Vulnerável 37
- Riesa Editora

- 12 de jun.
- 18 min de leitura

Olhe Para Mim Devagar
Rio de Janeiro, tempo atual.
A chuva seguia caindo muito forte.
O mar agitado podia ser visto pelas portas de vidro da varanda, e Bruna tinha decidido pelo banho, enquanto Gabriela fazia algo para jantar. Havia um livro na estante delas que não era oficialmente um livro. Bem, era, porque Bruna havia entrado em contato com a autora em uma plataforma da internet e contado que aquela fic era uma das histórias preferidas de sua namorada e que gostaria de dar de presente para ela em formato de livro impresso.
Chamava-se “Olhe Para Mim Devagar” e contava a história de uma ninfa cega, isolada em uma montanha, que foi parar ali por proteção. Era muito bonita e observada o tempo inteiro. A mãe, uma deusa de classe menor, criou um pequeno paraíso onde a filha poderia viver, distante dos olhares cobiçadores dos quais ela não conseguia se defender. Mas, um dia, ela se afastou do seu pequeno paraíso e, quando estava perigosamente caminhando junto a uma queda mortal, acabou esbarrando em Medusa, aquela das serpentes, a que tornava pedra qualquer um que ousasse olhar para ela.
Uma história sobre o poder dos olhares. Medusa era punida por ser vista, foi amaldiçoada por ser bonita demais, condenada a um ato de violência depois do outro, e o abuso a tornou um monstro que petrificava quem quer que olhasse para ela. Mas a mulher cega não podia vê-la. Ou melhor, podia, podia ver a sua essência em vez da imagem, podia amar além da aparência, construir intimidade sem julgamento, podia...
Existir perto de Medusa sem destruí-la ou ser destruída por ela.
Gabriela ensinou a Bruna que essa última capacidade se chamava “segurança emocional”.
E era muito, mas muito comum que Bruna se sentisse Medusa, com todas as serpentes na sua cabeça, enquanto Gabriela não via nenhuma. Apenas a achava a mulher mais perfeita do mundo.
Nunca soube lidar com isso. E, quando uma das serpentes se tornou um monstro enorme, soube menos ainda.
Aquele vídeo era a sua maior serpente.
Saiu do banho, se vestiu e, quando voltou para a sala, um cheiro delicioso de comida quente e saborosa temperava o ar.
— É um molho?
— É manteiga de alho, na verdade. Vem aqui, Bru, vem comer.
Bruna foi até ela na cozinha e a beijou antes de qualquer coisa.
— Você... achou o seu livro da Medusa.
Gabriela sorriu. O livro estava em cima do sofá.
— Achei. Essa capa ficou tão linda, a diagramação. A gente devia patrocinar esse livro, sabia?
Sorriso de Bruna, já se sentando à bancada da cozinha. O prato estava lindo e cheirava muito bem.
— A gente devia, não é? Vamos abrir um selo editorial nas nossas empresas.
— Eu não discordo em nada dessa ideia, linda. E nem estou brincando. Somos duas leitoras, você e eu. E agora tem todas aquelas meninas fazendo histórias nossas no Wattpad.
Bruna riu novamente. Agora estava ficando mais relaxada.
— Você já leu alguma?
— Umas dez! Li as que estavam em alta. A maioria delas sempre começa falando sobre a gente morar de frente uma para a outra.
Bruna provou o macarrão. Estava delicioso.
— É que isso foi bem apaixonado da sua parte — Disse, cruzando aqueles olhos lindos.
— E obsessivo, desesperado, meio descontrolado.
— A receita para um romance sáfico viral. Sabe que... — Bruna apertou os lábios — era horrível chegar e ver a sua luz ligada. Eu sempre queria te dizer que não era o que parecia. Que eu não estava chegando tarde porque estava em balada, saindo com alguém. Eu só estava recuperando a minha influência, indo ao máximo de eventos que conseguia. A primeira vez que fiquei com alguém depois de você foi há dez meses.
Gabriela estava esquentando o seu chá. Colocou na xícara e se sentou do outro lado da bancada. A luz amarela evidenciava os machucados do seu rosto.
— Foi o irmão da Gio.
