Vulnerável 30
- Riesa Editora

- há 3 dias
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Casadas 💍
Bruna correu para o quarto de Gabriela tão rápido que nem saberia dizer como havia chegado lá. Recebeu algumas instruções na recepção e só foi seguindo por aqueles corredores brancos. Detestava hospitais, e se tinha alguém que a fazia entrar neles, era Gabriela.
Em quase quatro anos de relacionamento, sua namorada passou por situações complicadas: caiu de moto em uma estrada a caminho de Ilhabela; sofreu uma batida de moto em uma corrida de motocross em Milão; bateu durante uma corrida de kart em Nova York; e, gravíssimo: Gabriela voou da pista durante um E-Prix, uma das corridas da Fórmula E, em SEUL.
Bruna nunca a perdoaria por ter que entrar num hospital em Seul, onde todo o seu coreano sumiu da sua mente. Ou não existia, porque quem aprende outra língua para situações médicas?
E agora lá estava, de volta a um hospital, por conta de uma batida de kart em uma corrida que Bruna sequer sabia que Gabriela estava fazendo. Não era apenas para umas fotos? Por que uma corrida não estava especificada na agenda?
Bruna estava furiosa, mas, quando abriu a porta do quarto e viu sua garota com o nariz imobilizado e um roxo superescuro que subia da maçã do rosto até o olho esquerdo...
Foi até ela rápido, e Gabriela sorriu, o melhor sorriso que conseguiu, porque seu nariz doía quando sorria, mas sabia muito bem que Bruna estava FURIOSA. Ela detestava quando Gabriela se acidentava.
— Oi, meu amor — Gabriela tentou, com a melhor voz que conseguiu achar.
— Gabriela Nori de Habren, o que você estava fazendo correndo em uma pista?
— Meu amor, acho que esqueci de te dizer essa parte e...
Bruna chegou até ela e a beijou.
Com muito carinho e cuidado, checando-a de perto, extremamente preocupada.
— Gab, você quebrou o nariz?
— Só uma fratura pequenina, linda. Eles já colocaram no lugar.
— Amor, o que aconteceu? Você está toda machucada! Não era só para fazer algumas imagens? Por que você foi correr?
— Eu não sei, bae, eu realmente não sei. A minha cabeça não estava muito em ordem, mas agora acho que voltei pra mim.
— Após bater com um kart em alta velocidade, Gabriela?!
— Acho que é assim que volto pra mim. Correndo em alta velocidade ou sendo atropelada por você — Gabriela estava sorrindo, ainda que doesse.
— Mas, ao menos, eu não quebro o seu nariz, não te mando para hospitais. Pelo menos desta vez, você não perdeu nenhum dente ou eu iria reconsiderar — Bruna enfiou a mão na mochila e tirou algo de lá. Mas não deixou Gabriela ver o que era.
— Bru?
— Em qual mão você acha que está, hein?
Gabriela sorriu. Bruna era muito habilidosa com as mãos, fosse maquiando, na cama ou em truques de mágica.
— Nessa aqui.
— Sempre tão distraída o meu amor — Bruna abriu as mãos, que estavam vazias, e então, do nada, fez um anel cair do alto bem diante dos olhos de Gabriela.
— Bruna! Como é que...?
— Aqui, bae, o seu anel.
— Você não vendeu, Bru — Gabriela lagrimou, e Bruna sorriu.
— Meu amor, que tipo de ex você acha que eu sou? Eu lá ia vender o seu anel de casamento?! — Bruna foi devolvendo o anel para o dedo dela, e Gabriela deixou cair mais uma lágrima.
— É que você disse que ia.
— Não, Gab! Eu disse que, se pudesse, manteria os anéis longe de você, porque era bem provável que a sua mãe quisesse vender o nosso casamento — Bruna terminou de colocar o anel e a beijou novamente — Pronto, casadas de novo! Tudo o que é meu é seu; tudo o que é seu é meu, incluindo sua empresa, da qual seu irmão está oficialmente demitido.
— Bruna! — Gabriela começou a rir no meio das lágrimas.
— O Eric pode escolher: ser demitido ou processado, porque o que ele fez hoje foi violência doméstica. Vou deixar que ele escolha.
E, de repente, uma voz diferente ressoou dentro do quarto:
— Estou vendo, mas não estou crendo.
Bruna olhou para trás.
— Nuna, meu Deus! Como assim você está aqui dentro?
— Você entrou e não olhou para nada além da Gabriela. Não foi culpa minha — Ela se justificou, sorrindo, mas ainda com a mão na boca e os olhos incrédulos — Está acontecendo bem aqui, bem diante dos meus olhos, mas estou achando que entendi errado — Nuna se aproximou — Você disse casamento?
Gabriela respirou fundo, se recompondo, com os olhos no seu anel de casamento, de volta ao dedo.
