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Vulnerável 36


O Término


São Paulo, dois anos atrás.


Bruna estava sozinha na varanda, tendo uma das conversas mais constrangedoras da sua vida.


Já era noite alta e chovia muito em São Paulo, mas, mesmo com a chuva respingando nela, não conseguia sair da varanda. Era como se o apartamento a sufocasse. Tinha saído do escritório pelo mesmo motivo e agora estava ali, de jeans e moletom, cabelos presos no alto, enquanto ouvia do CEO da empresa de cosméticos com a qual lançaria finalmente a sua primeira linha própria de maquiagem que não era possível prosseguir com o projeto.


Ao menos, não por ora.


Ao menos não enquanto o cancelamento provocado pelo vídeo íntimo, que circulava havia vinte e quatro horas, não fosse resolvido.


Sentou-se, apertando a própria nuca. O choro preso na garganta. O rosto ardendo de vergonha.


— Seguir com o lançamento da linha será um tiro no pé. Olha, não estou dizendo que não vamos fazer isso, já investimos muito nesse projeto, mas você precisa resolver esse caso primeiro.


Uma lágrima caiu. Mas nada se mostrou na sua voz.


— Como posso resolver algo assim?

— Ah, Bruna, sinto muito, também não tenho essa resposta.


Aquela ligação terminou ali. Bruna chorou um pouco sozinha, tentando se manter calma. Havia investido tudo o que tinha naquele lançamento, apostado todas as suas fichas, e agora só não iria acontecer. Chorou mais, então respondeu algumas mensagens urgentes, olhou sua rede social, abriu o Telegram e mandou mais uma mensagem para Gabriela, que se juntou a uma série de outras já enviadas e sem resposta.


Volta pra casa, por favor — enviada às 15:35.

Preciso de você aqui — às 17:48.

Cancela essa viagem, Gabriela — às 18:37.

Preciso entender o que aconteceu — às 19:23.

Meu contrato foi suspenso — às 20:42.

Volta pra casa, Gabriela — às 21:13.


Soltou o celular e chorou mais. Aquilo não devia estar acontecendo. Não conseguia explicar o que estava sentindo. Era uma dor, uma vergonha, um desconforto profundo com algo que sabia que não iria sumir. Seria como aquelas vergonhas que se carregam a vida toda. Aquele pensamento constrangedor que surge antes de dormir. Seu search agora encaminhava imediatamente para matérias sobre o vídeo e para links em sites de pornografia.


Como se recuperaria de algo assim?


Não sabia o que havia acontecido. O tempo passou sem perceber. De repente, já era de manhã e Gabriela estava ligando para uma Bruna que não havia saído daquela varanda.


E que rejeitou as ligações.


Não preciso de uma ligação, preciso de você aqui — enviado às 6:39.


Em Paris, Gabriela havia acabado de desembarcar quando recebeu todas aquelas mensagens. Não entendeu o que estava acontecendo. Estava com sua mãe e com Flávia, preocupadas apenas com as malas que estavam demorando. O chip europeu demorou a ativar e, quando ativou, a internet estava em G, não conectava de jeito nenhum. Perguntou por mensagem o que estava acontecendo. Bruna não respondeu, só dizia para Gabriela voltar pra casa.


Era um dia de chuva em Paris. Foi custoso conseguir um táxi. E, quando finalmente chegou ao hotel e conseguiu ligar, Bruna não atendeu.


O que estava acontecendo?


Ligou para Marcela. Ela contou sobre o vídeo, e foi como se o coração de Gabriela despencasse no peito, caísse pra fora, perdesse a função. Que vídeo poderia ser? Não teve alternativa a não ser pesquisar por conta própria. Foi quando pisou no seu próprio coração caído no chão. Aquele vídeo estava no seu celular. Quase não gravavam nada; quando gravavam alguma coisa, era no celular de Bruna.


Mas daquela vez...


Não conseguia lembrar de quem havia sido a ideia. E nem como aquele vídeo foi parar fora do seu celular. Bateu na porta do quarto de Débora imediatamente, dizendo o que havia acontecido e que precisava voltar.


— O quê? Do que você está falando, Gabi?

— Preciso voltar agora, mãe! A Bruna precisa de mim!

