Vulnerável 33
- Riesa Editora

- 12 de jun.
- 15 min de leitura

Gato Preto
Hospital, Rio de Janeiro, tempo atual.
Nuna estava ajudando Gabriela a jantar.
Fazia umas três horas que estavam conversando, e os efeitos da batida agora se mostravam com mais clareza em Gabriela. Os exames haviam ficado prontos, ela parecia bem, porém, a dor muscular havia decidido apertar. E era pela batida, mas também pelo quanto já estava rígida por causa do iminente ataque de pânico.
— Essa parte aqui... — Gabriela tentou tocar a própria nuca, mas não conseguiu.
— Não tenta, eles vão mandar um fisioterapeuta para entender o que aconteceu. Eu te alimento, vamos! — Nuna levou uma colherada de gelatina para a boca dela. Gabriela comeu e sorriu em seguida.
— Achava que a Jeni era a amiga que fiz de maneira mais inusitada na vida toda, mas agora estou pensando em você e na Eduarda. Quero dizer, o número de pessoas que podem afirmar que fizeram uma amiga de verdade em um reality show deve ser baixíssimo.
— Mas olha, você encontrou uma chinesa de São Paulo numa vila em Milão, isso é bem específico também — Nuna respondeu, sorrindo — Gab, ela é muito interessante, né?
— Ela é. Acho que antes dela, eu nunca tinha feito uma amiga. Eu era tão isolada socialmente. A Rebeca sempre estudou comigo e era ela quem fazia os nossos amigos. Quando iniciei a carreira de modelo, comecei a conhecer mais gente, mas isso é diferente de fazer uma amizade, então acho que a Jeni foi a primeira mesmo — Gabriela abriu um sorriso ao se lembrar de algo — Ela está te cercando, não está?
— Ou sou eu que estou cercando a garota, não sei muito bem. Sei que a gente tem se encontrado, jantamos ontem, ela... ela é muito bonitinha — Nuna disse e sorriu, inevitavelmente.
— Ela é muito. Sei que, olhando rapidamente, às vezes parece que Jeni está perdida da mãe dela em um supermercado. Ela é pequena, delicada, uma graça. Mas é uma baita de uma mulher. Eu não seria a pessoa que sou hoje sem ela ou sem a Bruna. Elas me moldaram. E quando fiquei sem as duas, era eu quem parecia perdida da minha mãe em um supermercado. E olha que a minha mãe é Débora Habren. Se eu me perdesse dela, com certeza ela iria embora sozinha — Gabriela disse, sorrindo fraco.
Um pouco de silêncio.
— Gab, como essa história sua e da Bruna pode ter acabado tão mal assim? Eu ainda não consigo entender. Vocês namoraram em uma semana, se casaram em um ano, em Veneza. Essas fotos aqui... — Nuna estava com o celular de Gabriela, as fotos do casamento pareciam saídas diretamente de um conto de fadas — Olha, durante o confinamento, eu estava acreditando que vocês duas tinham namorado em algum momento e depois terminado tão mal que se odiavam. Mas o ódio nem durava. Vocês tinham uma discussão e depois estavam juntas. E a peça que faltava era essa aqui — Mostrou uma das fotos, as duas agarradas, sorrindo plenamente um pouquinho antes de entrarem na gôndola.
Gabriela ficou olhando para a foto por um instante.
— Eu nunca parei de amar a Bruna. E eu tentei, juro pra você. Quando tudo ficou muito difícil e só doía, eu tentei. Mas daí me dei conta de que o que me machucava não era a Bruna, era a ausência dela.
— Por que acabou, amiga?
Gabriela seguia com os olhos na imagem.
— Tivemos um ano perfeito em Seul. As coisas só se encaixaram. O trabalho dela, os meus trabalhos. Trabalhamos na Fierce enquanto a Bruna estudava. A Dara ficou aqui, alguém em quem ela confiava muito, e a empresa foi tomando forma. No meio do ano, abrimos um escritório em São Paulo para produção de conteúdo, e na formatura da Bruna em Seul, nós contratamos a Júlia. Isso deu um salto enorme nos negócios. As coisas já estavam andando aqui, mas, com ela, tudo acelerou muito, e o objetivo da Bruna de lançar a própria linha de maquiagem estava cada vez mais próximo.
