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Vulnerável 40



Ribeiro


Uma vez, Bruna tentou descobrir a origem do seu sobrenome.


A sua colega de curso de inglês, aquela que tirava férias na Disney ano sim e ano não, também era Ribeiro e contou que esse sobrenome tinha origem em Portugal, na região da Ribeira. Era o sobrenome de uma família nobre, ligada à realeza. Fazia sentido no caso da sua colega de curso, mas não fazia sentido nenhum para Bruna.


— Então, eu fui até lá. Acho que não te contei isso, né? — Já estavam no Porsche delas, dirigindo para Ilhabela desde as sete da manhã. As duas de shortinho e camiseta, sorrisos abertos, óculos escuros, conversando e empolgadas pelo dia que tinham pela frente.


Iriam se casar! De novo! A sensação era tão boa.


— Não contou. Quando você foi?

— Acho que foi logo depois do primeiro bom dinheiro que fiz. Fiquei com isso na cabeça, queria ir até lá. Eu tinha visto algumas pessoas falando sobre conexão com o seu lugar de origem. Muita gente que chegou ao lugar onde seus antepassados viveram sentiu essa conexão mágica. Então fui até Portugal, fui ao Porto, à região da Ribeira, e o lugar é lindo, bucólico, intenso, mas eu não senti nada demais. Pesquisei melhor e descobri que Ribeiro também foi um sobrenome comumente adotado por pessoas ex-escravizadas e isso fez mais sentido. Daí, fiz um teste de DNA antes de entrar no reality e, assim como a compra da nossa casa em Ilhabela, esqueci que havia feito. Achei o envelope lacrado no meio dos documentos que levei para Nova York.

— E o que diz o seu teste? — Gabriela a olhou, curiosa.

— Diz que Bruna Ribeiro tem DNA moçambicano. E isso, sim, faz sentido. Então agora quero ir para Moçambique, esposa — Bruna disse, toda agarrada no braço de Gabriela.


E Gabriela cheirou os cabelos dela, sorrindo.


— De lua de mel?

— Sim! Não seria ótimo se a gente tivesse lua de mel, Gab?

— Pois vamos ter. Ainda não sei quando, mas vamos, faço questão. E vou levar você para Moçambique. Vamos aproveitar e ir até Marrocos também, porque o meu pai sempre disse que eu precisava conhecer a cidade da nossa família.

— Qual é a cidade da sua família marroquina?

— É Rissani, onde tem muitas pedras preciosas naturais. Meu bisavô vendia as gemas no Mercado de Rissani até descobrir que, se trabalhasse nelas, elas teriam até dez vezes mais valor. Acho que a nossa lua de mel vai ser mesmo na África, eu adorei essa ideia, esposa.

— Então a gente vai! Assim que conseguirmos respirar melhor nos trabalhos e... — Os olhos de Bruna caíram em uma mensagem no visor do carro — É a agente da Calvin Klein.

— Como...?

— Ela me mandou um WhatsApp — Bruna pegou o celular. A mensagem era bem simples:


“Essa é a sua modelo?” E, em seguida, veio o vídeo de divulgação de Gabriela na Porsche Cup. A prévia havia saído naquele sábado, um vídeo bem curto, e Bruna não tinha visto os números.


— Ela quer saber se é você na prévia que a Porsche soltou.

— E isso é positivo...? — Gabriela sorriu.

— Claro que é! A Calvin Klein não busca apenas modelos, meu amor, eles buscam uma personalidade que gere vídeos com engajamento — Bruna já estava respondendo — Você tem algumas fotos do seu ensaio?

— Mandaram no e-mail.


Bruna buscou as fotos de Gabriela como piloto e enviou, explicando que aquele era um contrato novo, mas que ela estrearia numa corrida em breve. E assim que pararam no portão da casinha delas, apenas uma hora depois...


— Gab, Gab! Você tem um teste agendado!

— Eu tenho?

— Com a Calvin Klein! — Bruna a beijou — Querem você lá antes da sua corrida de estreia, para conversar e fazer um teste de câmera. Eu disse pra você que ia dar certo. Você pode até seguir cancelada na internet, mas não vai ficar cancelada de trabalhos importantes de jeito nenhum.


