Vulnerável 38
- Riesa Editora

- há 2 dias
- 17 min de leitura

Canceladas
Quando o dia seguinte amanheceu, a vida já era outra.
Gabriela havia feito aquela live curtinha, explicando o seu acidente, ensinando a fazer kimchi, na qual havia mostrado a 3×4 de Bruna, informado que era casada e colocado o celular em modo avião, porque agora ia fazer o jantar de sua esposinha e escolher uma série para elas assistirem juntas.
Bruna estava voando enquanto Gabriela fazia a live e, quando pousou, seu celular quase explodiu de notificações. Entendeu o que era, ficou nervosa, mas chegou e tinha jantar, Netflix, caixas de mudança, sua esposa perfeita cuidando de tudo e só...
Deixou para o dia seguinte. Celular no modo avião também.
Então, amanheceu e o mundo parecia totalmente diferente.
— Eu tenho dez milhões de seguidores, Bru — Gabriela estava chocada, ainda na cama, vendo seus números — De onde veio essa gente toda aqui?
— Ah, linda, foi você anunciando que somos casadas! Gab, a gente tinha uma bolha; com a sua live, fomos para outras bolhas. Ganhei muitos seguidores de ontem pra hoje também, tem um monte de gringas me seguindo — Bruna estava de pé, escovando os dentes, olhando as redes. O quarto cheio de luz natural. Elas haviam dormido tão agarradas na cama que nem sabiam, só era muito bom — Hum, estava faltando! As acusações de ser um relacionamento falso.
— Mas isso a gente já sabia. Bru, acho que meu perfil está saindo do limbo. Perdi muitos seguidores, mas ganhei muitos também. A Flávia está ligando.
— Ela deve estar desesperada, atende ela, amor.
Estava mesmo. Mas desesperada de uma maneira positiva.
— Mas tudo isso de ontem pra hoje, Flávia?
— Essas coisas são muito rápidas, Gab, as marcas ficam atentas a quem está em alta. Se você olhar no e-mail, já tem muita coisa lá. Separei alguns contatos na DM também. Tem pedidos de entrevista, mas acho que, com isso, você tem que ir com calma. Ontem, a Bruna me passou um contato com a Porsche Cup e eles acabaram de responder. Você tem um convite para fazer um teste de equipe.
— É sério?! — Gabriela sorriu grande demais.
— Muito. Nunca pensei que estaria negociando uma corrida pra você, mas aqui estamos. Aliás, chegaram propostas que nunca tivemos antes. Tem uma marca de energéticos querendo contato, um aplicativo de performance, uma marca esportiva demonstrou interesse e eu acho que... tudo isso se parece com você.
Mas os números de unfollow subiam de maneira assustadora. Os vídeos de influenciadores contra Gabriela bateriam recordes até o final do dia e aquilo era muito diferente.
— É como um cancelamento e um descancelamento, tudo ao mesmo tempo. Você está perdendo seguidores e ganhando na mesma proporção — Dara estava analisando as redes dela mais tarde, depois que Bruna partiu para o aeroporto mais uma vez — Nem a Bruna conseguiu algo assim. Acontece de alguém ser cancelado e começar a receber apoio, mas eu nunca vi tudo acontecer na mesma proporção. E a sua mãe, hein? A distribuição de notificações extrajudiciais está funcionando demais. E olha que a gente tentou isso antes, Gab.
— E não deu certo na época, não é?
— Não deu. E acho que está dando agora pelo peso do sobrenome. A família do seu pai é de empresários, mas a da sua mãe é de advogados há... duzentos anos?
Gabriela riu.
— É mais ou menos isso. Só a minha avó furou a linha para se tornar atriz. Mas ela tem formação também. A circulação do vídeo parou?
— Já tem uma redução muito grande.
— A Débora disse que é bem mais fácil quando o ato configura crime claramente. Se ela entrar com ação, é causa ganha. Só não entendo por que não funcionou antes, Dara.
