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Vulnerável 32


Amsterdam - Veneza - Seul


Dez dias em Nova York.


E Gabriela conseguiu se enfiar num acidente de kart.


Bruna nem sabia como. Mas foi naquele acidente que teve uma amostra do que seria ser namorada de piloto. Cuidou dela e a levou para seu apartamento; os dez dias se transformaram em vinte, porque precisavam ter certeza de que ela estava bem para um voo longo. E o que Marcela viu naqueles dias...


— Gab, isso não parece ser algo que possa ser dissolvido — Marcela falava, enquanto Gabriela estava terminando de fazer suas malas. Seu voo era naquela noite. Bruna havia acabado de sair para um trabalho solo.

— Bruna e eu? Não pode — Respondeu, sorrindo — É realmente um evento único, algo de que tenho muita certeza.

— Eu conheço a Bruna de antes e quem ela se tornou depois de você. Ela sempre foi interessada em pessoas, uma flertadora por natureza, mas, depois de você... é como se o mundo inteiro estivesse no escuro para ela. Cuida dela, Gab. Cuida de resolver o necessário. A Bruna mantém tanta coisa dentro dela só para manter você por perto.


Gabriela apertou os lábios. Sabia a que Marcela se referia. Suas brigas com Bruna giravam sempre em torno do mesmo problema: a interferência de Débora na relação delas.


— A minha família vai se acostumar, Mah.

— E se não?


Três meses mais tarde, Bruna e Gabriela estavam brigando assim que entraram no hotel em Amsterdã. Conseguiram vinte dias de férias e decidiram ter uma pequena lua de mel na Holanda. Mas um problema havia acontecido.


— Se não gosta de onde você está, se mova, Gabriela! Você não é uma árvore, é um ser humano!

— Bruna, eu não vou deixar que isso aconteça de novo!

— Estou escutando isso há bastante tempo e entendendo tudo. Juro que olho para dentro e tento entender com o melhor que tenho em mim, mas...

— A Débora cruzou um limite, eu sei disso.


Antes de irem para Amsterdã, Bruna tinha passado por Milão. E Débora chegou de surpresa, encontrando as duas na cama. Elas só estavam dormindo; era de manhã cedo e, não, não foi nada tranquilo. A mãe de Gabriela avançou em Bruna, destratando-a de muitas maneiras, despejando uma lista de xingamentos que sua namorada só revidou quando chegou ao “vagabunda”. E quase virou agressão física: Débora foi pra cima dela, Gabriela interveio, colocou a mãe pra fora e um caos já estava instaurado entre os vizinhos.


A modelo da Diesel colocando a mãe pra fora de casa para defender a namorada. Virou nota na imprensa italiana, souberam depois. Mas o voo delas era naquela tarde, então apenas foram para o aeroporto. Bruna ficou em silêncio durante o voo inteiro, e as palavras de Marcela não saíam da cabeça de Gabriela: ela mantém tanta coisa dentro dela só para manter você por perto.


E agora, já no quarto, Gabriela se ajoelhou diante de sua garota, que estava tirando os sapatos, sentada na cama.


— Deixa que faço isso — Disse, já começando a tirar os sapatos dela.

— Gab...

— Vou resolver isso, amor. Ela nunca mais vai chegar perto de você outra vez.

— Não é o que eu quero. Ela é sua mãe, eu sou sua namorada. Você precisa poder nos ter por perto. Eu só... — Bruna respirou fundo.

— Como posso me desculpar por isso tudo?


Bruna olhou naqueles olhos lindos. Gabriela não tinha culpa. O pior é que sentia que ela não tinha culpa, exatamente.


— Acho que... fazendo esses dias aqui perfeitos.


Como se tornaria quase uma constante entre elas, trancaram os problemas do lado de fora e imergiram uma na outra.


Foram dias lindos em Amsterdã. Fizeram amor depois daquela discussão e apenas zeraram tudo. Bruna iria esquecer, deixar pra lá; tinha sido defendida pela sua namorada, Gabriela não tinha ficado passiva. As palavras de Débora ainda estavam na sua cabeça, mas desapareceram naquela primeira noite, depois do passeio maravilhoso, do jantar cinco estrelas em um restaurante flutuante navegando pelo Rio Amstel.


