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Vulnerável 39


Nori


No dia seguinte, cedinho, Gabriela estava dirigindo seu Porsche para levar Bruna até o aeroporto, porque sua esposa estava indo para Nova York.


E a quantidade de coisas que Bruna fez antes de dormir impressionou Gabriela demais. Ela separou roupas de grife, fez uma mala perfeita, deu uma olhada em alguns documentos, preparou uma apresentação que julgou que pudesse ser necessária, avisou à sua melhor amiga que elas estavam indo para Nova York. E fez tudo isso enquanto instruía Gabriela sobre as coisas que ela mesma precisava fazer:


— Checa a sua agenda da semana inteira, Gab, confirma o dia do teste da Porsche, verifica no e-mail se chegou o agendamento do seu ensaio. Você já separou a roupa de amanhã?

— A roupa...?

— A gente vai acordar com pressa, minha modelo! — Bruna a agarrou pela cintura e a beijou, com um sorriso enorme no rosto. Como Gabriela amava aquele sorriso, anf! — Deixa sua roupa separada. E confira de novo se a sua apresentação está ok. Amanhã é um dia importante. A Júlia vai estar lá com você, mas a condução será toda sua.

— Ah, eu vou olhar, pode deixar.

— Olha as duas. A apresentação de equipe e a proposta para o projeto da Fierce.

— Bru, você acha que a sua equipe vai me receber bem?

— Acho! Mas é bom deixar uma ótima primeira impressão, né?


Digamos que ser esposa de Bruna Ribeiro realmente exigia uma ótima impressão. Ainda assim, Gabriela abriu o armário e ficou olhando para ele de um jeito quase engraçado.


— O que você quer vestir, meu amor? — Bruna perguntou algum tempo depois, percebendo a dúvida no rosto dela.

— Eu... não sei. A sua empresa parece mesmo uma empresa.


Bruna riu.


— Mas a sua também parece!

— Não, a minha é tipo uma sala única para toda a equipe, em um andar. Eu nem tenho sala lá. O que você acha que devo vestir? Escolhe pra mim. Às vezes, você me conhece melhor do que eu mesma.


Uma frase simples. Extremamente real.


— Bem, amanhã quem vai entrar naquela empresa é Gabriela Nori. Eu sei o que ela gosta de vestir.


E Bruna sabia mesmo. Gabriela AMOU o que sua esposa escolheu. Agora estava andando ao lado dela no aeroporto, com um jeans clássico rasgado, blusa preta justa por dentro e terninho por cima. Estava linda, confortável e muito estilosa. Já Bruna usava calça e jaqueta jeans marrons, blusa preta, tudo de Mighty. E Gabriela fez questão de acompanhá-la até o portão de embarque.


— Você não precisava ter descido, esposa — Bruna disse, toda agarrada nela enquanto se despediam.

— Claro que precisava. É a primeira vez que vou ficar tanto tempo longe de você desde que a gente voltou. Venho te buscar, está bem?

— Está bem! — Bruna não conseguia parar de sorrir — Vai me contando tudo, me liga por vídeo, fica agarrada a mim.

— Fico, o tempo todo — Gabriela a cheirou e a beijou rapidinho — Boa viagem, meu amor.


Assim, Bruna partiu para uma semana em Nova York, enquanto Gabriela foi buscar Júlia no novo apartamento dela, para não entrar sozinha na Fierce e aquilo parecer uma invasão da concorrência. Júlia tinha se mudado recentemente, mas não parecia muito feliz com aquilo. E, como Gabriela estava meio nervosa, puxou assunto com a vampirona sem coração que era a manager de Bruna.


— Desculpa, eu te tirei do apartamento, né?

— Não, claro que não. Minha chefe está casada, ela tem que ter o espaço dela. É que eu nunca gostei de morar sozinha mesmo. Acho que isso até... — Ela ia dizer algo, mas se interrompeu.

— O quê?

— Isso soou extremamente carente — Júlia falou, séria.

— Não, você ia contar alguma coisa. Conta, vamos ficar presas aqui nesse trânsito por um tempinho mesmo.