— Da primeira vez, o efeito manada foi muito grande. Agora não. É pontual, tem tudo isso. Gab, você está tranquila com tudo o que está acontecendo...?
Gabriela a olhou. Estava tirando suas coisas das caixas, encontrando lugar para elas pela casa.
— Muito tranquila. É como se tudo o que me pressionava tivesse desaparecido. Meu irmão me mandou flores, você viu? Me pediu desculpas. Acho que nunca vivi isso antes.
— Você ficava entre a sua família e a Bruna, né?
— Mais do que isso: eu ficava entre a minha família e eu mesma. Agora só posso ser uma.
O alívio era tão real que dava mesmo para ser visto nos olhos dela.

Quando Bruna desembarcou em São Paulo, tinha muita, mas muita gente esperando.
Júlia foi buscá-la e, com toda certeza, nenhum momento da sua trajetória como celebridade havia sido tão intenso. Foi fotografada, tirou fotos com pessoas, foi cercada por câmeras profissionais e a pergunta dos blogueiros de plantão era uma só:
— É que tudo isso parece muito uma fanfic, Bruna.
Ela parou. Estava de jeans, top longo marrom, terninho, os cabelos presos num rabo de cavalo, óculos escuros no rosto.
— Acham que a história é inventada?
— É que é bem conveniente! Historicamente, o público LGBT apoia muito. Você estava meio cancelada e a Gabriela, muito cancelada.
— Entendi, entendi — Bruna mexeu na bolsa e pegou seu passaporte — Você está filmando?
— Estou sim.
— Ótimo. Primeiro, isso aqui é um passaporte italiano, certo?
— O passaporte vermelho!
— Esse mesmo. E está carimbado, mostra aqui os carimbos. Parece verídico?
— Muito.
— Ok. Uma informação extra: do meu bisavô até mim, todos somos brasileiros na minha família. Do bisavô para trás, eu nem tenho informação.
— Nenhum parente europeu?
— Nenhum, menino. Mas olha aqui — Buscou a página com a sua foto, mostrou — Sou eu, certo?
— A famosa foto 3x4!
— Ficou famosa, né? Agora, espera um pouco — Bruna tampou o número de identificação do passaporte — Que nome está aqui?
Ele leu. Sorriu.
— É sério?
— Nome de casada. Bruna Ribeiro de Habren. Daí, você pode olhar a data de emissão — Buscou a data, cobriu as informações extras — Três anos atrás.
Era assim que se deixava a imprensa sem palavras.
— Aprendi esses dias que é muito fácil ganhar processos quando a verdade é irrefutável. Então, aos fofoqueiros de plantão: cuidado com as acusações — Bruna voltou a se mover. Estava linda, muito estilosa, sorrindo.
— Então a casa foi uma farsa?
— Não, estávamos separadas, brigando sem parar. Mas nos resolvemos quando ela saiu.
— Mas ela te colocou no paredão, Bruna! Quem coloca a esposa no paredão?
— Eu sei! — Bruna acabou rindo. Parou outra vez — Olha, passamos por coisas piores e superamos. Nos reaproximamos na casa, estamos juntas de novo.
— E vocês, tipo, não se separaram nem nada?
— O casamento nunca se desfez, cara. Mas era complicado vir a público. Porém, no reality, o público veio até a gente. Podem dizer o que quiserem, eu vou continuar trabalhando, a Gabriela também, e a coisa mais simples que existe é viver com verdades. Essa é a nossa verdade, e vocês não precisam ter pressa para nos ver, porque pretendo que meu casamento siga muito bem e saudável por tempo indeterminado.
Lidar com a verdade era a coisa mais fácil do mundo.
Tudo mudou daquele dia pra frente mesmo. O final de semana chegou e, quando Bruna voltou para o seu apartamento no Rio, as coisas de Gabriela já estavam perfeitamente encaixadas nas suas. Agora tinha o violão dela na sala e as camisetas de time de futebol que ela gostava de colecionar. Os shorts de Muay Thai disputavam espaço com os seus shortinhos de academia e tinha um saco de pancadas instalado na varanda.