— Foi ele. Eu só... sentia que precisava me mover. A gente terminou de uma maneira tão estranha. Tão inacabada. Eu me sentia presa na nossa história.
— É porque a gente não terminou de verdade, Bru. Eu não fui embora aquela noite achando que estávamos terminadas. Eu realmente fui e voltei pra gente conversar.
— Eu sei que você saiu pensando isso. E não era o que eu precisava. Não precisava conversar mais, eu precisava de ação. Quando as coisas aconteceram e você estava em Paris, eu te bloqueei de tudo porque não queria mais conversar. Eu queria você em casa. Eu precisava de você em casa.
Gabriela a olhava. Os olhos quebrados. Não disse nada, deixou que ela continuasse falando.
— Eu me senti tão mal quando aquele vídeo surgiu. Nas primeiras horas, eu não entendia o que havia acontecido. Nas horas seguintes, tive certeza de que tinha sido você, mas isso era porque eu estava com raiva. Era muita vergonha. O meu @ é Bem Indecente porque é uma ironia. Uma capa que eu usava para irritar as pessoas que me acusavam disso. Mas, depois que o vídeo surgiu, isso se voltou contra mim. O vídeo era quase uma constatação de que as acusações eram reais. E eu acreditava mesmo que ter você do meu lado era a única coisa que podia servir de antídoto para esse sentimento tão ruim.
— Mas eu não estava lá — Gabriela admitiu, com os olhos baixos — Sei que falhei nisso.
Bruna comeu mais do macarrão. Então, olhou para ela novamente.
— Por que você não voltou logo? Sei que o contrato era importante, mas você demorou além da sessão de fotos.
— Eu não sabia como te encarar. Fiquei com medo, não sabia explicar como aquilo aconteceu. A Débora colocou isso na minha cabeça. Agora que sei que foi ela, aquele comportamento faz todo sentido. Era o que ela queria. Me deixar mal com você. Eu não soube me defender disso, não soube como lidar com a situação.
— Eu também não fui clara com você em nenhum momento. Eu era a Medusa, vendo tudo, e você, a mulher cega, tentando entender o que eu precisava com os sentidos que tinha disponíveis. Acho que... eu tinha medo de que você me dissesse que aquilo te envergonhava. Temia que a gente nunca pudesse ficar junto de verdade por causa do vídeo. Na verdade, acho que temia isso desde o começo. Temia que a gente nunca pudesse viver fora da bolha. Que você nunca tomasse atitudes para isso. Que a sua família interferisse para sempre. Naquele momento, a gente tinha três anos de relacionamento e se conhecia há seis. Andamos muito e muito pouco ao mesmo tempo. Você nunca esteve parada, mas a gente também não saía do mesmo lugar.
Gabriela tomou um gole do seu chá, soltou longamente a respiração.
— A gente casou, morou junto, abriu as empresas, existia um movimento. Mas a ideia do movimento também era falsa porque eu não conseguia assumir tudo. Ficava presa entre a vida pública e a minha família. Eu não sabia do que você precisava, mas, no fim, era só disso. Da sua esposa em casa com você, todos os dias. Não era muito, era o mínimo. E eu sei que isso te machucou muito. Tanto quanto me machucava ver você chegando de madrugada, sem saber se... — a garganta de Gabriela fechou — já tinha acontecido. Se você já tinha encontrado outra pessoa para ocupar o meu lugar. Lembra quando a gente parou mesmo de se falar?
— Isso foi bem antes, Gab. Acho que paramos de nos falar de verdade quando comprei o apartamento e você não se mudou comigo. Aquilo me feria muito, mas eu não verbalizava. Eu só deixava pra lá. Esperava que você notasse. Mas sei de que período você está falando. A gente se falava indiretamente. Lembro de quando você mandou a chave do seu apartamento dentro de um envelope, com um bilhete, explicando que eu poderia buscar o Bartolo quando quisesse, sem que a gente tivesse que se encontrar. Você achava que era isso que eu queria. E, por um tempo, acho que eu quis mesmo isso, para ver se te esquecia. Mas respondi à sua carta com uma cópia da minha chave.
Gabriela sorriu de imediato.