Gabriela ria porque ela tinha um ponto. Cancelada, sim. Trabalhando também. Parecia uma ótima solução.


E quando aqueles portões de madeira se abriram...


Tinha mesmo um casamento ali. Uma mesa enorme no jardim, uma movimentação intensa, um dia lindo de sol, sem previsão de chuva, e, quando Bruna viu tudo sendo perfeitamente montado na prainha enquanto Bartolo e Chiara brincavam pela areia...


Os olhos dela se encheram.


— Nossos cachorros estão aqui!

— Claro que estão! Pedi para a Flávia trazê-los — Gabriela abraçou Bruna por trás, vendo tudo tão bonito.

— É sério, Gab? Vamos mesmo nos casar de novo e vai ser aqui?

— No lugar para onde eu te trouxe numa atitude profundamente apaixonada; no lugar que você comprou pra gente pelo mesmo motivo. Acho bem justo, sabia?


Os convidados começaram a chegar, mesmo com as noivas ainda se aprontando, porque a festa estava marcada para começar antes do casamento. Um almoço seria servido, tinha uma banda tocando desde cedo, foi um evento ver a família de Bruna chegando e ainda mais impactante ver a família de Gabriela chegando.


— Bruna, é a minha avó — Gabriela agarrou o braço de sua esposa enquanto elas estavam à mesa do banquete, almoçando.

— Como...?

— É a minha avó! Meu Deus, é a minha avó!


A Gabriela Habren original estava passando pelo portão de entrada, elegante como a estrela de cinema que ela sempre seria, e aquilo não fazia sentido nenhum.


Gabriela saiu correndo para a entrada, como se quisesse se certificar de que não estava ficando maluca, e não estava. Gabriela Emilia de Habren estava bem ali, toda arrumada para um casamento na praia. Gabriela, a neta, correu para ela, a abraçou, pediu bênção, mas, ainda assim, não tinha certeza do que estava acontecendo.


— Vó, você está aqui mesmo?


Sua avó riu.


— Estou! Sua mãe me disse que você vai se casar de novo e eu já perdi o primeiro casamento.

— Mas, vó, a mamãe explicou como é o casamento? Com quem é o casamento...?


Débora estava claramente se divertindo. A avó respondeu:


— Explicou. As minhas filhas estavam brigando entre elas e eu não sabia o motivo. Débora me falou o motivo e isso é uma bobagem, não é?


Gabriela seguia muito confusa.


— O que a senhora acha uma bobagem...?

— Isso de quererem obrigar você a se casar com um homem. Se eu tivesse tido essa opção na minha época, poderia ter pensado melhor.


Gabriela olhou para Débora quase em pânico. Ela riu.


— Essa foi a minha temida reação. Mas a sua avó quer conhecer a sua esposa, Gabi. Eu já passei o currículo da Bruna para ela.

— Sua mãe me disse que ela é muito bonita e que é empresária.

— Isso é verdade, vó. Ela... — Gabriela estava tremendo — Bem, vamos até ela. A senhora vai gostar dela, tenho certeza!


Foi assim que acabaram almoçando entre as avós de ambas, com elas enchendo as duas de perguntas inesperadas e curiosas. Como funciona isso? E aquilo? Como tinham se conhecido? Como era a relação delas em casa? Elas teriam bisnetos? Foi engraçado porque ambas fizeram essa mesma pergunta.


— Acho que... — Bruna cruzou os olhos com os de Gabriela — podemos ter, sim, vó. Vocês iam gostar, né? Nenhuma das duas tem bisnetos.

— Eu ia adorar ter bisnetos. Acho que vocês podem pensar nisso, sim. Como funciona?


A avó de Gabriela era a rainha do “como funciona” e aquele almoço acabou sendo muito melhor do que o esperado. E, perto das quatro, as noivas saíram do jardim para se arrumarem e voltaram de lá deslumbrantes.


Gabriela de branco, vestido simples, lindo, esvoaçante, enquanto Bruna optou pelo vestido preto que sua esposa havia separado para ela. Foi algo que havia dito uma vez, que talvez fosse legal também se casar de preto. Gabriela ouviu, processou, comprou um vestidinho justo e deslumbrante para sua esposa. E a composição das duas ficou linda. A cerimônia estava linda. O sol seguia suave no céu, agora com tons mais dourados porque o final de tarde se aproximava. O mar tinha ondas suaves, ventava, mas apenas o suficiente para fazer os cabelos das duas esvoaçarem no ar.


