Vulnerável 28
- Riesa Editora

- há 3 dias
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Conflito
Acabaram dormindo na sala, agarradas naquele sofá.
E o amanhecer foi lento, gostoso demais. As duas enroscadas nas mantas do sofá e uma na outra, ainda naquela sensação de que aquilo não parecia real, mas era.
— Gab...
— Oi, linda.
— Acho que... — Bruna se virou no peito dela, para olhar naqueles olhos — Precisamos chamar a Demerara e a Bittencourt aqui. Temos projetos em andamento, tudo tem que funcionar.
Bruna Ribeiro havia nascido e crescido com os dois pés no chão.
Gabriela estava esperando amorzinho, mas a sua mulher a colocou de pé imediatamente. Disse que precisavam de café da manhã enquanto já ligava para as empresárias. Gabriela foi cuidar disso e, antes que pudesse terminar o que estava fazendo, as agendas já estavam cruzadas no notebook aberto sobre a mesa e Bruna já voltava do quarto.
— Mas você já está pronta! E está linda, linda! — Gabriela a puxou pela cintura, beijando-a.
— Gostou das peças?
— São peças minhas!
Bruna estava usando um jeans da sua marca, um top longo e justo, e uma jaqueta por cima, estilo puffer, mas sem tecido quente. Toda de preto.
— Certeza de que posso sair assim? Vou para um evento público, Gab.
— É... uma palestra, não é?
— Isso. Vou apresentar a linha nova de produtos para investidores. Devo voltar amanhã, tudo bem?
— Hum... o evento é em São Paulo.
Bruna sorriu, tocando o rosto dela. Sua Gabriela estava processando as coisas em outra velocidade.
— Isso. E você tem uma gravação de programa às onze com as finalistas e uma live solo em um podcast. Já pedi para cadastrarem a sua biometria facial. Você tem que descer na portaria rapidinho para fazer isso, tudo bem?
— Eu faço, pode deixar.
— Vou enviar pra você a senha da fechadura da porta. E você me busca no aeroporto? Eu volto amanhã, no final da tarde, meu amor.
Finalmente, o rosto de Gabriela se iluminou.
— Claro que busco!
Bruna se enroscou nela inteira.
— Estava com saudades disso também. De andar fugida de carro com a minha modelo. Agora vai para o seu banho, eu termino nosso café aqui. As meninas já estão chegando.
Elas chegaram praticamente juntas. Flávia, toda de preto — Bruna desconfiava que nunca a tinha visto usando outra cor —, de terninho italiano e óculos escuros, tão elegante quanto Júlia, de jeans e blusa branca de botões, cabelos perfeitos.
E a primeira coisa que saiu da boca de Flávia foi:
— Deus, quem é essa pessoa?
Gabriela riu. Estava de jeans largo e moletom preto, cabelos molhados, rosto limpo.
— É que vou me trocar lá.
— Essa é a sua namorada! Olhando assim, faz mais sentido — Júlia disse para Bruna, sorrindo, cruzando os braços.
— Vocês querem parar? Eu amo a Gabriela de modelo também. Mas, dentro da nossa casa, geralmente ela é assim mesmo. Tem café da manhã. E precisamos conversar sobre cruzamentos de agenda. Gente, nem acredito que vamos ter ajuda nisso. Sem a Jeni, essa parte virou um inferno.
O café da manhã se tornou uma reunião de equipe. E era mais do que alinhar compromissos; a situação pública de Gabriela estava se complicando.
— Vocês precisam entender que tudo é diferente agora. Vai ter sempre um celular apontado para vocês duas. Vocês passaram num drive-thru ontem?
— Para comprar água, passamos — Bruna respondeu.
— Tem foto.
— Não vai dar para evitar fotos, Flávia. E eu nem quero isso — Gabriela reiterou.
— Mas, Gab, eu acho mesmo, de verdade, que a sua imagem está em risco. Você falou com a Bruna sobre a Dara?
— Sobre a Dara? — Bruna perguntou.
— Acho que precisamos de uma análise de imagem para a Gabriela. A gente tem que definir algumas coisas com urgência e hoje ela vai para mais um ao vivo, onde eu não sei o que pode acontecer.
Foram conversando sobre isso enquanto Gabriela levava Bruna até o aeroporto.
E Bruna foi analisando as redes de sua garota, se inteirando de tudo o que havia acontecido nas últimas 24 horas.