— Isso tudo andou com vocês duas fora?
— Isso. Então, nós saímos de Seul e fomos para Melbourne. Assinei um contrato com a Aesop, uma marca de cosméticos australiana. A Bruna estava preocupada com a minha carreira. Eu meio que havia deixado mesmo de lado no nosso tempo em Seul porque lá, sinceramente falando, eu só queria ser a esposa dela. Não queria um monte de compromissos. Só queria estudar coreano, correr em um parque pertinho da nossa casa todos os dias, ter aulas de dança. E então ir pra casa cuidar da minha esposa, que seguia trabalhando muito.
— Você realmente só queria o papel de esposa — Nuna deu mais uma colherada de gelatina na boca dela.
— Era só o que eu queria. A Bruna trabalhava em um coworking perto de casa, era tudo muito perto. A gente tinha tempo. Tempo e paz, coisa que não tivemos antes em nenhum momento. Temíamos que tudo começasse a dar errado. Tantos relacionamentos lindos cedem quando as pessoas vão morar juntas.
— Isso é verdade.
— Mas pra gente foi o contrário. O ano em Seul foi maravilhoso e o tempo em Melbourne também, ainda que eu tenha passado a trabalhar mais na Austrália. A Bruna também. Eu gosto de modelar, não amo, mas gosto. E, apesar de tudo seguir indo bem, eu sentia falta da Coreia todos os dias. Seis meses depois, o contrato com a Aesop terminou, eu assinei com a Dolce & Gabbana, mas na filial asiática. Por indicação da Júlia, eu encontrei a Flávia, e ela também ajudou minha carreira a dar um salto — Daí, Gabriela estudou Nuna com os olhos por um instante — Nuna, eu vi você dando fora nos caras da casa, mas não fazia ideia de que as mulheres te interessavam.
— Sabe em quem fiquei meio que interessada na casa?
— Em quem? — Gabriela perguntou, curiosa.
Nuna riu.
— Na Bruna!
— Você nem tem medo de morrer!
— Eu tenho sim! Me retirei assim que notei que existia algo entre vocês, ainda que não entendesse o que era. Mas, olhando agora... era energia de casal mesmo. Esposa e esposa. Continua, estamos variando os assuntos demais — Nuna levou uma colherada de gelatina para a própria boca. Intimidade, era assim após terem morado juntas por três meses.
— Então, depois de Melbourne, fomos morar em Macau, e a pressão para retornar ao Brasil começou. Eu sabia que seria complicado pra mim, mas sabia também que o tempo da Bruna fora estava se esgotando. Ela precisava voltar para tocar a Fierce no presencial. Os parceiros queriam estar pessoalmente com ela antes de um passo maior, e voltar foi inevitável. Minha família estava em São Paulo, cuidando dos meus negócios. Estávamos casadas há dois anos e ninguém sabia ainda.
— Vocês conseguiram...?
— Por todo esse tempo, sim. Não me pergunte como, mas conseguimos. E no Brasil não resistimos seis meses. Mas, para te contar essa parte, você vai ter que ficar comigo outras três horas em um dia em que meus músculos não estejam me apertando assim, porque... — Gabriela jogou o pescoço para trás, claramente numa crise de dor.
— Calma, calma, não mexe assim.
— Nuna, acho que... preciso de outra medicação. Onde está a Bruna?
— Atrasada, mas chegando. Ela me mandou mensagem. Fica quietinha, tá? Vou buscar uma enfermeira e ver se o fisioterapeuta chegou.
Nuna saiu do quarto tão rápido que acabou atropelando alguém com força. A ponto de quase derrubar a garota no chão.
A segurou pela cintura antes que atingisse o piso gelado, num movimento firme, atlético, de quem tem toda a sua mobilidade física em dia.
— Meu Deus, me desculpa! Juro que não vi você.
— É por isso que vocês passavam horas naquelas provas de resistência. Isso aqui é... — Jeni estava com as mãos na cintura dela, os dedos no abdômen — sólido pra caramba.
Nuna riu, endireitando-se devagar e trazendo Jeni junto consigo.