E Eduarda, como celebrante, estava perfeita, sensível, emocionante.


— Há algo de diferente aqui: essas duas garotas realmente gostam de casar. É o segundo casamento delas, e já ouvi que provavelmente não será o último — Ela disse, causando sorrisos nas duas e nos convidados — Detalhe: isso tudo uma com a outra, tá? Não existem planos de se casarem com pessoas diferentes, isso é entre elas. O primeiro casamento, eu soube que foi em um palácio de Veneza, praticamente em cima do mar. Vamos combinar que tem que ter muito poder envolvido para se casar em Veneza assim. Porém, acho que existe uma dose ainda mais alta de poder para se casarem pela segunda vez, mas agora na casa para onde elas vieram pela primeira vez como namoradas, numa fuga, porque esse amor todo nasceu como uma fuga. Acho que isso dá uma dimensão interessante sobre esse romance.


Bruna e Gabriela se olharam, os olhos brilhando demais.


— O romance não nasceu de um lugar comum, ele nasceu de uma fuga e isso gerou um efeito borboleta inesperado: se esse amor nasceu da fuga, como parar de fugir? Acho que elas não sabiam muito bem como. Por isso, esse segundo casamento, à luz do dia e público, é tão importante. Não dá mais para fugir a partir daqui e acho que isso é o mais precioso dessa decisão de se casarem novamente, no começo dessa nova vida pela qual elas tanto brigaram. E um amor assim tem que estar público mesmo, tem que estar disponível para todo mundo ver, para inspirar mais pessoas. Pessoalmente, neste momento, eu mesma não tinha como estar tão inspirada para amar de novo, mas ver vocês duas juntas me inspira, sim. Me faz sentir vontade de continuar.


Sair da fuga para a continuidade parecia o maior de todos os presentes daquele dia.


Quando a noite caiu, elas estavam dançando juntinhas, com as alianças novas brilhando nos dedos, apenas... sentindo o coração uma da outra. A festa foi maravilhosa. O buffet italiano e brasileiro estava perfeito e elas estavam rodeadas de pessoas importantes, próximas, o que rendeu conversas infinitas, extremamente divertidas. Todo mundo que importava estava ali. E, com Dara e Martina presentes e cuidando da integração dos Ribeiro e dos Habren, nada parecia fora do lugar.


A festa só terminou perto das cinco e tudo havia sido tão intenso que Gabriela terminou a madrugada carregando sua esposinha para a cama.


A colocou sentada.


— Deixa eu ver os seus pés, meu amor.

— Gab, como você pode estar tão forte?


Gabriela riu, tirando os saltos de Bruna.


— Acho que foquei apenas nisso quando a gente se separou. Se você não ia voltar por bem, ia voltar pela força do tesão. Sei que você adora uma mulher definida, Bruna Ribeiro.

— Você tinha tudo calculado, né?

— Tudo! — Gabriela beijou a coxa dela e a olhou nos olhos — Eu te amo tanto. Eu nem acredito que... realmente estamos aqui. Que esse dia existiu.

— Gab, sabe o que fiquei pensando? A Duda foi muito precisa no discurso dela. A gente se acostumou a fugir. Você tinha as suas fugas, mas eu tinha as minhas também. E, se a gente não parasse de fugir, eu jamais iria descobrir que sexualidade não era nada para minha avó. E nem para a sua.

— Ainda não acredito que ela veio, Bru. Que ficou aqui com a gente. Amanhã temos um almoço em família, você acredita? Aqui na nossa casa. Vamos fazer um churrasco e receber todo mundo. Isso parece irreal, amor.


Bruna tocou o rosto dela.


— Parece. Mas, incrivelmente, é a nossa vida.


Era.


Fizeram amor antes de dormir e teve gosto de lua de mel, sentimento de lua de mel, o coração das duas tão quente, tudo tão intenso, tão na pele. Elas até dormiram um pouco, mas logo acordaram, ambas querendo café da manhã, e Bruna quis entrar no mar. Arrastou Gabriela para lá, para mergulharem e, então, tomarem café na areia. Haviam descido com uma garrafinha de café, pão com queijo, bolo de noiva, e a água estava gelada, mas deliciosa.