— Acho que voei naquela pista porque pensei que a Bruna não quisesse mais ficar sério comigo. Ela não tinha me devolvido o meu anel.
— Gab, eu não tinha conseguido ir ao banco ainda — Bruna checou o celular, que não parava de tocar.
— Ao banco?
— Esses anéis são muito caros para deixar em casa, então guardei no banco — Ela respondeu a uma mensagem.
— Você tem um compromisso agora, amor?
— Alterei a agenda, troquei um evento em São Paulo por uma reunião aqui porque queria dormir com você. Mas como vou, me diz? — Bruna a olhou com carinho.
— Você vai, sim, Bru. A Nuna fica aqui comigo. Você disse que ficaria, né?
— Disse, sim. Depois que você expulsou a sua mãe daqui — Nuna comentou.
— Bae, você fez isso? — Bruna foi pega de surpresa.
— Ela mandou o Eric me infernizar e depois quer aparecer aqui, dando uma de preocupada? Jeni estava aqui, ligou para a Nuna. Ela criou as famosas barreiras de contenção que apenas Jeni-Jeni é capaz de criar. Você sabe como ela é.
— Sei! Provavelmente sequer teríamos nos separado se ela estivesse aqui com a gente o tempo todo. Gab, você acha que posso ir mesmo? Vai levar umas duas horinhas só.
— Você vai sim, senhora! Porque a Gabriela está me devendo uma conversa, que ela prometeu ainda lá na casa. Tenho muitas perguntas — Nuna se sentou na cama dela — Como assim vocês duas se casaram?
Bruna beijou Gabriela mais uma vez e levantou-se da cama sorrindo.
— Quero vê-la conseguir resumir a história para você em duas horas. Amor, você liga se precisar de mim? A reunião é perto daqui, chego rapidinho. Onde está o carro?
— No... kartódromo. Quase certeza de que deixei lá, Bru. A minha mente apagou as últimas horas, eu acho. Fazia algum tempo que isso não acontecia.
— Gab, fazia algum tempo que você não permitia tanta interferência assim da sua família. Eu sentia que ia dar problema, por isso quis voltar pra cá todos os dias. Vou ligar para a Flávia ir buscar o carro e volto pra cá. Acha que você vai poder ir pra casa?
— O médico a deixou em observação por algumas horas, tempo para saírem os últimos exames e ver se está tudo bem mesmo. Se não surgir nada de diferente, ela pode ir dormir em casa sim — Nuna informou.
— Ok, então vou indo para não atrasar a reunião — Bruna beijou Gabriela mais uma vez e disse um “eu te amo”. E Nuna soltou gritinhos.
— As gabrunas do Twitter pagariam milhões para ter a visão que estou tendo. Vocês são loucas! Se amam assim e decidiram ir para uma casa cheia de câmeras, como se o mundo fosse cego e não fosse ver.
Bruna abriu um sorriso.
— Você conseguia ver lá dentro?
— O tempo todo, Bruna. Mas a conta não fechava porque era a Gabriela, né?
— A sonsa, eu sei! Volto logo, meu amor. Conte a nossa história para a Nuna, isso vai te distrair da dor que sei que você está sentindo. Conheço os seus olhos — Tocou o rosto dela — Eu te amo tanto.
Após beijar Gabriela mais uma vez e abraçar Nuna, Bruna saiu do quarto.
E Nuna ainda estava...
— Como... como você conseguiu se casar com ela, Gab?
Gabriela riu, ainda que não pudesse. Seu rosto inteiro doía.
— Para a minha sorte, ela realmente se apaixonou por mim.
E nada teria sido mesmo possível se essa paixão não fosse real, se o amor não fosse real.
Bruna mostrou para Gabriela que, quando o amor é de verdade, não existe distância que o faça acabar.

Aeroporto Internacional de São Paulo, 2017.
Bruna sentia a aliança de namoro queimando em seu dedo enquanto não conseguia soltar Gabriela de seu abraço nem por um segundo.
Haviam tido o cuidado de pegar voos no mesmo dia, praticamente na mesma hora. E agora que passaram pela inspeção de bagagem, estavam paradas no meio do corredor, no maior aeroporto do Brasil, abraçadas, porque precisavam ir em direções opostas, mas simplesmente não conseguiam se soltar. Gabriela havia pedido Bruna em namoro novamente, e agora elas tinham alianças, duas Cartier, a coisa mais bonita e delicada da vida.
Gabriela voaria sozinha para Milão, mas Marcela esperava por Bruna no portão de embarque e não parava de mandar mensagens. As duas estavam ficando perigosamente atrasadas.
— Você tem que ir, meu amor — Gabriela sussurrou no ouvido dela.
