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Vulnerável 31


Milão - NY


Deve ter sido o voo mais longo da sua vida.


Gabriela não encontrava lugar confortável. Não era a primeira vez que voava para a Itália, mas, com toda certeza, aquele foi o voo mais longo possível. Chorou um pouco mais durante o voo, não conseguiu se concentrar em nada. O futuro parecia tão incerto. Estava deixando seu país, sua rotina, e isso a assustava de uma maneira que não assustava Bruna.


Naqueles dias, sua namorada era tristeza por estarem se separando fisicamente, mas também euforia pelo que a esperava pela frente. Ela estava ansiosa por Nova York, para ver a cidade, descobrir onde morariam, trabalhar naquele centro de filme de Sessão da Tarde. Era o que repetia o tempo todo: que sonhava com Nova York desde pequena, que tinha colocado na cabeça que chegaria lá um dia, e havia chegado.


Bruna ansiava por cada coisa: pelos trabalhos que faria, pelas oportunidades, pelo curso que começaria. Levava na mala um plano de negócios em construção de dar inveja. Escreveu, em linguagem empresarial, seu sonho de se tornar empreendedora. Queria prosperar como maquiadora, mas também construir algo maior. Sonhava com a própria linha de maquiagem, e Gabriela só sabia que ela conseguiria. Não havia nada que Bruna Ribeiro não conseguisse quando queria muito. E, mais uma vez, seu coração se acalmou quando pensou no quanto Bruna também a queria.


Elas dariam certo. Sentia que seria assim.

Por tradição, o primeiro dia de qualquer viajante, em qualquer cidade nova, era o caos.


Gabriela chegou a Milão sob uma tempestade daquelas, um frio intenso, nada compatível com as roupas que estava usando. Suas malas levaram um tempo impossível até aparecerem na esteira. E a próxima batalha foi sobreviver ao frio e brigar por um táxi em italiano. Como odiava os italianos em um dia de chuva e frio. A grosseria gritava. Quando finalmente conseguiu um táxi, deu-se conta de que havia passado do horário previsto para entrar no seu apartamento.


Tentou contato com alguém, sem saber muito bem se conseguiria. O il dolce far niente era totalmente real, o oposto do que Gabriela estava habituada em São Paulo, a cidade que nunca dormia. Milão dormia. A Itália inteira dormia. E não recebeu retorno das mensagens que enviou.


Então era isso, estava do lado de fora do seu prédio, que não tinha porteiro nem interfone, com duas malas enormes e uma mochila nas costas. E com muito frio. Molhada, irritada. E, por metade daqueles motivos, Gabriela já deveria estar chorando.


Pronto, foi pensar nisso e começou a chorar. Chorou recostada contra a enorme porta de madeira antiga, naquela entrada feita de pedras. Chorou com o rosto grudado na porta, porque assim ao menos se escondia um pouco da chuva. E estava tão presa na própria cabeça que não notou quando a porta, de repente, se abriu.


— Oi, oi, cuidado! — A garota disse, segurando Gabriela, ou ela teria caído para dentro — Está tudo bem?


Gabriela ergueu o rosto, olhando para a desconhecida, para quem até começou a se desculpar em italiano, então se lembrou de algo.


— Você falou em português?

— Ah, brasileira, meu! Não acredito que você é brasileira! — E a garota abraçou Gabriela como se fossem velhas conhecidas — Eu ainda não estou com o drive de mudança automática de linguagem instalado na minha cabeça, cheguei aqui faz pouco tempo. Quem é você, estranha? Sai da chuva, está muito frio! — Ela puxou Gabriela para dentro, ajudando-a com as malas, trazendo-a para o corredor quentinho que antecedia a vila de apartamentos.

— Você vai... me deixar entrar?

— Eu não vou te deixar na chuva, né? Por que você estava com a cara enfiada na porta?

— É que cheguei depois do horário e a locatária do apartamento não está me respondendo — Gabriela acabou sorrindo.

— Quem é a sua locatária?

— O nome dela é Paola. Alguma chance de você conhecê-la?