Desligaram de tudo no dia seguinte: celulares no modo avião, atenção apenas uma na outra. Foi assim por todos aqueles dias, e a flora de sentimentos dentro das duas parecia curada. E cada vez mais segura.


Foi no oitavo dia de férias. Tiveram um dia lindo desde o café da manhã. Fazia sol, o Rio Amstel parecia brilhar, as flores estavam por todas as pontes, e o passeio sem rumo naquele dia foi de bicicleta. Gabriela carregava sua namorada, pedalando pelas duas, levando-a para lugares totalmente inesperados, fazendo o coração de Bruna disparar quando ela decidia acelerar. Gabriela era piloto e pilotava qualquer coisa, de uma bicicleta a um carro de F1.


Foram fazendo paradas. Para comprar flores, as rosquinhas que Bruna adorava, um chocolate quente porque Gabriela sentiu as mãos de sua garota ficando mais geladas em sua cintura.


O café da tarde foi diante de uma das inúmeras pontes da cidade, mas não qualquer uma: a ponte preferida de Gabriela, a que tinha mais bicicletas em suas grades, mais flores, a ponte onde o sol parecia descer exatamente ao centro ao se pôr. Ela era apaixonada por beleza. Bruna também era.


Enquanto tiravam fotos na ponte, Bruna se questionava qual tinha sido a última vez que havia estado tão feliz. Se perguntava se seria possível existir outra pessoa como Gabriela. Tocou o ear cuff e a pulseira que fazia par com ele em seu pulso. Eram de uma marca chamada Blue Nile, tinham sido a primeira grande compra de Bruna em Nova York. E, enquanto estavam tirando fotos naquela ponte, começaram a ouvir uma música. Tinha um violinista tocando “Thank You”, uma das músicas preferidas de Gabriela, que sempre estava nas playlists dela.


Achou que teve certeza de tudo quando passou a ouvir a música e o sol tinha mudado de posição, iluminando Gabriela de uma maneira única. Ela parecia uma deusa. Ela parecia...


A única resposta correta.


Bruna estava fotografando sua namorada com o celular quando baixou o aparelho e...


Se ajoelhou diante dela.


— Bru...? — Os olhos de Gabriela faiscaram de brilho, e Bruna ergueu a pulseira para ela.

— Eu não tenho um anel, não me preparei para isso, mas, ao mesmo tempo, estou pronta — Disse, sorrindo, aqueles olhos castanhos também faiscando em felicidade, euforia, amor, tanto amor — Gabriela Nori de Habren, você aceita se casar comigo?


E Gabriela chorou. Se ajoelhou junto dela, pegou a pulseira e beijou Bruna, sob aplausos de desconhecidos no meio da ponte mais bonita de Amsterdã. Então respirou fundo e olhou para o seu amor direto nos olhos:


— Em três dias, em Veneza. Você aceita, meu amor?

— Gab... — Bruna riu. Era maluca a sua noiva!

— Aceita, linda?


Aceitava.

Gabriela Habren era uma completa maluca, e Bruna Ribeiro era outra por ter pedido aquela louca em casamento.


Gabriela queria se casar em dois dias! Voltaram para o hotel após um jantar de comemoração daquele noivado inesperado em uma ponte de Amsterdã, e Gabriela estava mesmo falando sério sobre se casar em dois dias.


— Mas, Gab, como assim? A gente não pode...

— Claro que pode! Sou italiana, esqueceu? Podemos, sim! Veneza tem um serviço de casamento tipo fast-food — Entraram no quarto, e Gabriela seguia digitando no celular, o sorriso sem se desfazer nem por um segundo.

— Você quer se casar comigo em um serviço tipo fast-food, Gabriela? — Bruna cruzou os braços, rindo demais.

— É tipo Las Vegas! Eu me expressei mal. Olha, meu amor, o casamento acontece nesse espaço aqui — Mostrou algumas fotos — É o Palazzo Dario.

