Vulnerável 26
- Riesa Editora

- há 3 dias
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Sentimento Errático
Demorou um pouco para Gabriela se acalmar.
Bruna sabia que era uma crise nervosa. Soube disso antes mesmo de abrir a porta, só de ouvir o tom na voz dela.
— Mas está tudo bem? — Flávia perguntava ao celular.
— Está, só preciso que... — Bruna olhou para Gabriela. Ela já estava no banho, tinha parado de chorar, mas seguia visivelmente alterada. A alteração se via no olhar e no corpo errático; as mãos perdiam precisão, e isso sempre havia preocupado Bruna — Compartilhe a agenda dela comigo, por favor, assim consigo ver os compromissos certinho. Esse de agora é em quanto tempo?
— Em duas horas, mais ou menos.
— Ela vai estar de volta em uma hora, Flávia, prometo.
— Vou compartilhar com você.
— Ótimo. Me liga qualquer coisa — Bruna desligou o celular — Gab?
— O Nathan... acha que devo algo a ele — Gabriela disse, entrando num pensamento irregular.
— E você também estava começando a achar que devia — Bruna parou um instante, respirando fundo — Agora estou lembrando. Não posso mesmo te deixar sozinha.
— Eu sei o que tenho que fazer, amor, mas, ao mesmo tempo...
— Você chegou a comer, linda?
Gabriela negou, com carinha de culpada. Bruna não sabia lidar com aquela carinha. Desligou o chuveiro.
— Eu sou um desastre — Ela disse e começou a chorar.
Bruna soltou o ar e foi até sua garota, pegando uma das toalhas.
— Não é, não — Falou, enxugando-a com cuidado — Ontem, nesse horário, você ainda estava naquela casa. Saiu de lá, tem mil coisas acontecendo aqui fora e sei que você quer resolver tudo rápido, mas nem tudo dá para ser assim. Coloca o roupão, vou pedir algo rápido pra gente comer.
Bruna pediu fettuccine com cogumelos, suco de maracujá e chá de limão, explicando a urgência. Maracujá acalmava as duas, e o chá de limão aliviava os enjoos.
Gabriela saiu do banheiro, de cabelos molhados e de roupão.
— Bru, por que você está aqui?
Bruna sorriu. Ela ainda parecia desencaixada da realidade.
— A coitada da Martina está no restaurante do hotel, me esperando até agora. Decidimos almoçar aqui, aí eu podia subir, tomar um banho rápido, trocar de roupa. Peguei minhas coisas no meu quarto, tomei banho e ouvi a sua voz na porta. Por que você decidiu vir pra cá, linda?
Gabriela respirou fundo, sentando-se na cama.
— Fiquei sufocada no carro. Vi que estávamos perto, pedi para parar. Achei que fosse vomitar.
— Ele gravou você, Gab.
— O Nathan...?
— Vi que o vídeo que ele havia feito estava muito longo, já vinha sendo gravado antes. Vi que mostrava vocês dois conversando no carro. Não sei o que ele pretendia fazer com isso, mas agora ele não pode fazer mais nada. Deletei o vídeo da memória de um jeito que não dá para recuperar.
— Acha que... ele ia fazer alguma coisa?
— Eu não sei. Você o conhece bem?
— Achei que conhecia. Ele nunca falou daquele jeito comigo. Nunca foi agressivo antes. Eu só não devia ter feito isso.
Bruna se abaixou perto dela.
— Ele tirava a sua mãe de cima de você.
— Ele... — Os olhos de Gabriela se encheram de novo — Sim.
— Eu sei, a Martina me contou. Eu também coloco essa pressão em cima de você, e isso gera mais pressão do que a Débora já normalmente faz.
— Eu queria ser mais como você, Bru. Você merece alguém como você.
— Não. Eu mereço alguém como você. Tenho a minha maneira de resolver as coisas, e você tem a sua. Por isso, tem coisas que não me importo de resolver pra você, e tem coisas que você não se importa de resolver por mim. Sempre funcionamos bem assim. Eu não quero que você se torne eu. Ser você é suficiente. Mas isso funciona melhor quando você tem certeza de que não deve nada a ninguém.
Gabriela assentiu, sem erguer o olhar.
E Bruna a beijou.
Beijou bem longo, erguendo-se do chão, indo para o colo dela, ficando de frente, e essa escalada fez Gabriela sorrir.
— Bru!
— Para de olhar assim. Eu quero estar aqui. Quero fazer tudo isso com você — Falou e tocou as maçãs do rosto dela — Seus olhos estão inchados. Fica aqui na poltrona, vou te fazer uma massagem enquanto a comida não chega.