— É que eu ia dizer algo pessoal.

— Pois me diga, porque você tem um montante assustador de informações pessoais sobre mim.


Ela riu. Gabriela nem sabia que Júlia Bittencourt era capaz de rir. E então ela começou a falar, num tom mais relaxado.


— Você sabe que a Flávia e eu namoramos na época da faculdade, certo? Mas ela não era assumida. Lembro que foram muitas brigas, porque eu odiava morar sozinha e ela não saía da casa dos pais. Namoramos por três anos, mas o namoro não resistiu. Terminamos por causa disso.

— E nunca mais tentaram voltar...? É que agora ela é assumida.

— Ela fez uma tentativa um tempo atrás, quando mandei a vaga de sua manager para ela.

— A Bruna não teve nada a ver com isso, né? — Gabriela perguntou, curiosa.

— Não teve, foi uma coincidência. Mas, naquele momento, eu seguia ferida e acabou... não dando certo.

— E depois disso?


Júlia coçou a cabeça.


— Teria que partir de mim, né?

— É que, Júlia, estou vendo vocês duas bem próximas, mas ninguém se move para algo a mais.

— É que eu não sei se romances de segunda chance funcionam tão bem.

— E eu e a Bruna, mulher?

— Então, estou vendo vocês duas.

— Júlia, tem tanta coisa que pode dar errado quando a gente ainda não sabe muito. A Bruna é dois anos mais velha, mas quando a gente se conheceu, éramos praticamente adolescentes. Eu não entendia muita coisa, não sabia de muita coisa e ela também não. Nos reencontramos mais tarde. Na nossa segunda chance, a gente ainda não engrenou. Acho que só engrenamos na terceira. Essa de agora deve ser a nossa quarta chance e o romance não está requentado, está bem longe disso. Uma vez, a Bruna me disse que pessoas certas são atemporais. Se vocês se reencontram e ainda existe algo...

— Tem, tipo, uma eletricidade.

— A gente não deve ignorar coisas elétricas, Júlia.


Gabriela tinha um ponto.


Conversaram muito sobre romances de segunda chance enquanto ficaram presas no trânsito. E, quando chegaram, Gabriela olhou para aquela entrada...


— Eu nunca estive aqui — Confessou para Júlia.

— A gente se mudou pra cá depois da separação de vocês, não é?

— Era um escritório menor, então a Bruna decidiu expandir e lembro quando ela veio pra cá. Eu passava aqui na frente e imaginava como era por dentro.

— Bem, agora você vai poder ver. E temos agendada ainda para hoje a visita ao novo prédio — Júlia informou enquanto subiam.

— É longe daqui?

— Na outra rua. Surgiu a oportunidade de compra, era um hotel pequeno, de três andares. Ele foi colocado todo abaixo, já subimos a estrutura nova parcialmente, mas a Bruna não chega a uma disposição de que goste. Já trocamos de arquiteto umas três vezes. Tomara que você opere esse milagre. Ok, quer se preparar na sala da Bruna antes?


Ainda tinham uns vinte minutos. E quando Gabriela viu a sala...


Seu coração ficou cheio. Havia conhecido Bruna quando ela ainda era uma garota, morando num bairro simples, fazendo de um canto da sala o seu escritório, e agora ela tinha aquela sala ali, com vista, cadeira confortável, grandes projetos para desenvolver.


Tinha tanto orgulho dela. E devia vir desse tanto de orgulho aquele breve sentimento de que teria que lutar muito para se provar realmente merecedora daquela segunda chance.


Ou quarta. Deus, como é que podia ter perdido tantas chances com Bruna assim?


Após um café, era hora de Gabriela Nori encarar um auditório.


Sempre havia dito que usaria “Habren” para a sua vida de modelo e piloto, mas que seria Nori sempre que fosse arquiteta. Estava pensando seriamente que a terceira variável devia ser Gabriela Ribeiro, a esposa orgulhosa de Bruna, apenas um pensamento antes de encarar a sua apresentação.