— Ah, eu quero ver você sair daqui, Gabriela! Estamos aqui para gravar para a Schiaparelli, não viemos só bater perna, não. A Bruna que se resolva sem você!

— Você não sabe o que aconteceu!


Gabriela notou que não conseguia nem verbalizar o que havia acontecido. Sua mãe ficou insistindo para que falasse, que explicasse o que era tão importante, e simplesmente não conseguia dizer nada. Então, por conta própria, Débora pesquisou o nome de Bruna. A repulsa no rosto dela foi brutal.


— É você nesse vídeo, Gabriela?

— Claro que sou eu! Com quem mais a minha mulher estaria?!

— Eu não sei! E nem você sabe o que ela faz quando você não está presente.

— Você quer parar? Confio na Bruna e ela precisa de mim. Eu não posso ficar aqui enquanto tudo está desabando em cima dela!

— Só para eu entender: esse vídeo estava no seu celular?

— Sim, estava!

— E por qual motivo ela pode não estar achando que foi você quem divulgou? Sua voz foi removida. Você nem aparece. Não acredito nisso! Que criei você para gravar pornografia com uma qualquer. E daqui, Gabriela, você só sai após cumprir o seu contrato.


Gabriela ficou.


A Schiaparelli era o seu maior contrato no momento, não podia só ir embora. Tentou explicar isso para Bruna, por mensagem, porque ela seguia recusando as suas ligações. Era isso. Ela achava que Gabriela tinha vazado aquele vídeo, e a arquitetura de tudo o que estava acontecendo fazia todo sentido na mente dela. Fazia seis meses que haviam voltado ao Brasil. O plano era simples: chegar, estruturar as coisas, comprar um apartamento, irem morar juntas. Mas não foi bem assim que tudo se desenrolou.


Pegaram um hotel primeiro. Então, sob pressão de Débora, Gabriela começou a ficar no apartamento da família por algumas noites. Isso acalmava sua mãe, diminuía as reclamações constantes e permitia alguns dias de paz. Bruna entendeu a lógica. Não gostou, mas não se opôs. Disse que elas podiam morar separadas por ora, coisa de um mês, enquanto resolviam o apartamento. A linha de cosméticos já estava fechada com uma grande empresa. Foi até bom para ela estar mais perto da equipe naquele momento crucial para o lançamento.


Porém, um mês se tornou dois. E, mesmo com a correria do projeto, Bruna conseguiu tempo para comprar o apartamento delas. Era lindo, envidraçado, tinha muita luz natural, bem como elas queriam. Levou um mês e tudo estava pronto, elas já podiam mudar. Mas Bruna acabou se mudando sozinha. Ela não chegou a dar nenhum ultimato. Inclusive, passou a evitar o assunto, porque Gabriela sempre tinha uma desculpa. Não é que não quisesse se mudar com ela, era tudo o que queria. Mas a pressão de Débora era insana. E Gabriela só queria que a mãe voltasse para a Europa. Ela voltaria logo, tinha certeza disso.


Mas Débora Habren simplesmente não ia embora. Gabriela já havia falado com sua mãe, já a havia convidado a voltar para a Itália, mas nada. Corria, se virava, escapava da vigilância dela e conseguia ficar com Bruna algumas noites, mas sabia que isso não era suficiente, que sua esposa estava ficando sem paciência.


E agora, com a história do vídeo...


O que Gabriela iria dizer para ela?


Fez o ensaio que havia ido fazer. Tentava ligar a todo momento, mas ela não atendia. Bruna apenas enviava mensagens que diziam o mesmo, que precisava de Gabriela em casa.


Então, ela parou de escrever. Excluiu o Telegram. Bloqueou Gabriela no WhatsApp. O perfil dela no Instagram estava uma insanidade. Não estava perdendo seguidores, estava ganhando, na verdade, mas os comentários nas publicações eram de embrulhar o estômago. O vídeo estava em todos os lugares. Todos os perfis de fofoca estavam falando sobre aquilo. Bruna já tinha sido violentada por aquele vazamento e agora era assediada dia e noite por abutres buscando respostas.


Gabriela esperou que Bruna dissesse quem estava com ela no vídeo. Mereceria, se dissesse. Pensava nisso o tempo todo, principalmente durante as reuniões no ateliê da Schiaparelli ou nos diversos cafés de alto padrão por Paris. A cada refeição refinada que fazia na cidade, se perguntava se Bruna estava ao menos comendo.