— Eu te machuquei? Você parece tão frágil — Ela era pequenina mesmo. Nuna a achou minúscula desde a primeira vez, uma graça.
— Acho que... você me machucou.
— Mesmo? — Ficou imediatamente preocupada.
Jeni sorriu.
— Não machucou, mas eu ia pedir um carinho.
Nuna deu o carinho imediatamente.
A puxou para perto, porque elas estavam de chamego assim há um tempo. Achava que Jeni estava flertando desde os últimos microencontros que haviam tido, todos corridos, mas não tinha certeza de nada.
— Isso é um moletom com orelhas? — Nuna perguntou, sorrindo.
Jeni subiu o capuz do moletom preto por cima dos cabelos compridos; ele tinha pequenas orelhas de gato.
— Já estou fora do meu horário de serviço sério, eu não sou mais Jeni-Jeni, sou apenas um gato preto.
Nuna sorriu, olhando bem nos olhos dela. Aquele era o perfil anônimo pelo qual ela cuidou das publicações de gabruna, @umgatopreto. Havia criado outros perfis, mas todos derivavam desse perfil original, criado há dezesseis anos. Era o tempo que Jeni tinha de Twitter. E Nuna notou algo no rosto dela.
— Você está machucada? — Observou que ela estava com um curativo pouco abaixo da maçã do rosto.
— Acho que foi no resgate da Gabriela. Alguma pecinha do carro bateu aqui. Eu não tinha visto até perceber que estava sendo atendida também. Agora que você me lembrou desse machucado, preciso de outro carinho. Doeu quando você quase me derrubou nesse chão frio, Nuna.
Ok, provavelmente ela estava flertando.
E estava dando certo.
Nuna a apertou contra o seu corpo, tentando beijar o pescoço dela, porque só sabia que ela ia se encolher inteira e rir, porque era sensível ali. Sim, estavam mesmo flertando.
— Nuna!
— Chega de chamego, me ajuda a achar uma enfermeira. Nossa amiga está rígida por inteira.
— Mesmo? Foi o quase ataque de pânico — Jeni se preocupou.
— Ela também acha que foi isso, mas, de modo geral, está bem. Então, enquanto procuramos por uma enfermeira, eu tenho algumas perguntas pra você.
— Pra mim?
— A gente já se encontrou algumas vezes, Jeni, então...
— Sim, nos encontramos algumas vezes.
— Sei que você tem me procurado nas gravações — Nuna a pegou pela mão.
Jeni riu.
— Isso também é verdade.
— Gabriela estava me mostrando que você fez uns edits bem interessantes de mim na sua conta fake.
— Mas essa Gabriela também fica contando tudo! — Jeni ficou corada, mas seguia rindo.
— Ontem, naquele jantar pós-gravação, a gente ficou meio de chamego, não ficou?
Sorriso de Jeni. Agora ela estava vermelha mesmo.
— Nuna, você estava evitando os rapazes.
— Estava interessada em você, na verdade.
Jeni parou no meio do corredor.
— Sério?
Nuna começou a rir.
— Eu estava falando com a Gabriela e ela me aconselhou a ser clara, porque você é atenta pra tudo, menos para os sinais de alguém que está interessada em você.
— Essa menina passou horas me expondo após eu ter cuidado tão bem dela nesses meses todos, é isso mesmo?
— Não! Ela estava me contando sobre o relacionamento dela com a Bruna, e eu quis falar de você, porque acho que tem algo acontecendo.
— Defina algo — Jeni abriu um sorriso grande.
— Eu não sei, Jeni! Mas você é uma graça. Porém, eu estava três meses trancada num lugar. Eu não quero só pular em cima de você porque pode parecer, sei lá...
— Fome — Jeni parou, se soltou dela e se encostou na parede por um instante, cruzando os braços — É, assim eu também não quero.
Nuna não conseguia parar de sorrir.
— Assim não serve, né?
— Com fome, todo mundo come qualquer coisa — Jeni brincou.
— Então... devo esperar?
— Esperar para...?
— Te chamar para sair, ué? — Nuna a olhou, sorrindo.
Jeni descruzou os braços e voltou a andar grudada nela.