— Gabriela!
— Esposa, olha o espaço que tem aqui! E você pode se sentar ali na mesinha de café, está vendo? Enquanto fico aqui, me exercitando.
Bruna a abraçava pela cintura. Era uma noite quente, ventava gostoso na varanda.
— Hum, entendi. Posso me sentar ali com o meu café enquanto você se exibe pra mim. Acho que gostei, sabia?
— Eu sei que gostou! Vem ver, coloquei mais livros na nossa biblioteca — Gabriela a puxou para dentro e mostrou a biblioteca bem mais cheia. Daí levou Bruna para o quarto, onde o armário agora estava lotado de roupas.
— Amor, mas você tem muita roupa!
— A maioria estava aqui no Rio. Tem duas malas que vão para São Paulo, não caberiam aqui. Mas sabe qual é a minha parte preferida?
Bruna não conseguia parar de sorrir.
— Qual?
— Entra aqui — Era no banheiro.
E o cheirinho de mel, argan e quinoa devidamente misturado a romã, hibisco e arroz...
— Ah, esse cheiro...!
— Não é cheirinho de Seul? De quando a gente nem tinha esses shampoos em escala industrial, ainda era você que fazia para nós duas — Gabriela a abraçava por trás — Sabe o que é bem incrível? Você colocou a sua fábrica de cosméticos de pé sozinha. A farmacêutica te perdeu para sempre. E a Fierce surgiu dos seus esforços. Eu nunca teria conseguido algo deste tamanho sozinha.
Bruna se enroscou nos braços dela, virando-se de frente.
— Às vezes, eu nem acredito. E agora tem mais coisas difíceis de acreditar, tipo, a gente retomou o nosso casamento e todo mundo sabe.
— Sabe! Você mostrou documentação e tudo.
— Mostrei — Bruna a olhou nos olhos — Mas sei que as coisas estão bem tensas na sua família.
— Sim. A reação das minhas tias foi péssima. Elas estão reunidas em assembleia para decidir o que vão fazer comigo. Você entende que a gente precisa gerar essas provas irrefutáveis? Ou a minha família ainda daria um jeito de negar. No dia em que conversamos, minha mãe falou da teoria da filha furiosa, a que quebra traumas geracionais. Acho que ela não notou que também é uma filha furiosa. Acho que ela também vivia dividida entre a família e ela mesma, e isso é muito cansativo. Bru, é muito, mas muito bom não dever nada a ninguém. Acho que ela está sentindo isso agora.
Bruna não poderia concordar mais.
Passaram o final de semana inteiro offline.
No apartamento, cozinhando uma para a outra, namorando, fazendo amor. Quando faziam uma pausa no namoro, assistiam a uma série. Entre uma refeição e outra, leram um livro juntas na confortável poltrona no meio da biblioteca. Gabriela gostava de ler com Bruna bem quentinha no seu colo, e Bruna gostava exatamente da mesma coisa: ficar agarrada na sua modelo, jogando no celular ou realmente lendo junto com ela. Era tão bom.
— Lembra que a gente ficava assim em Seul? — Gabriela perguntou, com Bruna toda agarrada no seu colo, sob a luz de leitura, cheirando os cabelos dela e fazendo carinho.
— Era tão bom. Quando comprei essa poltrona, eu imaginei isso aqui mil vezes, sabia? Mas não parecia possível.
— Mas você comprou mesmo assim, não é? — Gabriela tocou o rosto dela.
— Comprei.
— Pois foi por isso que comprei o apartamento em frente ao seu.
— Mas olha a diferença das compras, Gabriela!
Ela ria. E o dia estava anoitecendo pelas portas da varanda, e elas sequer haviam percebido.
Bruna cuidou, ela mesma, do rosto de sua esposa. Massagem, gelo, uma pomadinha que sabia que funcionava. Na segunda, quando voltaram ao médico, a fratura estava cicatrizando muito bem e o inchaço no rosto havia desaparecido. Os pontos arroxeados estavam cedendo, agora eram apenas avermelhados, e a pele estava extremamente hidratada.