Cinco dias depois, voltou para o Brasil. Débora ficou na Europa. Gabriela desembarcou com Flávia, que não fazia ideia do que estava acontecendo.


— Gab, você está bem? — Flávia perguntou, já no táxi, na saída do aeroporto.


Gabriela respirou fundo. Era noite, estava de jeans, blusa e terninho da Prada, aura de modelo por ela inteira. O voo havia sido longo, cansativo, e sua mente parecia confusa, assustada. Não sabia como seria em casa.


— Que casa? — Acabou perguntando em voz alta, como se o pensamento tivesse escapado.

— Como...?

— Nada. É... nada. Flávia, eu preciso ir com urgência para um endereço, vou passar para o taxista. Você pode limpar a minha agenda amanhã?

— Amanhã você tem agenda com a Diesel.

— Ah, é verdade. Ok, só... vou passar o endereço.


Era madrugada quando chegou ao apartamento.


Subiu o mais rápido que podia e entrou naquele lugar que deveria ser das duas. Mas não era. Suas coisas nunca entraram ali.


Seu coração estava disparado no peito, se sentia ofegante, suas mãos tremiam. Soube por Marcela que, naquele dia, o contrato de Bruna com a farmacêutica tinha sido rescindido. A rescisão se apoiava em uma cláusula em que Bruna se comprometia a não envolver o nome da empresa em escândalo nenhum. Além da quebra de contrato, tinha multa. O estrago parecia gigantesco.


— Bruna? Bruna!


Procurou por ela no apartamento inteiro, mas ela não estava. Checou o horário, passava das duas da manhã.


Onde ela estaria?


O iPad estava em cima do sofá. Acessou o “Buscar” e, com ele em mãos, pegou o carro e foi atrás de sua esposa. A localização deu em um prédio que Gabriela conhecia muito bem. Chamava-se “Retrô” e ficava em um rooftop. Era muito frequentado por influenciadores. Subiu já irritada, sem entender o que Bruna estava fazendo naquele lugar e, quando a encontrou...


— Sério? — Só foi passando pelas pessoas até ela, que estava dançando, grudada em alguém que Gabriela não fazia ideia de quem era. Chegou até a garota imediatamente — Oi, tudo bem? Desencosta dela.

— Como...?

— Eu disse pra você desencostar dela! Você pode me dar uma licença?

— Eu conheço você — Ela disse, o som alto abafando as vozes. Bruna havia virado de costas para pegar alguma coisa, e a garota seguia grudando nela.

— Não, você não conhece. Desencosta da minha mulher — Gabriela já estava furiosa.

— Sua...?

— Ok — Gabriela só a colocou de lado e chegou até Bruna, segurando-a pelo braço — Vamos pra casa.

— O quê?

— Vamos pra casa, Bruna, agora!


Ela se virou e estava claramente alterada.


— Gabriela... Ah, você voltou! Da sua fuga para a Europa — Ela chamou o bartender, pedindo mais um drink.

— Bruna, chega! A gente vai pra casa.

— Que casa, Gabriela? Você... — a voz embolada — mora com a sua mãe. Eu moro sozinha. Me fodo sozinha. Todo mundo aqui sabe que eu tô fodida. Ninguém, você acredita? Ninguém tentou fazer vídeo comigo. Só me filmaram. Virei PATRIMÔNIO PÚBLICO — Ela berrou — Me deixa em paz. Volta pra casa da sua mãe!

— Eu ouvi, ela não quer ir com você — A garota havia seguido Gabriela, que a encarou de uma só vez.

— Se você não quer perder um dente, tira a mão de mim. E não se mete nisso. Pra casa, Bruna, chega!


Foi um parto conseguir arrancar Bruna daquele lugar. Ela não queria ir, estava muito bêbada, odiando Gabriela intensamente, mais do que qualquer coisa. Foi a primeira vez que saíram na imprensa como rivais.


“Bruna Ribeiro e Gabriela Habren se desentendem em festa de influencers.”


Vários posts distorcidos; em um deles, inclusive, a pessoa teve a pachorra de dizer que, na discussão, Gabriela citou o tal vídeo.


— Eu não quero ir com você! — Ela repetiu, já no elevador, vindo pra cima de Gabriela, que segurou as mãos dela para trás, trazendo-a contra o próprio corpo.