— Fica... no mar? — Os olhos de Bruna cresceram vendo as fotos.

— Isso. Quero dizer, em um canal. A gente se casa de frente para esse azul todo aqui. É como um palácio que flutua. Tudo flutua em Veneza, não é uma praia, mas tem mar. Você gosta do mar, não é?


Bruna abriu outro sorriso. Gabriela era sempre tão delicada nos detalhes. Sorriu e veio se sentar no colo dela na cama, cruzando os braços ao redor daquele pescoço que já era seu canto preferido.


— Amo o mar, mas te amo mais do que amo o mar ou qualquer outra coisa que eu consiga pensar agora — Era uma grande verdade — Gab, eu tenho muita certeza. Sei que o pedido pode ter parecido impulsivo, mas...


Gabriela a puxou pela nuca e a beijou mais uma vez.


— Ainda bem que pareceu. Se fosse diferente, não seríamos tão nós duas. Bru, tenho pensado em muitas coisas, inclusive em casamento. Porque sei que você se sente insegura sempre que viaja pra cá, e tenho consciência de que faremos muitas viagens para a Europa, onde não quero me separar de você em filas de imigração. Nos casamos e você adquire a cidadania europeia. Estava cogitando te pedir em casamento usando essa desculpa.


Bruna riu demais. Se agarrou nela, a derrubou na cama e a beijou ainda mais.


— Eu não acredito que você ia usar essa desculpa, linda!

— Vai que você rejeitasse um pedido puramente romântico de alguém que nem respira direito longe de você. Eu sou muito grudenta, não sei como você me suporta, Bru.

— Amando o grude, precisando dele — Bruna a beijou, esticando seu corpo contra o dela, sentindo o beijo mudar de intensidade.

— Você aceita?

— O quê? — Bruna tirou o próprio casaco e espalhou beijos pelo pescoço dela.

— Casar em Veneza.

— Aceito, claro que aceito! Já tinha aceitado, meu amor.


Gabriela pegou o celular, escreveu uma mensagem e só se virou por cima de Bruna, intensificando o beijo, o contato, o amor.


Mensagem: Jeni, passagens para Veneza. Para amanhã. Te encontro lá.


Embarcaram para Veneza na manhã seguinte, já com a data do casamento marcada. Se casariam no dia seguinte, o que significava que tinham uma lista de coisas para fazer que não terminava. Jeni estava voando de Milão; precisariam dela. Ela era ótima com conteúdos e melhor ainda com burocracias.


Ela chegou com os documentos necessários e nem cruzou com as duas; foi direto para a agência de casamentos fast-food resolver o que precisava, acertar os detalhes, enquanto Bruna e Gabriela foram decidir o que iam vestir. 


Gabriela usaria qualquer coisa; por ela, casaria até de chinelo. O importante era se casar, mas estava se casando com Bruna Ribeiro, e de jeito nenhum as coisas seriam assim.


Foi assim: mal haviam pisado em Veneza, mal tinham surtado pela beleza absurda da cidade, que era realmente deslumbrante, e já estavam em uma loja de noivas que Bruna encontrou antes de dormir. Então, lá estava ela escolhendo vestidos para as duas, enquanto Gabriela ainda seguia fascinada pela arquitetura da cidade. Os prédios antigos, que pareciam mesmo flutuar, a arquitetura renascentista, o trânsito constante de embarcações, os canais por todos os lados.


— Gabriela?

— Oi, noiva.


Bruna andou até ela, sorrindo. Gabriela estava sentadinha em um sofá, com os olhos cheios diante da cidade que passava do lado de fora.


— Vem experimentar seu vestido, acho que encontrei a peça perfeita.


Ela geralmente encontrava. Gabriela entrou no provador sozinha, provou o vestido e chorou. Era branco, clássico, mas nem tanto. Um modelo mais solto, menos pomposo. Um vestido sem alças, com madrepérolas e rendas, criando um desenho único, clássico e moderno ao mesmo tempo. E, quando Jeni entrou no provador, foi atropelada por um abraço apertado e uma amiga chorosa.