Não era apenas a equipe da Fierce reunida; a da Mighty também estava. Tinha mais de cem pessoas esperando por Gabriela e, sim, a ideia inicial era que isso fosse feito em parceria com Bruna, mas, com a viagem inesperada, agora ambas as apresentações ficaram com Gabriela. Sentiu outro baque quando viu quantas pessoas faziam parte daquilo agora. O time da Mighty era grande, mas não era nem um terço do time da Fierce e, quando pediu uma contagem geral, incluindo os colaboradores da Killing, o número passou de quinhentos.


Tinham alcançado tanto e parecia que apenas naquele momento Gabriela se deu conta daquilo.


— Tudo bem, vou fazer uma abertura e daí te chamo, ok? — Era Júlia.


Ela subiu no palco do anfiteatro e fez uma apresentação básica das pautas daquela reunião. Todos haviam recebido um resumo, mas algumas explicações estavam pendentes. Explicou que Bruna precisou ir para Nova York de urgência, mas que a outra sócia majoritária faria uma apresentação e responderia perguntas. E assim chamou Gabriela ao palco.


Aplausos, e uma Gabriela muito segura assumiu o microfone.


— Juro para vocês que jamais pensei que estaria falando dentro da Fierce, para tanta gente e de maneira pacífica — Quebrou o gelo, fazendo todo mundo rir — Sei as coisas que deviam chegar para vocês a meu respeito e sei que tanto Flávia quanto Júlia já fizeram uma reunião anterior, explicando a situação. Acho que todos devem estar aliviados em descobrir que a parte oculta que vocês não conseguiam ver nas empresas não provinha do crime, só de um casamento mal resolvido — Disse, causando mais risadas, e pronto, era só disso que precisava — Bom dia, gente! Meu nome é Gabriela Nori e sou formada em Arquitetura pela PUC de São Paulo, com MBA em Moda pela Universidade de Moda de Milão, o Istituto Secoli de Moda e Negócios. O que uma área tem a ver com a outra? Beleza. Ambas as áreas trabalham com beleza, e eu confesso que levei um tempo para compreender essa relação e para abraçar o poder que a beleza brasileira tem pelo mundo.


Aquela no palco era a talentosa e carismática Gabriela Nori, a mesma que Bruna não cansava de admirar.


Bruna assistiu a toda a apresentação dela assim que pousou em Nova York. Havia pedido que a reunião fosse gravada e pôde ver claramente que Gabriela estava nervosa quando pisou naquele palco. E observar como ela dissipou aquele nervosismo com carisma fez o seu coração se derreter inteiro.


Assim que entrou no carro com Dara, já estava vendo Gabriela pelo iPad. A apresentação dela havia sido fantástica. Ela falava bem, era inteligente demais e tinha uma oratória com a qual Bruna só podia sonhar. Seu discurso era um ponto de melhoria, e sabia que podia melhorar esse aspecto com Gabriela ao seu lado.


— Eu não tenho isso, entende? — Bruna apontava para o iPad.

— O pedigree de old money! — Dara se divertia, porque era muito clara a diferença entre elas. Bruna era superinteligente e tinha a sua própria oratória, mas a confiança que a fala bem empostada de Gabriela passava...

— Ela é capaz de vender qualquer coisa, passa confiança, é dela, e é em cima disso que a gente tem que continuar trabalhando. A Gabriela vai recuperar esse selo de confiança com o público porque é confiável, leal e bem-sucedida. As coisas vão dar certo, Dara, a gente vai conseguir atravessar esse cancelamento.


Era uma certeza.


Chegaram ao hotel e Bruna ligou para sua esposa-namorada pelo FaceTime. Gabriela havia ido à obra também, feito um vídeo muito bem explicativo sobre o que queria fazer e o que precisava ser corrigido. Ficou de grudinho com ela mais um tempo e depois desligaram. O dia seguinte seria corrido; Bruna tinha que estar inteira. Mas aquele olhar no rosto de Bruna...


