top of page

Vulnerável 35


A Filha Furiosa


Antes de Débora chegar, Gabriela ligou para Martina.


Ainda na varanda, agora vendo a noite se consolidar nas cores do céu, Martina se assustou severamente com o rosto da irmã antes de ser atualizada sobre tudo o que havia acontecido.


— Mas por que você segue preocupada com a relação?

— Porque sei que a Bruna ainda não está cem por cento comigo, irmã. Tem alguma coisa faltando, um assunto que ela não quer mais tocar, mas que sei que, se a gente não tocar, vamos falhar de novo. É difícil tentar reconstruir uma relação no meio de tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo.

— É por isso que acho que vocês não têm que reconstruir nada agora. Vocês combinaram de resolver os problemas de trás pra frente, não é? Não... não apresse as coisas. Como você disse no seu vídeo viral, não apresse nenhuma dor. Falar sobre o vídeo vai doer, Gab, vocês ainda estão muito sensíveis, não é?


Gabriela assentiu com a cabeça.


— Me fala, você vai demitir o Eric mesmo?

— Vou. Já aconteceu, na verdade. Ele precisa crescer também, Martina. Olha você estudando, trabalhando, tudo por você mesma. O Eric nunca teve isso e precisa ter, da mesma forma que precisei quando vocês se mudaram para a Itália.


Martina a olhou nos olhos.


— Isso ainda dói, não é?

— Dói. Mas estou tratando em terapia. Me dei conta de que, sem isso, eu não teria a Bruna hoje, então preciso reduzir a importância desse trauma. E parar de achar que eu só vou ter vocês se der coisas em troca. Isso não é família. Família é outra coisa.

— Eu sempre te disse isso. E sobre a mamãe, se mantenha. Não a deixe entrar na sua mente, você já sabe como fazer isso. Não sei o que a Bruna disse ontem pra mamãe, mas senti que ela ficou bem pensativa quando conversamos hoje mais cedo.

— Elas gostam uma da outra. É isso que não consigo entender. Ela gosta da Bruna.

— Só não gosta da ideia de você ter se casado com ela. Se a Bruna tivesse se casado com o Eric, a mamãe estaria no céu.

— E o Eric também. Bruna já teria matado ele durante o sono.


Martina riu. Era um bom resumo.


Perto das oito, Débora chegou. Bem diferente do que costumavam ver dela: de jeans, camiseta, terninho por cima e algumas sacolas de mercado. Ela era muito jovem: tinha se casado aos dezenove, tido Eric aos vinte e um, faria cinquenta anos no próximo mês, mas parecia menos. A diferença de idade entre ela e o marido era de cinco anos, mas Gabriela sempre havia achado que fosse mais.


— Gabi... — Débora entrou, largou as sacolas no chão e o instinto foi tocá-la. Então parou — Eu posso...?


Os olhos de Gabriela se encheram. Se enfiou nos braços de sua mãe, que a envolveu num abraço muito apertado, muito longo, cheirando os cabelos da filha no meio daquele carinho.


— Que shampoo bom.

— É da Fierce, mãe.

— Eu sei. Aquela menina não faz nada mais ou menos. Está sentindo dor? Olha pra mim.

— Quero te abraçar um pouco mais. Quero abraçar você desde quando saí do confinamento.


Débora sentiu um nó na garganta. Os olhos se quebraram.


— Por que não me abraçou, filha?

— Porque eu não sabia se devia. Às vezes, você não merece o meu afeto. Mas eu sempre tenho muito afeto para dar.


Elas não disseram mais nada por um longo tempo, apenas ficaram naquele abraço, que vez ou outra, Débora interrompia para checar um dos machucados. Aquilo não era para ser tão complicado assim. Não era para ser uma mãe tão ruim a ponto de sua filha ter dúvidas se podia abraçá-la ou não.


— Eu trouxe tudo o que preciso pra fazer macarrão na manteiga de alho assado, que você adora — Débora disse, depois que as duas se acalmaram e já estavam na cozinha.


Os olhos de Gabriela brilharam.


— Sério?

— Só não sei como você vai comer, sua mandíbula deve estar doendo.

