Vulnerável 34
- Riesa Editora

- 12 de jun.
- 16 min de leitura

Nova Identidade
Quando Gabriela acordou, não existia mais nenhuma dor.
Era impressionante o que uma crise severa podia fazer com o seu corpo, o tamanho da dor que era capaz de causar. Tinha sofrido um acidente relativamente grave de kart e aquilo doía menos que a crise de pânico. Claro que estava dolorida pelo acidente, mas não em crise de dor. Sentia um ponto e outro doendo em seu rosto, mas isso não era nada diante do alívio de seus músculos soltando e da sua mente desacelerando, só de perceber Bruna dormindo toda agarrada em seu corpo.
Gabriela baixou o rosto e cheirou os cabelos dela: mel, argan e quinoa. As duas haviam dividido aquela cama minúscula de hospital sem dificuldade nenhuma, porque sua esposa estava extra apegada, e Gabriela sabia o que aquele comportamento significava.
Alcançou seu celular, tirou a 3×4 de Bruna da capinha, olhou para ela ali ao seu lado e depois para a foto por mais um tempo. Nas duas últimas semanas de confinamento, Gabriela só pensava em como recuperar a sua vida com Bruna. Pensava nos movimentos dentro do jogo e naqueles que precisaria fazer fora da casa para tê-la de volta. Se a opinião pública discordasse, sentia muito; só tinha sua verdade para oferecer. E se sua família discordasse...
Tinha que estar pronta para lutar. E agora estava pronta.
— Meu amor...? — Beijou os cabelos dela, acordando-a bem devagar. Aquele cheirinho que Bruna tinha era o cheiro de casa, de porto, do amor da vida em que Gabriela era tão viciada — Vamos acordar? Acho que já podemos ir.
Ela foi despertando bem devagar.
— Você está bem, linda? — Bruna deixou um beijo no pescoço dela, ainda de olhos fechados.
— Muito melhor. Eu queria ir tomar café em casa. Você acha que a gente consegue?
Bruna ergueu os olhos, olhando para sua modelo.
— Gabriela...! — Saiu em tom de bronca.
— O quê?
— Você não vai poder gravar publi por umas duas semanas — Tocou o rosto dela, bem mais roxo que na noite anterior.
— Está muito ruim?
— Fica uma gostosa toda bad girl com o rosto machucado! Mas acho que publi não vai dar, não. Inclusive...
— O quê? — Gabriela estava fazendo carinhos nela também.
— Acho que conseguimos um atestado. Vi que você tinha um monte de eventos para fazer, mas como faz com esse rosto roxo e o nariz quebrado?
— Acha que eles me dispensariam, Bru?
— Ao menos por alguns dias, acho que sim. Vou falar com o médico sobre isso. Uma semana em casa seria muito bom, não acha?
Seria mesmo.
As enfermeiras vieram checá-la e tudo parecia em ordem. Gabriela estava no auge do seu físico, extremamente saudável, e quando Bruna a ajudou a se vestir depois do banho, isso ficou ainda mais claro. Top e shortinho com cós da Calvin Klein, os músculos se definindo enquanto Gabriela se movia. Tinha roxos pelo corpo inteiro, e Bruna...
Agarrou sua esposa, beijando-a de maneira inesperada.
— Bru!
— Meu Deus, Gab, você está muito gostosa e foi se trancar comigo numa casa cheia de câmeras — Disse, beijando o pescoço dela suavemente, puxando-a pela cintura, fazendo-a sorrir.
— Como se você não estivesse um atentado ao meu autocontrole!
— Você está no auge da sua beleza e a gente é casada, sabe?
Sorriso lindo de Gabriela.
— Muito casadas, ainda bem.
Bruna a beijou novamente. E então, tocando o rosto dela:
— Gab, acho que está na hora de a gente tentar a Calvin Klein de novo.
Gabriela a olhou.
— Como...?
— A última negociação não foi pra frente porque sua mãe não deixou, mas agora... acho que vale a pena. Você sempre quis modelar para a Calvin Klein, está linda, no corpo ideal para a marca. Acho que podemos tentar retomar esse relacionamento. Ok, vamos te vestir ou a gente não vai sair de dentro desse quarto.
Gabriela já estava vestida quando a médica de plantão veio vê-la.