Dara se sentou na cama de sua amiga por um instante. Iriam dividir o quarto por pura diversão. Bruna havia dispensado trazer uma equipe, queria que aquele momento fosse apenas seu e de sua melhor amiga. Sentia falta de terem momentos assim. Bruna sempre trabalhou muito, mas agora estava pensando sobre isso, sobre como ter tempo suficiente com as pessoas que amava.


— Sabe de uma coisa? Você tinha esse mesmo olhar no rosto quando chegou em casa após ter conhecido a Gabriela naquele ensaio. Eu lembro, porque nunca havia visto um olhar assim em você: doce, iluminado, empolgado. Você sabia, né? Que, desde aquele dia, havia encontrado alguém especial?

— Acho que sabia, sim. As coisas não avançaram naquele momento, mas aconteceram no tempo certo. Dois anos depois, quando nos reencontramos, eu ainda me sentia da mesma forma por ela. E depois, quando nos reencontramos novamente no reality, o sentimento continuava o mesmo, nada havia mudado — Bruna disse, sem perder aquele sorriso no rosto.

— Bru, você sabe que é um privilégio, não sabe? Encontrar alguém para amar assim e ser amada de volta da mesma forma. E ainda por cima, tão cedo.


Bruna sabia, sim. Dormiu nas nuvens. Acordaram correndo, desfrutaram rapidamente de um café da manhã em um hotel cinco estrelas e saíram focadas, mas também curtindo as ruas de Nova York. Encontraram Marcela Richter, que havia se mudado recentemente para a cidade. Marcela agora trabalhava em uma revista digital, como jornalista de moda, mas havia feito questão de fazer o styling de Bruna para aquela noite. E estava absolutamente chocada com o reencontro dela com Gabriela.


— Acho que tem coisa que a gente tem que aceitar logo, sabe, Bruna? Essa menina fica voltando para sua vida há quase nove anos — Ela disse, enquanto testavam alguns vestidos.

— Eu sei! — Bruna não parava de sorrir — Mas dessa vez tudo está diferente.

— Ela fez live, fez escândalo no programa por causa de você, falou com todas as letras que vocês estão casadas e se mudou, não é?


Sorriso enorme de Bruna.


— Para os nossos dois apartamentos. A Gab falou com as equipes das nossas empresas, ela só... não está se escondendo mais. Esse era o nosso único problema, Mah, você sabe.

— Sei. E, apesar de toda essa situação, eu sempre te disse que amor não faltava nela — Marcela encarou Bruna pelo espelho — Acho que é esse aqui, esse pretinho elegante, nada básico. É longo, tem esse vazado aqui. As mangas longas te deixam sofisticada e vão te proteger do frio. Dara, o que você acha?


Dara estava vendo as joias. Olhou e abriu um sorriso enorme.


— Minha amiga é muito milionária mesmo! Aqui, os brincos da Schiaparelli, mais esses anéis lindíssimos, acho que não falta nada. E quer apostar quanto que vai ter uma esposa bem orgulhosa assistindo tudo ao vivo?

— Ela queria vir comigo! Mas tinha tanta coisa nessa semana — Bruna contou, sorrindo.

— E acho que vai ser bem interessante também você descobrir o que a Gabriela pode fazer sozinha. Ela meio que nunca ficou sozinha, Bru — Marcela dizia, colocando os brincos longos nela — No Brasil, ela tinha a mãe ou a Rebeca. Quando ficou fora, tinha a Jeni. Na Ásia, tinha você. Eu me surpreendi com quem ela foi no reality e acho que você ainda tem muito para se surpreender com ela. A Gabriela mudou. Acho que finalmente ela vai ser a esposa que você realmente precisa.


Dara desconfiava que sim. Especialmente depois da última troca de mensagens que havia tido com Gabriela.


Ela a procurou naquela manhã. Mandou uma mensagem, perguntou como estavam as coisas, pediu o quarto certinho porque queria mandar flores e uma joia para Bruna antes do evento. Escolheram juntas uma pulseira que fosse combinar com os brincos e Gabriela comprou tudo ainda do Brasil, numa loja que conhecia em Nova York. Até aí, Dara já estava achando tudo muito lindo, então, ela perguntou se podiam falar rapidinho, sem Bruna ouvir.