— Meu Deus, Gab, o que foi? — Jeni a apertou, sorrindo, tentando entender.

— Olha o vestido! — Gabriela afastou-se para sua amiga ver, e um sorriso surgiu imediatamente nos lábios de Jeni.

— Ah, mas você está muito linda! — Ela levou a mão à boca, os olhos ficando emocionados imediatamente — E você nem viu a Bruna ainda, amiga.

— Você viu?

— Vi. A sua noiva está deslumbrante. Combinou os vestidos. Bruna é detalhista, né? E vocês duas são loucas! — Jeni respirou fundo — Mas nada faz mais sentido do que isso. Faltam só três meses para Milão e Nova York acabarem. Vocês já pensaram nisso, nesse depois?

— Ainda não, mas sei que precisamos pensar, porque quero estar casada e com a Bruna o tempo todo, Jeni. Não faz sentido se não for assim.

— Não faz mesmo. Sei que você não está se casando por casar, sei que realmente quer tudo isso. O tempo não é determinante quando algo maior do que ele acontece. Mas olha... — Jeni limpou o rosto dela — vocês se casam amanhã e não precisam pensar em nada além disso até depois da lua de mel. Para onde querem ir de lua de mel? Ficar por aqui mesmo? Vocês terão nove dias.


Gabriela pensou um pouco.


— Pergunta para Bruna pra onde ela quer ir.

— Você nem se casou e já é mandada! Não julgo, eu também seria. Ok! Vou perguntar pra ela.


Jeni foi até o trocador de Bruna, onde ela seguia usando o vestido que havia escolhido.


— Bruna, sua noiva quer saber onde você vai querer a lua de mel.


Bruna riu, ainda se olhando no espelho. Optou por um vestido sem alças, com um corselete muito bonito, também mais curto, mais solto, combinando com Gabriela. Parou, pensando um pouco.


— Jeni, nunca pensei nisso. Acho que, em teoria, eu jamais me casaria.


Tudo havia mudado depois de Gabriela. Tudo.


Decidiu ficar pelo Mediterrâneo com sua esposinha. Estavam na costa leste da Itália, podiam atravessar para a Croácia se quisessem e, enquanto pensava em voz alta, Bruna se olhou no espelho de novo e chorou.


— Ei... — Jeni a consolou, sorrindo — Sério que vocês duas vão ficar sensíveis assim?

— A Gab está sensível?

— Se debulhando em lágrimas! — Contou, sorrindo — Ok, ela amou o vestido dela, e acho que você também amou. Vamos pagando? Eu já reservei um hotel e achei um restaurante onde podemos almoçar. Vocês têm que estar na agência às três da tarde.


Compraram os vestidos, sem se verem vestidas neles. Queriam esse momento de surpresa. Jeni percebeu que o jeito como elas estavam se olhando havia mudado. Elas se olhavam com aura de sonho, algo que ambas queriam muito, que tiveram coragem de dizer em voz alta e que agora iria se realizar. Entraram muito agarradas no palácio, onde assistiram a um vídeo de como tudo seria: a cerimônia, a assinatura de documentos. Elas podiam preparar votos se quisessem, a cerimônia podia ser em inglês ou italiano, então optaram pelo italiano.


Bruna já falava o básico e entendia muito mais do que falava. Estavam ansiosas. Tinham os olhos brilhando, marejados o tempo todo, e sorrisos que não se apagavam. Tiveram outro jantar de comemoração, agora com uma única testemunha. E Gabriela pensou que precisava dar outro casamento para Bruna depois, um com os seus amigos reunidos, a família presente. Como faria? Ainda não sabia, mas precisava. Estava assumindo uma dívida e não esqueceria.


O dia seguinte chegou. Elas foram para o palácio logo após o café da manhã. Jeni havia contratado uma equipe de maquiagem e cabelo. Bruna poderia fazer? Claro que sim! Mas não era o que queriam para aquele dia. Jeni fez questão de que as duas tivessem um belíssimo dia de noiva cada uma, numa deslumbrante cidade da Itália. E, indo de uma noiva para a outra, pôde notar que a emoção apenas continuava. Elas estavam felizes. Plenamente felizes. E o palácio...