Estava toda de preto, de calça larga, confortável, camiseta branca, jaqueta de couro, pronta para receber alta ao lado de Bruna, que vinha de jeans elegante, top preto longo e terno cinza por cima, com a etiqueta da marca de luxo costurada perto do punho. Flávia havia trazido uma mala de roupas para elas na noite passada.
— Mas você já está pronta antes da alta! — A médica entrou sorrindo. Daí, viu Bruna. Veio o choque — Mas... você é a Bem Indecente!
Bruna riu, estendendo a mão para a médica. Era uma realidade que existiam pessoas que não sabiam qual era o seu nome, apenas o seu @.
— Bruna Ribeiro, prazer.
— Vocês... gente! — Ela sorriu — A última vez que vi vocês juntas, as duas estavam gritando uma com a outra na TV.
Foi a consulta mais bem-humorada possível. A médica avaliou Gabriela e fez perguntas sobre o reality, como funcionava, qual era a sensação, como havia sido lá dentro. No final, deu a alta e um atestado de quinze dias.
— Isso aqui é pela fratura no nariz, mas como você é modelo... — Ela analisava as escoriações faciais — De duas a três semanas sem exposição física. E, ao menos por essa primeira semana, nada de maquiagem. Vou colocar tudo isso no atestado.
Saíram de lá com o atestado e uma lista de cuidados.
E de mãos dadas.
Boné sobre os cabelos de Gabriela, mas sem muitas preocupações em esconder os roxos, o nariz meio inchado ou a escoriação em linha reta na testa causada pela pressão do capacete. Estava mancando um pouquinho também. E seguia bonita. Bruna já devia estar acostumada com a beleza dela, mas estava meio chocada naquela manhã, apenas repetindo o quanto sua esposa estava linda apesar dos machucados. E Gabriela sorria sem parar.
— Mas você está exagerando, esposa!
— Estou nada, esse roxo todo favorecendo os seus olhos é um absurdo, Gab.
Gabriela a segurou pela cintura e a beijou, rapidinho, no meio do estacionamento.
— Eu te amo.
Bruna se derreteu num sorriso depois do beijo inesperado.
— Eu te amo, minha modelo. Aqui, aquele é o nosso carro.
Gabriela deu uma olhadinha. Era o mesmo modelo de Porsche que elas estavam usando, mas em outra cor. Vermelho clássico, vibrante.
— Você... trocou o nosso carro?
— Troquei — Bruna a abraçou por trás, enquanto Gabriela já olhava toda apaixonada para o carro — Esse é seu.
— Como?!
— Comprei para nós duas.
Gabriela olhou para ela totalmente em choque.
— Bru, você comprou esse carrão aqui? Tipo, ele é nosso, nosso mesmo?!
Bruna acabou rindo.
— Comprei! Faz uns dois dias, mais ou menos. Voltei mais cedo porque recebi uma ligação informando que o carro já estava pronto para ser entregue. Quando saí ontem, foi para buscar pra gente — Acionou a chave, o carro respondeu ao comando, e Bruna deu a volta para colocar a mala no porta-malas.
— Mas... é um carro lindo! Amor, ele é muito lindo, muito lindo! — Gabriela se abaixou, mesmo sob protestos do próprio corpo, para olhar os detalhes no para-choque — Meu Deus, olha essa curvatura. Bruna, Bruna — colocou-se de pé e mancou até ela, fechando o porta-malas —, é mesmo nosso?
Bruna a olhou sorrindo e a abraçou pela cintura.
— É nosso! Mas você só vai poder dirigir em algumas semanas.
— Bru, eu consigo dirigir!
— Deve conseguir mesmo, mas, por enquanto, você vai bem aqui, meu amor — Bruna abriu a porta do passageiro — Hoje eu dirijo pra gente.
Gabriela entrou e o carro era tão lindo por dentro. Queria abraçar o painel, cheirar o couro do banco. Mas, quando Bruna assumiu a direção, ficou um pouquinho tensa.
— Meu amor?
— Oi... — Bruna já estava colocando o cinto.
— É que... você tem CNH?
Bruna riu alto!
— Tenho, Gabriela, claro que sim!
— E faz muito tempo ou...? É que você não tinha antes.
A piloto estava apavorada, e Bruna sorria sem parar.
— Tenho faz um ano, mais ou menos. Estava cansada de depender de motorista para tudo e não tinha mais você.
Gabriela tocou os cabelos dela.
— Você dirige bem.
