdios rapidamente.

— Acordei apocalíptica após um sono de dois anos — Gabriela pegou a mão de Bruna.

Gabriela! Tenho certeza de que ela não vai desaparecer se você for fazendo as coisas com mais calma — Flávia argumentou.

— Ah, você não conhece a Bruna — Gabriela respondeu, com os passos rápidos e o olhar reto pra frente.

— Eu já disse que não vou desaparecer, não disse? — Bruna estava andando com ela e distribuindo sorrisos para quem cruzasse o caminho delas. Todos os sorrisos que Gabriela não tinha naquela manhã.

— Você não se conhece, Bruna Ribeiro! Eu já fui punida por coisas que você mesma me disse para fazer — Gabriela respondeu, fazendo Bruna gargalhar.

— Eu era muito nova, Gab, quer parar? Eu melhorei agora.

— Sei! Para onde fica...?

— É para a esquerda. Mas, Bruna... — Flávia estava extremamente preocupada com tudo.

— Tentei ficar no hotel, mas ela não deixou. Inclusive, preciso da mala dela; tenho que vestir alguma coisa, vou ter uma reunião daqui a pouco, Demerara.

— Você sabe que a Júlia está me enlouquecendo atrás de você, né?

— Sei! Eu já vou responder para ela.


Bruna ligou para Júlia no meio do caminho, explicou onde estava e que compareceria à reunião. Como não? Era online, participaria, sim. Reencontraram as finalistas no camarim e, finalmente, Bruna pôde abraçar Nuna e Eduarda em paz, sem a pressão da noite anterior. Elas ficaram surpresas ao vê-la, mas nem tanto.


— A internet inteira já sabe que vocês ficaram juntas ontem — Eduarda contou, enquanto Gabriela corria para se trocar — Você já está acostumada com isso, não é?

— Não nessa proporção nem nessa rapidez. Isso — Bruna olhava para as postagens — é novo pra mim. Um milhão de curtidas em um vídeo borrado e desfocado? Eu batia vinte por cento disso e já era muita coisa.

— Bruna, Adidas, pode ser? — Flávia surgiu, perguntando.

— Claro, claro que sim! — Bruna recebeu uma calça, uma camiseta e um par de tênis das mãos dela — Eu já estava surpresa com a proporção das coisas quando saí, mas, aparentemente, triplicou agora com a Gabriela aqui fora.

— Bruna... — Nuna chamou.

— Quê?

— O que vocês duas têm?


Bruna abriu um sorriso, começando a se trocar.


— Estamos conversando. Mas a lista de coisas para conversar é enorme. O que você vê agora?

— Eu não sei! Você veio aqui, tem uma reunião, veio só porque a Gabriela pediu.

— Eu... vim. O coração faz o que quer. E, por isso, a gente tem que ir devagar. A Gabriela saiu ontem, ela tem namorado aqui fora.

— Que está bem nervoso — Eduarda comentou.

— Nervoso?

— Ele está aqui com a família dela, Bruna.


Não era como se Bruna não esperasse.


— Ok, vou me maquiar, tá? Vocês estão lindas, lindas!


As duas estavam lindas. Gabriela surgiu tão linda quanto, maquiada, com o cabelo perfeito, toda de branco, de vestidinho e joias. Bruna amava aquela versão, mas sabia que havia outra, mais parecida com a sua garota de verdade.


Quando Gabriela voltou, encontrou Bruna de Adidas, camiseta e calça preta, tênis brancos. Amava vê-la mais esportiva, sem saltos, achava que era uma de suas versões preferidas. Aproximou-se e beijou a testa dela, e Bruna se recostou contra o seu peito.


— Seu namorado está aqui, linda.

— Eu sei. Sinto muito por isso. Vou resolver, ok? — Gabriela a abraçou.

— Ok.

— Vamos para o estúdio?


Bruna era uma gata. Territorialista. Estava tentando manter tudo mais controlado, porém...


— Gab, me ter aqui significa que não vou baixar a cabeça para sua mãe. Você sabe disso, não sabe?

— Sei, sim, Bru. E nem quero que baixe. Mas também não quero que você se estresse. Sou eu que preciso resolver essas coisas.


Bruna concordou e caminhou para o estúdio de mãos dadas com ela.


Era aquele programa, o mais popular das manhãs, cuja apresentadora conhecia Bruna muito bem.