Se beijaram no meio das ondas. Bartolo e Chiara brincavam na areia.


Tomaram café na areia, brincaram com os cachorros um pouco mais e, quando subiram, Bruna descobriu que sua esposa havia contratado uma profissional para o churrasco.


— Ah, você contratou alguém.

— Claro, meu amor! — Gabriela a agarrou, cheirando-a um pouco mais, as duas salgadas, com cheirinho de sol da manhã — Eu disse pra você que cuidei de tudo.

Aquele dia foi perfeito.


Nunca haviam feito isso: receber pessoas na casa delas, com os cachorros correndo pelo jardim. Menos ainda, a família das duas. Veio todo mundo: os irmãos de Gabriela, Rebeca, a mãe, a avó, a família de Bruna também. Junto com a família de Dara, eram praticamente uma família só. Foi um dia de praia, churrasco, muita conversa, muitas risadas. As avós se deram particularmente muito bem e Débora Habren parecia em paz.


Era essa a sensação.


— Acho que nunca vi isso acontecer antes, Bru. A minha mãe sempre pareceu tensa. Era como se ela vivesse numa tensão máxima desde que eu me lembro. Mas hoje, você viu?

— Ela estava leve, tranquila, bateu maior papo com a Dara, com a Eduarda — Bruna disse, enquanto faziam as malas, porque casar havia sido lindo, mas elas precisavam voltar para trabalhar. Bartolo e Chiara tinham voltado com Jeni e Nuna — Acho que não precisar mais esconder nada deixou todo mundo muito mais leve, Gab.


Elas voltaram juntinhas, curtindo a playlist delas, parando na lanchonete onde adoravam comer, sem pressa nenhuma. Estavam juntas, a pressa nem fazia sentido.


— Pronta para encarar uma semana muito corrida? — Gabriela perguntou quando estavam terminando de lanchar.

— Ah, Gab, a minha vida sempre está corrida, mas agora, só de saber que no final do dia vou ter você...

— Ah, meu amor...

— Eu sei — Bruna beijou a mão dela — E a gente vai ser feliz pra caramba — Disse, com os olhos cheios e o sorriso largo à mesa.


Nenhuma delas duvidava disso.

Combinaram que teriam lua de mel em seis meses.


Mas não tinham IDEIA do tanto de coisas que poderia caber em seis meses.


A primeira semana de casadas foi uma absoluta correria. Gabriela seguia com a agenda cheia, cuidando das suas publis, dos seus contratos e da obra gigantesca da Fierce que, finalmente, parecia estar indo para algum lugar. Porém, no final daquela primeira semana, foi Gabriela quem partiu para Nova York, para o teste com a Calvin Klein.


A despedida foi bem apegada no aeroporto. Daquela vez, Bruna levou Gabriela de Porsche, e soltar a sua esposinha foi bem complexo.


— É que a gente acabou de casar de novo — Disse, com o rosto todo enfiado no peito dela.

— Eu sei, meu amor, mas foi você mesma que me arrumou esse emprego — Gabriela dizia, apertando-a nos braços, com um sorriso no rosto.

— Arrumei. Eu e esse meu vício em trabalho — Bruna disse, bem-humorada — Meu amor, suas redes estão bem melhores, você viu?

— As fotos do nosso casamento estão tão lindas, está todo mundo amando! A não ser pelos meus antigos seguidores que ainda seguem me vendo de alguma forma.

— E fazendo questão de comentar. Não tem problema, né?

— Não tem. O problema era não ter você.


Esse era todo o resumo.


Gabriela foi e, uma semana depois, voltou com mais um contrato assinado. Agora, ela tinha oficialmente a Calvin Klein entre as marcas que achavam extremamente interessante ter uma modelo que também era piloto e empresária. E, em dois meses, Gabriela estava pronta para o lançamento da sua marca de roupas.


— Estávamos inseguras com essa parte aqui, mas a Júlia sugeriu que a gente use o mesmo modelo de envios da Fierce — Gabriela estava na sua pele de empresária, mostrando para Bruna uma apresentação no notebook.