— Nuna, você quer sair comigo? De verdade ou tá zoando?
Nuna gargalhou. E lembrou que estava em um hospital, tapou a boca.
— Para de me fazer rir! Por que eu não iria querer sair com você, me fala? Você é gata, é engraçada, cuidadosa comigo, se importa...
— Você sai com mulheres? — Agora, Jeni ficou séria.
— Saio. Quando você acha que posso te convidar?
Jeni se soltou dela novamente, pensando. E Bruna apareceu. Viu aquela DR engraçada de longe e se aproximou das duas.
— O que foi, Jeni?
Jeni se encostou ao lado dela.
— Nuna quer me convidar para sair, mas eu não tenho certeza se ela só não está com fome, porque estava trancada há mais de três meses em jejum.
Bruna olhou de lado para ela, segurando um sorriso.
— Jeni, você está rejeitando essa gata milionária?
— Rejeitando nada, só pensando sobre a fome dela. Você é mais nova do que eu — Disse para Nuna, como se tivesse lembrado de um problema novo.
— Mas deixa de ser antiquada, garota! A Gabriela foi liberada? — Bruna perguntou.
— Ainda não. Tudo aparentemente está bem, mas ela segue sentindo muita dor. A gente estava procurando por uma enfermeira.
— E ficaram distraídas uma com a outra, entendi. Jeni, você me ajuda? A Débora segue na recepção e a gente não está conseguindo conversar muito bem. Eu não queria me alongar nisso agora.
— Eu a levo para o hotel, pode deixar — Olhou para Nuna — Vamos jantar?
— Com Débora Habren? — Nuna perguntou, sorrindo.
— Não. A deixamos no hotel e saímos para jantar.
— Onde você está ficando, Nuna? — Bruna perguntou para ela.
— Naquele hotel de onde você sequestrou a Gabriela! — Nuna brincou.
Bruna pegou um cartão na bolsa.
— Apartamento em São Conrado. Vão jantar em casa, por nossa conta.
Jeni pegou o cartão da mão dela; eram as instruções de entrada. Olhou para Nuna.
— Você aceita? Eu sei cozinhar.
— Ir para a cobertura de Bruna Ribeiro com você? Acabei de sair de um momento sem data para um date imediato. É claro que vou com você! — Nuna passou o braço pela cintura dela, sorrindo, como quem teme que o gato preto escape — Mas Bruna, você...?
— Vou ficar com a Gabriela.
— Mas você deve estar cansada pra caramba.
Bruna mostrou o anel de casamento e abriu um sorriso.
— Na saúde e na doença. Eu cuido dela, e vocês duas cuidam do nosso apartamento. E da minha sogra. É ótimo ter amigas de verdade!
Isso era uma grande verdade. E, sendo assim, elas partiram em direções diferentes. Jeni e Nuna foram para a recepção, e Bruna foi atrás de uma enfermeira. Enquanto estava falando com alguém, seu celular tocou.
— Bruna, a Débora quer falar com você.
— Jeni, eu não quero discutir.
— Acho que ela também não. Vem aqui rapidinho.
Bruna decidiu ir até lá. Acabou encontrando Débora no estacionamento, recostada no Porsche em que havia chegado dirigindo. Nuna e Jeni deixaram um espaço para que elas pudessem conversar.
Era interessante, estavam visualmente semelhantes, ambas de preto. Bruna com peças de alfaiataria, Débora de vestido, terninho por cima. Se olhassem de perto, dava para ver que todas as peças haviam sido feitas pelo mesmo ateliê.
Bruna se aproximou.
— Ela vai ter que ficar, não é? — Débora perguntou.
— Eu estava conversando com a enfermeira quando a Jeni ligou, mas é isso, Gabriela deve passar a noite aqui.
— E você vai ficar — Débora a olhava, séria.
— Débora...
— É o que ela com toda certeza quer. Bruna, se vocês duas vierem a público agora...
— Nós já estamos em público. Você está vendo tudo, sabe o que a internet inteira anda dizendo. Existem dados, fotos, tudo o que a gente encobriu por tanto tempo, agora está descoberto. Só não falamos abertamente sobre isso ainda.