Bruna cuidou da sua modelo. Gelo, massagem facial e, só de sentir o toque dela... tudo parecia curar. Gabriela se acalmou e dormiu. Não soube dizer qual havia sido a mágica, mas, quando acordou, estava renovada.
— Eu não perdi a hora?!
Bruna riu.
— Não, você dormiu por quinze minutos. Só quinze. Aqui, o nosso almoço. Pedi desculpas para a Martina, disse que vamos marcar de novo antes de ela viajar. Flávia já compartilhou a sua agenda comigo, você tem uma live com a Nuna e a Eduarda, mas estamos no horário.
— Você... vai comigo?
Bruna sorriu.
— Vou. Vem, senta aqui comigo.
Gabriela foi se sentar com ela na mesa do quarto com vista para a varanda. A beijou, grudou sua cadeira na dela.
— Gab, seu ex-falso abriu uma live para contar que fui agressiva com ele.
— Meu Deus do céu...! — Era um pesadelo.
— Entrei na live e confirmei que fui mesmo.
— Bruna! — Gabriela riu.
— É o meu estilo. Escrevi nos comentários tudo o que aconteceu e depois saí, deixando aquele imbecil falando sozinho. Disse que ele foi agressivo com a gente e que retribuí a agressão. Ele quer destaque, Gab. Não vamos mais dar. Tudo o que falei é suficiente para encerrar essa história — Bruna tocou o rosto dela — Deu certo, seu rosto não está mais inchado. Come, vamos!
Comeram juntas. O macarrão estava delicioso, e elas conseguiram sair com tempo. Bruna já estava executiva de novo, de calça de alfaiataria, cropped longo, terninho, toda de preto, e cuidou para fazer desaparecer qualquer resquício de choro do rosto de Gabriela.
E, enquanto ainda estavam no carro, Bruna Ribeiro conseguiu uma sala para trabalhar na maior emissora do país como se fosse nada.
— Como é que...? Eles só te deram uma sala, Bru?
Bruna riu. Elas já estavam de volta aos estúdios.
— O meu relacionamento com a empresa se estreitou bastante depois do programa. Ali, a Flávia está te esperando. Me manda mensagem quando você terminar.
Gabriela queria dizer que a amava. Mas ainda não parecia haver espaço.
— Gab?
— Oi...
— Podemos combinar que você me beija sempre que quiser?
Gabriela abriu um sorriso e a beijou, abraçando-a pela cintura. O corredor estava vazio. As duas sorriram uma para a outra. Era tão bom sentir aquilo de novo.
— Agora vai lá para sua live.
Ela foi para a live, e Bruna, para a sala que havia conseguido, onde Júlia Bittencourt já a esperava. Pegaram um café, abriram o notebook, começaram a fazer um checklist gigantesco de ações que precisavam concluir. Mas parte da mente de Bruna estava na live aberta no iPad.
— Bruna? — Júlia a chamou, tirando-a dos seus pensamentos.
— Oi — Os olhos de Bruna checaram a live de Gabriela novamente.
E Júlia acompanhou o movimento dos olhos dela.
— Estou um pouco preocupada.
— A gente sempre fica quando precisa lançar algo novo, Bittencourt. Mas está tudo bem, o pior já passou, não é? Temos cinquenta tons de base. E a nossa linha de shampoo decolou. Olha esses números.
— Não, Bruna. Estou preocupada com isso aqui — Júlia apontou para o iPad.
— Ah, entendi — Bruna afastou a cadeira da mesa um pouco, cruzando as pernas — Isso... isso é algo novo, eu sei.
— É novo. Mas, antes, eu quero dizer que não estou aqui para ser contra romances. Eu realmente acho que vocês duas são uma graça juntas, estão claramente apaixonadas de novo, ou nunca deixaram de estar; acho que é mais essa segunda opção. Mas, como sua empresária, preciso chamar sua atenção para algumas coisas.
Bruna a olhou.
— É parte do seu trabalho chamar a minha atenção. Pode falar, eu vou ouvir.
— Perfeito! — Júlia respirou fundo, olhando para ela — Vamos lançar essa linha nova de produtos na próxima semana, eu sei que você está atendendo a tudo até aqui, mesmo daqui do Rio. Você sabe que boa parte do sucesso de um produto é a consistência na semana de lançamento. Bruna, você devia voltar para São Paulo hoje, e você já deixou claro que não vai. Tem eventos presenciais em que você precisa estar.