— Perfeito, isso está pronto e funciona muito bem. A gente paga um pouco mais pela entrega, mas é mais rápido e seguro. Entregar roupas deve ser ainda mais simples do que entregar maquiagem, meu amor. A coleção fechou com essas peças aqui, certo?

— Essas. São vinte peças, o site está pronto e testado. Ficou bonito, não é? — Sorriso enorme de Gabriela.

— Ficou lindo! E eu gostei desse amarelo para a Mighty, deu uma identidade visual muito marcante. Pronta para mais esse passo?

— Muito!


E até um lançamento grande como aquele agora parecia diferente. Antes, Gabriela ficaria ansiosa, com medo de que desse errado, mas agora o sentimento era bom, era... orgulhoso. Tinha feito o seu melhor e não devia nada para ninguém.


Crescer também era entender que perfeição não é o destino final.


No mês seguinte, Gabriela estava fazendo a sua estreia na Porsche Cup.


E claro que Bruna estava presente, vestida como influencer e esposa de piloto.


— Você está nervosa mesmo, né? — Flávia a acompanhava, e havia uma novidade:


Finalmente, Flávia Demerara havia conseguido ter o seu amor da faculdade de volta e, dito isso, era de se ressaltar que Bruna nunca, mas NUNCA havia visto Júlia Bittencourt tão derretida. Mas, voltando ao camarote de onde Bruna não conseguia desviar os olhos...


— É a minha esposa! Ah, Flávia, olha como ela está linda ali dando entrevista. E a minha sogra não chega. Será que aconteceu alguma coisa?

— Eu jamais imaginei que ouviria você proferir essas duas palavras: minha sogra, sendo que o contexto é Débora Habren. Gente, como pode tudo mudar tanto assim?


Bruna gargalhou.


— Eu sei! Acredita que me acostumei? Tudo anda tão natural. Outro dia, só me ouvi dizendo “minha sogra” e foi surpresa até pra mim mesma. Ah! Falando nela — Débora havia acabado de entrar.

— Hum, vou te deixar aqui com ela enquanto vou atrás da minha namorada que sumiu. Foi tão difícil tê-la de volta, vai que ela tropeçou em alguém por aí. Vou atrás dela e já venho — Flávia foi saindo, indo atrás de Júlia.


Elas estavam nos camarotes, onde tinha buffet disponível, garçons passando com bebidas e, quando Débora ia pegar duas taças de champagne, parou:


— Bruna, você não vai beber nunca mais mesmo?

— Acho que não! — Bruna respondeu, sorrindo, já pegando uma água de coco que passava em outra bandeja — Eu não bebi nem no meu casamento e sabe que nem percebi?

— Isso... isso é bem surpreendente. Ok, onde está a Gabi? A gente consegue vê-la daqui?

— Consegue! Ela está bem ali, olha, dando entrevista para a TV — Bruna sorriu grande demais.

— Ah, mas ela está linda!

— Está, não é? E a imprensa ao redor dela está adorando ter uma mulher correndo.

— Acha que ela está nervosa?

— Nada. Ela está muito empolgada, na verdade. Não esperava fazer um treino tão bom ontem. Foi o primeiro treino pra valer e ela conseguiu tempo para largar em quinto hoje. Por isso a imprensa está em cima também, foi algo bem surpreendente.

— Bruna, eu tenho três coisas para você. Queria te entregar antes da largada, porque vou ficar nervosa demais, você me conhece — Débora disse, já deixando a taça de champagne numa mesinha bistrô junto delas e passando a mexer na bolsa — Aqui, são seus presentes de casamento. Vieram com alguns meses de atraso, mas sei que você vai aceitar da mesma forma.


Bruna a olhou. Aquilo era inesperado. Débora passou três envelopes para ela.


— São tipo três presentes...?

— São três coisas diferentes, na verdade. Pensando melhor, só uma delas é um presente pra você. Esse aqui, por exemplo, é sobre a Gabriela. Ela me pediu para ajustar uma coisinha no nome dela. Quer dar uma olhada?


Outro sorriso de Bruna. Abriu o primeiro envelope e era a sua certidão de casamento, mas modificada.


— Ela...?