A receita? Massagem, gelo, pomadinha de Bruna Ribeiro e muito amor.
Em altas doses.
Gabriela voltou a gravar naquela semana.
Bruna passaria a semana inteira em São Paulo e Dara ficou para ajudar na produção de conteúdos, para acompanhar Gabriela nos compromissos. A identidade visual do perfil estava sendo suavemente modificada e, com o rosto desinchado, ela voltou a gravar em tempo integral. As publis estavam se acumulando e, naquela semana, Gabriela sentiu que assinou um contrato novo por dia. As marcas estavam bem diferentes e muito variadas, e o ato de gravar em si não parecia um peso. Tudo fluía fácil.
E, na sexta, com apenas leves escoriações pelo rosto, Gabriela estava pronta para retomar os seus compromissos com a emissora do reality. Fez isso do exato ponto de onde havia parado.
Bruna voou de São Paulo e, para Gabriela, entrar naquele autódromo ao lado dela foi totalmente diferente da última vez. Chegaram de Porsche, juntas, e isso de forma nenhuma passou despercebido.
— Bruna, oi! — O apresentador veio até Bruna quando a viu logo na entrada do camarim — Eu não sabia que você vinha.
— Da última vez, ela voou pela pista, achei melhor checar de perto — Bruna respondeu, bem-humorada.
— Você podia gravar um pouco também, não é?
— Gravar...?
— Aproveitar que estão as duas aqui e explicar um pouco da história de vocês. O casamento está claro, mas as pessoas são curiosas.
Bruna pensou um pouco. E foi até Gabriela, que estava terminando a maquiagem. O macacão de corrida branco com detalhes pretos, a undershirt preta. Bruna lembrava o quanto havia ficado apavorada quando Gabriela explicou, com a maior calma do mundo, que aquela blusa por baixo do macacão era uma proteção antichamas. Os cabelos soltos e ela estava sorrindo, papeando com a equipe. Bruna se abaixou pertinho dela.
— Meu amor, o apresentador perguntou se posso participar. Ele disse que quer perguntar coisas sobre a gente. Mas sei que as redes estão instáveis ainda e que a sua família está bem furiosa.
— Quanto mais eles entenderem que isso não tem justificativa, mais rápido vão parar de se debater. Minha mãe está tranquila, sabia? Está mais estressada com o seu processo do que com esses problemas na família.
— Gab, a cara dela nem treme, né? Ela que vazou tudo e agora está processando o Google e as redes sociais por exporem o vídeo.
Gabriela riu.
— Débora Habren é exatamente este tipo.
Canceladas por canceladas, não faria mal mais uma entrevista.
Bruna se trocou. Jeans bonito, top longo, casaco amarelo icônico por cima, boné também amarelo e tudo da marca de Gabriela. Fez uma maquiagem rápida e logo estavam ambas caminhando pelo autódromo com o apresentador, enquanto ele fazia perguntas suaves e muito naturais sobre elas duas. Como se conheceram, por quanto tempo namoraram, quem pediu quem em namoro. Então perguntou sobre o tempo das duas na Ásia e na Oceania, o casamento na Itália e a separação no Brasil.
— A minha mãe falou esses dias comigo sobre traumas geracionais. É muito difícil a gente sair da fôrma e mudar a forma — Gabriela dizia enquanto eles conversavam nos boxes — Foi muito difícil pra mim entender algumas coisas e ter voz para outras. Bruna e eu nos separamos quando o meu prazo para resolver tudo isso expirou. Ainda está sendo difícil. Mas acho importante ressaltar também que todo amor condicionado não é confiável. Se a gente sente que só é amado pela família ou por qualquer pessoa por um motivo x, é bom colocar esse amor à prova.
Bruna ficou olhando para sua esposa por alguns segundos. Ainda não acreditava nas coisas que ela estava dizendo em voz alta, agora sem medo, confiante, certa do que estava fazendo.