Gabriela a olhou nos olhos e então olhou para a boca dela. Estava morrendo de saudades de sua esposa. Bruna sustentou o olhar, apertando os lábios. E então...


A puxou pela nuca e a beijou. Beijo longo, apegado, os braços de Gabriela imediatamente se enroscando pela cintura dela.


— Eu não quero ir com você — Bruna repetiu, toda abraçada à sua garota.

— Sou a sua esposa, você vai comigo, sim! Quem era aquela garota, Bruna?

— Eu não sei.

— Por que ela estava grudada em você? O que você fez com ela?

— Nada! Eu não fiz nada porque, apesar de você não ligar pra mim, eu não consigo te trair! — Ela dizia tudo isso, mas não saía dos braços de Gabriela.


Foi um inferno até chegarem em casa. E foi difícil tirar Bruna de dentro do carro. Ela passou mal, vomitou, Gabriela teve que levá-la praticamente no colo até o apartamento e, então, até o chuveiro. Já estava amanhecendo e chovendo quando conseguiu colocá-la na cama.


— Bru, por que você fez isso? — Perguntou, quando ela já estava agarrada ao seu corpo.

— Perdi meu contrato. O meu sonho acabou — Ela disse, deixando duas lágrimas caírem.

— Claro que o seu sonho não acabou, linda. Eu disse pra você, podemos fazer sozinhas. Não precisamos de uma farmacêutica, você não precisa lançar uma linha dentro de outra empresa.

— Estou acabada, Gabriela. Por que... por que você fez isso? Você podia só ir embora.

— Bruna, eu não fiz isso, por favor. E nem quero ir embora. Meu amor, eu nunca iria ferir você desse jeito. Eu sinto muito. Eu realmente não sei como isso aconteceu, já pensei muito e não chego a uma resposta. Mas eu não fiz isso. E queria ter voltado antes.


Mais lágrimas de Bruna.


— Voltar do seu contrato com a Schiaparelli para esse inferno? Aqui é o inferno. Mas o fogo não vai tocar você. Só a fodida que não é ninguém com quem você se casou.


Gabriela não soube o que dizer.


Daquele dia em diante, alguma coisa mudou. Depois que Bruna acordou e estava em si novamente, elas tiveram a conversa mais esquisita possível.


Bruna não a olhava nos olhos. Pediu desculpas por ter saído, sabia que não devia ter feito o que fez. Mas não era com isso que Gabriela estava preocupada.


— O que vamos fazer, Bru? Tem alguma coisa que a gente talvez consiga fazer.

— Eu não sei. Mas você tem que ir para a sua reunião.


Naquele momento, Gabriela já estava pronta para sair. Linda, uma modelo, sem sombra de dúvidas. Enquanto Bruna estava de pijama e sem intenções de se mover da cama.


— Não quero deixar você assim, amor.

— Não tenho para onde ir, Gabriela. Não tem produto para desenvolver e nem publi para gravar. Não tem nada. As marcas sumiram. Vou ficar aqui com o Bartolo e a Chiara.


Gabriela foi para a sua reunião. E, quando voltou, mais uma vez, não encontrou Bruna imediatamente. Começou a procurar por ela, extremamente nervosa, mas, daquela vez, ela estava no banheiro.


Mais especificamente, na banheira, joelhos abraçados contra o corpo, rosto escondido entre eles. Uma garrafa de vinho praticamente seca, uma taça pela metade na borda da banheira. E chorando copiosamente.


Foram dias difíceis e de desconexões. Gabriela seguindo a sua agenda, Bruna sendo destruída dia após dia. As brigas explodiam o tempo todo e por motivos diversos. Mas quase todas acabavam voltando para o mesmo lugar. Ela queria que Gabriela se mudasse de verdade.


— Bruna, eu estou aqui com você!

— Com uma mala de viagem? Se você não queria se mudar antes, imagina agora, né?


Cada coisa que saía da boca dela, Gabriela desconhecia. Aquela não era a sua Bruna, a mulher com quem tinha se casado. Sempre que tentava falar sobre o vídeo, ela escapava do assunto. 


Gabriela não sabia qual era o plano dela, mas Bruna se recusava a sair para trabalhar, só que queria estar em qualquer festa, o que gerou mais brigas, mais matérias retratando as duas como desafetos.