— Foi você quem me ensinou, né? — Bruna beijou a mão dela com carinho — Gab, Jeni e Nuna estão no nosso apartamento, passaram a noite lá.
— Sério?
Saiu com o carro.
— Sério. Mas, pelo que entendi, elas só conversaram muito e dormiram juntas, bem bonitinhas. Marquei com a Flávia e com a Júlia. A Dara deve estar chegando agora. Ela vem te mostrar pessoalmente o que pensou para a sua nova identidade.
Gabriela sorriu.
— Minha nova identidade. Gosto de como soa — Gostava da ideia, apesar de seguir morrendo de medo — Bru, você parcelou o Porsche?
— Pagamos à vista, meu amor.
— Eu paguei também?
— Claro que também pagou. Nossos patrimônios seguem integrados, já que você nunca assinou o divórcio, nunca desfez a sociedade das empresas. Acho que você tem mais dinheiro do que imagina, Gab.
— Eu tenho?
— Você é sócia da Fierce, que vai muito bem. A nossa conta conjunta segue conjunta, os seus dividendos da empresa seguem sendo depositados nela mensalmente.
Gabriela parecia extremamente surpresa.
— Se eu acessar agora...?
— Seu dinheiro vai estar lá, linda. Acho que foi bom a gente segurar o lançamento da sua marca de roupas. Vamos potencializar isso, você tem mais capital do que imagina.
Gabriela tinha dez por cento da Fierce e podia parecer um número pequeno, mas os dividendos realmente estavam na conta e o valor era treze vezes o que havia ganhado no programa com o seu segundo lugar.
— Isso está disponível agora?
— Para você investir como quiser. Mas eu investiria na sua marca própria.
Chegaram ao apartamento de São Conrado. Nuna e Jeni estavam dormindo no confortável sofá da sala, ambas vestidas, enroladas em um cobertor. Jeni apoiada no peito de Nuna, muito agarrada. Gabriela sorriu para a cena bonita e disse que precisava ir ao banheiro rapidinho. Bruna foi até elas no sofá.
Abaixou-se perto de Jeni.
— Jen, ei, amiga.
— Hum...?
— Você tem que trabalhar, não tem? — Bruna tocou os cabelos dela com carinho.
Ela abriu os olhos, acordando devagar.
— Que horas são?
— São oito da manhã ainda. Se você se levantar agora, dá tempo de fazer as coisas sem correria.
— Gab já saiu do hospital?
— Saiu sim. Ela está bem. Como as coisas foram aqui?
Jeni abriu um sorriso lindo.
— Ela é dócil, divertida, não tentou me devorar muito rápido.
— E ela ao menos tentou? A Nuna é muito educada, né?
— Não tentou, mas deixei que ela me mordesse um pouco — Jeni confessou, sorrindo demais.
— Jen, você sabe que eu a odiei no começo, né? Mas os dias passaram e eu me apaixonei por ela. Nuna é inteligente, esforçada, linda e boa por dentro. Ela não... me julgou. Buscou entender o que estava acontecendo comigo.
— Foi nisso que ela me pegou. Comecei a olhar para ela de um jeito diferente depois disso.
— Por isso largou a Gabriela na final e fez campanha pra ela?
— Bruna, não diz isso! A Gabriela não sabe.
— Ela vai saber em algum momento — Bruna seguia sorrindo — O que você acha de ter uma namorada-celebridade?
— Você acha que ela é um tipo que namora?
— Acho que é sim.
Nuna abriu um sorriso.
— Gente, eu estou aqui, tá? Vocês estão falando de mim na minha presença.
— Achei que você estava dormindo! — Bruna se defendeu, rindo demais.
— Respondendo às senhoritas: sou um tipo que namora. Estou sem namorar faz um tempo, mas a única vez que namorei foi com uma menina. Então, café da manhã?
Café da manhã. E teve um gosto maravilhoso de casa.
Era engraçado: as duas tinham se acostumado com Nuna mesmo, era como se ela sempre houvesse estado ali, na cozinha delas, tomando café da manhã. E com Jeni, isso vinha ainda mais natural, então só parecia uma manhã comum.
Depois do café, elas partiram juntas; ambas tinham compromissos. Bruna pediu um segundo para analisar uma apresentação que estava finalizando no notebook e, nesse meio tempo, notou Gabriela...
Presa no celular.
Ela olhava, coçava o pescoço, batia a perna, os olhos em movimento.