Dara saiu do quarto enquanto Bruna estava no banho e foi falar no corredor.


— Pronto, estamos seguras. Me diz o que você precisa, Gab.

— É que prometi uma vez um segundo casamento para a Bruna.

— Ah, você prometeu, é? — Dara sorriu grande demais.

— Prometi! Um com as pessoas que a gente ama, com os nossos amigos presentes. Lembro que ela me disse que gostaria de se casar na praia, mas que isso daria muito trabalho e que ela não gostaria de ter trabalho. Então pensei... e se eu organizar?

— Organizar um casamento na praia...?

— Isso. Vocês chegam no sábado, não é? Pensei em fazer no domingo, no final da tarde. E, para ela não chegar cansada, comprei passagens de primeira classe.

— Gabriela Habren, você quer dizer que comprou pra mim também?

— Claro que sim! Não posso deixar uma das madrinhas do nosso casamento chegar cansada também. É... você aceita?

— Ser madrinha? Óbvio! Espera, isso tudo vai ser uma surpresa?

— Era isso que eu queria checar com você, Dara. Você acha que ela ia odiar? Não queria que parecesse uma imposição também. É que... sinto que devo muitas coisas para a Bruna. E queria muito começar a pagar. Ela sempre me pediu presença, eu quero estar presente, fazer coisas desse tipo, tomar iniciativas.

— Sabe o que acho disso tudo, Gabriela Habren? Que você é uma romântica bem cafona e a minha amiga AMA coisas românticas cafonas, por isso que vocês não se largam — Dara disse, fazendo Gabriela rir demais — Faz sim. Faça tudo. Você conhece os sonhos da Bruna e acho que ela merece muito realizar todos eles. Mas isso vai ser uma correria, né?


Seria. Mas Gabriela estava muito disposta.


Encarou a sua agenda da semana de maneira feroz.


Na terça mesmo, procurou uma agência de eventos e explicou que estavam diante de um projeto ousado: colocar um casamento de pé em seis dias. Já era o dobro de tempo do seu último casamento, nem deveria ser tão difícil assim. Pediu ajuda de Jeni, ela tinha experiência nisso, e chamou suas duas companheiras de confinamento para um jantar em casa naquela noite, o que foi extremamente divertido. Nuna trouxe Jeni e as duas trouxeram Eduarda, com quem pouco haviam falado depois de toda a ventania do pós-programa.


— Ah, gente, meu casamento já era. Não se recuperou dos meus três meses de ausência e nem do ressurgimento do vídeo — Eduarda contava, enquanto comiam no balcão da cozinha, um macarrão delicioso que Gabriela havia feito — Por isso fiquei mais quieta, absorvendo tudo isso. Homens são tão frágeis. Porque você e a Bruna passaram pela exata mesma coisa e agora vão se casar de novo! — Comentou, sorrindo.

— A gente tem que confiar mais nas coisas que sempre voltam. Mas, olha, nas coisas que voltam sempre, não nas coisas atrás das quais a gente insiste em correr. Esse cara não merece você, eu tinha essa impressão desde quando eu só te via na TV — Gabriela endossou — Aliás, você vai voltar pra TV, né?

— Vou! Ganhei um programa, estou focando apenas nisso. E agora vou te ajudar nessa história de casamento. Conta pra gente o seu plano.

— Temos uma casa em Ilhabela, com uma prainha particular. A casa é bem especial pra gente. A Bruna comprou recentemente e vai ser uma ótima base. Eu já tenho uma lista de convidados, terminei agora. Não serão muitas pessoas. Será um casamento para setenta convidados. Tenho menos amigos que a Bruna, mas a Dara fechou uma lista bem completa. Agora a Jeni estava me ajudando a ver hospedagens.

— Graças a Deus elas são ricas e eu consegui fechar uma pousada, é bem perto dessa casa dos sonhos — Jeni explicou — Daí, a gente ainda tem que ver o buffet. Estou de férias, então, namorada, se você aceitar, acho que temos que ir para Ilhabela amanhã — Falou com Nuna, que ficou vermelha.