— Um pouco, mas dou um jeito!


Débora esboçou um sorriso. Era bom ver sua filha sorrindo.


— Essa cozinha... está me lembrando as cozinhas italianas. Geralmente, eu só cozinhava quando íamos pra casa na Itália e você sempre reclamava disso. Lembra que uma vez você me disse que eu era uma mãe melhor na Itália?


Gabriela riu.


— Eu era criança, não media as minhas palavras.

— Lembro disso até hoje. Até hoje, tem dias que acho que a menina de dez anos tinha razão. Você já ouviu falar sobre a teoria da filha furiosa?


Aquilo pegou Gabriela de surpresa.


— É uma teoria psicológica?


Débora sorriu. Já estava ocupando a bancada da cozinha, onde Gabriela estava sentada. Os ingredientes do seu macarrão favorito estavam enfileirados porque, até cozinhando, sua mãe mantinha ordem. A sala inteira escura, mas a cozinha com a luz amarelada da bancada ligada.


— É, sim. A filha furiosa é aquela que não aceita a família como ela é. É a que questiona, que traz problemas para a mesa de jantar onde tudo deveria ser perfeito, é a que causa caos, a que diz tudo o que a família não quer ouvir. Foi interessante assistir você na TV. Porque conheço aquela Gabriela. Quando você foi falar com os rapazes sobre aqueles absurdos, sabia que todo mundo ficaria desconfortável, mas, se está errado, você tinha que dizer.

— Você... viu o programa?

— Claro que sim, filha. Ainda mais quando vi que a Bruna estava lá dentro também — Débora descascava alhos com uma faca pequena — Vi os seus movimentos e conhecia todos eles. Não sei quantas vezes eu te acusei de quebrar a harmonia da família na mesa de jantar. E você fazia isso mesmo, mas era necessário. Você deve ter sido furiosa desde que tinha sete anos e insistiu que queria pilotar uma moto. Seu pai disse que aquilo era apenas para o Eric, coisa de menino, e você não aceitou. Foi a primeira vez que tivemos caos no jantar.


Gabriela pensou um pouco, tomou um gole de água.


— Achei que eu fosse a filha que obedecia.

— Sempre foi uma batalha fazer você obedecer. E, geralmente, era eu quem precisava travar essa batalha. Você acha que obedece, mas isso só acontece após muita luta. Fui criada dentro de uma estrutura geracional que sempre funcionou, mas isso foi somente até você questionar, não aceitar, ver os defeitos do padrão. Você acha que obedece, mas, no final do dia, está tomando as suas decisões.

— Você me vê assim, mãe?

— Gabriela, eu não sei quantas vezes ordenei que você terminasse com a Bruna, e estamos aqui, com vocês duas casadas. O apartamento é dela? — Débora perguntou, colocando os enormes dentes de alho para fritar com azeite e sal.

— É dela. Bruna gosta de investir em imóveis. Ela aprendeu isso de você.

— Ela aprendeu. Bruna é boa nisso, em aprender com os outros. Não é arrogante, não acha que sabe tudo — O som do alho começando a fritar era algo que Gabriela adorava.


Silêncio.


— Você está sentindo alguma dor? Sei que está habituada a acidentes, mas...

— Se eu fosse tão boa piloto quanto penso, mãe, não deveria sofrer tantos acidentes.

— Seu pai sempre disse que só os ambiciosos batem. Você é ambiciosa, sempre foi.


Outro silêncio. Um som anunciou que havia nuvens pesadas se formando lá fora.


— Gabriela?

— Oi...

— Ela só aceitou voltar com você?


Gabriela respirou fundo.


“Só” é uma palavra muito ampla. Voltamos meio que rápido, porém ainda não conversamos sobre todos os problemas que nos separaram.

— E ela foi para São Paulo por causa do lançamento da nova linha de produtos?

— Bruna está trabalhando nisso esta semana. Eu realmente... não gosto da estrutura na qual você foi criada — Gabriela soltou, pensativa.