— Conheço! Ela mora no apartamento entre o meu e o que deve ser o seu. É a minha locatária também. Vamos lá bater na porta da preguiçosa, que deve estar te ignorando por vontade própria — A garota seguiu puxando as malas de Gabriela, guiando-a para algum lugar.

— Você estava indo fazer alguma coisa?

— Eu estava — ela parou de repente —, mas não me lembro exatamente o que era agora. Ah! Eu ia à padaria, mas posso ir depois que você estiver com as suas chaves. Aliás, quem é você mesmo?

— Você não me deixou responder! Meu nome é Gabriela, eu sou de São Paulo.

— Minha querida, isso eu soube desde quando você abriu a boca — Ela apertou o botão do elevador, enxugou as mãos e apontou na direção de Gabriela — Jeni-Jeni.


Gabriela pegou a mão dela e sorriu.


— Como assim é Jeni-Jeni?

— Nome e sobrenome. Culpe a minha mãe chinesa.

Fazendo valer a tradição de primeiros dias de viagem serem terríveis, Bruna ficou presa na imigração.


Mas nem isso fez com que ela perdesse o bom humor. Foi para a famosa salinha dos suspeitos. Aparentemente, eles desconfiavam de toda e qualquer mulher jovem e bonita. Teve que responder algumas perguntas extras, mas tudo bem, porque assim que saiu daquele aeroporto e Nova York começou a se mostrar...


Ah, era um sonho sim! Estava no meio da realização de um grande sonho, e a única coisa que podia melhorar aquele momento era se Gabriela estivesse junto. E isso deve ter ficado estampado em seu rosto de alguma maneira, porque, assim que entraram no apartamento que iriam dividir, Marcela a chamou para conversar.


— Eu sei do amor, da paixão, porém, nós temos uma missão aqui, Bruna. Preciso que você esteja focada nisso o máximo que conseguir.

— Eu vou estar, já estou, Mah, pode acreditar em mim. Mas é que... — Bruna olhou para a aliança no dedo — Você já se apaixonou tanto por alguém que parecia que essa pessoa era parte de você?

— Não. Mas acho que é o que acontece quando alguém entrega o próprio coração para outra pessoa. Um coração morre fora do peito. Você está com o coração dela guardado dentro de você, e isso é lindo. Mas requer cuidados.


Bruna sabia que sim. Cuidaria, com tudo o que tinha em si, de cada coisa que importava agora. Isso incluía sua carreira.


E incluía Gabriela também, claro.

A primeira semana foi insana tanto para Bruna quanto para Gabriela.


As duas se adaptando aos apartamentos, aos cursos de cada uma, à correria da primeira semana. As seis horas de diferença de fuso também exigiram adaptação, e isso causou desencontros, assim como a diferença de rotina entre elas.


Gabriela iria trabalhar na Itália, mas sua agência havia dado uma semana para ela se adaptar à rotina da nova cidade. E ainda bem que havia sido assim, pois nem sabia dizer para onde a sua ansiedade a teria levado. Tinha um miniapartamento para cuidar, uma vizinhança para se adaptar e o MBA em Moda já começando em dois dias. Fora a dor de cabeça. Gabriela sentia dor de cabeça por uns três dias sempre que precisava se adaptar a um idioma.


E então, tinha Bruna em Nova York.


Ela sequer teve tempo para se recuperar do jet lag. No dia seguinte, Bruna já estava trabalhando, indo para uma produção com Marcela. E rindo de felicidade por estar correndo pelo centro daquela cidade que sempre sonhou em estar, com um café nas mãos, enquanto quase se atrasavam para o trabalho.


— Bruna, você quer parar?!

— Mah, eu estou em um filme! Estou de casaco elegante, correndo no centro durante o outono em Nova York, e carregando meu café da Starbucks!


E, mesmo correndo para não perder a hora, ela fazia stories, sendo apenas feliz na cidade dos sonhos dela. 


Na Itália, Gabriela apenas se derretia ao assisti-la. Como Bruna podia existir? Era por isso que as redes sociais dela não paravam de crescer. Era pela espontaneidade, pela gratidão, pelo quanto aquele sorriso era bonito, capaz de acender metade do mundo quando se abria.