Na segunda parte das gravações, Bruna apenas assistiu a Gabriela correndo de kart e foi INCRÍVEL.
Pelo medo que sentia cada vez que ela corria, não devia ficar tão empolgada ao assisti-la, mas a verdade é que amava aquela adrenalina. Amava torcer por ela, assisti-la fazendo manobras, feroz e confiante nas próprias habilidades. Gabriela fez cinco voltas, com zero problemas e, finalmente, estava apta a ir para São Paulo.
— As agendas estão todas lá, está vendo? Nos estúdios de lá — Ela contou, mostrando a agenda para Bruna, toda empolgada, ainda suada no macacão de piloto — E o teste da Porsche também é na outra semana. Vai ser em Interlagos, faz muito tempo que eu não corro lá.
Os olhos de Gabriela eram duas piscinas de brilho.
E, naquele domingo, elas arrumaram as coisas de que precisariam, pegaram o Porsche e partiram para São Paulo.
— Ainda estamos canceladas? — Gabriela perguntou, já pegando a estrada enquanto Bruna checava as redes sociais das duas. Ela fazia isso todos os dias.
— Estamos, mas menos que ontem. E propostas seguem chegando. Sabe o que é engraçado? Sou CASADA com uma mulher e ainda estou recebendo essas acusações de pink money, olha, sinceramente. Mas... — mexeu no celular — offline, meu amor, vamos curtir a nossa estrada!
Pegar estrada juntas sempre seria mágico. Era algo que nunca haviam parado de fazer. As idas para Ilhabela eram constantes e, quando moraram fora, fizeram tantas viagens de carro que nem sabiam. Tinha o jeito delas duas. Colocaram uma playlist, foram cantando, conversando, vendo a paisagem. E, quando se aproximaram de um lugar especial...
— Gab, Gab, Gab! Esposa, eu quero comer ali!
Era a lanchonete onde sempre comiam quando iam para Ilhabela. E Gabriela teve que pegar um retorno, gastar mais alguns km, mas não fazia mal nenhum. Parou na lanchonete que vendia o melhor pão com linguiça do mundo e aquilo...
— Caramba, Bru!
— Me diz se não é muito bom! Mesmo a linguiça não sendo de carne, é delicioso!
— Acho que ninguém mais faz uma linguiça vegana tão parecida com uma comum. Sempre que como, penso nisso. Penso até se não estão nos enganando.
Bruna riu, porque Gabriela sempre desconfiava.
— Só é muito boa! E esse queijo, a salada...
— Lembra de uma vez que você comeu três desses aqui? A atendente ficou chocada, eu lembro da cara dela até hoje — Gabriela riu.
— Foi na segunda vez, eu acho. Fiquei obcecada por isso aqui, não conseguia parar de comer. Gab, você foi a Ilhabela depois que a gente se separou?
Gabriela negou.
— Só se fosse para eu me jogar da balsa ou de um dos penhascos. Aquela cidade é você, Bru. Eu nunca fui até lá sem você.
— Hum, eu fui.
— Ah, você foi, Bruna Ribeiro?
Gabriela olhou nos olhos dela. Sorriu.
— Comprei a nossa casa.
— Você...?
— É nossa. Antes de entrar no reality, peguei uns dias e o dono estava lá quando cheguei, colocando a placa de venda. Não deixei que ele a colocasse. Comprei. Hoje recebi a escritura e lembrei que havia comprado, porque comprei e entrei no reality logo depois.
Gabriela ficou sem palavras. De maneira literal.
— Amor, você está tipo milionária-milionária mesmo?
Bruna riu, comendo discretamente um pedacinho de queijo que grudou no dedo.
— Acho que dá para dizer que sim.
— E comprou a nossa casa em Ilhabela...?
Bruna a olhou. Aqueles olhos lindos estavam dilatados, cheios.
— Eu compraria cada lugar onde já estive com você se fosse possível, meu amor. Sei que fui muito dura no nosso término, mas a verdade é que eu nunca fui embora de nós duas. E, se comprei tudo isso, é porque esperava mesmo que a gente fosse voltar, que fosse... ser feliz de novo. Estou feliz pra caramba. Faz semanas que eu não paro de ser feliz com você.