— Fiquei tão feliz, Bru. Ando com aquela cópia na carteira até hoje, sabia? Achava que, em algum momento, a gente poderia se esbarrar, as duas calmas, para uma conversa civilizada. Mas isso não aconteceu. A gente não se aproximava e, quando acontecia por algum motivo, não se entendia.
— Gabriela, você dava escândalo em cada festa em que a gente se encontrava — Bruna disse, sabendo que ela ia rir.
— Você era casada, não tinha que estar sozinha em festas por aí como se fosse solteira, Bruna Ribeiro de Habren.
— Mas tentei me separar direitinho, viu?
— E eu rasgaria dez documentos de divórcio se fosse preciso. E não era um traço tóxico, eu só acreditava que a gente tinha mesmo que conversar. Eu não queria desistir de nós duas, mesmo tudo sendo tão difícil. Não queria você andando pra longe da nossa relação. A gente se ama muito, não é?
Bruna sentiu as lágrimas virem. Comeu mais macarrão, tomou um pouco de água.
— A gente se ama pra caramba. E eu não quero um anúncio de relação, Gab, eu só quero... ir ao supermercado com você. Ir para eventos e ficar junto. Não quero ficar ansiosa achando que vou cruzar com a sua família e que isso vai ser ruim. E eu não quero que você se afaste da sua família de jeito nenhum. Eu não teria me casado com alguém que não liga pra família, não faz parte da minha personalidade. Eu só quero coexistir com você nos mesmos lugares. Mas tenho essa síndrome de vira-lata. Tenho medo de que... — engoliu, apertou os lábios, os músculos do corpo inteiro retraíram por um instante — eu só seja suficiente para você dentro de quatro paredes.
— Meu amor, nunca! — Gabriela agarrou a mão dela sobre a mesa — Eu nunca quis transferir pra você o meu próprio medo de abandono. Mas, no fim, acabei te abandonando num momento muito delicado sem sequer perceber. Eu nunca tive vergonha de você nem por um segundo. Já tive muita vergonha de mim mesma. Por ser lenta, fraca, ficar cedendo quando eu não deveria ceder. Me envergonho de ter deixado você levar sozinha todo o cancelamento que esse vídeo causou. Fui muito covarde nisso.
— Mas eu nunca quis que você assumisse nada comigo. Ainda agora, eu não quero que ninguém saiba que é você no vídeo, Gab.
— Você sempre tenta me proteger — Gabriela tocou o rosto dela.
— Eu sempre vou te proteger. Porque, se fosse o contrário, era o que você faria. Amor, eu... — Bruna apertou os lábios, olhando para a mesa por alguns instantes.
— O quê?
Bruna a olhou.
— Envergonhei você na casa?
Gabriela alcançou a mão dela sobre a mesa.
— Bru, eu nunca tive nem um segundo de vergonha de você. Sei que está perguntando por causa do meu voto e das nossas brigas lá dentro, mas eu só queria preservar a gente. Tentei sair porque achava que, se eu saísse, você iria ficar mais relaxada. Não deu certo. A gente brigava, dormia junto, se pegava sem ninguém ver. Brigava de novo. Eu sentia ciúmes. Éramos uma bomba-relógio na frente de dezenas de câmeras. Foi só por isso. E, porque entendi que, lá dentro, a gente não ia resolver nada de qualquer maneira. Não tive vergonha de você, mas estava morrendo de ciúmes, tesão e saudade. Eu ia acabar morrendo de verdade — Disse, fazendo Bruna rir um pouco.
Riu, levantou-se e deu a volta no balcão. Levou seu prato junto, sentou-se no colo de sua esposa, que a guardou nos braços imediatamente, achando conforto instantâneo.
Era tão bom.
— Eu ia entrar em depressão para sempre se você me deixasse viúva — Bruna passou a comer no colo dela, o lugar mais aconchegado do mundo.
— Você entende, meu amor? Foi um ato de desespero. E vamos cuidar desse vídeo de uma vez. Amanhã, a equipe da Débora vai despachar notificações extrajudiciais baseadas em um artigo que condena a divulgação de cena de sexo ou nudez sem consentimento. Ela vai fazer isso sumir. E, depois disso, se você quiser, pode processá-la por danos morais e materiais. Além de todo o buraco mental causado, você perdeu muito dinheiro nessa história toda.