— Eu sei. Acho que eu também não gosto muito dela, mas é o que conheço, é o que vi dar certo com a minha família inteira. Eu não ligo para a igreja, Gabi. Quem ligava era o seu pai. Mas enquanto você estava em uma igreja, ainda existia a dúvida sobre o que você estava fazendo, então eu apoiava tudo que te levasse para uma. Sei que você não buscou esse público pra você, que foram eles que vieram, mas tudo começou a crescer a partir daí.

— Queria que esse público entendesse que não foi enganado, mãe.

— Você está casada, Gabriela. Com uma mulher. Não tem como desfazer esse sentimento nesse público que está indo embora. Eu sempre soube. Minha filha era furiosa e diferente. E muita coisa me magoou nessa história toda de você ser diferente. Sua tia não queria que a Rebeca fosse morar sozinha com você, isso me magoou por anos. Não nos falamos direito até hoje por causa disso. Uma estupidez. Mas essa estrutura onde estamos inseridas é estúpida mesmo para esse assunto. Nunca quis que a estrutura te machucasse. Vai ver, pensei que, se eu te machucasse, doeria menos — Débora parou, os olhos cheios de novo — Não quero mais machucar você. O Eric vai sair.


Gabriela sentiu as lágrimas virem.


— Quero que ele seja meu irmão de novo. Ele costumava ser bom pra mim. Comprou a minha briga quando eu quis aprender a dirigir, ia comigo nos campeonatos, porque geralmente eu era a única menina e ele me apoiava, me protegia. Não sei onde isso se perdeu.

— Foi nos negócios. No medo de ficarmos sem dinheiro de novo. Eu não sabia como recomeçar. E, de repente, você recomeçou pra gente e todo mundo se agarrou nisso. Não quero ser uma mãe exploradora. E estou cansada de ser antiquada — Ela tirou o alho do fogo e colocou num processador. Tomate seco, raspas de limão siciliano, algumas gotinhas de limão e manteiga. Tinha cheiro de infância. Ainda mais naquela cozinha italiana — Gabi, eu tive o Eric primeiro, mas, quando você nasceu... era um sonho virando realidade.


O rosto de Gabriela se suavizou ao ouvir.


— Você queria ser mãe de menina.

— Muito. E você nasceu linda, perfeitinha. Foi crescendo e se mostrando talentosa em tantas coisas diferentes. Era a filha furiosa, mas eu admirava até a sua fúria. O triste é que sempre soube quem você era, mas passei anos tentando te mudar. Chegando ao ponto de você ir para o outro lado do mundo apenas porque não conseguia mais conviver comigo.


Débora ligou o processador e bateu por um tempo. Colocou uma panela com água para ferver. Parou o processador, apertou os lábios.


— Pensei muito depois do que aconteceu ontem e não quero mais viver dessa forma com você — Voltou a falar — Nossa relação parece estar nos suspiros finais, filha. Eu queria que as coisas fossem diferentes. Mas sabe? Eu não fui capaz de mudar nem a minha própria vida, imagina a sua.

— Você mudou, sim, mãe. Da mulher que você era quando o pai estava aqui para a pessoa que você se tornou agora. Admiro você muito mais agora.

— Mesmo com tudo?

— Mesmo com tudo. Eu só não posso me esconder mais, viver as coisas pela metade. Você entende isso?


Um trovão deu uma sacudida nas portas da varanda. As duas olharam. Débora voltou a falar.


— Você passou muito tempo dividida entre estar conosco e estar com a Bruna.


Deu para ouvir o som do macarrão se espalhando pela panela.


— Eu não quero mais isso. E eu sei o quanto a família é importante, mãe, eu quero estar com vocês também, mas não posso abrir mão da Bruna. Quando eu voltar para São Paulo, vamos morar juntas. Era assim que devia ter sido quando voltamos da Ásia. O meu perfil deve passar por um rebranding assim que eu estiver em condições de produzir conteúdo de novo. Vou continuar perdendo seguidores por um tempo, mas vou sobreviver a isso. E, ainda que não sobreviva, eu sou pós-graduada. Posso começar outro negócio. Sei que se preocupa com o que a família e os amigos vão falar sobre você e a nossa família. Mas tenho certeza de que isso não vai ser nada depois de você ter sobrevivido à falência do meu pai.