Levou três dias para sua nova melhor amiga, Jeni-Jeni, descobrir sobre o namoro.


— Menina, olha, é gata pra caramba! Eu não quero ofender a sua beleza, mas assim, como você conseguiu uma mulher como essa, Gab?


Gabriela caiu no riso porque sabia do que ela estava falando.


— Somos bem diferentes, né?

— Energias completamente opostas! Ela chegou e já está trabalhando, estudando, dormindo cinco horas por noite, gravando stories, tocando as redes sociais.

— Ela é assim mesmo. Bruna tem estamina infinita enquanto estou aqui derrotada há dias, sem conseguir me mover direito.

— Gabriela, você é modelo, não pode abandonar sua rede social assim.

— Eu sei, Jeni, sou muito ruim com isso, sério mesmo.

— Mas a rede social hoje é parte do seu trabalho. Sua namorada aqui está te mostrando como se faz. Posso te ajudar se você quiser, eu trabalho com isso.

— Mesmo?

— Mesmo. Muito melhor que sua mãe tomando conta disso pra você, não acha? Sua namorada não pode nem te mandar direct direito — Jeni brincou, fazendo Gabriela rir.

— Você sentiu como a minha mãe é, né? — Débora havia feito uma visita inesperada no dia anterior.

— Controladora, manipuladora e homofóbica. Desculpa! — Jeni disse, depois que percebeu o que havia falado.

— Você está certa. Não errou em nada. Débora sempre foi assim, tentando me controlar desde que eu era pequena. Piorou muito depois de adulta.

— Ela sabe que você está namorando uma garota?

— Meio que sabe. Mais desconfia do que sabe, ou sabe mais do que desconfia. Eu não sei bem.

— E me fala aqui, quando você vai encontrar a namô novamente?


Os olhos de Gabriela mudaram só de pensar nisso.


— Em três meses.

— E você vai trazê-la pra cá? É que, tipo, sua mãe apareceu do nada, né?


É, havia acontecido assim mesmo.


— Às vezes, acho que teria que ir para o outro lado do mundo para ter um pouco de privacidade.

— Já pensou em morar em Seul? Sério, eu penso nisso todo dia.


Seul. Gabriela ficou pensando nisso.

E, se teve algo que Gabriela aprendeu sobre Bruna Ribeiro naqueles três primeiros meses, foi que ela realmente conseguia desligar o mundo ao redor de si e focar apenas em seus objetivos.


Foi um impacto para Gabriela. Não que não soubesse que Bruna tinha aquele lado, tinham ficado juntas por um mês, se vendo quase diariamente. Já tinha conseguido perceber muita coisa sobre quem ela era. Mas ver aquele foco tão fixo, tão intenso, a pegou de surpresa.


Gabriela seguia uma trouxa apaixonada que queria grudar na sua namorada o tempo todo, mas sua namorada agora era uma mulher de negócios trabalhando com produção de moda em Nova York, a cidade que nunca dormia, enquanto Gabriela estava em Milão, a cidade que sempre dormia.


Talvez fosse mais italiana do que acreditava ser.


Esse contraste começou a fazer Gabriela pensar.


A pensar demais.


— Eu estava na academia hoje e me dei conta de algumas coisas — Dizia para Jeni aquela noite, enquanto faziam o jantar no apartamento da amiga — Eu sempre achei surreal aquele pessoal que vai para a academia todo arrumado em São Paulo, mas hoje acho que entendi.

— Entendeu?

— Eles vão arrumados assim porque amam a academia. Amam tanto que fazem disso um evento. Eu, como vou para a academia forçada, chego lá igual a uma mendiga. Qualquer dia, não vão me deixar entrar — Gabriela disse, fazendo Jeni rir.

— Hoje achei uma indigente lá embaixo e, na verdade, era você. Ok! Por que está pensando nisso, Gab?


Gabriela respirou fundo.