— Gab, eu não quero processar a sua mãe — Disse, pegando outra garfada de macarrão — Se ela realmente conseguir sumir com esse vídeo, vai ser mais do que suficiente. Eu só quero me ver livre desse pesadelo. E quero... — virou-se no colo dela, para olhar nos olhos do amor da sua vida — me sentir casada com você de verdade. Fico dizendo que sou forte, mas preciso tanto da sua proteção.
Gabriela a apertou nos braços ainda mais.
— Ainda bem que precisa. E eu não vou falhar dessa vez, linda. Eu prometo. Você me perdoa por tudo o que eu causei?
Bruna se cobriu com os braços dela ainda mais.
— Claro que sim. Você me perdoa por tudo o que causei também?
— Eu não quero lembrar dessas coisas nunca mais, Bru. Podemos enterrar? As nossas brigas sem sentido, os desconfortos que a gente se causou?
— Podemos prometer que essa é a última vez que falamos disso? — Bruna a olhou com carinho.
— Amor, não tem mais nada que você queira me perguntar?
Bruna pensou um pouco.
— Por que, naquela noite em que a gente transou no carro, você me disse que não era o que você queria?
— Porque não era. Éramos casadas, Bru, não fazia mais sentido a gente transar escondido, como se fosse proibido. Você achou que fosse pelo quê?
— Acho que... eu estava no meu viés de confirmação de que tudo o que você fazia naquele momento era para reforçar que você me considerava uma vadia. E isso doía. Eu estava me causando dor. Gab, o que você estava tentando fazer quando estava adiando se mudar?
Gabriela pensou um instante.
— Um milagre, eu acho. Estava desejando uma forma mágica de fazer isso sem irritar a minha mãe, porque ela irritada interferia ainda mais entre nós duas. Ela ficou louca quando soube do casamento. Acho que foi aí que perdeu a cabeça e fez esse absurdo. E tinha medo de perder influência. Medo de perder a forma como eu ajudava a sustentar a minha família.
Ficaram em silêncio por um tempo. Bruna terminou de jantar, Gabriela encheu duas canecas de chá e foram para o sofá, deitar muito juntas. A chuva continuava caindo.
— Gab, por que você decidiu entrar no programa?
Gabriela beijou os braços dela ao seu redor. Estava deitada no peito de Bruna, com o rosto enfiado ali.
— Eu queria controlar a minha narrativa. A gente tinha se separado porque a minha mãe controlava tudo, eu sabia disso antes mesmo de saber sobre o vídeo. Eu não sabia o que ia acontecer lá dentro e nem como eu poderia contar o que precisava de uma maneira que não pudesse mais ser recontado, mas eu tinha um pressentimento de que conseguiria. Achava que, lá, você me assistiria. E entenderia que eu ainda me sentia casada, que queria a gente de volta. Por isso levei coisas que só você saberia o real significado. Tentei falar com você de outras maneiras, pelo meu conteúdo, mas não funcionou. Talvez, se eu deixasse claro, você notasse. Me ouvisse. Mas saí ainda me sentindo uma covarde, porque não deixei nada claro no final.
Bruna a apertou nos braços.
— Meu amor, a gente tem um fandom inteiro porque você deixou tudo claro. Você fez isso. Do seu jeito, de maneira inteligente, que me fez entender tudo. Sabe o título ali da sua fanfic preferida? — O livro estava sobre a mesinha de centro — É você comigo. Acho que, quando nos conhecemos, você decidiu por isso, decidiu por me olhar devagar, porque assim conseguiria me ver de verdade. Ninguém me vê como você. E eu não quero perder isso nunca, Gab. Mesmo com as minhas quedas, você segue... me olhando igual.
— Porque você nunca me olhou diferente durante as minhas quedas. A gente pode ser vulnerável uma com a outra, acho que a gente se ama assim. Apesar das falhas. Mas sei que cheguei ao meu limite de falhas também, eu não vou falhar dessa vez, Bru.
Sorriso de Bruna. E se agarrou nela todinha, com braços, pernas, apertando-a, cheirando-a, beijando-a sem parar.
— Bruna! — Gabriela se arrepiou inteira.
— Eu te amo. Assunto enterrado. Não vai voltar nunca mais. Daqui pra frente, eu só quero brigar por motivos novos, Gabriela Habren.