— Isso vai ser muito ruim para a carreira dela e você sabe disso, Bruna.
— O que foi ruim para Gabriela foi construir uma imagem que não era cem por cento autêntica. Ela precisa corrigir isso urgentemente, ou não vai sobrar nada mesmo. Tem um público novo agora, marcas novas correndo atrás dela. Ela nunca esteve tão em evidência antes, mas você não está deixando as coisas acontecerem. Débora — Bruna respirou fundo —, a Gabriela fica melhor comigo. Da mesma maneira que sou melhor com ela.
Débora fechou os olhos. Ela fazia isso quando queria evitar uma emoção.
— Eu gosto de você — disse, sentindo seus olhos arderem. Ela estava claramente cansada — e odeio. Acho que você tem muito de mim. Quando pensei que não precisaria mais me preocupar, de repente, aqui está você outra vez. Como um fantasma que não pode ser enterrado.
— E eu não vou mais a lugar nenhum, porque o meu lugar é aqui. Débora, você e eu sabemos de todas as coisas que você já fez para acabar com o meu casamento. Levei um tempo para compreender como aquele vídeo surgiu na internet.
— Bruna... — Os olhos claros de Débora Habren se quebraram um tanto mais.
— Eu sei o que aconteceu. Faz sentido pra mim que quem colocou as mãos naquele vídeo tenha sido você. Hoje isso faz sentido. E não, eu não tenho provas disso, e nunca falei sobre isso com a Gabriela. Você e eu nos conhecemos o suficiente, eu sei que você mudou comigo depois daquilo. Ficou até mais suave, posso dizer. Você gosta de mim. E sabe que foi longe demais entregando aquele vídeo para os abutres que me devoraram viva.
Débora a olhou nos olhos.
— Eu sei dos nossos problemas, sei que teremos que tratar de todos em algum momento, mas agora tem algo mais urgente. Tem que existir uma maneira melhor de lidar com tudo isso, Bruna, sem grandes exposições.
— Débora, nós fomos expostas para cinquenta milhões de pessoas. Já foi. Está falado, gravado, espalhado por milhares de fontes pela internet. Eu ainda vou conversar com a Gabriela sobre o que vamos fazer com as empresas, que, você sabe melhor do que eu, são uma só.
— Isso foi há anos! As empresas caminham de maneira independente agora.
Bruna chegou mais perto dela.
— A Fierce e a Mighty estão sob a mesma holding. A Killing pertence a mim e à Gabriela em quase igual medida. Eu tenho cinquenta e um por cento da Killing e isso me dá plenos poderes para demitir quem eu quiser de qualquer uma das duas empresas. E eu não quero mais ver a cara do Eric na Mighty.
— Bruna, isso não tem cabimento!
— Tem todo o cabimento do mundo. Você sabe que ele sequer faz diferença lá dentro. É pela Gabriela, por mim, e até por você. Já marquei uma reunião com as duas managers para amanhã. Se você quiser participar, será bem-vinda. Se aparecer e causar caos, vou pedir para você se retirar. Débora, volta para a Europa. Vai cuidar da Martina, ela ainda precisa de você. Seja nossa consultora de negócios em home office. Ao contrário do Eric, você sim é necessária.
Débora ficou quieta por alguns instantes, como se estivesse processando tudo.
— Ela só quebrou o nariz mesmo?
— E a paz de espírito.
Outro longo silêncio. Jeni se aproximou e se recostou ao lado dela; Débora seguia encostada no Porsche.
— Já deu, vocês duas. Vamos para o seu hotel? Eu levo você — Disse, diretamente para Débora.
— Jeni, você é um pesadelo...! — Débora respondeu de olhos fechados.
— Claro que não! E você está sendo indelicada comigo.
— Tem razão, você nunca foi indelicada comigo. Ok, eu vou com você. Mas Bruna, isso não termina aqui. Você pode ser a imperatriz da Fierce, mas não vai reinar na empresa da minha filha.
— A sua filha se casou com a imperatriz, nós sempre vamos ser equivalentes. E cuidado com o carro.
— Como?
— Acabei de comprar — e, piscando para ela, Bruna completou: — para sua filha, a minha imperatriz. Não que ela precise que eu faça isso, ela só merece.