Ela ficou surpresa e feliz ao vê-la, fez questão de cumprimentá-la fora do ar, enquanto as finalistas se sentavam à mesa de café da manhã. Bruna havia dito que não gostaria de aparecer.


— É o momento delas, então vou ficar ali no cantinho. Tenho uma reunião, mas não vou atrapalhar — Explicou, sorrindo.

— Bruna, sempre que você tiver alguma coisa para falar, saiba que pode dizer aqui. Você é sempre muito bem-vinda.


A gravação começou. Bruna ficou onde disse que ia ficar, de longe para não atrapalhar, mas de onde podia ver Gabriela. Sua reunião foi rápida. Costumava poupar o tempo de sua equipe sempre que era possível e, quando tudo terminou, se aproximou para fazer algumas fotos de Gabriela. Enquanto fazia isso, sentiu Flávia se aproximar. Ela sussurrou algo no ouvido de Bruna.


— Mesmo?

— Estão esperando no camarim. O que você quer fazer?


Bruna pensou um pouco.


— Essa é a única parte ruim de estar com a Gabriela, Flávia. Não sei como resolver até hoje. Eu não ficaria com alguém que não gosta da minha família.

— O problema não é você não gostar da família, é que essa família é difícil mesmo de se gostar.


O programa terminou, um grande sucesso. A conversa havia sido toda muito positiva, focada nas coisas boas do programa. Então, Bruna puxou Gabriela para conversar por um instante. Explicou o que estava acontecendo: a família esperava por ela no camarim, o namorado também. E Gabriela ficou irritada.


— Você entende, Bru? Isso é uma invasão, uma imposição. Minha mãe faz isso sempre!

— A gente já sabe que esse é o estilo dela, linda, não adianta ficar assim. Ela deve ter visto toda a movimentação de ontem, detestado e vindo marcar território aqui — Bruna respirou fundo por um instante — Mas vocês não se falam há três meses.

— Não é a primeira vez. Ultimamente, ela não tem falado comigo, só fala com a Flávia. Você acha que ela veio por saudades? Ela veio por território mesmo.

— Gab, eu só quero que você se acalme e tenha em mente o que vai dizer e para quem vai dizer. Você tem um capítulo com a Débora e o Eric, e outro, diferente, com o seu contrato de namoro.

— A Martina não veio...?

— Veio sim e vai tomar um café comigo, porque eu não vou subir com você.

— Bruna...

— Uma coisa de cada vez. Tenho compromissos à tarde, agenda cheia. Nos encontramos depois.

— Depois, quando...?


Os olhos de Gabriela com um medinho. Como podia? Bruna beijou a testa dela com carinho.


— Quando a sua agenda do dia terminar também. Vamos para o mesmo hotel onde estávamos. A gente faz assim, tudo bem?


Gabriela batia a perna.


— Bruna, por que isso parece tão incerto?

— Porque está meio incerto mesmo, linda. Mas vou para o hotel. Hoje a gente vai conversar sobre o meu namoro e o seu. E o ménage.

— Deus, você não esquece o ménage!

— Não esqueço! — Bruna sorriu, tentando tirar o peso da conversa — Outra coisa: seja rápida e termine esse namoro, é menos um problema. Agora vamos lá! Sua agenda hoje está bem mais apertada que a minha.


Só pelo jeito que Gabriela respirou, Bruna notou que ela não estava bem.


— Meu amor, vou pegar a Martina no seu camarim. Vou com você até a porta, vem.


Assim, ela se moveu. Foram até o camarim, e Bruna ligou, pedindo para Martina sair. Elas não haviam conseguido se encontrar na noite anterior e, no fim, Gabriela também havia quebrado aquele protocolo. A porta se abriu e, imediatamente, Martina pulou no pescoço da irmã mais velha.


Foi um reencontro lindo que Bruna fez questão de gravar, sorrindo. E o que acabou gravando também foi Martina correndo em sua direção e a abraçando tão forte que a câmera deu um blackout: ficou presa entre as duas.


— Você não faz ideia de como estou feliz em te encontrar com a Gabriela de novo!

— Eu sempre digo que a melhor parte de estar com ela é ser sua cunhada — Bruna estava sorrindo grande demais.

— Você sempre diz isso!

— Porque é verdade — Bruna tocou o rosto dela — Trouxe a minha bolsa, cunhadinha?