— Eu não sabia que... tudo era tão intenso assim — Gabriela disse, agora de boné e óculos escuros. Flávia tinha razão, mais fotos juntas significavam mais problemas com o público dela. E com a sua mãe, que já estava ligando sem parar.
— Fica muito intenso assim que a gente sai, depois melhora, eu acho, ao menos. As minhas redes se acalmaram porque sumi, mas não acho que você possa sumir. Você foi vice-campeã, eles não vão abrir mão de você. Gab, vão perguntar do seu namoro, não diga que era contrato — Bruna a olhou com carinho.
— Acha que...?
— Vai ser bem ruim se você disser. Acho que o Nathan não quer isso também, ou ele já teria falado. Linda, a crise aqui no seu perfil é que os seus seguidores estão se sentindo enganados.
— Mas as coisas não eram assim também. Não é como se tudo fosse mentira, Bru, você sabe.
— Eu sei. Mas acho mesmo que a sua sexualidade é um ponto que ficou escondido por bastante tempo. Fora as outras coisas sobre você que foram esquecidas, que você não mostrava. Vou pedir para a Dara olhar tudo, está bem? A gente vai resolver isso.
— E sobre você, Bru? Vão me perguntar coisas — Ela coçou o pescoço, que já estava vermelho.
— Você responde... como se ainda estivéssemos na casa. Fiz assim, resolveu as perguntas mais invasivas.
Os dedos de Gabriela estavam tão firmes no volante que as mãos dela estavam pálidas.
— Tenho uma reunião com eles no final da tarde.
— Com eles não, com a sua equipe. Meu amor, você tem que resolver isso. Colocar cada questão no seu lugar: o que é família, o que são negócios.
— Eu sei, mas é difícil — Gabriela estava tentando processar todas aquelas informações.
— Temos que fazer coisas difíceis o dia todo, bae — Estacionaram, já estavam dentro do aeroporto — Olha aqui pra mim: quero que você vá pra casa hoje e durma. Você está cansada. A gente tem dormido pouco, tem muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, mas você precisa dormir, senão para de funcionar, a gente já sabe que é assim.
Gabriela pegou a mão dela e beijou com carinho.
— Ok.
— Eu te ligo antes de dormir. Vou ver os nossos cachorros e volto bem rápido. Eu quero você bem, tranquila. Nós voltamos, isso não é maravilhoso? Tem horas que eu não consigo parar de sorrir só de pensar nisso.
Gabriela respirou fundo, beijou Bruna, agarrou-se a ela só um pouquinho mais.
— Você está tão linda.
— Estou? — Bruna a beijou novamente, enchendo-a de carinhos — São as peças da coleção que a minha namorada desenhou. Meu amor, queria que você pudesse ir comigo.
— Eu queria ir também. Eu quero poder fazer isso. Nunca pudemos, lembra?
— Nunca! Só quando estávamos fora, mas agora poderemos. Eu vou amar ter você ao meu lado nesse tipo de evento, Gab. Só temos que resolver as coisas primeiro. Agora vai, não quero que você se atrase.
— Me avisa quando você chegar? Gosto de saber onde você está.
Outro sorriso de Bruna. Como podia ela continuar tão sua?
— Aviso. Como sempre avisei.
Como ela sempre avisou. Era maravilhoso ouvir aquele tipo de coisa outra vez.

Dara estava esperando por Bruna no carro quando ela finalmente conseguiu desembarcar.
— Tinha muita gente!
— E já viram que a Gabriela foi deixar você no aeroporto. Bruna, isso vai acabar com a carreira dela, tá?
— Eu sei, estou preocupada. Trouxe as senhas para você analisar as redes dela, Dara. Acho que o rebranding tem que vir logo.
— Mas essas coisas levam tempo, amiga.
— Não vai dar tempo, a gente vai ter que fazer ao vivo. Você acredita que essa safada realmente fez aquele ménage?
Dara riu.
— A história do ménage é verdade...?
— É verdade! A coitada da Flávia quer se jogar de um prédio, com tanta coisa sobre a Gabriela que ela desconhecia.
— E como você ficou com isso?
— Já fiquei puta e me acalmei. Eu tinha ficado antes, né? Mas agora acho que... foi algo positivo. Claramente, não é positivo para a imagem dela que esse rumor cresça, mas a garota que conheci nunca faria nada assim, nunca.
— E isso é bom...?
— É bom para nós duas. A Gabriela mudou, Dara. E precisa que a imagem dela reflita quem ela é agora.