Jeni perdeu o ar quando o viu pronto. Tinha um altar no final do salão que ficava a uns vinte metros de uma porta enorme, medieval, que estava aberta e deixava ver o canal do lado de fora, azul demais, cheio de movimento. O palácio todo em estilo italiano renascentista, com um toque ou outro de arquitetura gótica. Flores, muitas flores. Um buffet bem pequenino, mas que tinha de tudo: doces, salgados e um bolinho de dois andares com duas noivas no alto.


— É uma pena que nada disso possa ser visto — Jeni disse, após tirar algumas fotos.


Não era sobre a mesa de doces ou o palácio.


As entradas foram pelas laterais, nos cantos das portas que davam para o canal. Elas surgiram uma de cada lado, deslumbrantes em seus vestidos, as joias, os cabelos soltos... Duas noivas superdespojadas, estilosas e lindas! Elas se olharam e as lágrimas começaram a surgir, naturalmente, junto com os olhos brilhando e os sorrisos que nunca se desfaziam. Caminharam uma para a outra e, de mãos dadas, seguiram até o altar, onde o celebrante já esperava por elas. E, na hora do “aceito”, Bruna foi surpreendida.


— Meu amor...?

— Comprei para nós duas — Gabriela abriu uma caixinha com dois anéis de diamantes. Tinham combinado alianças simples, nada de solitários lindos como aqueles. Gabriela sempre seria de alto padrão, Bruna não se acostumava.

— Você... mas quando?! — Bruna deixou uma lágrima cair, sorrindo.

— Quando você estava dormindo, sonhando com a gente, provavelmente. E eu estava acordada, me certificando de que não era sonho — Gabriela escorregou o anel para o dedo anelar dela, parou no meio, os olhos cheios, o peito transbordando demais. Então olhou para o juiz de paz. Agora ele podia perguntar.

— Bruna Ribeiro Santos, você aceita Gabriela Nori de Habren como sua legítima esposa? — Ele perguntou em italiano, e Bruna se derreteu, sorrindo.

Aceito — Perdeu outra lágrima, olhando naqueles olhos que estavam da cor do mar que acenava pelas portas.


Gabriela terminou de colocar o anel e beijou os dedos dela, olhando-a nos olhos.


— Gabriela Nori de Habren, você aceita Bruna Ribeiro Santos como sua legítima esposa?

Aceito — Disse, fazendo Bruna sorrir grande demais.

— Sendo assim, está decretado, pelas leis vigentes na cidade de Veneza, o casamento entre Gabriela Nori de Habren e Bruna Ribeiro Santos. As noivas podem se beijar.


Elas se beijaram. Gabriela pegou Bruna pela cintura, e Bruna enroscou os braços pelo pescoço dela enquanto as bocas se encontraram num beijo denso, cheio de sorrisos, de lágrimas de felicidade escapando de uma e de outra.


Vieram aplausos da equipe do palácio, porque aquilo realmente estava lindo demais; chamou atenção, e os funcionários surgiram para assistir. Teve a sessão de fotos, a degustação da mesa de docinhos, que elas generosamente convidaram seu público inesperado para comer com elas. Bolo cortado, foto clássica, então uma bandeja com um pouquinho de cada coisa do buffet, porque agora...


— É sério?!


Tinha uma gôndola esperando por elas, com um gondoleiro pronto para levá-las por um belíssimo passeio pelos canais de Veneza, enquanto o sol começava a cair. Havia um violinista a bordo que também era fotógrafo.


— Isso não estava no pacote! — Gabriela disse, sorrindo.

— Não estava, mas minhas amigas merecem — Jeni deu um beijo em cada uma — Vão, a lua de mel começa agora!


Elas tiraram os sapatos e se sentaram no confortável banco da gôndola luxuosa. E assim, as recém-casadas Bruna e Gabriela saíram pelos canais de Veneza, ouvindo música romântica, muito agarradas, curtindo a beleza da cidade e a beleza uma da outra. Elas não conseguiam parar de se olhar.