— É que a Bruna está lá em Nova York, com foco total nos trabalhos que está fazendo, no curso, em melhorar o inglês. Sei que ela está com saudades de mim. Ela queria que a gente estivesse no mesmo lugar, mas isso não é o foco dela, nem um pouco. Ela sai de casa com um tesão enorme todo dia. Enquanto eu saio já cansada, não querendo nada. E eu sei que não é só porque estou com saudades dela, é mais do que isso.


Jeni a olhou. Serviu o macarrão em dois pratos, colocou o molho e foram para a pequena mesa da cozinha.


— E por que você acha que é tão diferente pra você? Quero dizer, você está em Milão, Gabriela, na meca da moda italiana. Tem uma agência disputadíssima cuidando da sua carreira, está estudando MBA numa faculdade foda. Por que você está aqui na mesma energia com a qual vai para a academia que você odeia?


Gabriela respirou muito fundo.


— Acho que... a Bruna está em Nova York correndo atrás dos sonhos dela, das metas dela, e eu estou aqui correndo atrás dos sonhos e metas de outra pessoa. Eu... não gosto muito de modelar, Jeni.

— Isso eu já tinha notado. Mas do que você gosta?


Essa simples pergunta deu um blackout severo em Gabriela. Do que gostava? O que queria para si mesma? Passou a se perguntar isso todos os dias e começou a ficar com medo, porque a única coisa que vinha como resposta era Bruna. Mas, obviamente, a vida não era assim. Será que estava se tornando o tipo de mulher que sempre criticou? Aquelas que veem em um homem o seu mundo inteiro?


Externalizou isso em outro jantar, agora numa cantina italiana que adoravam e ficava perto de casa.


— Claro que não, Gab. Você está vendo o seu mundo numa gostosa, não em um homem qualquer, isso nem se compara — Jeni respondeu, fazendo graça.

— Você não me leva a sério, garota!

— Levo sim, e nem estou te criticando, porque, se eu estivesse namorando uma gostosa como Bruna Ribeiro, provavelmente estaria igual. Mas, amiga, você acabou de fazer vinte e um anos. É engraçado porque você é madura demais para algumas coisas, mas não para outras, e isso deve ter a ver com a sua mãe controladora, que sempre deve ter decidido tudo pra você. Pode ser que a primeira coisa que você decidiu sozinha foi a Bruna. Pode ser que a primeira coisa real sobre você mesma seja esse namoro, a sua sexualidade. Mas estar tão bem com ela não anula o fato de que você precisa descobrir a sua identidade. O que é autêntico em você.


Não anulava.


Três meses se passaram, e Bruna e Gabriela se reencontraram no Aeroporto de Milão-Linate, onde o beijo não pôde, de jeito nenhum, esperar nem mais um segundo. Bruna saltou no pescoço de sua garota, que a segurou no alto, e elas apenas se beijaram, se sentiram, morrendo de saudade. Os corações das duas estavam tão disparados que até parecia a primeira vez.


— Achei que fosse ficar doente de falta, meu amor — Bruna sussurrou no ouvido dela.

— Eu estou doente de falta, Bru — Gabriela a colocou no chão e a abraçou muito forte, como que para ter certeza de que ela realmente estava ali — Vem, vamos sair daqui. O voo foi tranquilo?

— Foi. Vim dormindo a maior parte do tempo para ver se chegava logo — Bruna respondeu, toda agarrada à sua garota.


Foi como se Bruna tivesse acabado de aterrissar de Guarulhos em Milão: três meses tinham se passado e nada havia mudado entre elas.


Pegaram um táxi para o apartamento e mal tiveram tempo de entrar. Os beijos começaram ainda no corredor, as mãos ansiosas, a vontade que não podia esperar mais. Bruna achava que nunca tinha ficado tanto tempo sem tocar em ninguém e estava explodindo de tesão acumulado.


E sua namorada era, em síntese, uma especialista formada em seu corpo com menos de um mês de estudo. Isso nunca faria sentido para Bruna, ao mesmo tempo que fazia todo o sentido do mundo. Eram uma da outra, Gabriela era a sua mulher, era aquela que tinha se encaixado no seu corpo de primeira.