— Gab, já tem tudo o que você precisa? Precisamos ir — Bruna informou, já fechando o notebook e o guardando na bolsa.
— Ah — ela desviou a atenção do celular —, não vai ser aqui?
Bruna se aproximou dela no sofá.
— Júlia e Flávia já estão no coworking que peguei pra gente, Dara já está indo pra lá. Nossa reunião vai ser em um escritório perto daqui. Prefiro que a gente comece a organizar essa parte também.
— Organizar?
Bruna a olhou nos olhos. Suavemente, colocou uma mecha do cabelo dela para trás.
— Meu amor, a gente vai voltar para o casamento mesmo?
— Claro, Bru, claro que sim — Gabriela a envolveu em seus braços, cheirando os cabelos dela — Como assim?
— É que, se for isso mesmo, temos muitas coisas para colocar em ordem, não é? Eu... não quero o casamento de antes. Aquele de quando chegamos ao Brasil.
Gabriela a olhava nos olhos. Sabia exatamente do que ela estava falando.
— Eu também não quero, Bru. Quero o nosso casamento de Seul, de Melbourne. É isso que vamos ter.
— É que moro em São Paulo, né?
— E eu só estava morando no Rio para frear a minha obsessão pelo nosso relacionamento. Mas eu nem tinha moradia fixa aqui, ficava mudando de Airbnb — Gabriela contou, sorrindo.
Bruna a olhava. Apertou os lábios.
— A gente vai morar no meu apartamento?
— Era para ser o “nosso apartamento”. A gente viu aquele apartamento juntas, como vimos esse aqui.
— E você vai morar comigo mesmo?
Sorriso de Gabriela.
— Claro que vou, linda. A gente vai começar a reorganizar a nossa vida com essa reunião.
Bruna continuava olhando para ela.
— Tem muita gente que mora comigo. Acho que... sentia muito medo de ficar sozinha. Vou ter que redirecionar essas pessoas, mas não vou fazer isso para terminar sozinha em casa de novo, Gab.
Gabriela a beijou.
— Bru, você não vai. Tudo vai ser diferente agora. Se você me disser que não desistiu de voltar para o casamento, eu me mudo assim que pisar em São Paulo. Vamos ter que levar o carro.
— Pensei nisso. A gente sempre amou dirigir juntas, então, quando você estiver bem, vamos para São Paulo de carro. Tudo bem. Por que estava tão triste olhando para o seu celular?
Gabriela desbloqueou o aparelho e mostrou a sua página do Instagram.
— Isso... uau! — Bruna se preocupou também.
— Eu tinha dezesseis milhões quando entrei no reality. Hoje tenho onze. Óbvio, ainda é um número expressivo, mas ninguém teve saldo negativo. Nem quem saiu cancelado.
— Você chegou a dezoito milhões no meio do programa, Dara me mostrou. Eu sei que isso dói.
Gabriela a olhou.
— Você passou por isso na época do vídeo.
— Gab, acho que não quero falar dessa época.
— Você sabe que não dá pra gente ir em frente sem falar desse momento, amor. Mas não tem que ser agora, hum? Vou pegar mais um café e podemos ir — A beijou e foi pegar outro café.
Então, não conseguiu. Seus músculos estavam meio que a paralisando. Estava começando a sentir dor. Mas quis ir para a reunião mesmo assim. Partiram, Bruna na direção e Gabriela com a mão na coxa dela. Sabia que a conversa sobre o término e o vídeo seria delicada, mas não teria sua esposa por inteiro enquanto não falassem de tudo. Gabriela sabia que tinha errado, mas nunca tinha ido embora.
Nunca quis ir embora.
Quem tinha ido embora e fechado as portas havia sido Bruna.
Chegaram ao prédio, subiram juntas. Gabriela agora com óculos escuros e boné. Era uma sala grande, com uma mesa de reuniões central e outras quatro mesas individuais de trabalho. Quando chegaram, Júlia e Flávia já estavam esperando, notebooks sobre a mesa. Elas ficaram claramente preocupadas, porque Gabriela parecia pior que no dia anterior, o que a fez rir.
— Como é que libera a pessoa que está pior? — Júlia perguntou, chocada.
— Estou melhor! Mas fiquei mais roxa e inchada hoje. Flávia, sabe se minha mãe vai acompanhar a reunião?
— Então, Débora me pediu para que a reunião seja gravada. Ela vai assistir depois.