O coração de Gabriela mal cabia no peito de tão cheio.
Voltaram para a estrada. Mais uma horinha e já estavam reclamando do trânsito em São Paulo, como sempre reclamavam juntas. Quando finalmente chegaram ao condomínio delas, houve um momento. Gabriela parou na entrada, liberou a portaria, deslizou com o carro para dentro. Parou na vaga de Bruna. A testa se apoiou contra o volante por um instante.
— O que foi, meu amor? — Bruna tocou os cabelos dela.
— É que... vou entrar no seu apartamento de novo. Com você lá dentro. Não como uma bandida que não quer ser vista. Vamos estar sozinhas?
Sorriso de Bruna.
— Sim. Minha equipe já foi redirecionada, Dara tem um apartamento na mesma torre que o nosso, mas tem uma pessoa nos esperando.
— E os nossos filhos, Bru?
— Estão esperando também, você acha que não?
Subiram bem rapidinho, porque Gabriela não cabia em si de ansiedade. Estava inteira em roupas da sua coleção, agora com data de lançamento certa: seria em dois meses. Estava de jeans largo, camiseta que imitava a de uma equipe de futebol, mas com o nome da Mighty.
E assim que elas abriram a porta...
Bartolo e Chiara avançaram nelas duas, que foram para o chão imediatamente, rolando com eles, sentindo o amor, a ansiedade e a felicidade. Era igual: os dois iam de uma para a outra, Bartolo totalmente inconsciente do seu tamanho avantajado, Chiara com toda certeza achando que ainda era um bebê. Eles espirraram amor para todos os lados, espirraram felicidade, um tanto enorme de plenitude. Elas se olharam no meio do ataque de amor, os sorrisos tão grandes que não cabiam, transbordavam. Tudo transbordava ali.
E então, Rebeca apareceu.
— Beca, Beca!
O abraço foi muito longo e muito forte. Gabriela se agarrou à sua prima inteira enquanto Rebeca apenas repetia que estava muito orgulhosa dela e, quando menos esperaram, estavam as duas chorando demais.
— Ei, não, nada de lágrimas — Rebeca tocou o rosto dela, limpando as lágrimas, olhando-a nos olhos — Oi, Bruna! Obrigada por ter me deixado esperar aqui.
— Sei que vocês estão morrendo de saudade uma da outra e a casa é sua, Beca, sempre que você precisar — Bruna levantou sorrindo, percebendo seu celular tocar — Ei, fica à vontade, preciso atender aqui — Deixou um beijo no rosto dela.
— Tudo bem, meu amor? — Gabriela perguntou, ainda emocionada.
— Tudo, linda! Mas é de Nova York, então é sempre bom atender, né? — Bruna deixou um beijinho na sua garota — Vou atender na varanda, já venho.
— Minha esposa recebe ligações de Nova York.
— Deixa de ser boba, Gabriela! — Bruna a beijou de novo e atendeu o celular, já indo para a varanda.
E Gabriela e Rebeca se abraçaram de novo, muito forte, bem apegadas.
— Vem! Vou fazer um lanche pra vocês, devem estar com fome — Rebeca propôs.
Foram para a cozinha da qual Gabriela morria de saudades. Adorava aquela cozinha, a vista daquele apartamento. E estar com sua prima novamente era indescritível. Ela era sua melhor amiga desde sempre, tinham a mesma idade, sempre estudaram juntas. Rebeca era a pessoa em quem mais confiava na vida, mas ainda assim...
— Eu entendo — Rebeca disse, quando já estavam tomando café na mesa e Bruna seguia naquela ligação em inglês lá fora — Porque eu provavelmente agiria igual se estivesse numa relação que, tecnicamente, você não aprovaria. Talvez eu... — ela encontrou os olhos de Gabriela de repente — já tenha até feito o mesmo.