E Bruna era completamente viciada nela, na cama delas. Ainda bem, sabia que o mesmo acontecia com Gabriela. Chegaram no começo da tarde ao apartamento, e agora era de noite e elas não tinham se soltado. Bruna estava exausta, seu corpo parecia sem resposta, e Gabriela veio para a sua boca, nua sobre o seu corpo, beijando-a densamente, num tesão, numa pegada que...


Gabriela desceu a mão pela garganta de sua namorada enquanto beijava o pescoço dela, as duas suadas, sensíveis na pele, se arrepiando demais. Então, enquanto estavam naquele namoro na cama, Bruna notou algo:


— Desde quando você é fã de Selena Gomez, linda?

— Como? Eu não sou.

— E o que ela faz ali na parede, Gabriela?


Ah, sim, estavam no apartamento de Jeni-Jeni.


Claro que Bruna cobrou explicações. Como assim, não estavam no apartamento de Gabriela? Foi uma vida para Gabriela conseguir se explicar para ela enquanto fazia o jantar. Bruna estava furiosa e com fome, uma péssima combinação.


— Amor, isso é muito difícil pra mim!

— Imagino que seja, Gabriela, mas tirar nós duas do seu apartamento porque a sua mãe tem a chave e o péssimo hábito de chegar sem avisar também é demais! Gozei na cama da Jeni antes de conhecer a menina!


Gabriela riu. Não deveria, mas riu um pouquinho.


— Não vai gozar na cama dela de novo, ou terei que matar a chinesa e esconder o corpo no meu apartamento. Bru, eu sei que você ficou chateada, mas... — Gabriela tirou a focaccia do forno, e só o cheiro...

— Meu Deus, o que você cozinhou aí?

— Focaccia. Aprendi a fazer para você, meu amor. Aqui — Colocou sobre a mesa, numa tábua de madeira — Sei que você ficou chateada, e não tiro a sua razão. Mas eu só queria que esse momento que esperamos tanto acontecesse sem nenhum problema. Sem a minha mãe entrando de repente pela porta e flagrando nós duas fazendo tudo o que fizemos nas últimas horas.


Bruna a olhou, já mordendo a focaccia.


— Não seria bom, realmente.

— Não seria.


Bruna olhou bem para ela. Pegou seu prato e foi se sentar no colo de sua namorada, para abraçá-la, beijar o pescoço dela com carinho.


— Tudo bem, meu amor.

— Mesmo? Tudo bem?

— Vim aqui para ter dez dias de paz com você e é o que vou ter.


No dia seguinte, finalmente, Jeni-Jeni conheceu Bruna. E não conheceu qualquer Bruna. Conheceu Bruna Ribeiro, versão fashionista, o que fez Jeni ficar nervosa de uma maneira engraçada.


— Eu não creio nisso! — Gabriela estava rindo pela reação.

— Você quer parar? — Jeni se voltou apenas para Bruna — É que você é muito bonita, e é ainda mais bonita de perto.

— Ei! Mas a minha namorada é uma gata. A recepção foi assim também, Jeni-Jeni? — Bruna sorriu.

— Não, porque, quando conheci a Gabriela, ela estava na chuva parecendo uma indigente. Era tipo uma gata de rua, uma sem-teto.

— Você quer parar? Não foi assim — Gabriela protestou.

— Foi sim, estava igualzinho a uma indigente, coisa que, aliás, você não está hoje — Jeni deu uma olhadinha na amiga — Achou suas roupas de modelo, Gabriela Habren?

— Lógico que sim. Olha para minha namorada, ela me obriga a sair decentemente.

— Gab, eu não acredito que você anda saindo mal vestida por aqui — Bruna disse, surpresa.

— É que...

— É Milão, Gabriela! E você é modelo, linda, não pode ser assim. Por isso que — Bruna estava lembrando de coisas — você só anda fazendo stories quando está trabalhando.


Errada ela não estava, e isso ficou claro pela cara de Gabriela.


Mais tarde, após um dia de turista sozinha por Milão, Bruna foi buscar sua namorada na faculdade para jantarem em um restaurante maravilhoso que tinha encontrado.