— Eu sei, mas é que... — Bruna respirou fundo, o anel queimando demais. Já tinha sido pedida em namoro algumas vezes, mas nunca havia sido pedida em namoro duas vezes pela mesma pessoa e, na segunda vez, com um anel lindo, no meio de um aeroporto lotado, por uma namorada que, em tese, deveria se esconder, mas que não era nada boa nisso — Está mais difícil do que eu imaginava, Gab.
— Eu sei, eu sei — Gabriela olhou nos olhos dela e a beijou sem aviso, no meio do vai e vem das pessoas — Jura pra mim que isso vai dar certo, Bru. Que você não vai me esquecer, me deixar de lado, que não vai encontrar uma namorada nova-iorquina.
Bruna a beijou de volta, sorrindo demais, puxando-a pela nuca, esquecendo completamente o que uma foto daquelas podia causar. Se separariam por meses, nada mais importava, apenas poder beijar Gabriela um pouco mais.
— Eu já tenho namorada. Cada vez que alguém se aproximar querendo namorar, é o que vou dizer. E vão aparecer umas pessoas, você sabe — Bruna disse, sabendo que ela ia rir.
— Você é tão convencida, tão cheia de si mesma!
— E você ama.
— Amo — Gabriela disse, e teve um peso diferente. Disse, olhando-a nos olhos, e algo ficou tão palpável que desceu entre elas, fazendo ambas respirarem fundo — É muito cedo...?
Bruna se abraçou a ela novamente. Ainda não haviam dito que se amavam.
— Nada é cedo demais se já existe — Bruna a olhou nos olhos — Vou te ver em três meses, linda.
— Promete de novo.
Sorriu, tocando o rosto dela com carinho. Era tão bonita sua modelo. Como podia?
— Prometo. E amo essa promessa. Amo nós duas, Gab.
Gabriela a abraçou novamente, apertando-a em seus braços.
— Eu amo você, namorada.
— Eu amo você, meu amor.
Então, elas tiveram que se separar. Bruna correu para o seu portão de embarque, porque estava muito em cima da hora, e Gabriela foi andando para o seu, chorando. Não queria chorar, queria se manter confiante de tudo, mas a grande verdade é que estava morrendo de medo.
Medo da distância, medo de tudo mudar. Confiava em Bruna plenamente, o que era uma raridade, já que era da sua personalidade ser desconfiada, não colocar expectativas em cima de ninguém. Havia sido tão machucada nos poucos namoros que teve, machucada por amizades que jamais imaginou que pudessem traí-la. Era desconfiada por natureza e, com uma garota como Bruna Ribeiro ao seu lado, o natural era que estivesse apavorada de medo de ser traída por ela.
Mas isso não acontecia. A Bruna que Gabriela tinha era item único. Nunca havia sido desbloqueada antes por ninguém, tal como a Gabriela que Bruna tinha também não.
Estar juntas liberou em ambas uma nova versão de cada uma, que elas ainda estavam descobrindo exatamente como era.
Gabriela nunca tinha se imaginado comprando um anel de compromisso. Havia sido criada para receber anéis, não para comprá-los, mas, com Bruna, isso havia mudado.
E Gabriela quis mudar, quis fazer diferente. Estava amando aquela sua versão nova, mais segura, mais decidida, tão diferente do que sua mãe a criou para ser. E, sobre a versão de Bruna, como poderia explicar?
Ela era um furacão mesmo. Eram totalmente opostas. Gabriela, diurna, e Bruna, criatura da noite. Bruna tinha energia infinita, definitivamente um golden retriever, e Gabriela era do tipo que nunca queria fazer muita coisa, mas, para tudo o que envolvia a sua namorada, descobriu que tinha vontade de sobra.
Como ficaria tanto tempo sem ela? Essa era a principal questão. Porque ser traída por Bruna realmente não a preocupava de maneira nenhuma.
Ninguém está livre de se encantar por alguém. Mas apenas sentia, com uma certeza que nem sabia dizer de onde vinha, que, caso isso acontecesse com Bruna, ela seria a primeira a dizer. Elas confiavam uma na outra assim. E, sinceramente? Ela não se encantaria por ninguém. Bruna já estava encantada por alguém e a sortuda desse encantamento era Gabriela Habren. E, enquanto pensava em tudo isso, recebeu uma chamada de vídeo.
Era a sua garota.
Colocou os AirPods e atendeu.
— Meu amor...?
— Esqueci de dizer que, se você arrumar uma italiana, eu vou cometer um crime de ódio porque uma gay vai sofrer. Você está me entendendo, Gabriela Habren? — Ela disse, e Gabriela morria de rir. Como podia? Aquela era a sua namorada.
— Vou manter o seu réu primário seguro, linda. Garanto pra você. Me avisa tudo, tá? E, Bruna, é de verdade.
— Eu te amo. E eu sei que é de verdade, sinto que é verdade, minha modelo. Mas se comporte.
Sempre. Gabriela sempre se comportava.
E essa geralmente era a causa da maioria dos seus problemas.





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