— Trouxe. Gab, você vai ficar bem?


Gabriela beijou a testa da irmã caçula.


— Não dá para escapar da mamãe, não é?

— Só deu quando você foi morar do outro lado do mundo.


Era triste e real.


— Por favor, não desapareça — Gabriela pediu a Bruna mais uma vez, dando um selinho nela.


E não, ninguém havia percebido que a porta tinha se aberto novamente.


O diabo sempre vestia Prada e tinha os olhos do amor da sua vida.


Débora Habren estava bem ali.


— A mesma garota baixa de sempre, que não sabe se comportar em lugar nenhum. Eu não acredito que você deixou esse tipo voltar para a sua vida, Gabriela!

— Olá, mãe! Como você está? Acho que não nos vemos há... três meses?

— E a primeira coisa que você faz ao me ver é me afrontar com essa garota?!

— Ela tem nome, não é uma garota, é uma mulher de negócios com quem você poderia aprender bastante — Gabriela se voltou apenas para Bruna — Desculpa por isso, linda. Vai para o seu café, eu te mando mensagem.

— Você está mesmo se desculpando com ela e não comigo? — Débora estava toda de branco, os olhos azul-esverdeados furiosos.

— Débora, oi! — Bruna abriu um sorriso para ela — Sei que você gosta de ter a minha atenção também; estou sendo mal-educada não falando com você. Só gostaria de lembrar que sua filha tem um contrato aqui na emissora, e seria bem ruim para o networking dela ter uma anotação sobre comportamento causada por parentes.


Débora deu um passo em direção a Bruna, baixando o tom de voz.


— O namorado dela está aqui dentro.


Bruna a encarou.


— O namorado é falso, Débora. E foi um beijo de afeto. Coisa que, eu sei, você nem faz ideia do que seja.

— Como você conseguiu seduzir as minhas duas filhas?

— Só não seduzi o seu filho porque ele é chato igual a você.

— Mas sua...!

— Estou saindo! Foi ótimo falar com você de novo, Débora! — Bruna deixou um beijo no rosto de Gabriela e simplesmente foi embora.

— Gabriela, eu não acredito no que está acontecendo!


Gabriela respirou fundo. Entrou no camarim.


— Se você não acredita, imagina eu. Eu estava me sentindo muito bem até cruzar com você aqui e me pergunto se, em algum momento, isso foi diferente durante a minha vida toda. Você nunca ficava feliz, não importava o que eu conquistasse. Você sempre tinha uma crítica, uma acusação a fazer. Por que isso mudaria agora, não é?

— Gabriela, por favor, olha o que você está fazendo com a sua imagem! Você mal saiu do confinamento e já conseguiu um escândalo. Surge com essa garota de novo, se deixa fotografar com ela. Você tem um namorado, esqueceu?!


Gabriela cruzou o olhar com o de Nathan. Ele estava sentado em uma poltrona, ao lado de Eric. Esticou a mão para ele.


— Vamos almoçar?


Ele se levantou, sempre dócil.


— Vamos almoçar — Nathan beijou a mão dela com carinho.

— Gabriela!

— Você acabou de me lembrar que tenho um namorado e, se tem alguém com quem eu realmente preciso falar, é com ele, Débora.

— Não me deixe aqui falando sozinha!

— Ela sempre foi assim, mãe. Vocês sempre foram permissivos com ela, foi nisso que deu! — Eric finalmente disse alguma coisa. Ele era bonito como Gabriela.

— Certeza de que era comigo que eles eram permissivos? Eu não sei o que você está fazendo aqui, Eric.

— Sou seu empresário, caso você tenha se esquecido!

— Minha empresária se chama Flávia Demerara. Você foi destituído há meses.

— Faça isso! Deixe uma estranha tomar conta dos nossos negócios! Se você não tivesse agido dessa forma, não estaríamos nessa situação agora. Se as suas redes sociais tivessem ficado conosco, tudo estaria sob controle.

— Se eu tivesse feito isso, provavelmente não teria mais uma carreira agora. E acho que é isso que está chateando tanto vocês dois. Eu morri há dois anos e, quando isso aconteceu, deixei vocês tomarem território demais, esquecendo de que os nossos valores e planos são completamente diferentes. As mudanças só começaram, espero que vocês estejam cientes disso.

— Gabriela!