Uma das fotos mais bonitas, com toda a certeza, era uma em que Bruna estava com as pernas jogadas sobre as de Gabriela, enquanto elas se beijavam. O gondoleiro estava atrás delas, os prédios ao redor, a gôndola deslizando pelo canal, o sol se pondo. A mão de Gabriela segurando as pernas de sua esposa, as mãos de Bruna deslizando pelo rosto dela. O beijo era intenso, cheio de emoção, o amor transbordando de tal maneira que parecia sair da gôndola e se espalhar pelo mar, deixando a cidade inteira ainda mais romântica.


Naquela tarde, com dois anéis queimando nos dedos de ambas, elas oficialmente se tornaram casadas, com comunhão de bens e comunhão total de sentimentos. Cada um deles era igualmente compartilhado, sentido da mesma forma.


Elas viveram nove dias em lua de mel por Veneza, pelo Mediterrâneo. Atravessaram para a Croácia por dois dias, e parecia irreal cada momento juntas naquela lua de mel. Bruna acordava e olhava para o seu anel de casamento imediatamente, só para ter certeza de que tinha realmente acontecido, de que estavam realmente casadas. E o que tudo aquilo significava? Acordou no último dia em Veneza pensando nisso, olhando para Gabriela, que dormia nua ao seu lado. Observou o anel, pensando.


— O que foi, meu amor? — Gabriela se virou para ela. Havia despertado sentindo os olhos de Bruna sobre si.

— Eu te acordei? Desculpa, amor — A beijou, encontrando espaço pelo corpo de sua esposa, agarrando-se inteiramente nela, e Gabriela sentiu aquele apego extra.

— Bru, o que foi? Fala pra mim. Sei que tem algo perturbando você aqui dentro desde ontem — Gabriela beijou os cabelos dela, mantendo-a em seus braços carinhosamente.

— A vida real chamando a gente — Bruna respirou muito fundo, então buscou os olhos dela — Gab, estou muito feliz de estarmos casadas. Você sabe disso em absoluto?


Gabriela sorriu, fazendo um carinho naquele rosto lindo. Bruna era, sem dúvida, a mulher mais linda do mundo ao acordar. Não havia explicação para o quão bonita ela era quando despertava.


— Claro que sei, meu amor, e acho que também sei o que está te perturbando.

— Nós nos casamos e nem a minha melhor amiga sabe. É como se estivéssemos em uma bolha, e eu sei que estamos. Tenho medo de que essa bolha estoure antes que possamos vivenciar todas as coisas que desejamos. Sei que nós duas somos reais, sei que não precisamos que todo mundo saiba para que nosso amor seja real, mas...

— Eu quero estar fora da bolha com você. E nós vamos estar, mas há algumas coisas que precisamos fazer antes. Você vai aceitar o meu sobrenome?

— Vou, eu já disse que vou, meu amor.

— Isso é uma proteção, Bru, um fortalecimento da nossa relação. Se for preciso alguma validação jurídica rápida para proteger um direito seu como minha mulher, entende?

— Você está me protegendo da sua mãe, eu sei.

— Estou. A gente vai ter que validar o casamento no Brasil, provavelmente, alterar os documentos, o que vai deixar claro na minha empresa que estou casada, enfim. E tem a sua empresa também. Acho que já temos dinheiro suficiente para fazer acontecer.

— Você tem certeza, Gab? Que quer fazer esse investimento?

— É para o nosso futuro, claro que tenho certeza! Além disso, confio muito mais em você do que em mim como empresária — Ela disse, fazendo Bruna rir.

— Gab, eu quero fazer MBA. Enquanto estiver abrindo a empresa, agora que já estou me formando em Cosmetologia, eu quero um MBA.

— No Brasil?


Bruna apertou os lábios.


— É onde eu não quero. No Brasil, estaremos expostas. Não sei se quero lidar com essa exposição enquanto ainda estamos descobrindo nosso casamento e iniciando uma nova empresa. Fazer conteúdo fora fez as minhas redes darem um salto. Acho que queria fazer isso um pouco mais, em outro lugar. Você tem mesmo que voltar para o Brasil?