Débora assentiu. Os olhos no macarrão fervendo na panela. Viveram um longo silêncio enquanto a água fervia. Quando o macarrão ficou pronto, Débora montou o prato: a manteiga de alho no fundo, o macarrão por cima, cebolinha à vontade, queijo ralado direto da peça, um pouquinho de água fervendo para ficar bem cremoso. Pronto. Aquele era o prato da infância de Gabriela.


— Eu amo esse prato, mãe, eu amo!

— Aprendi porque queria que vocês tivessem ao menos uma memória afetiva relacionada à comida comigo — Débora se sentou à frente dela, com seu prato também — Quero que o Eric se desculpe com você. Ele está furioso com a demissão, mas irá entender. E acho que vou aceitar a sugestão da Bruna. De ser consultora de negócios. Talvez possa fazer isso com negócios diferentes. Muitas amigas me pedem ajuda com investimentos e dúvidas jurídicas. E posso tentar entender como funciona essa relação de vocês. Não acredito até agora que você se casou com vinte e dois anos, filha.

— Você se casou com dezenove, mãe.

— Por isso digo isso. Queria ter me casado mais tarde, vivido um pouco mais antes de ter a minha vida inteira controlada por uma rotina que não podia ser quebrada. Gabi, não quero perder você. Acho que essa luta toda, desde o começo, foi para não te perder e agora estou quase perdendo de qualquer maneira. E eu tenho um problema para lidar em relação à Bruna.

— Um problema? — Gabriela estava comendo seu macarrão bem devagar, estava delicioso.

— Aquele vídeo.

— Mãe...

— Não consigo explicar para sua avó o motivo de ter um vídeo íntimo seu circulando por aí. Quando vocês deixarem claro que estão juntas, a dedução será automática. Eu nem sei como vou explicar que a neta dela se casou com uma mulher. Prepare-se para a nossa família se tornar bem pequena. Vou tirar esse vídeo de circulação.

— Como?

— Da mesma forma que tirei o seu namorado de circulação, as suas duas modelos, as fotos que surgiram com a Bruna no começo do namoro de vocês. Sei como fazer. Influência às vezes é tudo. Sou advogada, lembra?

— Claro que lembro.

— E nunca perdi uma ação. Gabriela, eu sinto muito.

— Por qual motivo...?


Débora ergueu os olhos para ela. Um olhar por baixo, pragmático. E o que disse a seguir trouxe à tona, bem no meio daquele jantar de reconciliação, a filha furiosa que realmente vivia em Gabriela Habren.

A conversa foi muito mais longa do que Gabriela tinha em mente. E o assunto não poderia ser mais distinto do objetivo original do jantar. Débora era mesmo uma jurista brilhante e, sabendo que estava enfrentando a primeira derrota da sua vida, precisava ceder pontos para tentar ajustar o que era realmente grave.


Mas ela tinha um plano. E havia uma coisa que Gabriela não podia negar: Débora sabia sumir com arquivos da internet de maneira muito eficiente, era algo que nem Jeni, experiente das redes, entendia como ela conseguia. E a receita era: advogados, influência, política de contenção de danos severa.


— Você precisa resolver isso! — Gabriela repetia, andando de um lado a outro da sala.

— Eu vou, eu já disse que vou.

— E isso só vai resolver parte do problema, porque tudo o que esse vídeo causou não tem compensação que resolva.

— Eu sei! Eu sei. Por isso perguntei se ela só aceitou voltar pra você, porque a Bruna sabe que fui eu.


A cabeça de Gabriela estava explodindo. Seus músculos doendo. Tomou outra dose do remédio e voltou para o sofá da sala. Estavam à meia-luz desde que Débora chegou, o céu seguia anunciando uma tempestade.


— Ela sabe e você não me diz, Débora? Ela passou esse tempo todo achando que fui eu!

— Não achou, não. Bruna sempre achou que não fazia sentido ter sido você.

— Mãe, ela terminou comigo! Me isolou, não quis mais ouvir a minha voz!

— Não por isso. Não foi por isso. Se você quer mesmo retomar o seu casamento, precisa descobrir o motivo pelo qual a Bruna agiu assim.