— Bru, você sabe que não dá para ir suave de boa garota da igreja para a namorada de Bruna Ribeiro, a Bem Indecente, não sabe?
Bruna desconfiava que não dava.

Gabriela só entendeu exatamente o que um pós-reality significava ao longo daquela semana.
Ok, ela estava habituada a uma rotina corrida, mas sua carga de trabalho havia aumentado uns trezentos por cento. Até aí, tudo bem! Era o que esperava quando havia aceitado o convite do programa. O que pegou Gabriela de muita surpresa foi se dar conta da rotina insana de Bruna Ribeiro.
Era interessante, porque ambas estavam com produtos novos para lançar e Gabriela havia acabado de sair do programa de maior visibilidade do país, mas Bruna claramente estava em outro nível. E isso foi uma coisa nova, que não havia acompanhado direito na vida dela. Aquela ida para São Paulo foi apenas o primeiro de muitos voos que Bruna pegaria nos dias seguintes, enquanto Gabriela mal dava conta dos seus compromissos.
E, a cada entrada ao vivo, se sentia mais perto de dizer a coisa errada.
Eram muitos estímulos, muitos vídeos de que não se lembrava, coisas que havia dito e esquecido, e as perguntas sobre Bruna a deixavam completamente perdida. Principalmente quando sentia os olhos de sua mãe o tempo inteiro.
— Ela nunca mais vai voltar para a Itália? — Gabriela perguntou no meio daquela tarde, no intervalo da gravação de um programa de variedades. Era sábado, seu quarto dia fora do confinamento, e Bruna estava em Florianópolis, em um evento de pré-lançamento da Fierce.
— Eu não faço ideia, Gab. Só sei que é bem mais difícil conseguir trabalhar desse jeito. O Eric foi para São Paulo e, apesar de a Rebeca estar na empresa, eu nunca sei o que ele pode estar fazendo por lá. E a sua mãe... — Flávia deu uma olhadinha. Débora estava pelo estúdio, falando com pessoas, agindo como se fosse empresária de Gabriela — É isso. Não posso pedir para ela ser barrada nas coisas, vai gerar comentários. Tudo o que a gente não precisa é de mais comentários. Estou preocupada com o programa de amanhã.
Era o programa de domingo, ao vivo, com plateia.
— Não vou morrer se eu for vaiada, estou indo preparada para isso, Flávia.
— Não acho que você vá ser vaiada, mas tem sempre convidados e esses convidados fazem perguntas sem briefing.
Gabriela estava estalando os dedos sem parar.
— Queria a Bruna aqui. Mas ela... ela não vai ficar perto enquanto a minha mãe estiver aqui.
— Gab, vamos ver a sua terapeuta? Seus pensamentos estão todos atravessados.
Sabia que precisava mesmo da terapeuta. Mas em que hora?
Tudo parecia estar indo em alta velocidade. Tudo o que Gabriela queria era voltar com Bruna, mas elas mal estavam se vendo. Voltou pra casa naquela noite depois de mais uma discussão com sua mãe, que não levou a lugar nenhum, e após mais um exposed. Exatamente antes do domingo. Aparentemente, uma das garotas com quem havia ficado decidiu falar sobre aquela noite.
E, mesmo assim, Gabriela só conseguia reclamar da ausência de Bruna.
Chegaram ao apartamento em São Conrado e Flávia decretou:
— Você vai falar com a terapeuta agora.
— Agora?
— Marquei agora com ela. Gabriela, isso aqui é bem grave — Flávia mostrou o que estava circulando no Twitter e nos perfis de fofoca.
— A Bruna vai ficar louca comigo, Flávia.
— Gab, isso é um escândalo para o seu nicho! Sabe quando achei que teria que lidar com um escândalo sexual com você? Nunca! Nunca achei que fosse dizer isso, mas sua mãe meio que tem razão dessa vez. Essa situação é muito ruim para sua imagem e eu realmente não sei como parar essas suas fãs que estão levantando esse assunto. Elas querem tanto que algo seja real que estão te expondo sem perceber o quanto isso pode ser ruim pra você.
— O que posso fazer em relação a isso? Acho que falar da minha sexualidade poderia acabar com isso de vez.
— Acho que falar da sua sexualidade pode acabar com a sua carreira de vez.
Silêncio. Ansiedade.
— Desculpa ter dito isso — Flávia a olhou com carinho.