— Pediu a inclusão do seu sobrenome. Não quis tirar nem o meu nome nem o do pai, mas quis incluir o Ribeiro. Como isso não foi feito no momento do casamento ou da validação no Brasil, precisamos de um processo. Levou um tempo, mas agora ela é oficialmente Gabriela Nori Ribeiro de Habren.

— Ela... quis o meu Ribeiro mesmo — Bruna estava lendo, mas ainda não parecia real. Sentiu os olhos arderem.

— Quis. E me disse que o seu Ribeiro não é de Portugal, e sim de Moçambique, o que nos leva ao segundo presente. Aqui está a sua lua de mel — Débora apontou outro envelope — Tem passagens para daqui a três meses. Vocês irão para Marrocos e, depois, Moçambique, um mês inteiro. É uma lua de mel válida. São só as passagens, mas queria... participar disso de alguma maneira.

— Débora, o presente não são as passagens. Você conseguiu esse espaço pra gente ir? Mesmo?


Ela sorriu.


— Consegui. Vou ficar aqui com as managers também, caso elas precisem de alguma coisa mais específica. Estudamos agendas por todo esse tempo e conseguimos datas que funcionassem para vocês duas. Então, esse último presente aqui, acho que é mais meu do que seu, no final das contas — Débora apontou para o terceiro envelope.


Bruna abriu e era um documento. Deu uma olhada geral, tentando compreender.


— É uma decisão judicial...?

— Eu estava trabalhando nisso. É uma decisão judicial que obriga o Google a retirar do ar aquele vídeo, não importa quantas vezes ele surja, eles têm que retirar do ar imediatamente. Se alguém buscar agora, já não encontra mais, faz uma semana. Eu quis ter certeza de que iria funcionar antes de...


Bruna a abraçou.


Imediatamente, muito forte.


— Não existe mais?

— Não existe mais. Isso não vai voltar para te assombrar nunca mais. Nem para me assombrar. Eu fiz por nós duas. Sei que você não vai acreditar, mas eu me arrependi imediatamente. Queria nunca ter feito.

— Isso... isso não existe mais. A gente não precisa falar sobre isso nunca mais.


Débora a olhava.


— Aquela sua amiguinha de reality dizia que te falta rancor, ela tem razão. Ainda bem.


Bruna riu, porque era muito verdade. E não sentia falta de ser rancorosa nem um pouquinho. Chorou um pouco mais lendo a decisão. Havia acabado. Nunca mais voltaria. E um peso que ela nem sabia que ainda era tão denso por dentro se desfez.


Quando Flávia e Júlia retornaram bem juntinhas, sogra e nora estavam comemorando alguma coisa. Era SURREAL ver Débora e Bruna de papo, as duas ainda teriam que se acostumar.


— Perdemos alguma coisa?

— Adivinha, Júlia? A minha sogra DERRUBOU O VÍDEO!

— Mas... sério?

— Muito sério, olha aqui a decisão!


Elas leram o documento e Júlia quase explodiu.


— A Gabriela é poderosa porque é sua filha, viu? Olha isso aqui! Ô, Jeni — Júlia viu Jeni chegando com Nuna pela visão periférica — Olha o que a doutora Habren acabou de conseguir!


Houve outra comemoração, a ponto de Bruna brindar com uma tacinha de champagne. Só sabia que seu problema com álcool não era um monstro que a puxaria de volta e a certeza vinha do fato de que o último monstro de Bruna tinha acabado de desaparecer.


Então, o celular de Débora tocou e, claramente, Bruna pôde ouvir a seguinte frase:


— Sim, sim, acabei de entregar para a minha nora... Isso, está tudo ok.


O que poderia estar fora do lugar? Nenhuma coisa.


E então, chegou o momento da corrida.


Era de se estudar o quanto Bruna ficava nervosa naquelas corridas, mas, ao mesmo tempo, a adrenalina a deixava tão eufórica que nem sabia. Assistiu tudo grudada no parapeito, se dividindo entre olhar a corrida na TV e ver Gabriela passando ao vivo e, sim, a modelo internacional era uma baita de uma piloto. Largou em quinto, lutou para defender posição e então foi atrás do pódio. O plano dela nem era tão audacioso, vencer seria bem difícil, mas um terceiro lugar? Hum, isso ela achava que conseguia.