— Meu amor, eu entendo tudo. Entendo que ser modelo não é o que você ama fazer e que você ainda não sabe o que quer fazer. Você é muito jovem, e não estou falando de idade. Tive que deixar de ser jovem ainda criança, mas você pôde ser criança, ser adolescente, em segurança. O que eu não compreendo é estar sendo desleixada em um projeto que pode sim fazer diferença pra você. A garota que quis vir para Milão tinha objetivos bem claros quando falamos sobre isso pela primeira vez.


Gabriela respirou fundo.


— Você tem razão, Bru. Eu também queria estar aqui, queria o MBA, queria essa oportunidade na agência italiana. Mas isso meio que mudou depois de você.


Bruna alcançou a mão dela sobre a mesa.


— Você acha que não mudou pra mim também? Eu poderia perfeitamente deixar Nova York para depois só para ficar mais tempo agarrada a você, do jeito que nós duas estávamos — Confessou, sorrindo — Mas sabe? Sua mãe é uma chata, eu quero mostrar alguns diplomas para ela para ver se o bullying reduz e acho que você deveria fazer o mesmo — Disse, arrancando uma gostosa gargalhada de Gabriela.

— Débora é o tipo que curte diplomas.

— Ela é. Mas, brincadeiras à parte, você sabe que estar em Nova York é parte de um objetivo maior e todo objetivo maior hoje envolve você. Eu quero crescer mais, Gab, quero ficar estável, quero abrir o meu negócio. Então, eu me dedico. Coloco toda a minha energia nisso porque sei que esse caminho é importante para nós duas também. Sei que ser modelo não é o seu sonho, mas sei também que não é algo que você detesta.

— Ah, eu gosto de fotografar agora.

— Eu sei que gosta, sei que ama os resultados. E você está aqui — Bruna apontou ao redor —, onde toda modelo sonha estar. Então, vamos fazer direito, com foco, com intenção.


Gabriela a olhava.


— Eu realmente preciso de você comigo.

— Também preciso de você comigo, linda. E sabe do que mais? Sei que vou me casar com você. E sei disso porque nunca pensei nisso antes, mas agora penso o tempo todo. Penso num futuro onde estaremos juntas, casadas, sem precisar dar satisfações para ninguém. E eu queria deixar muito claro que eu me caso com a modelo, com a arquiteta ou com a piloto. Você é como a Barbie que eu nunca tive na minha infância, que pode trocar de profissão com uma simples muda de roupa. Você é talentosa assim, meu amor.


Gabriela a beijou, se inclinando por cima da mesa.


— Eu não acredito que você me chamou de Barbie, mas acredito menos ainda que você pensa mesmo em se casar comigo — Disse, e aqueles olhos clarinhos ficaram tão sensíveis que Bruna nem acreditava.


Foi menos doloroso se despedir daquela vez, e elas tinham uma teoria: naqueles dez dias que passaram juntas, trabalharam na rotina de Gabriela, nos objetivos dela, aterrando as coisas mais uma vez.


Se despediram no aeroporto, com o mesmo amor, o mesmo apego. O coração de Gabriela apertado porque tinha que deixá-la ir, mas, quando voltou pra casa, já era outra pessoa. Acordada, segura, disponível para brigar pelo que queria.


— E o que você quer? — Jeni perguntou naquela noite.

— Eu quero a Schiaparelli. Eu quero a Givenchy e a Calvin Klein. Vou me preparar para isso. E quero correr, sou piloto. Vou estar bem feliz assim. Jeni, cuida das minhas redes e da minha vida?


Jeni sorriu. Gabriela havia deitado no colo dela.


— Redes sociais, sua agenda, seu visual?

— Tudo isso. Minha namorada deixou um contrato pra você — Gabriela contou, ouvindo uma gargalhada dela como resposta.

— Bruna faz tudo!

— Ela me disse muito delicadamente que sou incapaz de dar conta de tudo isso sozinha, que preciso de ajuda e você está estudando para isso. Ela quer que você abandone seus outros empregos e fique apenas com a gente.