Saiu do camarim, levando Nathan pela mão. Encontrou Flávia no caminho.


— Não deixe ninguém encostar nas nossas decisões, Flávia.

— Ainda que eles insistam?

— Ainda que insistam! Mantenha as nossas decisões. Você segue no comando. Sei que você deve ter passado um inferno nesses três meses — Gabriela a abraçou.

— Passei, mas foi tão divertido! Desconfio que sua mãe prefere ver a Bruna na frente dela a me ver, o que significa que vencemos muito — Ela disse, sabendo que Gabriela ia rir — Você tem um intervalo de três horas.

— Queria sair para almoçar. Tem um restaurante aqui perto, não tem?


Entraram em um carro com motorista e foram para lá. A cabeça de Gabriela doía tanto que ela sequer percebeu o silêncio entre os dois.


— Gabriela?

— Oi, Nathan. Desculpa — saiu dos seus pensamentos —, tudo ainda parece estranho.

— Imagino que deve ser muito estranho sair do confinamento — Ele disse, mexendo nos próprios cabelos de soft boy. O castanho sempre caía em camadas desalinhadas, volumoso no topo e rebelde nas pontas, como se tivesse sido bagunçado pelo vento. Nathan era bonito, menos como um galã conquistador e mais como um homem com cara de menino.

— É bastante. Ainda não sei descrever.


Silêncio. Gabriela notou o som do motor do carro; o motorista estava passando as marchas errado.


— Gabriela, eu acho que posso dizer que me surpreendeu descobrir que era outra mulher.

— Você não esperava mesmo, não é?

— Não — E então, olhando firme nos olhos dela: — Você tem um grande talento para mentir. Uma mentirosa de primeira.


Aquilo pegou Gabriela totalmente desprevenida.


— Como?

— Você mentiu sobre tudo, desde o início.

— Que estupidez é essa que você está dizendo, Nathan?

— Você não me disse que era outra mulher! Menos ainda que era uma das mulheres mais famosas do país. Você nem tocou no meu nome lá dentro. Ainda que eu não tenha sido um namorado completo para você, fui um bom namorado. Não me envolvi com mais ninguém, entendia o seu tempo, sempre te protegi. E o que você faz? Sai daquele confinamento, me evita e ainda vai para o hotel com aquela...!

— Presta bem atenção nas próximas palavras que irão sair da sua boca, Nathan — Gabriela respondeu, num tom calmo, mas frio, intimidador — O que você quer de mim? Sinto muito, mas sempre deixei clara qual era a natureza da nossa relação. Respeitei, inclusive durante o confinamento, ou você me viu ficando com alguém, por acaso? As coisas já estão feitas. Posso me responsabilizar, te fazer um pedido de desculpas público, mas não vou conseguir resolver mais do que isso.

— Você é muito descarada!


Ninguém desceu daquele carro.


Gabriela não esperava aquela reação do cara mais dócil que havia conhecido na vida. E, ao mesmo tempo que nada do que ele dizia parecia justo, tudo era compreensível. Tinha uma vida pública com ele. Tinha, sim, exposto Nathan, e sabia que a vida dele devia estar um inferno, com as novas fãs dela mandando mensagens e dizendo coisas que machucavam.


Por outro lado, sua cabeça estava doendo. Não podia pular refeições. Pediu para o motorista voltar para os estúdios. Então pediu para ele parar imediatamente: estavam passando pelo hotel onde estava hospedada. O carro sufocava. Parecia sem ar.


O motorista parou na entrada do hotel, Gabriela desceu imediatamente. Pediu trinta minutos, precisava só de um banheiro, achava.


— Gabriela! A gente não terminou de conversar ainda! — Nathan desceu atrás dela.

— A gente já terminou, sim — Ela disse, firme, mas se sentindo extremamente enjoada.


Passou pela recepção muito rápido e pegou o elevador.


Nathan entrou com ela. E, naquele segundo, Gabriela percebeu que tudo estava diferente agora.


Entrou em um elevador como se fosse algo corriqueiro e uma festa aconteceu. As pessoas a reconheceram imediatamente, pediram fotos, abriram as câmeras do celular. Gabriela estava vendo e ouvindo tudo, mas, ao mesmo tempo, não parecia estar ali. Era como se estivesse se assistindo.


Que sensação era aquela?