E conseguiu mesmo. Após vinte voltas, Gabriela Habren, em sua corrida de estreia, chegou em terceiro lugar.


Foi uma catarse. Aquelas mulheres todas vibraram, se abraçaram e vieram buscar Bruna. Ela podia ir para a festa do pódio, assistir de perto, a pedido de Gabriela.


E ver a sua esposa naquele pódio...


Bruna estava muito influencer, de jeans, top curto, jaqueta aberta e seu sorriso não se fechava. As fotos que fizeram dela olhando para Gabriela foram lindas porque sua esposa estava linda demais, toda suada, de boné, macacão preto, recebendo um troféu. Ela subiu no pódio, comemorando demais, ergueu a sua taça e o banho de champagne foi outra coisa linda de se ver. E, quando ela desceu, a primeira coisa que fez foi...


Beijar sua esposa, puxando-a pela cintura, taça na mão, sorrisos abertos, ainda na pista. Essa foto foi postada por um fotógrafo no Instagram e recebeu um milhão de curtidas em menos de duas horas.


Mas elas não souberam disso. Porque, depois da corrida, foram jantar todas juntas, com outras amigas que estavam assistindo de outros lugares, e Bruna e Gabriela sequer encostaram nos celulares. A relação das duas com redes sociais havia mudado completamente e aquela urgência não fazia mais sentido.


A vida real era muito mais interessante do que qualquer rede.


Depois do jantar, saíram dirigindo por São Paulo. As duas gostavam de dirigir sem rumo, ver as coisas de outros ângulos, com outras luzes.


— Mas olha essa descarada... — Finalmente, Bruna estava vendo a foto de um milhão.

— Que descarada?

— Uma das garotas do seu ménage, Gabriela! Ela teve a cara de curtir a nossa foto.


Gabriela quis rir. Mas era perigoso.


— Meu amor, nem faz sentido você ter ciúmes, mas confesso que gosto, sabe?

— Sei! Você nem tem vergonha. Vem cá, vou fazer um story.

— Ah, assim, do nada, é?

— É só porque gosto muito de ser casada, com a minha modelo, a minha piloto, a arquiteta que está finalizando o meu prédio, graças a Deus! — Bruna a beijou, sorrindo, fazendo-a sorrir — Ainda está com gostinho de champagne, esposa.

— O banho de champagne realmente fica.

— Meu amor, você quis o meu sobrenome.


Gabriela a olhou, sorriu.


— Aquele mercado ali está aberto, linda. Quer parar e ver as coisas que a gente precisa? Amanhã é domingo e eu só quero ficar com você, cozinhar pra você, namorar você o dia inteiro.


Como Bruna poderia não amá-la ainda mais?


Pararam no mercado, desceram de mãos dadas, pegaram um carrinho de compras, foram pegando, de cabeça, as coisas de que precisavam. E Gabriela retomou o assunto “Ribeiro”.


— Eu disse que ia querer o seu sobrenome, não é?

— Mas ia dar trabalho, porque o casamento de verdade foi há muito tempo — Bruna tocou o rosto dela.

— Não era isso que ia me impedir — Gabriela a cheirou um pouquinho — Entrei com o processo, fiz uma justificativa, a juíza entendeu que era uma questão de identidade. Anexamos os votos que foram renovados recentemente, deu tudo certo. E eu já quero viajar com o meu nome de casada. Bru, vou renovar meu passaporte!

— Eu nem acredito que vamos mesmo poder viajar. Aliás, eu nem acredito que estamos aqui, fazendo mercado, após uma corrida sua, e que vamos para a nossa casa em seguida, ficar com os nossos cachorros, colocar uma série na TV enquanto a gente fica de namoro no sofá. Isso sim é surreal, Gab. Fico me perguntando se essa sensação de irrealidade vai passar em algum momento.


Gabriela a olhou nos olhos.


— Tomara que nunca, meu amor.


E Bruna a beijou, bem no meio do mercado. O carrinho meio cheio, um tanto bagunçado, o mercado movimentado e elas apenas... sendo felizes. No meio do mercado, ou da pista de corrida ou da sala do apartamento delas.


O lugar pouco importava, elas só sabiam que ser feliz sempre seria a constante.


Porque amar alguém é se deixar vulnerável.





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