Gabriela se virou para ela e a beijou. Muito gostoso, um beijo que pedia mais, que indicava mais.
— Você está machucada, meu amor.
Gabriela se sentou no abdômen dela. Tirou a própria blusa, estava sem nada por baixo, o que fez Bruna morder os lábios.
— Não houve uma única vez — Gabriela começou, correndo a mão por baixo da camiseta de Bruna, tirando-a bem devagar — em que a gente tenha feito amor — desceu do colo dela por um segundo, livrou-se da calça moletom que vestia e se encaixou nela de novo, sentindo os braços de sua esposa se enroscando em seus quadris — e eu não tenha me sentido melhor.
Gabriela beijou a boca dela, sentindo aquelas mãos quentes dedilhando a sua pele.
— Mesmo quando foi com raiva. Mesmo quando você dizia que me odiava. Eu amo você, Bru. Amo as suas mãos. Amo a forma como você existe em mim. Ninguém nunca existiu em mim assim. Só você.
Bruna beijou a boca dela, apertando-a contra o seu colo, sentindo o cheiro de sua garota, a pele dela contra a sua. A boca desceu para entre os seios, grudando-a contra o seu corpo, enquanto, bem firmemente, rasgou as laterais daquela calcinha minúscula que Gabriela usava de uma vez só, com precisão, fazendo-a estremecer de tesão.
— Bru...
— Você é linda — Bruna disse, olhando-a de baixo para cima, até os olhos — Parece uma pintura. Vamos morar juntas de novo. E eu vou... — Colocou a boca naquele ombro que adorava morder e, suavemente, escorregou dois dedos para dentro dela, fazendo Gabriela se derreter contra o seu toque num gemido — Endeusar você diariamente. Do jeito que essa mulher, que me ama dessa maneira completamente louca, merece.
Gabriela beijou a boca dela enquanto se movia por aqueles dedos, enquanto ouvia a chuva caindo lá fora e sentia a gostosa com quem tinha se casado dominando o seu corpo como sempre soube fazer.
Era tudo o que queria. A única coisa que precisava. Ter a sua Bruna verdadeiramente de volta.
Fizeram amor no sofá, de maneira densa, intensa. O corpo de uma extremamente sensível ao da outra, o desejo entrando na pele, consumindo qualquer distância que ainda existisse entre elas.
Bruna a fez gozar, e Gabriela a puxou para o chão, para o tapete, porque a queria de quatro, a queria ampla e sua, queria fazer com ela sem nenhum pudor, porque a cama crua delas era exatamente assim.
E, quando a fez gozar naquela posição, contra a sua boca...
Sorriu, porque aquilo tinha gosto da cama delas.
Não saíram da sala, não conseguiam se soltar. Gabriela estava machucada, mas tudo desapareceu. Elas só queriam ficar juntas, só queriam sentir uma à outra, e foi assim que, às seis da manhã, quando o sol começou a raiar, estavam na cozinha, fazendo macarrão de novo, usando o resto da manteiga de alho. E nenhuma das duas conseguia parar de sorrir. Os olhos acesos, as pupilas dilatadas, ambas apenas de lingerie, enquanto comiam macarrão no chão da sala, assistindo ao sol nascer.
— A gente pode não alugar mais esse apartamento, linda? — Gabriela perguntou.
— Por quê, meu amor?
— Porque a gente pode morar aqui também. Podemos alugar o meu em São Paulo se esse aluguel aqui for importante. Tem muita coisa nossa aqui, Bru. Meu livro da Medusa está aqui.
Bruna sorriu.
— Eu odiava alugar aqui, sabia? Fora que... — outra garfada de macarrão — acho que vamos ter mais trabalho aqui no Rio também.
— E ficamos perto da sua família. Prefiro a sua família à minha — Gabriela disse, fazendo Bruna rir.
— Eu sei! Esposa, como acha que a minha avó vai reagir? Ela te adora, mas não sei como vê uma relação entre duas mulheres. Nunca falamos disso.
— A minha avó vai fingir que eu não existo mais, mas a sua... acho que ela vai gostar de me ter na família. Meu amor, você tem que ir para São Paulo?