— Ela não quer falar nisso.

— Gabriela, ela vai ter que falar. Esse vídeo voltou a circular. Entrei com a ação hoje, mas essas coisas levam um tempo. Posso fazer a contenção de danos.

— Que é distribuir ameaças judiciais por aí, né?

— O que sempre funciona. Tenho uma equipe de advogados que sabe lidar com isso muito bem, filha.

— Mãe, o que você quer dizer com “esse vídeo voltou a circular”?

— Existem pessoas bem magoadas com você neste momento. Que estão achando de bom tom atacar os posts da Bruna. Ela não falou disso com você?


Na verdade, Gabriela andava presa nos próprios problemas. Abriu as postagens de sua esposa e um arrepio percorreu o seu corpo inteiro. E piorou quando percebeu que não estava conseguindo falar com ela. Débora já tinha ido embora, deixado chá de limão e um bolo rápido pronto porque a filha estava muito agitada. Saiu como sempre saía: sendo Débora Habren. Dura nas instruções, muito clara sobre o que Gabriela deveria fazer. Desculpas? Nenhuma. Apenas uma admissão de culpa.


Era quase meia-noite e Gabriela seguia sem conseguir falar com Bruna. O celular estava desligado. Mandou mensagem para Dara, mas ela também não sabia da amiga e, por último, tentou Júlia, que havia viajado com ela para São Paulo.


— Ela saiu mais cedo do evento, Gab, achei que tivesse vindo pra casa. Mas cheguei aqui e ela não está.

— Júlia, desde quando está essa onda de comentários ruins nas postagens dela?

— Aconteceu assim que ela saiu, depois se acalmou, agora voltou. Mas acho que são abutres tentando sabotar o nosso lançamento. Fãs de outras blogueiras, eu não sei, não conseguimos analisar ainda.

— Minha mãe analisou. Achou perfis que me seguem lá. Ou que me seguiam — Gabriela respirou fundo — Para onde você acha que ela pode ter ido?

— Eu... bem, eu não sei.

— Para a casa da Gio...

— Eu não disse isso, Gab.

— Você pode ligar para a Gio, Júlia? Eu só preciso saber se a Bruna está bem, se está segura.


Desligaram. Desde quando Bruna sabia sobre o vídeo? Por que nunca havia falado nada? Alguns minutos depois, Júlia ligou de volta.


— A Gio disse que não vê a Bruna há um tempo, desde que ela saiu do reality, precisamente.

— Também, não era como se ela fosse contar caso estivesse com a Bruna. Eu... vou esperar. Continuar tentando o celular.


Começou a chover no Rio de Janeiro. Uma chuva feroz. Gabriela decidiu tomar um banho quente, para ver se seus músculos relaxavam. Lavou os cabelos bem devagar, fez tudo bem devagar, na verdade, por causa dos músculos doloridos e para desacelerar a mente.


— Ela deve ter ficado sem bateria. Deve ter ido pensar em algum lugar. Tem muita gente morando com ela — Disse para si mesma quando desligou o chuveiro.


Bruna sempre buscava um espaço quando precisava pensar.


Gabriela vestiu um conjunto de moletom, secar o cabelo seria impossível, teria que secar naturalmente. E passou um bom tempo olhando as postagens de sua esposa. Ela recebia muitos xingamentos gratuitos, isso era comum na conta dela desde o começo. Mas ver perfis que realmente conhecia dizendo certas coisas...


Não levou muito tempo para encontrar um gif do vídeo. Aquilo a apertou por dentro demais. Quando perguntou como Débora havia conseguido aquele vídeo, a resposta havia sido simples:


— Seu celular desbloqueia com o meu rosto.


Claro que desbloqueava. Eram muito parecidas e a tecnologia podia ser falha.


Às duas da manhã, a porta se abriu.


— Bruna!


Era ela. Já sem a roupa do evento. Gabriela só conseguia imaginar que ela tinha se trocado em um banheiro qualquer. Estava de jeans, camiseta preta, com o logo da Prada bem discreto. Os cabelos soltos, os cachos desconstruídos, alisados. Tênis nos pés. E chorando.


Ela estava chorando muito.