Tinha, mas Gabriela não queria.


No final daquele dia, elas tiveram que se separar outra vez. Bruna em um voo superlongo para Nova York, e Gabriela de volta para Milão. E, assim que pisou em casa, encontrou sua mãe pelo apartamento, distribuindo tarefas, trazendo novos contratos.


Gabriela achava mesmo que podia ter um pouco de paz apenas com o contrato da Diesel por um tempo, ao menos até finalizar seu MBA, que estava altamente exigente nas suas últimas unidades curriculares. Seu italiano escrito ainda não era tão bom, os termos técnicos a enlouqueciam, seu trabalho final de curso também.


E Débora não parecia satisfeita com nada. Gabriela foi interrogada praticamente o dia inteiro. Ela estava desconfiada daquela viagem súbita para Amsterdã que, de repente, mudou para Veneza. E a pressão mental que sua mãe exercia...


— Eric está vendo novas parcerias para você no Brasil. Quando chegar, já terá bastante coisa para fazer.

— Mãe, e se eu precisar de um tempo?


Aquilo pegou Débora de surpresa.


— Como assim precisar de um tempo, Gabriela?

— Tenho trabalhado sem parar há quatro anos. E se eu precisar de um tempo pra mim?

— Você acabou de ter tempo para você. Teve vinte dias só para você. O que mais você quer?

— Tempo para respirar! Tempo para fazer as coisas que amo. Tenho tido semanas em que trabalho de domingo a domingo, sem um dia de folga que seja.

— Gabriela, oportunidades são únicas, não ficam surgindo por aí do nada. Essa indústria não funciona dessa maneira.

— Pois, estou cansada. Achei que, com esse contrato da Diesel, você relaxaria. É muito dinheiro, mãe.

— Muito claramente, você não tem a mínima noção do que é ter muito dinheiro. Acabou de alcançar seu primeiro milhão. Sabe quem achava que tinha muito dinheiro? O fracassado do seu pai! E veja onde ele nos deixou! É isso que você quer para nós novamente? Pense na sua irmã! Que parece ser a única que você ama nesta família.

— Deve ser porque ela é a única que me ama sem condicionamentos nesta família.


Quando Débora foi embora, Jeni apareceu.


— Você tem que cortar esse laço, Gab. Ao menos cortar esse ciclo, de alguma maneira. Sua mãe fala e você reluta, então ela usa a família e você amolece. Ela fará o que quiser de você no Brasil se continuar assim.

— O pior é que estou muito cansada mesmo. Todo dia surge algo novo, todo dia aparece um monte de coisa para fazer, e esse TCC não vai se escrever sozinho. Preciso de tempo pra mim. Para estudar, pensar no que vou fazer.

— Então comece a recusar coisas. Se sua mãe ficar louca, eu sinto muito, ela que modele no seu lugar. Você vai para a formatura da Bruna? Porque o TCC dela está praticamente pronto. Eu não faço ideia de como. Se alguém aqui vai se formar mesmo, é ela.

— Ei, mas eu vou me formar também!

— Como? Só tem três palavras escritas aí nesse documento, e elas são do seu nome! — Jeni disse, olhando para o documento aberto no notebook de Gabriela.

— Eu vou, garota! — Gabriela respirou fundo e olhou para a amiga — Rejeite. Tudo o que você sabe que eu não quero fazer.

— E que não nos dará dor de cabeça com as contas. Não posso sair rejeitando tudo também, Gab, ainda mais com a poupança extra que você anda fazendo.

— Isso. Vou focar no que realmente importa e isso inclui...


Jeni sentou-se ao lado dela.


— O quê?

— Um MBA para a Bruna. Na Ásia. Ou na Oceania. Qualquer lugar longe da Europa, longe da América.

— Longe da sua mãe, entendido.


Gabriela olhou para ela.


— Você acha que é muita covardia?

— Gab, acho que é uma questão de saúde mental, na verdade. Se ela souber do casamento, ele não vai durar, e eu acho que vocês precisam se fortalecer antes de qualquer coisa.