— Ok.
Pouco antes de iniciarem a reunião, Dara chegou. Abraçou Bruna demoradamente e, então, Bruna a puxou até Gabriela.
— Sei que vocês já se conhecem, mas quero fazer isso formalmente. Gab, essa é a Dara, minha melhor amiga. E, Dara, essa é a Gabriela, a garota do date que eu não sabia se era date.
Gabriela estendeu a mão para ela.
— Era um date, mas fui covarde.
Dara acabou rindo e a abraçando.
— A Bruna foi covarde também. Mas, em defesa dela, ela até pensou em ter mais atitude, só que o seu perfil deu uma desanimada na minha amiga.
— A Hillsong, eu sei! — Gabriela a olhou — Isso é... interessante. Parece que te conheço há muito tempo, sabia?
— Ainda não sei como a Bruna conseguiu esconder você de mim, mas vamos ajustar as coisas agora. Hum... Rebeca está morrendo de saudades de você. Faz alguns dias que estamos dividindo apartamento, ela não gosta de ficar sozinha.
— Ela odeia ficar sozinha! Vocês se falam há um tempo, né? — Gabriela perguntou, curiosa.
— Somos colegas de academia, mas ter que montar esse quebra-cabeça gabruna fez a gente se aproximar bastante — Dara a olhava nos olhos — Pronta para a sua nova identidade?
Sorriso de Gabriela. Precisava estar.
Bruna plugou o seu notebook e viu a sua equipe mais estratégica presente: Maurício, que cuidava das redes, e mais duas pessoas. Do lado de Gabriela, estava também sua equipe estratégica, Rebeca e mais uma pessoa. Era claro que ambas as equipes não estavam entendendo nada.
Era hora do chá de revelação.
— Você tem uma apresentação...? — Júlia estava surpresa.
Bruna abriu um sorriso.
— Faz algum tempo que eu estava planejando essa reunião. Tudo bem, vamos começar! — Bruna abriu seu áudio.
Deu bom dia para todo mundo, informou quem estava presente e o tópico da reunião.
— Sei que estão curiosos por estarem na mesma reunião, mas também nem tanto, porque sei muito bem que tanto a Mighty como a Fierce são empresas muito bem-informadas — Falou sorrindo, ao perceber alguns sorrisos na equipe — Mas, para começar, preciso dizer que, há quatro anos, Gabriela e eu nos casamos em Veneza — Disse, cruzando os olhos com Gabriela enquanto microfones se abriam em São Paulo, mas não tão rápido quanto Dara, que estava no presencial e foi a primeira a protestar.
— O que você quer dizer com casamento, Bruna Ribeiro?! — Dara estava chocada.
— Casamento de verdade? Como...? Gabriela! Achei que fosse sua amiga também! — Era Rebeca, igualmente revoltada.
— Ei, ei! Reunião empresarial. Iremos receber reclamações pessoais em um momento posterior — Bruna argumentou, sorrindo, e Júlia levantou a mão, como se estivesse na escola — Sim, Júlia.
— Um casamento legal? Quero dizer, com peso na lei brasileira?
— Um casamento legal, com comunhão de bens, na Itália e no Brasil.
Flávia levantou a mão também.
— Sim, Flávia.
— E seguem casadas com comunhão de bens, ou vocês se separaram?
— Flávia, você não faz ideia de como foi difícil me casar com ela. Eu não ia me descasar por qualquer coisinha — Gabriela respondeu.
— Eu pedi o divórcio duas vezes, mas ela se recusava a assinar — Bruna explicou.
— Meu Deus, Gabriela...! — Rebeca não estava acreditando.
— Beca, foi muito difícil validar essa história de casamento! Ela até casou fácil, mas depois ficou fugindo dos documentos.
— Claro que não! — Bruna estava sorrindo — Eu só não queria a sua mãe no meu pé, me chamando de aproveitadora.
— Sendo que você sempre teve mais dinheiro do que eu desde o casamento, mas ok! Voltando para a parte empresarial, depois do casamento e antes de abrir a Fierce e a Mighty, Bruna e eu abrimos uma holding sediada em Seul, chamada Killing.
— Por onde a gente recebe e envia pagamentos! Eu sabia que havia alguma coisa por trás dessa holding misteriosa — Era Júlia — Os pagamentos massivos em 2021 para essa Killing...?