— Eu não vou deixar de comparecer a nada, Bittencourt.
— E pretende fazer como?
— O que eu tiver de cumprir, eu vou cumprir. Você fala como se a distância fosse de Milão a Nova York. Estamos apenas entre Rio e São Paulo, eu consigo fazer isso.
— Está me dizendo que irá pegar um voo para cumprir agenda, então vai voltar para o Rio novamente...?
— Eu consigo fazer isso, não é nada para quem fez Nova York-Milão por um ano.
— Bruna, e o escritório? Estamos no meio de uma obra enorme.
— Estarei lá sempre que precisarem de mim. Vou estar presente em todas as reuniões e estarei de volta a São Paulo assim que a Gabriela puder ir comigo. Eu... a quero de volta, Júlia. Ela é o meu primeiro amor, a minha primeira relação, não quero deixar isso pra lá. Olha, eu já tentei por dois anos inteiros e não deu em nada.
— Eu já entendi essa parte. Mas entendi também que vocês terminaram por causa dela, não por sua causa. É isso, não é?
— Terminamos por interferências externas, não exatamente por nós duas.
— Interferência da família dela, certo?
— Sim, digamos que sim.
— E já não teve interferência hoje de novo? A Flávia me disse que teve. Será que você não está voltando para a mesma coisa?
Bruna ficou em silêncio por um instante.
— Ela está diferente. Não consigo te explicar, eu sinto que ela está. E eu estou diferente também, acho que... amadurecemos nesses dois anos. Mas a Gabriela não é simples, eu não posso soltá-la agora, porque o momento é de muita fragilidade e vai piorar. Ela será apertada, constrangida, pressionada e, se isso acontecer, ela quebra. A Gabriela quebrou da última vez, porque achei que ela precisava agir sozinha, resistir sozinha. Então, ela endureceu em desespero. Endureceu tanto que quebrou porque...
— Coisas duras se quebram facilmente.
— Exatamente. Eu quero que a Gabriela permaneça suave, mas que possa resistir. Eu não vou desistir dela, Júlia. Ainda ontem, fui dormir com dúvida, acordei com dúvida. Mas o meu coração sabe mesmo o que quer, e eu preciso cuidar disso. Não posso ficar mais dois anos achando que o que sinto por ela vai sumir. E eu não vou mais dar espaço. Sabe quando você tem dúvida se a sua parceira te ama mesmo? Eu não tenho. Sei que ela me ama. Cada coisa que ela faz deixa isso claro. Seria mais fácil se ela tivesse feito algo grave, algo que me ajudasse a parar de gostar dela, mas a única coisa que ela realmente não deu conta foi de ajustar a interferência familiar na nossa relação.
— Mas... na casa, você parecia claramente machucada por ela.
— E estava. Fiquei muito machucada. Queria que ela tivesse sido mais firme, que tivesse tomado outras decisões. Mas, no nosso término, era mais eu, ferida, achando que tinha sido preterida, que ela havia escolhido a família dela.
— E isso foi mais ou menos quando?
— Na crise daquele vídeo. Minha energia estava tão baixa. Eu estava me sentindo tão humilhada. As pessoas colocavam o vídeo nas respostas das nossas postagens de produto. Foi muito cruel, achei que não fosse me recuperar disso. Não conseguia ficar com ela. Eu me fechei na minha dor. E sei que fiz ela sofrer barrando as reaproximações que tentou, mas... eu não a merecia — Os olhos de Bruna se encheram — Júlia, e se fosse um relacionamento público? E as pessoas soubessem que a namorada de Gabriela Habren, modelo internacional da Diesel e da Schiaparelli, estava em sites de pornografia?
Júlia entendeu.
— Você... achou que a mãe dela tinha razão. De te rejeitar.
— Isso aconteceu. Virou um monstro. Tornou-se um sentimento errático. E outros problemas vieram depois. Eu via a Gabriela bem, parecia que eu não a conhecia mais. Quem ela era socialmente me irritava. Pra mim, tudo nela parecia negar tudo o que a gente foi. Às vezes eu me pergunto o que teria acontecido se eu não tivesse bloqueado ela de tudo, se tivesse ouvido quando ela tentou falar.
— Você a bloqueou de tudo, Bruna?
— TUDO. Menos do reality — Disse, sorrindo — Ela só apareceu lá. E, às vezes, parecíamos a gente de novo.
— Ontem pareceu vocês de novo?