— Ah, mas olha você ficando vermelha! — Gabriela brincou com Nuna.

— É que foi muito difícil convencer essa menina de que a gente podia namorar. Ela colocou umas quinze dificuldades, ainda estou me acostumando com o título. Mas sim, eu posso ir com você para Ilhabela, namorada — Nuna sorriu para Jeni.

— Ótimo, linda! O jardim é gigantesco, tem como colocar o buffet nele. Eduarda, a Gabriela teve uma ideia.

— Que ideia?

— É que... O que você acha de celebrar pra gente? Bruna e eu já somos casadas, vai ser um casamento celebrativo mesmo. Como a gente se reencontrou na casa, onde você também estava, pensei que seria algo bem significativo. Você é jornalista, né? Escreve umas crônicas tão lindas — Gabriela olhou para Eduarda com carinho.


E os olhos de sua amiga, Eduarda Ricca, ficaram imensos.


— Gab, é sério?

— É bem sério. O que você acha, hein?

— Acho que... é uma coisa bem linda. E eu vou me sentir muito honrada de poder participar disso com vocês.


A semana de Gabriela realmente foi uma loucura.


Correu para fazer o seu composite no dia seguinte. Agora, já não existia sinal nenhum do acidente e a fratura no seu nariz estava sem inchaço, se recuperando muito bem. Trabalhou no escritório de Bruna aquela semana também e atravessou a tarde, quase entrando pela noite, ajustando o projeto da maneira exata que queria. A Fierce abriu espaço para o escritório da Mighty também, foi algo que Bruna propôs no dia seguinte ao seu evento. O espaço era tão grande, por que a Mighty não ficava com o terceiro andar?


Era por essas e outras que Bruna não parava de ser perfeita.


Gabriela avisou sua mãe sobre o casamento e enviou convite. Não sabia qual seria a resposta dela, mas, no final, foi apenas um “vou estar lá”. Débora estava em Milão praticamente desde a conversa que tiveram. Estava lidando com a família e acompanhando a história do vídeo à distância. Mas disse que Gabriela podia aguardá-la, e a sensação era tão nova que nem sabia o que sentir. Pela primeira vez em muito tempo, um “vou estar lá” vindo de sua mãe não causava ansiedade negativa, apenas positiva.


Na sexta, fez o seu teste na Porsche Cup.


Flávia e Júlia fizeram questão de acompanhá-la, e Gabriela nem lembrava a última vez que se sentiu tão feliz assim, fazendo tudo o que amava. Amava velocidade, amava dirigir, amava estar usando uniforme de piloto, pisar fundo numa reta, ir até o limite do motor e voltar. Só precisou de cinco voltas para ser aprovada via rádio. Ouviu isso enquanto ainda estava dirigindo e o sorriso enorme apenas brotou dentro daquele capacete apertado, enquanto seu punho se ergueu cerrado pelo lado de fora da janela.


Era isso? Aquela seria a vida perfeita?


— Eu não sei, Gab, mas você tem um ensaio fotográfico ainda hoje para cumprir. Certeza de que você não vai dar defeito de tanta correria, não? — Flávia perguntou quando já estavam correndo para o próximo compromisso do dia.


Gabriela esperava que não.


Mas acabou dando defeito justamente no sábado, quando Bruna estava chegando de Nova York.


O ensaio fotográfico para uma linha de joias havia invadido a madrugada na sexta e, logo pela manhã de sábado, a Porsche marcou outra sessão de fotos, com Gabriela vestida de piloto, com um lindo Porsche vermelho logo atrás dela. Seria naquele modelo que correria. As fotos eram para publicidade e para o seu anúncio como participante do evento. Saiu de lá ainda vestida como piloto e correu para a degustação de sua festa.


— Você veio de piloto — Flávia teve uma crise de riso quando ela entrou no carro.

— Sim! Não ia dar tempo de me trocar. Vamos, Flávia, a gente não pode se atrasar!