— Tenho, linda. Mas vou dar um jeito de passar o final de semana aqui. Espera, agora acho que a gente precisa de café!
Bruna foi para a cozinha fazer café e queijo-quente. Elas estavam esfomeadas e grudadas, e Gabriela não conseguia se soltar dela nem um pouco.
— Gab, tem um evento, uma corrida de Porsche, não tem?
— Tem sim.
— Você gostaria de correr nela?
Gabriela a olhou nos olhos.
— Meu amor, na Porsche Cup?
— Isso, você quer correr nela? Eu tenho um contato.
— Bruna, como assim você tem um contato na Porsche Cup?! Com quem você não tem contato, sabe? Eu ainda me surpreendo! Acha que eles me cogitariam?
Bruna sorriu.
— Linda desse jeito e correndo como você corre? Estou pronta para ser esposa de piloto. Vou ver isso pra você — Olhou para o celular, com mensagens entrando — É a Débora.
— A Débora...?
— Dizendo que está assinando as minhas notificações extrajudiciais. Isso... isso tem um peso, Gab. Eu não esperava que ela mesma fosse assinar.
— Eu também não. Bem, isso é algo novo.
— Muito novo. Ok, quando você precisa voltar ao médico para ver o seu nariz? — Bruna tocou o rosto dela.
— Na segunda. E a emissora me deu sete dias de afastamento, mas quer que eu faça um vídeo explicando o que aconteceu. Apesar da chuva de cancelamento, ainda tem gente preocupada comigo.
— Claro que tem. Inclusive, a sua esposinha aqui, que vai sim para São Paulo, mas volta para dormir com você.
— Jura? — O rosto de Gabriela se abriu num sorriso enorme.
— Juro! Eu venho, hum? Vou tentar organizar agendas em home office para ficar por aqui mais tempo — Bruna a beijou na boca, já terminando o seu pão e o seu café — Meu amor, compra uma passagem pra mim? Vou tomar banho, preciso daquele voo das dez, ok?
— Amo quando você manda em mim!
— Gabriela, você deixa de ser boba!
Bruna correu para o banho e Gabriela comprou uma passagem para sua esposa. E quando ela recebeu aquela passagem no WhatsApp...
Saiu do quarto imediatamente, estava quase pronta.
— Gab, você comprou no meu nome de casada!
— Claro que sim! Tudo o que eu for comprar vai ser no seu nome de casada. E eu quero ter um nome de casada também.
— Mas...
— E vou ter! Quero me chamar Gabriela Ribeiro de Habren.
— O nome de herdeira da sua mãe você não quer trocar, né?
Gabriela riu.
— Eu gosto do nome.
— Você gosta mesmo é de ser herdeira, old money, esposa-troféu.
— Você que não me deixa ser esposa-troféu, eu seria FELIZ da vida, viu?
— Não vai ser mesmo. Gab, você vai assumir a obra dos meus escritórios.
— Ah, eu vou?
— Vai! Porque esse projeto não anda nunca. Vou pedir para a Júlia te enviar tudo sobre ele. Preciso ir, meu amor — Bruna já estava prontíssima — Vou de Uber. Você se cuida? Volto bem rápido, prometo.
Os olhos de Gabriela brilhavam de um jeito quase infantil.
— Se cuida muito. Eu te amo. Vou fazer tudo certo dessa vez.
Bruna apenas acreditava nela.
Correu para o aeroporto e Gabriela...
Tomou banho e saiu de Porsche. Bruna iria matá-la se soubesse, mas tinha uma coisa que precisava fazer e que não podia mais esperar.
Já tinha esperado demais.
Foi um dia bem longo e cansativo. Mas, quando o entardecer caiu, Gabriela estava exatamente onde queria estar. O apartamento estava cheio de caixas. Havia sacolas de mercado espalhadas pela cozinha. E tinha decidido fazer uma receita.
Havia comprado potes herméticos, acelga, nabos, gengibre. Uma pimenta especial. E decidiu preparar kimchi enquanto gravava um vídeo.