— Ontem, ela era a minha Gabriela. Mas eu ainda não consegui ser a Bruna dela. E eu quero ser. Quero tentar. Preciso. Então, só... me apoie. Preciso de você, preciso da Dara, para fazer tudo isso dar certo.
Júlia a olhava. Pegou a mão dela sobre a mesa.
— Estou aqui para você, para o que precisar. Vamos lá, o que posso fazer por você nesse seu plano de pegar a Gabriela de volta?
O rosto de Bruna se abriu num sorriso enorme.
— Você pode checar se o meu apartamento daqui está ok?
— O apartamento em São Conrado? — Júlia estava anotando tudo.
— Sei que estava alugado, mas vagou recentemente. Você pode checar se está tudo em ordem? Eu queria ir pra lá quando terminar o dia aqui.
— Vou verificar isso pra você, sim. Se não estiver pronto, estará quando você chegar. Mais alguma coisa?
— Júlia, acho que precisamos de um carro. Se tivermos um carro disponível durante esse período, será mais fácil para nós. Pode alugar um?
— Um carro, ok! Alguma preferência de marca ou modelo...?
— Bem, preciso pensar. Hum, que tal uma Ferrari?
Júlia até se engasgou.
— Uma Ferrari, Bruna?!
— A Gabriela gosta de dirigir carros assim. Melhor, pegue um Porsche.
— Certo! Não para a Ferrari, sim para o Porsche.
— Um Taycan preto, Júlia. Ela gosta de clássicos. Faz tudo isso pra mim? Tenho outra reunião agora.
Tinha. A decisão de lançar uma nova linha de produtos seguida à final do programa havia sido arriscada, mas não era como se Bruna não trabalhasse com riscos o tempo inteiro. Achava que seria corrido, mas estaria no auge da visibilidade, parecia o ideal. Mas Gabriela foi um risco não calculado.
Nunca conseguia calculá-la. Nunca.

O resto do dia foi uma correria total para Gabriela.
Chegou um momento em que não sabia mais o que estava gravando. Fez a live, gravou publicidades, correu para um ensaio fotográfico solo e outro com as finalistas e fez mini meetings com Flávia pelos corredores, decidindo quais trabalhos pegar ou não.
— Sabe qual é o problema? Tem alguma coisa acontecendo, é como se a gente estivesse operando uma mudança de imagem ao vivo. A Bruna faz isso muito bem, mas isso é novo pra gente, Gab.
— Você acha que...?
— Seu público está mudando. Tem muita gente nova chegando no seu perfil todos os dias, mas tem muita gente furiosa com você também. Essa live do Nathan hoje...
— Flávia, muitas mulheres ficam sempre do lado do homem.
— Isso acontece mesmo. Ele quer crescer o perfil dele e quer muito uma vaga nesse programa ano que vem. Percebi isso nas falas dele durante todo esse tempo. Não sei como blindar a sua imagem disso. Sinto que voltamos para aquele momento em que estávamos criando a Mighty e não sabíamos exatamente o que queríamos vender. Não sabíamos... quem era você exatamente.
— E esse é o meu problema desde sempre, Flávia. Mas fiquei em segundo lugar no programa. As pessoas não odiaram o que viram de mim lá.
— Aquela é você, Gab?
Gabriela apertou o lábio com força, a respiração tensa.
— Em grande parte, sou eu, sim. Especialmente aquela da última semana.
Flávia cruzou os braços, pensando.
— Precisamos contratar uma analista de imagem.
— Isso existe...? — Gabriela a olhou, curiosa.
— Existe. E a melhor que conheço se chama Dara Farias.
— A Dara da Bruna?
— Ela. A Dara sempre lê o público da Bruna e ajusta a imagem dela de acordo com isso. Acho que vamos precisar de ajuda, Gab.
Gabriela tinha certeza de que sim.
Concluiu o dia de alguma maneira e ainda ficou ansiosa para mandar mensagem para Bruna. E se ela tivesse só se cansado e ido embora? Sabia que ela estava com uma linha enorme de produtos para lançar, e Gabriela ali, prendendo-a. Às vezes, sentia que não fazia o suficiente por ela. Na maioria das vezes, tinha certeza disso. Mas mandou mensagem, e Bruna respondeu pedindo para que Gabriela a aguardasse perto da saída lateral do estacionamento.
Então se apressou pra lá. De jeans e camiseta da sua marca própria. A Mighty, além de vender a influência dela, recentemente também vinha se tornando uma marca de roupas, que ela mesma ajudou a desenhar. Já tinha muitas peças prontas, inclusive as que usava, mas andava adiando o lançamento oficial.