— Escuta, Júlia e eu mandamos um carro para buscar a Bruna, tá? Sei que você queria ir, mas preciso muito que você durma para não parecer uma zumbi no seu próprio casamento. Olha que plano maravilhoso, você termina essa degustação, vai pra casa dormir, acorda com a Bruna já em casa. O que você acha? Você ainda tem malas para fazer.


Isso tudo era verdade. Gabriela fez a degustação, correu pra casa, fez as malas da melhor maneira que foi capaz. Havia comprado dois vestidos para Bruna, para que ela tivesse opções. E tudo estava sob controle.


Ao menos acreditava que sim.

Bruna sentia que tinha alguma coisa acontecendo.


Primeiro, Dara andava meio suspeita, respondendo mensagens às escondidas ou saindo de perto para atender telefonemas. O evento na Forbes havia sido maravilhoso, incrível, rendeu fotos lindas, ótimas conexões. E Bruna aproveitou o resto dos dias para fazer ainda mais conexões, conseguir trabalhos e até deu um jeito de tomar um café com uma agente da Calvin Klein, a quem entregou pessoalmente o novo composite de Gabriela, que havia ficado de tirar o fôlego. Sua esposa estava mesmo uma grandíssima gostosa e no corpo ideal para a marca. Saiu desse café bem empolgada, sentindo que ia dar certo.


Mas, voltando à sensação de que algo estava acontecendo: entre São Paulo e Nova York era apenas uma horinha de diferença e, todas as vezes que falou com Gabriela de noite, ela parecia bem cansada. Tipo, em uma das ligações, atendeu de toalha, visivelmente dormindo sem ter conseguido chegar no banho. Em outra, ela acabou pegando no sono enquanto conversavam no sofá. Se tinha uma coisa que era sensível em sua modelo, era o sono dela, e se perguntou se não havia pegado pesado na primeira semana delas como casadas.


Será que tinha deixado funções demais? Sua herdeira não era muito adaptada a trabalhar tanto quanto Bruna trabalhava. Então, quando Júlia disse que enviaria um carro particular, entendeu que devia ter sido isso mesmo.


— Mas está tudo bem? — Foi a primeira coisa que perguntou assim que entrou no carro.

— Está sim — Júlia estava dentro do carro — Mas o dia da Gabriela foi bem longo, achamos melhor ela não dirigir assim.

— A semana dela foi boa, Júlia? Estou achando que ela anda dormindo pouco.

— Bruna Ribeiro, quer deixar a sua esposa trabalhar? Ela trabalhou muito, deve estar cansada, mas nada demais também.


Pois foi preocupada o caminho todo. Estava mandando mensagens e Gabriela não estava respondendo, então subiu pra casa o mais rápido que conseguia e, quando abriu a porta, em vez de Chiara atropelá-la de abraços, ela... reclamou.


— O que foi, filha? — Chiara latiu e latiu mais forte em seguida — Você está com fome? — Bruna fez um carinho nela e foi entrando, levando suas coisas para dentro — Sua mãe não lembrou de trocar a ração de vocês? — Mais um latido firme e nada de Gabriela.


Foi então que deu alguns passos e, quando entrou na varanda...


— Mas... — Bruna estava vendo, mas não estava crendo — Gab, meu amor, ei.

— Hum, o que foi? — Ela respondeu, sem abrir os olhos.


E Bruna riu.


— É que você está dormindo na caminha da Chiara, amor, na nossa varanda.

— Eu... eu não estou, não.

— Gab, abre os olhos.


Ela abriu.


— Ai, meu Deus, eu estou na cama da Chiara!

— Eu disse pra você! — Bruna estava rindo demais. Fez Gabriela sentar, sair da cama de Chiara, que estava olhando a cena curiosamente — Sua mãe anda muito cansada, filha. Ela dormiu aqui.


Chiara latiu.


— Dormiu, menina! Estou dizendo pra você. Mas cama livre! Você já pode voltar para a sua cama que vou colocar a minha esposa no banho. Vem, bae — Bruna ajudou Gabriela a levantar; ela parecia extremamente confusa.