E assim, uma nova fase se iniciou para Gabriela Habren.


Nada de academia preguiçosa ou sair desleixada, nada de redes sociais vazias. Jeni era uma máquina de criar conteúdos, era ótima com agenda, ótima em lidar com sua agência. Gabriela tinha tempo de novo para cuidar de si mesma, cuidar de sua casa, pensar, traçar o próximo passo para os objetivos que agora via com clareza.


E ter Jeni ali também ajudou nas tratativas com sua família.


Ela passou a falar com Débora sobre coisas que tiravam totalmente a energia de Gabriela, como campanhas que ela não queria fazer ou investimentos na Bolsa de Valores. Gabriela podia reclamar de Débora como mãe, mas não da empresária que ela era.


E quando Gabriela pisou no Aeroporto Internacional John F. Kennedy em Nova York três meses depois...


Bruna viu uma modelo.


Com cara de modelo internacional, estilo de modelo, aura de celebridade. Bruna só correu para ela, para saltar na sua namorada, para beijá-la morrendo de saudades. Como podia? Tanta falta assim?


Foram direto para o hotel que Bruna havia reservado. Dividia apartamento com Marcela, mas precisava de um tempo sozinha com a sua garota. E foi incrível estar com Gabriela em um hotel de luxo novamente, mas, desta vez, bancado por Bruna. 


Algo havia acontecido naqueles três meses separadas: Bruna estava fazendo mais dinheiro do que nunca e Gabriela...


As marcas só bateram na porta dela depois que começou a trabalhar de verdade em Milão. Um contrato gigantesco com a Diesel era a conquista mais recente. Mas tinha mais. Bem mais.


— Você vai correr na liga profissional?! — Bruna saltou em cima dela na cama quando ouviu. Estavam nuas, agarradas uma na outra, haviam feito amor pelas últimas horas.

— Eles adoraram a ideia de ter uma modelo pilotando, e Jeni conseguiu um contrato com uma equipe iniciante.

— Eu não acredito! — Bruna a beijou muito — Gab, você conseguiu dois grandes contratos em pouquíssimo tempo.


Gabriela não conseguia parar de sorrir.


— Eu não tinha pensado na Diesel, mas acho que é uma marca que combina muito comigo.

— Com um dos seus lados, sim. É a vantagem de ser um prisma — Bruna disse, com aquele lindo sorriso aberto — Linda, eu queria esperar você chegar aqui para te contar...

— Me contar...?


Bruna se sentou na cama, um sorriso surgindo no rosto.


— Vou produzir uma capa para a Vogue América.

— Você o quê?! — Gabriela pulou mesmo da cama. Como assim?! Bruna riu, sabia que aquela seria a reação.

— É junto com a Marcela, mas meu nome vai estar lá! Espera que melhora: a capa é com a Adriana Lima.


Não dava para colocar numa balança o tamanho daquelas conquistas. Brindaram com champanhe, enquanto Nova York brilhava pela janela do quarto.


— Vamos fazer juntas, Bru — Gabriela disse a ela num final de tarde em que havia ido buscar Bruna, enquanto ambas tomavam um café, passeando de mãos dadas pela Times Square.

— Juntas?

— Eu sei que você ainda precisa de mais dinheiro para abrir a sua empresa. Faremos isso juntas, linda, vou investir em você.


Bruna a parou, indo para frente dela.


— Mas, Gab...

— O quê? Pretendo me casar com você em comunhão de bens, não seja inocente — Gabriela disse, fazendo Bruna rir demais.

— Você realmente aceitaria...?

— O casamento? — Os olhos de Gabriela brilharam.

— O investimento!

— Ah, meu Deus! Esqueço que lido com uma mulher de negócios — Gabriela seguia sorrindo — Jeni fez uma projeção de ganhos na Diesel, nós podemos fazer isso apenas com esse contrato. E, se eu começar a ir bem nas corridas... isso pode ser ainda mais rápido. Natural Fierce. Eu gosto do nome.


Se aprofundaram naquele assunto, mas Bruna ficou com a palavra “casamento” queimando na parte de trás da sua cabeça.





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