— Mas que carrão...!
Um Porsche Taycan preto havia acabado de parar bem ao seu lado.
E Bruna estava na direção.
— Meu amor! Como é que...? É seu?
Bruna estava sorrindo. Toda executiva e sorrindo daquele jeito.
— Se você gostar, pode ser nosso — Ela desceu, beijando Gabriela imediatamente, puxando-a pela cintura, sorrindo — Oi, meu amor.
— Ah, Bru...
— Essa é a sua marca de roupas?
— É... sim. Flávia disse para eu começar a usar mais, o lançamento vai ser em duas semanas.
— Quer que eu use as suas peças? — Bruna perguntou, e os olhos de Gabriela brilharam.
— Linda, acho que vou ser cancelada, tipo, ainda essa semana.
Bruna riu.
— Uso mesmo assim, ué! — Sorriu, olhando-a com carinho.
— Mesmo eu sendo cancelada?
— Mesmo! Vem aqui, entra. Coloquei o endereço do nosso apartamento no GPS.
— Nosso apartamento...? — Gabriela a beijou rapidinho, agarrando-se a ela na porta do carro.
— Tenho um apartamento aqui, em São Conrado.
— E tem o outro no Brooklin.
— Tenho!
— O que mais você tem agora que eu não sei? — Gabriela deu a volta com ela, abrindo a porta do passageiro gentilmente.
— Uma lista de bens! Fui ganhando dinheiro e investindo em imóveis ou bens duráveis, aprendi com a sua mãe. Você gostou do carro, meu amor?
Gabriela fechou a porta de Bruna e entrou pelo lado do motorista.
— Eu amei! Mas estou amando ainda mais você me chamando de “meu amor” — Disse, e os olhos brilharam de novo — Fiz alguma coisa certa hoje, Bru?
Bruna tocou aquele rosto lindo.
— Nós duas fizemos coisas certas hoje. Acho que... nosso término está voltando em ondas pra mim, Gab.
— Isso é muito ruim...?
— Acho que é necessário. Nós duas erramos, mas eu me fechei primeiro. Pensei que, se eu continuasse me fechando agora, ia tirar a nossa chance. Não é o ideal. Você acabou de sair de um confinamento, eu estou lançando uma linha nova de produtos, você teve uma crise nervosa mais cedo. Não quero que você tenha mais crises.
— É que essa situação toda já separou a gente uma vez, Bru.
— Gab, hoje eu estava lembrando de uma coisa. Sabe quando a minha mãe conseguiu me pagar um curso de inglês? Era em Copacabana, numa escola ótima. Eu estava estagiando lá, como menor aprendiz, em um salão do bairro, e acabei contando para uma colega de curso que estava sofrendo assédio nesse salão. Lembro que ela me disse assim: ah, dá um corte, Bruna. E só mudou de assunto. Para ela, assédio se resolvia assim, dando um corte. Nesse dia, essa mesma menina me mostrou fotos de quando foi à Disney, com doze anos. Sabe o que eu estava fazendo com doze anos?
Gabriela sorriu. Beijou a mão dela.
— Vendendo brigadeiros no colégio porque você queria comprar uma maleta de maquiagens da Sephora.
— Isso. Ela não tem culpa nenhuma de poder ir à Disney com doze anos, mas jamais entenderia que dizer para uma menina de dezesseis dar um corte num cara de trinta que a assediava não resolveria nada. Dito isso, eu não posso achar que sei como você deve resolver os seus problemas familiares. É você quem conhece essa realidade. Você sabe que isso é um problema pra gente, e eu sei que quer resolver. Mas vai ser devagar. Vai ser do jeito que você achar melhor. E você pode contar comigo para te apoiar.
Gabriela a beijou, bem longamente, tocando os cabelos dela. Os dedos vacilantes, erráticos. Tudo entre elas estava assim.
— Isso quer dizer que...?
Bruna chupou o lábio dela, bem devagar, muito gostoso, arrancando uma reação física imediata.
— Quer dizer que vamos pra casa agora e a gente vai fazer amor, Gab. Porque estar em você ontem foi a coisa mais gostosa que eu já senti desde que a gente se separou e eu vou ficar maluca se não sentir você dentro de mim logo.
— Ai, Bruna...
— Dirige, meu amor. É para esse endereço na tela. Dirige, eu quero você logo, eu quero a minha mulher de volta.
E, ainda bem, dirigir sob pressão era mesmo a especialidade de Gabriela Habren.






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