— Bru, eu não lembro de... não lembro.

— De como você dormiu na caminha da Chiara, eu imagino que não.

— Como você chegou...? — Gabriela falava de olhos fechados.

— Júlia me trouxe. Eu te liguei, mas você não atendeu, então deduzi que algo havia acontecido.


Então, Gabriela a puxou e a beijou muito, grudando Bruna contra o seu corpo.


— Meu amor! — Bruna sorriu para sua garota praticamente dormindo em pé.

— Estou com muitas saudades, esposa.

— E eu não estou, não, hum? — Bruna enroscou os braços pelo pescoço dela e a beijou de novo, muito apegada, com muita saudade — Ok, agora você tem que me dizer exatamente o que está acontecendo.

— Como assim, Bruna Ribeiro?

— Você está muito suspeita, Gabriela Habren!


Ela riu e carregou Bruna para dentro, beijando-a mais.


— Estou mesmo. Hum... acho que fui colocar ração pra eles e acabei pegando no sono. A caminha é tão confortável. Esses cachorros passam muito bem, viu?

— Deve ter sido isso, não é?

— Deve ter sido! Mas adiantei o nosso jantar. Você está cansada. Como foi o seu voo?

— Minha mulher comprou primeira classe para eu voltar, sabe?!

— Eu comprei — Gabriela a deitou no sofá, caindo sobre ela — Porque a minha esposa só merece o melhor o tempo inteiro. Você gostou da sua pulseira?

— Amei a minha pulseira, linda, amei as minhas flores, o jeito que você ficou grudada em mim mesmo correndo tanto essa semana.

— Bru, você sabe que, tirando os carros, a coisa que mais me doeu foi quando o meu pai perdeu a última joalheria.

— A Nori?

— Essa. E eu nunca mais havia ido até lá. Mas agora ganhei uma vida nova, né?

— Nós ganhamos, minha modelo.

— Ganhamos. Então decidi entrar na Nori de novo, lá na Oscar Freire — Gabriela se esticou até a mesinha central e, de dentro de um vaso, tirou uma caixinha — E comprei isso aqui para nós duas.


Bruna a olhou nos olhos. Então sorriu e, enquanto Gabriela escondia o rosto em seu pescoço e abria a caixinha meio que pelas costas dela, seus olhos se encheram.


— Gab! Elas são lindas, lindas! É uma minha e uma sua?

— Claro, meu amor. Pedi para ajustar no tamanho certo.

— É ouro rosé? Me deu até vontade de casar de novo, Gabriela!

— Ah, ainda bem! — Ela sorriu, grande demais.

— Por eu sentir vontade de casar de novo?


Gabriela a olhou nos olhos.


— Bru, eu queria te pedir pra casar comigo de novo. E deixar claro que, em caso de resposta positiva, o casamento está prontinho e vai acontecer amanhã em Ilhabela.


Bruna teve certeza de que sua esposa estava maluca, de que não era real, então Gabriela foi contando tudo, mostrando as coisas, e:


— A minha família já está lá!

— E a minha também. Deixei claro que, se a resposta da outra noiva fosse negativa, a gente faria ao menos a festa, porque a festa está pronta, esposa.


Bruna saltou sobre ela e a beijou de novo, derrubando Gabriela de volta no sofá, de onde havia saído assim que entendeu que a história de casamento era séria.


— Eu aceito! É claro que eu aceito. Você é uma maluca, sabia? Uma maluca! Eu te amo.

— A Dara disse que você se casou comigo justamente por isso — Gabriela sorria.

— E ela tem toda razão. A gente vai se casar na praia, na nossa casa, em um dos nossos lugares preferidos no mundo. Gab, se isso não é ser feliz, eu realmente não sei o que é.


Gabriela também não. Fizeram o jantar, fizeram amor, refizeram as malas para o casamento porque Gabriela nunca seria boa naquilo. Ninguém olhou mais os números das redes ou sequer tocou nos celulares.


A vida real estava acontecendo e nada era mais importante do que isso.




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