E, dito isso, voltou para dentro.
Bruna não olhou para trás, apenas se apressou para dentro, porque estava há tempo demais longe de sua esposa. Elas não iriam ceder. Gabriela estava diferente, Bruna confiava nisso, confiava nela. Caminhou a passos rápidos até o quarto dela e, quando entrou, o médico estava presente.
— Desculpa, desculpa! Posso entrar ou...?
— Claro que pode, meu amor, vem aqui — Gabriela a chamou sorrindo, esticando a mão para ela — O médico está me explicando algumas coisas.
Meu amor.
— Ei, eu conheço você! — O médico esticou a mão para Bruna, sorrindo.
Bruna abriu seu melhor sorriso, tocando a mão dele.
— Tudo bem?
— Assisti vocês duas no programa! Eu só não sabia...
— Voltamos recentemente — Gabriela a pegou pela mão. Bruna havia chegado ao seu lado.
— Ah, voltaram? Então... — Ele cruzou os braços, surpreso.
— Doutor, essa é a Bruna, minha esposa. Você pode continuar explicando, eu sei que ela está preocupada comigo — Abriu aquele sorriso lindo, e Bruna só...
Ela valia a pena, sim. Elas valiam a pena.
Ouviram o médico; ele explicou a situação. Com certeza, Gabriela estava com muitas contraturas, pelo estresse anterior, pelo estresse da batida, mas nada que uma noite, com os relaxantes corretos, não resolvesse até a manhã seguinte. Então, ele medicou Gabriela e as deixou sozinhas. Bruna tirou os sapatos, o terninho e se enfiou na cama com ela, buscando o corpo de sua garota, sentindo-a muito pertinho de si.
— O que foi, meu amor? — Gabriela cheirou aqueles cabelos — Está apegada.
— Você me apresentou como esposa.
— Você é a minha esposa, ué.
— Eu sei, mas é que... foi um dia cheio. Uma semana cheia.
— Bru, sei que você continua insegura e não te culpo. Conseguiu marcar com as nossas empresárias?
— Marquei sim.
— Eu vou com você, tá?
— Mas, Gab...
— Vou ter alta de manhã, vamos fazer isso juntas. Acho que o meu perfil já era, Bru. Olhei a conta mais cedo e pensei em excluir tudo, começar de novo.
Bruna olhou naqueles olhos que tanto amava.
— Gab, há quanto tempo você tem a sua conta?
Gabriela pensou um pouco.
— Desde os meus catorze anos.
— Você não vai se desfazer dela só porque está perdendo seguidores. Quem quiser ir, pode ir, mas essa é a sua casa, linda. Ela vai ficar diferente, vamos mudar algumas coisas. A Dara fez um plano de reestruturação inteiro para você, com tudo novo, identidade visual do zero. Você vai se apresentar de novo e quem quiser ficar, vai ficar. E mais pessoas virão. Eu me apaixonei por você, Gab. Me apaixonei pela modelo, que também era piloto profissional, extremamente charmosa, bem-educada. A mesma que entrou em um reality e deixou o elenco feminino caidinho por ela. Essa é você, hum? Acha que essa é você?
Os olhos de Gabriela estavam cheios.
— Acho que essa sou eu.
— Sei que tudo é assustador, meu amor, mas cheguei e encontrei a Jeni com um moletom preto, que me lembrou que ela é um gato preto também, o nosso gato preto. Lembra que ela disse que escolheu esse user porque, na mitologia moderna, o gato preto tem vários significados, entre eles, a capacidade de atravessar a noite sem perder o rumo. Achei simbólico ela estar aqui exatamente agora. É só uma noite. A gente consegue atravessar.
Gabriela a apertou como pôde.
— Eu me sentia um gato preto quando começamos a namorar. Mas aquele do aesthetic, sabe?
Bruna sorriu.
— Casal de gato preto e Golden Retriever.
— Esse. É só uma noite. E dessa vez, vou atravessar sem me perder. Bruna Ribeiro, eu quero que todo mundo saiba. Que sou casada e que a minha esposa é incrível.
Bruna sorriu. Também era tudo o que queria.
Que o gato não se perdesse.






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