— Melhor assim, não é? É melhor ser minha rival do que ser associada a mim.


O término foi uma tolice.


Estavam estremecidas, se desentendendo demais, brigando diariamente. Mas a gota d’água foi mesmo só uma gota. O cancelamento não melhorava e Bruna não reagia. Nesse meio tempo, Gabriela precisou viajar para o Rio a trabalho. Suas coisas iam muito bem e se lembrava de que, naquela tarde, havia notado que tinha ultrapassado Bruna em número de seguidores. O cancelamento dela agora atingia os seguidores. E Gabriela estava mais em alta do que nunca.


E não devia estar. Não quando eram elas duas naquele vídeo que atingia uma só.


Pensava em só contar tudo. Chamar a imprensa, dizer que era ela no vídeo com Bruna. Que aquele vídeo era pessoal e que tinha sido feito dentro de uma relação estável e muito bonita. Queria contar sobre o casamento. Pensava nisso ao menos dez vezes por dia.


Quando voltou para São Paulo, sua mãe estava à sua espera. Tentou se desvencilhar, mas Débora havia vindo com Martina, criado toda uma cena, era aniversário do seu irmão. Acabou dormindo no apartamento da sua família. Quando voltou, Bruna perguntou quando ela se mudaria, mais uma vez.


E Gabriela acabou dizendo que ainda não tinha uma data, porque sua agenda estava cheia, mas que seria logo.


— Então, não precisa — Ela disse e se levantou, indo abrir a porta. Bruna estava com olheiras, com roupa de casa, já tinha duas garrafas de vinho abertas sobre um móvel da sala.

— Bruna?

— Não precisa mais, Gabriela. De boa. Isso só tem me causado mais ansiedade. Tudo acabou. Estou terminada, não tem mais nada para ver aqui.

— Bruna, eu vou ficar aqui com você.

— Por quanto tempo? Uma noite, duas? Eu não me casei para isso. E nem estou pronta para ouvir as atrocidades que a sua mãe deve estar guardando para me dizer depois desse vídeo. Eu nem tenho mental para isso.


Gabriela a olhava. Ela estava dizendo tudo isso, mas muito calma, sem alterar a voz.


— Bruna, eu não vou embora.

— Hoje, não é? Mas amanhã vai ter que ir. Ou depois. Eu realmente não quero mais viver esperando pela noite em que a minha esposa vai poder vir pra casa ficar comigo. Você nem pagou pelo apartamento.

— Bruna, eu disse que ia ver isso assim que...

— Tivesse um tempo, fosse possível, eu sei, eu sei. Não é mais possível, não precisa mais. Vai, Gabriela. Sei que você não pode ficar hoje.


Gabriela não sabia por que tinha ido. Realmente, tinha um jantar com uma marca parceira que não podia esperar, mas ia voltar para dormir com sua esposa. Só que, quando voltou, sua chave não funcionava mais. E estava bloqueada até na alma de Bruna.


Finalmente, o inferno queimou em Gabriela.


Não sabia o que pensar, como agir, como resolver aquilo. Era muita coisa acontecendo ao mesmo tempo e, apesar de Bruna a ter bloqueado em tudo, ela não tinha como bloquear Gabriela das baladas.


— Você tem um chip em mim, não é possível isso! — Bruna disse para ela, três semanas depois daquela conversa, quando se encontraram na festa de uma amiga em comum.

— Eu não sei se você lembra, mas somos casadas, Bruna, a gente tem coisas para resolver.

— Gabriela, a gente tentou resolver as coisas por seis meses e não deu em nada. Você não consegue e eu estou cansada disso. Precisei de você mais do que nunca e você...

— Bruna, eu estava com você, o que é isso?!

— Estava, até a sua mãe voltar e você não poder mais estar. Eu só...

— Cadê o seu anel?

— O quê?

— Você está sem aliança, Bruna!


Foi a maior briga que tiveram. Aquilo rendeu outras notas sobre possíveis rivalidades. As duas influenciadoras mais em alta no momento estavam brigando pelo mesmo homem? Essa teoria ganhou força de uma maneira que deixava Gabriela furiosa.


Se encontraram no outro final de semana e, desta vez, houve uma recaída. Uma briga feia que terminou em transa no carro, e não era isso que Gabriela queria com a sua esposa de jeito nenhum.