Gabriela quase se engasgou.
— Você o quê?! Rebeca...! — Baixou a cabeça na mesa, fazendo Rebeca rir.
— Não é pra tanto.
— Está me contando o que eu acho que está me contando?!
— Não é grande coisa. Quero dizer, não virou uma coisa grande, só... — Rebeca estava mordendo a boca para não rir. Quem diria que estaria contando algo do tipo para Gabriela? — Você colocou Flávia Demerara para morar com a gente.
Gabriela olhou para ela novamente.
— Espera, está me dizendo que a Flávia foi tipo “a semente do mal” ou algo assim?
— Digamos que ela foi “a semente da tentação” — Rebeca não parava de sorrir — Aconteceu assim que ela se mudou para morar com a gente e não foi realmente grande coisa, nós duas só... dormimos juntas algumas vezes, não havia uma relação, nunca houve, mas houve um despertar. A Flávia me fez encontrar alguma coisa dentro de mim que eu não fazia ideia que existia. Eu ficava pensando que deveria estar assustada, mas não estava. Era algo bom que eu só permiti acontecer. Eu quis falar sobre isso com você muitas vezes, mas, ao mesmo tempo, não tive coragem. Você sempre me viu como um modelo que deveria ser seguido.
— E eu segui o seu modelo, até nos segredos. Como pode uma coisa dessas, Beca...? — Gabriela disse, fazendo sua prima rir mais.
— Quando a suspeita sobre você e a Bruna começou a surgir lá no reality, a Flávia ficou me perturbando por dias, dizendo que eu deveria ter contado as coisas pra você, que nós duas somos muito mais parecidas do que pensamos. Não sei por que não falamos dessas coisas, Gab. Teria sido mais fácil pra você, não é?
— Teria. Mas, ao mesmo tempo, acho que eu tinha mesmo que passar por isso sozinha, precisava... dar um jeito de resolver essa parte da minha vida. Acho que só cresci agora, Beca.
— E me aparece aqui casada com a Bem Indecente, com um furacão. Não podia ser uma mais calminha, não, né?
Gabriela acabou rindo alto, e Bruna finalmente voltou da varanda.
— Meu amor, preciso ir para Nova York.
— Ir, tipo...?
— Tipo amanhã. Era a Forbes na ligação, Gab. Vai ter um evento e, tipo, houve um ajuste de última hora e eu estou convidada. É um evento para jovens empresários.
— Sério? E eu posso ir ou...?
Bruna a agarrou.
— Não pode, linda. Lembra que amanhã você assume a obra da Fierce? E tem o teste para a Porsche Cup, as publis que você precisa gravar e eu marquei um novo composite pra você, acho que é na quarta. Oficialmente, você voltou para o catálogo de modelos da Killing e nós vamos atrás da Calvin Klein. Então, o composite agora tem que ser sexy. A Beca já está com as instruções.
— Bru, eu nunca mesmo vou poder ser esposa-troféu, né?
— Nunca! — Bruna respondeu, sorrindo — Mas aqui dentro, a gente sempre vai ser apenas a esposinha uma da outra, minha modelo — A abraçou pelas costas, roubando um pedacinho do queijo quente do prato dela.
— Bruna, você disse que vai a um evento da Forbes...? — Rebeca perguntou, surpresa.
— Disse! Não é incrível?
— Acho melhor você se virar para conseguir a Calvin Klein, prima, o nível não pode ser tão diferente que logo aparece alguma milionária CEO para roubar a Bruna de você.
— Ah, mas isso eu não vou deixar nunca! — Gabriela puxou Bruna para o seu colo, enquanto Chiara e Bartolo circulavam em volta das duas, dando e pedindo amor — Nova York, é?
— É, meu amor.
— Vou morrer de saudades. E de orgulho.
Assim, o amor respingava para todos os lados.
Terminaram a noite fazendo amor no sofá da sala e se sentindo, claramente, definitivamente, casadas.
E não deveria existir casal mais feliz do que aquelas duas canceladas.





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