— Eu... eu sei que você tem razão.
Seu celular estava tocando. Era Jeni. Gabriela pediu para ela ir até o apartamento. Em meia hora, sua amiga estava entrando pela porta.
— A gente vai terminar esse boato agora — Ela anunciou assim que entrou.
— A gente... vai?
— Vai — Jeni se sentou no sofá — Tenho a maior conta gabruna dessas redes todas, a gente vai terminar com isso agora.

Bruna voltou de madrugada.
Chegou um pouco antes do amanhecer, praticamente caminhando enquanto dormia. Tentou entrar devagar para não acordar Gabriela, mas ela acordou de qualquer maneira.
E veio buscá-la na sala. Colocou sua garota no sofá e tirou os sapatos dela, enquanto Bruna contava, com um sorriso no rosto, como havia sido o evento. Adorava a maioria dos eventos. Então estava cansada, mas feliz e, se Bruna estava feliz, Gabriela estava também.
— Bae, você não tinha que ter acordado — Bruna balbuciou, de olhos fechados.
— Tenho um radar em você, meu amor — Gabriela a pegou no colo e foi levando-a para o quarto — Quando você se aproxima, eu pressinto.
— Não teve um pressentimento quando decidiu entrar naquele reality? — Bruna perguntou, olhos fechados, braços enroscados no pescoço dela, rosto afundado no ombro de Gabriela.
— Um enorme pressentimento! E, quando faltava só uma pessoa para entrar, meu coração estava tão disparado que posso dizer que ele sentiu você mesmo. Bru, desculpa o escândalo.
Bruna riu, de olhos fechados.
— Onde foi que achei que passaria por esse tipo de coisa com você, Gabriela? Jeni cuidou disso?
— Cuidou, com uma habilidade que fez Flávia e eu ficarmos passadas. Ela tem... — colocou Bruna na cama — subgrupos. Explicou a situação e esses grupos de fãs se comprometeram a espalhar outras coisas, para deixar esse assunto morrer e limpar o meu search nas redes. Jeni sugeriu também uma pauta, que foi aceita por aquele programa de sábado. Ela acha que seria muito legal uma matéria em que eu possa correr num autódromo.
Bruna a olhou.
— A Jeni é foda.
— Ela é. Ela inundou as redes com vídeos meus, bem pequena, correndo, e isso chamou muita atenção. Então liberou um vídeo nosso na casa, inédito.
— Qual vídeo?
Sorriso canalha de Gabriela.
— A gente dormindo junto depois da Festa Eclipse.
— Gabriela! Esse vídeo existe, então?
— Existe! Mas não foi a parte quente que ela liberou. A gente conversou, Bru.
— Naquela noite?
— Conversamos. Como pode a gente esquecer tanta coisa, né?
— Acho que é efeito do confinamento. Falamos sobre o quê? — Bruna abriu os olhos, curiosa.
— Sobre o meu shampoo. Eu estava te abraçando e você cheirou o meu cabelo. Eu falo que ainda uso o Cherry Vermelho da Fierce e você fala sobre a fórmula, um ajuste que você fez por causa do meu cabelo. Nossas fãs adoraram essa conversa. Bru, um ménage nunca seria um escândalo para você.
— Não fica pensando nisso, linda.
— É que esse tipo de coisa deixa claro como construí a minha imagem toda errada.
— Namorada, só deita, hum? Me abraça. Vamos ficar bem.
Era tudo o que Gabriela desejava.
Acordaram três horas depois, grudadas uma na outra. E não tinha como acordarem sem fazer amor antes de qualquer coisa. Fizeram um amor rapidinho, apegado, gostoso. Bruna no colo de Gabriela, sentindo aquelas mãos firmes, os dedos habilidosos acordando-a por dentro.
Obviamente, se atrasaram. Gabriela tinha que estar em estúdio logo e foram juntas para lá. Bruna tinha outro compromisso, mas combinou que Júlia a buscaria. Era um almoço em um rooftop famoso; falaria com o dono de um shopping na zona sul, onde pretendia abrir a primeira loja física da Fierce, um passo novo no seu negócio.
Foram fotografadas na saída do condomínio. Sabiam que tinham sido.
Após um tempo, as câmeras começavam a causar a mesma sensação cega que a gente sente quando alguém está nos olhando pelas costas. Bruna sentiu as câmeras.
— Mas por que está tão preocupada, Bruna? — Júlia perguntou, assim que a pegou, conforme combinado.