— Era para devolver os investimentos da Gabriela na Fierce. O investimento patrono, de meio milhão? Foi dela — Bruna esclareceu — Vou explicar melhor como tudo isso funciona.
Mostrou toda a estrutura por trás da Killing, que não era apenas uma holding, mas também uma agência para influenciadoras asiáticas e da Oceania. Elas haviam começado com um negócio pequeno e hoje tinham sede física em Seul, havia uma equipe por lá. Bruna e Gabriela haviam decifrado um negócio que funcionava muito bem.
E, mesmo separadas, trabalhavam juntas. Tinham uma gerente que atendia ambas separadamente, e os negócios nunca pararam de prosperar. Porém, havia um problema na Mighty agora, conflitos de interesse que precisavam ser resolvidos, e disso Bruna falou diretamente com Flávia.
Antes, desligaram com as equipes de São Paulo. Já tinha ficado clara a situação atual: Bruna e Gabriela estavam juntas, iriam assumir isso publicamente em breve. Os líderes deveriam preparar as equipes de marketing para quando acontecesse. Então, vieram as decisões gerenciais:
— Isso é pra hoje. Preciso que você prepare o desligamento de Eric Habren e redija um contrato de assessoria executiva para Débora Habren — Bruna pediu para Flávia, que olhou para Gabriela como quem pergunta se era isso mesmo.
— Você providencia os documentos e deixa comigo, vou falar com eles ainda hoje, Flávia — Gabriela a tranquilizou.
— Mas vou precisar ir para São Paulo no final da tarde, Gab — Bruna lembrou.
— Eu sei, linda. Mas quero fazer isso sem cansar você. Cuido disso, ok?
Bruna estava olhando para ela.
— Como você vai ficar sozinha? Ainda não havia pensado nisso.
— Flávia está perto do nosso apartamento, não se preocupe. Bem, você vai ficar aqui, não é? Precisa trabalhar.
— Preciso. Você quer ir pra casa? A Dara pode apresentar tudo pra você em casa.
Era melhor assim.
Foi um dia de muita dor. O efeito dos remédios mais pesados do hospital passando e o corpo de Gabriela deixando claro que a batida não havia sido tão inofensiva assim. Foi para o apartamento com Dara e não foi nada esquisito. Na verdade, ficou bem à vontade com ela. Almoçaram juntas e Dara apresentou o plano de rebranding.
— Como falei com a Bruna, não tem nada sobre você que não seja interessante. Você tem esses ensaios com a Schiaparelli e, então, de repente, tem você de piloto, em uma corrida de carro. Tem as suas viagens, os seus vídeos sobre livros, reflexões sobre saúde mental. Agora, vai ter a sua marca de roupas. São muitas coisas diferentes e tudo é você. Isso é movimento. Pensei em uma identidade que imprima isso: você em movimento. Vamos dividir as linhas do seu feed em cores e em pedaços da sua personalidade, desse jeito aqui — Mostrou na apresentação — Tudo o que é autêntico sobre você vai estar aqui.
— Cada linha sou eu em momentos diferentes.
— Isso. E não acho que você precise informar diretamente as coisas, Gab, você pode só... deixar o feed mudar. O conteúdo se alterar. Se quiser falar sobre alguma coisa, fale naturalmente. Abra uma live fazendo algo que as pessoas não saibam sobre você, mas que seja autêntico. Se a Bruna surgir na conversa, fale sobre ela — Explicou, sorrindo — O peso desse cancelamento atual não tem que entrar na sua nova identidade. Porque essa Gabriela de agora é mais forte, mas muito mais simples, não é?
Dara era maravilhosa mesmo. E quando ela foi embora no final da tarde, Gabriela estava se sentindo muito melhor, bem mais confiante. Sentou-se na varanda para ver o sol se pôr e, enquanto ainda tinha luz, decidiu ligar para sua mãe. Ligou por vídeo.
— Meu Deus, Gabi — Sua mãe era a única que a chamava assim, Gabi, palavra oxítona. Gab era proparoxítona.
— É mais feio do que grave. Mãe, você pode vir jantar comigo? Bruna teve que ir trabalhar, não sei se consigo fazer o jantar. Queria comer algo em casa.
Gabriela a viu hesitar. E então:
— Me manda o endereço. Vou levar algo pra gente jantar.
Nova identidade. Aquela Gabriela de agora não podia ter medo de nada.
E não teria.




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