— Eu me sinto tão pequena. Desviando dinheiro de mim mesma porque a minha família é assim.

— Pois eu te digo: muito melhor sua mãe não saber do quanto você realmente ganha. Vocês têm chance de serem imbatíveis, amiga, mas precisam estar fortalecidas antes. Vocês não tiveram nem um mês de relacionamento normal; assim que a sua mãe soube, os problemas começaram. Então, por ora, se a Bruna aceitar... a Ásia parece ser um bom lugar.

— É longe o suficiente.

— E o ensino é muito superior lá. Colocar isso em um currículo tem um peso enorme. Bruna quer MBA em Beleza, não é?

— Isso.

— Tem escolas de beleza respeitadas mundialmente em Seul. Fale com ela sobre isso.


No mês seguinte, Gabriela estava em Nova York com um programa maravilhoso de MBA em Seul, em uma faculdade respeitável, e trouxe outros também: Melbourne, Wellington, Macau. O que Bruna achava? Estavam loucas demais ou...?


Bruna olhava os programas numa cafeteria em Nova York. E olhou para Gabriela com os olhos brilhando.


— Você iria comigo, linda? — Ela perguntou, sorrindo.

— Lógico que sim, Bru!

— Eu nem disse para onde ainda, Gab!

— Não importa para onde, eu vou com você.

— Mesmo?

— Mesmo! Seu objetivo é o MBA, o meu é você — Gabriela disse, fazendo sua esposa sorrir grande demais.


Então, Bruna olhou bem nos olhos dela.


— Você quer ir para a Coreia, não quer?

— Se eu pudesse escolher...


Bruna pegou a mão dela sobre a mesa.


— Você pode escolher. Somos um casal, meu amor, a gente escolhe junto, é assim que funciona.

— Acho que... estou muito acostumada a só obedecer — Gabriela disse, olhando com carinho para Bruna.

— Eu sei que está, Gab, mas isso tem que mudar. Essa faculdade na Coreia é bilíngue, não é?

— Sim. Esse curso específico é para estrangeiros, ele é todo em inglês.

— Você acha que consigo aprender coreano, amor?

— Claro que consegue, Bru! Você é tão boa com idiomas.


Bruna pensou um pouco.


— Acho que quero a Coreia, então. E quero lua de mel de novo, após estarmos em Seul, no nosso apartamento, com a nossa rotina estabelecida.


Gabriela se inclinou sobre a mesa e a beijou, longamente, sorrindo demais.


— Gab, você tem certeza?

— De ficarmos fora por mais um ano? Eu tenho! Você tem certeza?

— Tenho! — Bruna respondeu — Isso vai ser bom para os nossos projetos e vai ser bom para nós duas, como um casal.

— Você não acha infantil da minha parte? — Gabriela a olhou, tocando o rosto dela.

— Se é da sua, é da minha também. Eu só quero paz, descansar um pouco, sair desse estado de alerta que a gente tem vivido. Não quero brigar com a sua mãe dia sim e dia não. Temos objetivos que só vamos conseguir consolidar se tivermos paz para trabalhar. E, Gab, o seu MBA é em Moda, você pode e vai me ajudar na abertura da empresa.

— No que você precisar, linda. Você sabe que pode contar comigo para tudo.

— Acredito que consigo transferir tudo o que estou fazendo aqui e no Brasil sem problema algum para a Coreia. Mas e você? E os seus contratos...?

— Temos a Diesel, que, inclusive, gostou da ideia da Ásia. Não há tantos modelos na Ásia trabalhando para a marca. Eu mantenho a Diesel e depois vejo o resto.

— Ah, depois você vê?


Gabriela riu.


— Eu consigo manter a empresa com o contrato da Diesel e a gente acha outros contratos por lá.

— Enquanto você...? — Bruna a beijou.

— Aprendo coreano, cuido de você, da Fierce que vai nascer em breve. O que acha desses planos?


Bruna seguia achando que tinha se casado com uma maluca. E era isso que mais amava sobre ela.


— Esposa, nós vamos para Seul!






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