— Porque conheço a minha mulher. Fomos fotografadas na saída do apartamento hoje. Estávamos sendo cuidadosas, mas saímos com pressa e acabamos falhando. Sei o que essas fotos podem causar na minha querida sogra. Ela já está pressionando a Gabriela, isso só tende a piorar.
Júlia respirou fundo.
— Bruna, eu odeio usar a palavra que vou usar, mas isso tudo é tão... trabalhoso.
— Eu sei que é. Sempre foi trabalhoso, nunca foi simples, Júlia.
— E você está realmente disposta. Eu consigo ver nos seus olhos.
— Eu não vou desistir da Gabriela. Meu único problema é... descobrir onde devo estar.
— Como assim?
— Não quero pressionar a Gabriela nem ficar aparecendo com ela quando a mãe estiver por perto. Mas também sinto que deixar aquela mulher ocupar espaço pode ser ruim. Então não sei se estou presente o suficiente ou ausente demais.
— Bem, você vai ficar fora praticamente a semana inteira.
— Não, Júlia, eu vou voltar todos os dias.
— Mas, Bruna...
— Preciso voltar.

O programa ao vivo acabou sendo desconfortável.
Gabriela estava linda, feliz de estar com Nuna e Eduarda de novo, mas o clima foi esquisito. Claro que perguntaram sobre Bruna; veio de um dos convidados sem filtro.
— É que você vem de uma família bem tradicional. Sua avó foi atriz aqui nesta mesma casa, inclusive, você recebeu o nome dela. Por tudo isso, uma conexão com Bruna Ribeiro parece bem improvável.
Gabriela sorriu.
— Isso é preconceito social, não acha?
— Gabriela... — Eduarda a segurou suavemente.
— Não é! É que são mundos muito diferentes — O convidado continuou, passivo-agressivo.
— Estamos inseridas no mesmo lugar há muito tempo. Habren é só um sobrenome, e Bruna Ribeiro hoje é uma das cinco únicas influenciadoras milionárias neste país. Após a falência da minha família, a surpresa é essa milionária falar comigo — Gabriela respondeu, fazendo a plateia rir.
Ela acabou se saindo bem da pergunta constrangedora, mas é claro que isso enlouqueceu sua mãe.
Débora expulsou todo mundo do camarim.
— Você quer se destruir e me destruir? O que você acha que está fazendo, Gabriela?!
— Acho que você ainda não percebeu que essa é a minha vida, Débora, não a sua!
— Não, não: é a nossa vida! Quando eu te dou o nome sagrado da minha mãe, é a nossa vida, menina. Como você acha que ela estaria com tudo isso? Me diz?!
— É só perguntar para ela! Minha avó está vivendo a vida dela na Itália, de boa, coisa que você também deveria experimentar fazer.
— Pra quê? Para eu abrir a internet e descobrir que você está arrastando o nosso nome para a lama? Não, eu vou ficar aqui, essa empresa é da nossa família, Gabriela!
— Mas o quê? A Mighty é minha! O produto dessa empresa sou eu. Que loucura é essa que você está dizendo?
Débora agarrou o queixo dela entre os dedos:
— Um produto que está apresentando defeitos — Ela a soltou — Estou fingindo que essa história nojenta que está circulando por aí não é real. E ignorando que você já está enfiada no apartamento daquela mulher de novo, porque sei que ela vai se cansar outra vez. E não, Gabriela, essa empresa não é só sua, nós temos ações nela e você pode ter certeza: eu não teria aceitado nada se não fosse você me pedindo ajuda. Você me pediu ajuda. A Bruna havia ido embora, não? E você parecia incapaz de dar um passo que fosse sem ela, o que é patético e constrangedor, porque não te criei para depender de ninguém. Achei que você estivesse diferente agora, que tivesse aprendido a ser mais forte. Mas tudo segue igual.
Gabriela a olhava nos olhos.
— Você não me conhece agora.
— Isso eu sei muito bem. Mas você me conhece. Vou procurar essas moças, esse assunto vai acabar. Falei com o Nathan, o assunto também acabou. E avise aquela sua empresária para parar de propor mudanças. Mudar não vai resolver. Suas contas estão perdendo alcance e nossos parceiros estão encerrando contratos. Chega disso. Eu já perdi tudo uma vez, não vou deixar isso acontecer de novo.
E saiu batendo a porta do camarim.






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