Chegaram ao andar, então ela andou até a porta do quarto. Procurou a chave na bolsa e notou que Nathan seguia atrás dela. Por um segundo, havia esquecido dele.


— A gente não terminou de conversar!

— Nathan! Já acabou tudo, ok? A conversa, o namoro, o contrato, tudo — Gabriela não estava encontrando a chave. Aquela bolsa não parecia sua. Onde estavam as suas coisas?

— E acaba assim? Sem nenhuma compensação?


Gabriela o olhou.


— O quê?

— Exijo uma compensação — Ele começou a chegar mais perto.


Gabriela apertou a expressão, tentando compreender.


— Você quer... dinheiro?


Ele riu.


— Isso eu tenho o suficiente. Você vai me pagar, mas de outra maneira.


A porta do quarto se abriu num rompante.


— Se você é homem, repete isso de novo!

— Ah, mas era só o que faltava! O que você está fazendo aqui, garota?!


Bruna saiu do quarto, colocando-se bem na frente dele. Gabriela tinha um estilo soft de resolver as coisas e, por mais que Bruna tentasse escapar do próprio estilo...


Não dava.


— Esse aqui é o meu quarto.

— É o quarto da minha namorada! — Ele falou, furioso.

— Ah, mas isso não é mesmo! Gabriela, a conversa já terminou?

— Já, já disse o que precisava — Gabriela colocou a mão no abdômen, o mundo estava girando — Bruna...?


Bruna se colocou na frente dela e o encarou.


— A sua conversa já acabou, imbecil!

— Não é você quem decide isso!

— A partir do momento em que você sugere um pagamento sexual para a minha mulher, eu decido isso, sim.

— Quem falou de sexo aqui? E que história é essa de sua mulher? Você está maluca?!


Bruna agarrou a camisa dele.


— Você vai ver uma maluca em dois segundos se não sumir daqui agora! — Ela o empurrou, e Gabriela a puxou para trás.

— Bru, não.

— Você não tem que me defender, Gabriela!

— Eu sempre vou te defender! — Gabriela se apoiou na parede.


E Bruna o empurrou de novo, agora de maneira definitiva.


— Você nunca mais chega perto dela com essa sua conversa suja. Fora daqui. Fora, agora!


Foi o momento em que ele tirou o celular do bolso e começou a gravar.


— Vai, fica brava agora. Deixa eu gravar quem você realmente é, Bem Indecente!

— Se você fosse inteligente, teria aberto uma live, babaca!

— O quê?


Bruna arrancou o celular da mão dele, pegou Gabriela pelo braço, entrou com ela no quarto e fechou a porta.


— Ei! Você é maluca! Isso é roubo! Devolve o meu celular agora!

— Devolvo. Só um minuto — Bruna parou o vídeo e notou que era de quase uma hora. Não era um vídeo de segundos, era algo que ele já vinha gravando havia algum tempo — Esse idiota!

— Bruna, Bruna!


Gabriela não conseguiu segurá-la no quarto. Ela voltou para fora e atirou o celular contra a parede. O aparelho se quebrou em mil pedaços.


— Mas você é doida mesmo!


E Bruna o agarrou pela camisa mais uma vez.


— Se você chegar perto dela de novo, eu acabo com você. Fora daqui!

— Você quebrou o meu celular!

— Fora daqui antes que eu quebre a sua cara!


E ela parecia séria o suficiente para fazê-lo recuar. Ele andou para trás, pegou o que havia sobrado do celular e foi andando de costas até o elevador.


Bruna respirou fundo, tentando se acalmar. Voltou rápido para dentro porque Gabriela estava vomitando, e não era pouco.


Ficou com ela até aquilo passar. Segurou os cabelos dela para trás, a colocou contra o próprio peito.


— Tudo bem, tudo bem, sente o meu coração, meu amor. Está sentindo?

— Bru, desculpa, só... me desculpa — Gabriela pediu, chorando — Você não tem que passar por isso. Você não merece voltar para isso.

— Só fica calma, ok? Estou aqui com você. Não vou a lugar nenhum.


Gabriela chorou, um choro denso, dolorido. E nem sabia qual era o motivo maior daquele choro, se era medo, frustração ou apenas...


Vergonha.


Talvez fosse apenas vergonha mesmo. Bruna não merecia aquilo. E Gabriela não merecia Bruna.






Posts Relacionados

Ver tudo

Comentários


bottom of page