— Transar no carro não faz de você uma puta, não, Gabriela. Não é como se a gente nunca tivesse feito isso antes!


Bruna nunca havia falado daquela maneira. Gabriela verbalizou isso e foi atacada, porque estava falando como Débora Habren. Aquela recaída terminou em outra briga e mais portas fechadas. Cada vez que brigavam, Bruna fechava mais portas, e Gabriela não conseguia entender.


Quatro meses depois, Gabriela comprou o apartamento em frente ao de Bruna.


— Hum, sabe quem se mudou para o apartamento da frente? — Dara perguntou, numa manhã em que Bruna já estava bebendo champagne em uma xícara de café. Pronta para ir para a empresa, de jeans e terninho italiano. Mas com aquele detalhe da xícara.

— Quem?

— Aquela modelo com quem agora você vive brigando. A Gabriela Habren.


Bruna não achou que fosse sério. Mas era sério.


— Bruna?

— Oi...

— Acho que precisamos cuidar disso — Suavemente, Dara tirou a xícara cheia de champagne da mão dela — Eu não sei o que está acontecendo, mas você não pode mais se destruir assim. A gente tem que fazer alguma coisa, não é?


Bruna chorou por um dia inteiro no colo de sua amiga. Sufocada, afogada pelas coisas que não podia contar. Contou só o que podia. Que estava bebendo sem parar, nas três refeições que fazia. Disse que queria morrer. Mas não tinha força nem para isso.


— Estou trabalhando tanto. Parece que a vida não acabou, né?

— É porque não acabou, meu amor. As marcas estão voltando, sua imagem está sendo limpa. Ninguém mais lembra do vídeo. Mas não estou te reconhecendo — Dara a mantinha no colo.


Nem Bruna estava. Pensava em voltar para sua esposa todos os dias, mas como seria? Havia feito tantas coisas erradas. E Gabriela ainda parecia a mesma. Apenas seguiu a vida como se nada tivesse acontecido. Bruna a via nos eventos, indo para a academia, produzindo conteúdo. A única vida parada era a sua.


— Dara, eu preciso de ajuda.


Era claro que precisava.


Por dois meses inteiros, ninguém soube de Bruna Ribeiro.


Gabriela tentou conseguir informações de todas as maneiras possíveis, mas não conseguiu nada. Nem Marcela sabia dela. Era como se Bruna tivesse evaporado. O primeiro mês foi de quase desespero. Gabriela acordava no meio da noite querendo chorar. E, no segundo, o desespero se tornou muito real, quase como se não pudesse respirar sem notícia nenhuma. No final daquele segundo mês, quando o desespero já parecia insuportável, recebeu uma notificação no seu Instagram:


Bruna Ribeiro iniciou um vídeo ao vivo.


Entrou com seu perfil falso e descobriu que Bruna estava em Bogotá, fazendo uma trilha. Ia conversando e mostrando o caminho, explicando que precisou de um tempo das redes, mas que agora estava voltando e que, em breve, traria novidades. Parecia ótima, saudável, feliz. Gabriela havia parado de tentar falar com ela depois que se mudou. Entendeu que já tinha tentado demais e que Bruna precisava tentar um pouco também. Uma guerra fria começou quando ela retornou. Gabriela não tentou mais. Motivo?


Antes de Bruna voltar, Gabriela havia recebido, da maneira mais fria do mundo, um pedido de divórcio.


Se recusou a assinar. Destruiu o documento. Quando Bruna a procurou, evitou falar com ela. Se era isso que ela queria, não iria ouvir. Mas houve uma noite em que Gabriela bebeu demais e acabou batendo na porta dela, querendo conversar. E Bruna estava tão diferente. Bonita, forte, saudável de novo. Foi a última conversa tranquila que tiveram por muito tempo. Gabriela não lembrava exatamente o que havia dito. Só lembrava de Bruna a colocando na cama, do mesmo jeito que fazia quando ainda eram... felizes.


— Como a gente pode terminar assim? — Ela perguntou.

— Está verbalizando isso? É o término?

— É o término, Gabriela.

— Eu queria conversar, Bru.

— Bêbada? Não. É o fim aqui. Você não quer assinar o divórcio, mas isso não muda o que aconteceu. A gente termina aqui. 




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