— Meu amor, o que aconteceu? Por que seu celular estava desligado?

— Fiquei sem bateria, fui para o aeroporto, precisava de um voo, precisava... voltar pra cá. Acabei de lançar a minha nova linha de produtos, mas é tudo... tudo como antes. A falsa sensação de calmaria antes de algo grave acontecer. Estou tentando passar bem por isso de novo, mas agora abro os comentários e vejo aquele vídeo, vejo gente falando sobre ele, isso me machuca, eu não sei lidar, Gab.

— Espera, espera aqui, ok?


Gabriela foi até a cozinha e trouxe chá para as duas e o bolo de leite que sua mãe havia feito mais cedo.


— Você jantou, meu amor?

— Não consigo comer. Não consigo... parar de pensar nisso — E então, Bruna a olhou nos olhos — Acho que nunca te dei a chance de reagir a isso, não é?

— Reagir...?


Ela respirou fundo, como se estivesse sufocada.


— Eu nunca quis ouvir a sua reação, Gab. Você estava fora quando esse vídeo surgiu, voltou assim que deu, mas foi para se defender, deixar claro que não tinha sido você. Mas eu nunca quis ouvir o que você tinha a dizer sobre isso. Você ficou irritada comigo? Foi ideia minha gravar. Você nunca queria gravar nada, não gostava disso. Você... sentiu vergonha? Se você abrir os meus posts e ver esse vídeo nos comentários, você vai sentir vergonha? Por que você me indicou no reality?


O pensamento dela estava todo errático, o corpo tremia, a perna não parava de bater.


— Bruna...

— Por quê? Estava com muita vergonha de mim de novo? Porque eu seguia bebendo nas festas — Bruna fechou os olhos — Você sentia vergonha? Sabendo que as pessoas que nos conheciam estavam me vendo daquela maneira. Você vai desistir agora? De aparecer comigo, de deixar todo mundo saber que estamos juntas, que você... você é minha mulher? E ninguém vai entender — Ela seguia chorando — Ninguém vai entender como você se casou com alguém como eu.


Gabriela se ajoelhou na frente dela.


— Gab, não faz isso, você está toda machucada.

— Bruna, meu amor, o que ninguém vai entender é como você se casou comigo — Disse, tocando o rosto dela — Eu não entendo como consegui fazer isso até hoje. Você me engolia de tantas maneiras. Eu só tentava sobreviver enquanto te convencia a ficar comigo. Por que você não me disse que sabia que foi a Débora?


Ela chorou mais.


— Você... sabe disso?

— Sei. Ela confessou hoje. Como... você aceitou voltar comigo mesmo sabendo disso, linda?

— Porque não é culpa sua que ela tenha agido assim. Mas é culpa minha como escolhi reagir a tudo isso. Gabriela, a gente não pode voltar antes que você me diga, finalmente, como se sente sobre isso, sobre essa exposição. Como você se sente sobre o nosso término, o quanto eu te feri. O quanto eu te envergonhei naquelas festas em que eu não tinha controle.


Gabriela sentiu os olhos arderem.


— Acho que tem manteiga de alho que a Débora fez. Vou fazer macarrão pra você. Você come, meu amor?

— Gab... — Bruna sentiu os olhos arderem.

— Você come, por favor? Está muito bom. E enquanto você come, acho que chegou a hora de a gente conversar sobre o nosso término. Porque quero começar a ser feliz com você amanhã. Quero que você me deixe te fazer feliz já amanhã. Independente de vídeo, de hate, da minha conta amanhecer com mil pessoas me seguindo. Isso não é importante. Só você é importante. Eu te amo. Você nunca me envergonhou. Mas sei que a gente se feriu muito e que precisa se entender. Podemos fazer assim?


Bruna saiu do sofá, escorregando para o colo dela no chão. A abraçou, a beijou, pediu os braços de sua garota, pediu carinho, ganhou tudo isso.


— Vamos para o banho? Você toma banho e eu faço o seu jantar — Gabriela tocou o rosto dela.


Bruna concordou. Era hora.


Precisavam falar sobre o término.






Posts Relacionados

Ver tudo

Comentários


bottom of page