— Vem preparar kimchi coreano comigo enquanto explico o que aconteceu com o meu rosto — Disse, bem-humorada, de camiseta do Milan e boné — Acho que só quem me acompanha há muito tempo deve saber que sou piloto desde pequena. Comecei a correr com sete anos e nunca mais parei. Essa é só uma das coisas que sou, gosto de ser e amo, e tenho deixado de fora das redes por algum motivo. Comida coreana é outra coisa de que gosto e kimchi, especificamente, é um dos acompanhamentos preferidos da Bruna — Contou como se fosse algo comum, nada fora do extraordinário — Com caldo vermelho e tofu, vira praticamente uma refeição. Voltando ao motivo do meu rosto estar assim, eu sofri um acidente de kart durante uma filmagem. Nada muito grave, mas não vou poder gravar conteúdos por uns dias.
Parou, ajustando a câmera por um instante e, então, passou a preparar as folhas de acelga.
— O kimchi é um alimento que precisa de paciência. A gente prepara a acelga, passa sal dos dois lados, faz uma pilha, deixa descansar por quatro horas. Depois disso, precisa lavar bem, tirar o excesso de sal, arrumar em um pote com nabo, pimenta e gengibre ralado. O pote fechado precisa de 24 horas para estar pronto. Eu sempre gostei de comidas que demandam tempo. Tempo é sinônimo de intenção.
Deu uma olhadinha. Havia começado com mil pessoas assistindo, agora tinha mais de trinta mil.
— Quando algo leva tempo, a gente não consome de qualquer jeito, a gente aprecia e cuida. Mas isso é diferente de ter tanto cuidado que se perde o momento certo. E acho que quase fiz isso no relacionamento mais importante que já tive na minha vida. Deixei o meu kimchi precioso guardadinho no pote por tempo demais e quase perdi. Entendo todo mundo que está me acusando de não ter sido autêntica, eu consigo entender. Mas queria ressaltar que tudo o que foi visto de mim foi real. Só que existia uma grande parte minha que eu não sabia como mostrar. Bem, vocês lembram da 3x4?
Gabriela pegou seu celular pessoal e tirou a foto da capinha. Não disse nada, só mostrou para a câmera rapidinho, o que causou um alvoroço enorme no chat.
— Ela me deu outra e, dessa vez, eu não vou perder. Ninguém devia ficar linda desse jeito numa foto de passaporte. Então, para quem ainda se identifica comigo e consegue enxergar verdade em mim: meu nome é Gabriela Habren, eu sou modelo, piloto e arquiteta. Tenho vinte e seis anos e sou casada desde os vinte e dois. O meu casamento entrou em hiato, mas deu tempo de salvar o meu kimchi. Estou bem, estou feliz e, assim que meu rosto estiver melhor, volto com novidades. Ainda tem muita coisa a vir pela frente. Descobri que a vida é bem melhor quando a gente está feliz.
E, desse jeito, ela encerrou a live para quase um milhão de pessoas.
Quando Bruna chegou naquela noite, um cheiro delicioso temperava o ar do seu apartamento, que estava cheio de caixas.
— Gabriela! Você fez live, você mostrou a minha 3×4 na live!
— E está todo mundo concordando que essa é a foto de passaporte mais atraente que alguém já tirou.
— Gab, e essas caixas todas?
— Hum, é a minha mudança.
— A sua...?
— Mudei do Airbnb pra cá. Estou fazendo aquela focaccia que você gosta.
Bruna estava toda perdida no seu próprio apartamento. Andou até ela.
— Amor, você disse que é casada!
— O que é verdade, ué.
— E disse que... sou o seu kimchi.
Gabriela sorriu daquele jeito lindo.
— Você é, meu amor — E, olhando Bruna nos olhos, beijou a boca dela — Eu disse que queria começar a ser feliz hoje. Estou bem feliz. Agora, só preciso te fazer feliz. Então, fiz focaccia, tiramisù de sobremesa, tem salada verde bem fresca, suco de abacaxi. Ah! Abri um espaço na sala, está vendo? A gente vai começar uma série e você vai me contar como foi o seu dia. Por ora, pode me dizer se ele foi melhor do que ontem?
Os olhos de Bruna estavam cheios.
— Muito melhor, meu amor. Muito melhor. Me abraça, Gab.
Gabriela a abraçou. Por quanto tempo ela quisesse, precisasse.
Aquela era a sua casa. E dali, nunca mais se mudaria.





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